Compre um prisma para a minha janela. Bate sol o dia todo no apartamento. É ventilado. Iluminado. Posso espalhar plantinhas pela casa e enfeitar com cortinas coloridas.
Tem sido mágico observar essas coisas. Meus últimos dias não tem sido muito fáceis. Foram simples. O de sempre na rotina do fazer. Mas muito diferente e intenso no sentir. No perceber. tenho evitado até de escrever para que algumas coisas não sejam colocadas de forma leviana. Não se trata de não desabafar. De não-dizer. Mas como preservar alguma sacralidade em alguns eventos.
Fui testada à exaustão no meu emocional nesses últimos dias. Nem o dia dos namorados escapou... Fiquei trabalhando muito em casa nessas manhãs de outono disfarçado. Gosto de olhar as janelas e imaginar com os olhos o que se passa aqui fora da minha casa. Hoje cedo, muito cedo, vi o amanhecer na janela. Tantos desenhos e cores no céu. Tão bonito. Valeu ter despertado agoniada. Voltei a dormir depois.
Nessas manhãs de trabalho-prece-agonia fico esperando a hora das fadas. Engraçado como eu consigo recolocar alguns pedaços da minha infância no dia-a-dia. Queria até que isso fosse mais constante. Quando o sol bate na janela da sala eu empurro o prisma (quando o vento está ocupado demais pra fazer isso por mim...) e vejo aquele monte de cores dançando na minha parede. É mágico. Lina e eu temos basicamente a mesma reação. Ao contrário dela - que fica pulando de um lado pro outro "caçando" as luzinhas coloridas eu fico aqui olhando elas se multiplicarem. E é a minha melhor parte do dia. Observo essas coisas e me voltam memórias, sentimentos, pessoas. É como se a casa se enchesse mesmo de fadas... nas cores, nas coisas que trazem consigo e nas risadas que me despertam vendo a Lina saltitar.
Agora mesmo estava aqui escrevendo sobre a escravidão e o café. Estava imaginando por que os trabalhos avulsos que me surgem estão sempre relacionados à História do Brasil... fico reclamenta, apesar de encontrar um prazer secreto - e bem timidamente birrento - nele. Liguei uma musiquinha e vi a Lina cochilar. É bom tê-la aqui do lado. Em paz. Sendo minha (egoistinha eu... sei disso). Trocamos uns cafunés e miados e quando volto pra sala pra continuar escrevendo preguicenta no sofá dou de cara com as fadas saracuteando nas minhas paredes. Tinha fechado as janelas por causa do vento forte. O dia esquentou de repente. Fui lá há pouco e abri a janela. Dei um soprãozinho no prisma... as fadas vieram.
Fico aqui me lembrando das conversas com o meu avô, das brigas com a Clara, minha irmã. Senti saudades dos passeios com o Vinícius na faculdade e da sessão besteirol com o Jedi. Olhei em volta e vi os meus cantinhos de novo. Juliano saiu e deve voltar em breve. É bom sentir essa presença dele em casa. Mesmo com as suas astronautices, vazios e silêncios. Suas distâncias medrosas e assustadas de mim. Doeu o coração lembrando de algumas das nossas discussões. Depois, como se um sussurro de fada viesse ao ouvido, fiquei olhando em volta e percebendo todas as coisas que ele me dá - generosamente - sem que eu peça. E talvez, a maior fonte do atrito seja justamente a falta de sincronicidade no pedir e no dar. Não acontece quando se quer. Mas quando se disponibiliza a dar e a receber.
Lembrei da primeira vez que eu peguei as chaves do apartamento e vi as paredes sujas sem pintura. Sentei no chão agradecendo por ele ser nosso. Foi um dos vazios mais plenos que eu tive. Lembrei de quando a Clara deu um fiasco porque eu ia sair de casa. Das minhas brigas com o meu ex-orientador, meu ex-namorado. Lembrei das ex-chefes. Tantas coisas importantes se tornam ex pra nós. E fico pensando aqui no significado de tudo isso. De como as coisas, pessoas, sentimentos, simplesmente passam (através de) por nós... e ganham outros contornos embaçados e diluídos... Tudo vira vulto...
Olhei uma foto minha com o Juliano... há tanta coisa do Nosso que passou, que passa. Se presentifica. Fortalece. E esse passar todo das pessoas, das coisas. Essa passagem etéra é tão desconcertante para alguém apegada como eu. Olhei pra Lina aqui de novo. Vi outras coisinhas ao redor que guardam consigo tanta coisa importante pra mim. Será que a gente carrega nosso museusinho particular pela vida?
As luzinhas ainda dançam aqui. O sol está passando para outra janela. Quero colocar prismas nas outras janelas daqui. Quero povoar minha vida mais com essas fadinhas. Coloquei duas fadinhas em casa. Uma no alto da parede da sala. De sainha de girassol. A outra, verdinha fica no meio dos livros de literatura. As duas tem olhinhos fechados e os cabelos enrolados. Acho gostosa a sensação de poder olhar pra elas e de algum modo, materializar esse universo infantil-fantástico-sonhador. Poucas pessoas entendem e muitas, quando entram em casa, acham tudo isso meros objetos de docoração pra deixar uma casa "bonitinha".
Gosto desse meu segredo decorativo. Bem ritual. Cheio de coisas só minhas. Nunca me pensei tão territorial e caseira. Juliano é assim. Não sei se isso é obra da convivência ou de uma nova revelação de uma fragilidade...
As fadas diminuem aqui na sala. Fico com essa sensação de epifania no coração... guardando pelo dia, até o sol do dia seguinte. Vendo as cores do sentir e do lembrar. Do guardar. Dançando em volta de mim. E eu, de algum modo - pouco treinado ainda... - tentando imitar a caça da Lina, agarrando com os olhos esse universo multi-cores de mim.
domingo, junho 15, 2008
A hora das fadas
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Srta T
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quarta-feira, junho 11, 2008
Ainda vivendo apegos... a experiência de reencontrar a dona da Lina me deixou com alguns dilemas. Morais. Dói e é incrível como a dor sinaliza na gente um cannyon de sentir. Umas coisas profundas cheias de sombras e mistérios.
Passo ali do lado da casa dela com gratidão. Há muita generosidade nesse gesto de deixar a Lina com a gente. E ao mesmo tempo, sabendo de tudo o que as meninas sentiram com o sumiço da gatinha... me vi sendo a bruxa má da história. E é impressionante como a gente pode ser a mesma coisa. Ao mesmo tempo.
Na 2a. feira o Juliano, voltando do veterinário, encontra na rua dona da gatinha... Disse que os filhos todos ficaram muito mal com ela. Quando ouvi a notícia me deu um aperto no peito. Tanto apego! Me senti tão pouco generosa, egoísta mesmo. E fiquei nesse ir e vir...
Tenho pensado muito sobre a generosidade. Juliano sempre me disse que eu era muito generosa com as pessoas. Sempre acreditei que essa era uma virtude minha. Mas ontem, e refletindo sobre as coisas que tenho feito, do modo como tenho feito, me descobri - humanamente - egoísta. Percebi como toda a teoria sobre identidade, alteridade e essas "dades" todas da antropologia e da História me deixaram sem resposta para as coisas que tenho vivido. Aqui fez sentido a frase do Ulpiano, meu ex-orientador "você tem de idade menos da metade do meu tempo de carreira". A presunção intelectual dele era um alerta para a minha presunção ainda não classificada.
Tenho vito as pessoas ao meu redor com atitudes que tem me ensinado muito. Esses dias no trabalho uma das professoras de alemão que eu gosto muito foi muitíssimo carinhosa. Tenho percebido isso nos meus pais, sobretudo o meu pai com aquele jeito meio durango-palhaço. O Juliano, deixando o Nosso se abrir mais... Tenho percebido a minha fragilidade nesse período e adoraria crer que se trata do clássico "inferno astral", afinal, falta quase 1 mês para eu dar outra cabeçada em Saturno.
Olhei a Lina aqui em casa pedindo carinho por causa dos cortes da cirurgia... manhosa. Dei uma olhada hoje cedo na minha casa, andei e percebi os cantinhos que fazem sentido pra mim aqui dentro. Quase secretos. Livros, incensos, quadros e outros badulaquesinhos. Tem um quadro de um Pã tocando flauta no alto de NY. Gosto da solidão tranquila dele. E do jeito que ele parece ignorar aquela coisa toda surreal ali embaixo no universo dos humanos. Ou será que ele sabe (in)exatamente como a gente é (inexato)? Deixei a música vir para o dia de hoje... e suavizar o coração...
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Srta T
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domingo, junho 08, 2008
Apegos
Sempre fui apegada. Não sei se por configuração astral (que meu irmão não me leia) ou por personalidades ancestrais. Sábado me dei conta que a ascendência capricorniana e a lua em escorpião podem ser combinações intensas demais. Encontramos a dona da Lina...
Deveria ser por volta das 11:40 quando depois de provar umas roupas e me serelepar toca o telefone e escuto um "oi meu amor" bem tristonho. Perguntei o que aconteceu. "Achamos a Dona da Lina". A Lina é a minha gata. Já falei dela aqui. Estamos com ela há quase 2 meses. Encontrada na porta do prédio miando bem docinha e assustada. Desde então eu tenho me apegado e apegado. Levamos no veterinário, banhinho, comidinha, cuidados dali e daqui e sempre com muitas brincadeiras e risadas. Isso sem falar de todo o dengo e carinho que a gatinha tem dado.
Juliano me falava, desde o primeiro dia que eu não deveria me afeiçoar muito à Lina. Pena. Tarde demais. Estávamos os dois encantadinhos - e particularmente eu - com o fato de que todos os meus gatinhos de casa (de madeira, de porcelana, de desenho, de pelúcia, etc. ) estavam materializados na Lina.
Eu sempre fui bem chata com a idéia de que as pessoas tratam melhor os animais que os humanos. Nunca concordei com essa tendência (mesquinha-egoísta) da gente... Engolida pela língua. Estou pasma comigo. Como esse amor pode brotar da gente, uma vontade de cuidar, de deixar bem. Outro dia lendo o blog My Corner, soube que o autor vai ser papai pela segunda vez. Sempre gostei da idéia de ter filhos, mas nunca pude imaginar desse sentir todo e inteiro e intenso que sai da gente. "Imagina quando tivermos filhos", disse ao meu marido depois que saí da veterinária 4f passada. A Lina fez uma cirurgia. Castramos. E isso foi uma decisão difícil. Passei dias pensando e meditando sobre a minha pretensa humanidade. É interessante quando a gente verbaliza discursos adquiridos e comprados em bibliotecas. Questionei todos eles ao passar algumas noites sem dormir com o cio da Lina. Depois mais uns dias matutando sobre as minhas crenças (diria o Juliano) feministas sobre a liberdade e o controle (ops) sobre o próprio corpo, etc e tal.
Dei 14 aulas no dia que a Lina fez a cirurgia e fiquei ligando a cada instante para saber se ela estava bem. De repente me senti quase como a socialite brasileira que deu uma festa sensacional de aniversário ao seu poodle. Socorro! Muitos antagonismos num dia só! Cheguei em casa o mais rápido possível e fomos levar as coisinhas da Lina no veterinário. Ela estava dopada e com as pupilas super dilatadas. Isso sem falar na dor. Assim que ela me percebeu saiu aquele miado miúdo, apertado. Sentido. E um roçar na minha mão que me arrancaram umas lágrimas tímidas. Fiquei meio sem jeito de me emocionar daquele jeito. O Juliano me abraçou, me pediu calma. Continuei chorando... Saí de lá com o coração estraçalhado.
Passei a 5f esperando a hora de ver a gatinha depois de ir e vir com alunos para o mangue e o mar - depois vou ter que falar disso...! - e somente na 6a. a Lina ia voltar pra casa. Eu me sentia tão responsável por cuidar... e isso provocou uma série de questões sobre o meu estudar-experienciar o gênero...
Tudo isso me passou - e mais - na hora que eu soube que a dona da Lina tinha sido encontrada. E mais, que ela era assim tão importante nesse meu universo pseudo-maternal. Eu fiquei tão desnorteada que só conseguia pensar em como isso era quase - bem pouco - impossível. Chorei, tremi, temi. Fui passional em tudo o que eu tinha direito. Inclusive - parece patético - de ligar para minha mãe. E o comentário dela depois... "não se apega, vai dar tudo certo".
Quando eu cheguei em casa mal pude subir os três lances de escadas. Pedi ao Juliano para descer e encararmos por fim a realidade - a dona da Lina. Mil imagens se passaram na minha cabeça sobre a suposta imagem da figura. E, ao dar de cara com ela, segurar toda a vontade de chorar. Nem quero pensar no meu estado ao bater à porta da mulher. Ela saiu, sorridente. Mais aliviada na verdade, do que sorridente. Contou a história da Lina. Ela tem só 5 meses e saiu do interior de São Paulo daqueles lugares que se matam animais. Ela ia morrer e a mãe da Fran - a dona da Lina tem nome! - depois de ameaçar a gata com todos os modelos de vassouras disponíveis no mercado, apesar de ter salvo a vida dela, deu a Lina (Ex-Fiona) para as netas.
Escutei isso com o coração na garganta. Fiquei mal ao saber que aqui na vizinhança existem tipos de "serial killers" de gatinhos. E de todas as ameaças reais que a Lina sofreu. Depois de narrar esse conto de terror ouvi um "Não precisa chorar que o gato vai ficar com você" meio atropelado pelo alívio de "ela estava mais perto do que eu imaginava" com "ela está super bem cuidada". Perdi a fala. Não sabia bem se eu continuava escutando a história triste da Lina ou se eu pulava na mulher e enchia ela de beijos e de gratidão eterna. Pura pieguice, eu diria há 6 meses! Tomei!
O mais desafiador ao meu desapego - profundamente esgoísta - foi escutar a reação das meninas - adolescentes - sobre a perda da Lina. Uma delas faltou na escola não sei quantos dias e teve um febrão. A outra, algo parecido. Quase comecei a chorar de novo e nesse redemoinho todo de sentir, uma mistura de felicidade com a minha imagem de bruxa-má-sequestradora de gatos. Pobre espelho meu. Foi incrível como eu me vi naquelas meninas. Como me vi menina. Nesse apego inconsequente e esgoísta de ter só o meu. Sofri mesmo por elas. Fiquei sem graça de entrar na casa e ver os outros gatos ali e a carinha delas sem jeito de me olharem. Foi a primeira vez que duelei com o sentir-me culpada e salvadora ao mesmo tempo.
Apertou o peito. Só consegui agradecer às duas. Tímida. Quase miando, como a Lina no dia da cirurgia. Houve um silêncio das duas partes. Espero que com a legenda de "eu imagino como você deve se sentir". A gente nunca sabe de fato como o outro sente. Mal arrisco dizer o que eu mesma sinto.
Conheci os outros gatos. A casinha original da Lina e seu ex-nome. Ouvi mais histórias e só consegui me despedir, sem falar. Agradeci àquela mulher com um abraço nada comedido. Mas silencioso. Emotivo. Olhei bem nos olhos dela e só consegui murmurar uma parte do que eu admirava e invejava nela. O desapego. "Nem sei como te agradever por ela. Ela chegou num momento muito importante pra mim." E não saía mais que isso. Calei. Abracei. Não olhei pra trás. Entrei no prédio e abracei forte o Juliano. Chorei de novo. Criança. Alívio. Apego-desapegando do que eu achei que sabia. Sentia.
Subi as escadas e quando abri a porta lá estava a minha - de fato, minha - gatinha. Olhando ainda com dor, curativos, miudinha. Ficou no meu colo. Dia, noite, pedindo carinho. E eu me via ali. Apertada, querendo colinho. Talvez a nossa pretensa visão de supra-sumo-evolutivo-planetária... sei lá, deixe de perceber essas sutilezas do amor, do carinho e do cuidado. Desses presentes que a vida dá pra gente. em silêncio... Retribuindo esse querer. Escrevo isso e ainda me emociono vendo a Lina aqui do lado, carente, frágil com esses pontinhos e cheia de curativos. Mas tão companheirinha. Carinhosa. Charmosinha do jeito dela. E de como eu percebo essas epifanias de sentir... Agradecida...
Talvez a minha mãe tenha razão mesmo. Eu sou apegada demais aos que amo, aos que eu admiro. E não aprendo a viver sem eles depois. Acumulo sentir. Acúmulo de querer mais. E mais...
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domingo, junho 01, 2008
Tenho lido muito pouco, muitíssimo menos do que eu gostaria... e na semana passada, depois de um banho de mar à noite, chego em casa e sou convidada a esse poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma poetisa portuguesa que, como esperado, fala do mar, e alimenta em mim esse desejo-admirado pelo oceano...
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Como disse um comentário recente, essa cobrança vem sempre da gente...
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terça-feira, maio 27, 2008
A pior escolha é entre o bom e o ótimo...
Tenho vivido isso diariamente. Um emprego que gosto, mas não é meu projeto de vida. Tenho tentado estudar, ler, aprofundar a pesquisa e me vejo num mato sem cachorro... Tenho essas dores no peito, uma coisinha incômoda chamada angústia, cuja melhor amiga é a ansiedade. Tenho pensado muito. Feito muito, mas pouco mesmo daquilo que quero viver pra fazer.
Esses dias recebi uma notícia que me deu uma felicidade imensa, mas misturada a um aperto agudo... inveja? Não sei. Doeu. Me senti parada no tempo, presa aos meus próprios sonhos e os meus fantasmas assistindo isso lambendo os dedos. Quero ir. Sair, deixar tudo. E não tenho sabido como... E me levo, me angustio, não respiro, não durmo, não faço. Dói. E paro. No tempo, no peito, no corpo. Entorpeço pensando na prisão. Na equação sem resposta desse viver.
E me inquieto e fico. Esperando sei lá quem fazer sei lá o que... muitos medos de uma frustração sem volta na vida... pra onde eu fui mesmo? O que foi que eu deixei ali atrás de mim? Querer é tão penoso assim?
Não sei mais escolher, nem sei por onde voltar a agir... Parei. Senti. Aperto. E fiquei.
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quinta-feira, maio 22, 2008
Meus novos Indiana Jones

Há 19 anos atrás meu pai me levou para assistir no cinema Indiana Jones e a última Cruzada. Desde sei lá quando ele me mostrou o mundo dos heróis. Coisa engraçada que uma menina como eu fosse incentivada a ver os filmes de ação, guerra e toda a sorte de aventuras e tiroteios.
Me lembro da primeira vez que assisti Os caçadores da Arca Perdida. Foi na praia com o meu avô e ele. Foi um dia desses em que minha mãe e minha vó queriam dar uma volta e na época, recém lançado o video-cassete, ele alugou o filme pra mim dizendo "Esse filme você vai gostar de ver!". Ainda me lembro da minha mãe dizendo pra ele baixinho se o filme não era muito "pesado" pra mim...
Lembro bem que a gente se divertiu muito e na semana seguinte ele alugou O templo da perdição. Eu descobri. Estava completamente apaixonada pelo Indiana. Mais ainda quando relacionei que ele era também meu outro herói, Han Solo. Engraçado como essas coisas povoam as fantasias da gente. Eu fiquei anos recortando reportagens de jornal com ele e lendo tudo o que podia sobre arqueologia. Não posso dizer que não foi uma influência na minha escolha em ser historiadora... Mas mais que isso, essa influência meio mágica dos contos de fada do meu pai.
A gente nunca foi assim muito sensível um com o outro. Acho que perdemos isso quando viemos a São Paulo, deixando a família, as coisas boas, tudo quase, em Porto Alegre. Ele sempre foi um pai muito amoroso, desses que adorava fazer carinho, brincar e dar presentinhos. Éramos muito próximos. Mas isso se perdeu nessa vinda a São Paulo, e acho que ficamos até hoje reinventando esse jeito de se amar.
"A Thais é a minha companheira de televisão", ele dizia aos amigos adultos e eu me orgulhava muito de ter esse estatuto tão especial, já que a minha mãe não curtia esses monstrinhos e mundos de faz de conta. Adorava naves espaciais e cheguei a cogitar de ser astrônoma ou alguma outra coisa que me levasse ao espaço. Acho que isso ficou pro meu irmão...
Mas voltando ao Indiana... Me lembro bem do dia em que ele disse pra minha mãe "hoje vou levar a tati pra ver o Indiana Jones comigo". Vibrei! Adorei a idéia de ver isso em tela grande e ficar cantarolando a musiquinha clássica durante dias (incluindo o caminho até o cinema). O mais incrível de ver esses filmes com o meu pai é que ele entrava no espírito da brincadeira, todas as perseguições de carro, tiros, escapadas fantásticas e todas as mentiras (im)possíveis que o cinema é capaz de criar arrancavam risadas dele! Os comentários, as conversas que ele tinha com os personagens e as interferências nos efeitos especiais... tudo isso me deixava ainda mais feliz de poder ver um filme desse jeito, de poder estar próxima dele apesar de toda a dor que ele carregava por ter vindo pra São Paulo. Acho que nesses momentos de cumplicidade com o universo dos heróis a gente dizia muita coisa um pro outro sem saber... enfim.
Tenho saudades de ver esses filmes com ele. Há muitos momentos cinematográficos que marcaram. Sou capaz de lembrar até os comentários dele... as cenas que ele gosta...
Ontem foi a minha vez de tentar retribuir os favores... Convidei o grande para assistir a pré-estréia do Indiana Jones comigo. Pouco ligava em saber quem ia comigo. Éramos nós dois com certeza. Havia um ciclo importante a se fechar nisso. Fiz questão de sentar do lado dele depois, e comentar e rir e gritar e aplaudir na pré-estréia ao lado do meu pai, como os verdadeiros fãs sabem fazer. Foi um jeito de voltar há 19 anos atrás assistindo a Última Cruzada. E mais, de dizer, desse nosso jeito desajeitado que ele é o meu grande companheiro de televisão e de muitas outras coisas.
Na semana passada foi aniversário dele. E não hesitei em gastar um dinheirinho comprando um presente bacana. Fomos depois ao show do Dominguinhos, uma figura especial que toca as músicas do nordeste, com as quais eu cresci ouvindo. Houve uma identidade ali, silenciosa, que me emocionou. Por mais que esse mundo nordestino esteja distante de mim na prática, no meu dia-a-dia, ele está aqui dentro. Eu sabia as letras das músicas, as melodias.
Fiquei olhando em volta. A minha família toda ao redor. Tanta história ali. Tanta coisa atravessada juntos. Essa cumplicidade que fortaleceu a gente e fez tantas outras coisas calarem em nome desse amor... Me lembrei muito das nossas idas ao aeroporto de Porto Alegre ou à rodoviária. Houve uma ocasião que pedi à minha mãe que comprasse sapatinhos novos, como os de boneca. Mas com verniz. Um rosa e um preto. Com aquelas fivelinhas e lacinhos. Pedi para ir ao aeroporto com ela só pra mostrar ao meu pai os meus sapatos. E nesse dia quando ele chegou de mala e com aquela cara de cansado cantava pra gente uma das músicas do Dominguinhos
Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
Que bom,
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim
E isso se repetiu muitas vezes na minha infância até a gente vir pra cá. Na novela do Roque Santeiro, nas músicas do Luis Gonzaga. No chapéu de couro, nos filmes e na literatura de cordel que ele sempre lia. Nos repentes que ele criava pra entreter a gente e fazer a minha mãe rir... Nessas duas últimas semanas tanta coisa do meu pai voltou assim, de tudo e inteiro dentro de mim. Deu saudade. Uma admiração que se ampliou por dentro do peito, numa onda de gratidão por tudo o que eu sou hoje, pelo que tenho, pelas coisas que fascinam. Pelo estudar, pelo batalhar, pelo rir e brincar e ser espontânea nas minhas demonstrações, apesar de ele ter ficado depois tão mais fechado.
Vi esse homem desfilar as suas histórias ontem pra mim. E me emocionei de poder fazer parte desse filme. E nele, ser uma personagem importante, cheia de coisas ainda por fazer e contar. Fiquei olhando ele no show e sentindo essa alegria desajeitada de querer retribuir e dizer tantas coisas... Me dei conta que essa mistura toda que eu sou e essa idiossincrasia de personalidade se devem, e muito, a essa presença de Indiana que ele é... uma mistura de tantas coisas e cheia de sutilezas que eu ainda aprendo a perceber e a entender. Hoje, 19 anos depois e mais 29 depois... vi tantos indianas na minha vida se passarem, tantas trilhas sonoras, efeitos especiais, aventuras, acidentes de carro, brigas, incêndios, e muitas outras corridas... Não encontrei essa arqueologia dos filmes, mas achei um caminho meu, profissional, povoado de histórias, minhas e dos outros. Achei as minhas paixões, naves espaciais, ainda que sem sair desse planeta. Não participai das lutas entre o bem e o mal e não viajei à Europa ou ao Egito para encontrar algum tesouro perdido ou fazer a grande descoberta científica do século. Também não saltei de aviões e botes salva-vidas em cachoeiras e penhascos... Mas tenho muita coisa nessa maleta pequena do meu coração. É bom ter um aconchego pra voltar. Aqui dentro. Nessa mistura de sonho com memórias e os "momentos preciosos" que a minha mãe sempre sinalizou onde procurar.
Todo esse fantástico, papai, obrigada. E sinto saudades da gente... No sonho e na realidade. E ansiando pelas nossas aventuras nessa vida...
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sexta-feira, maio 16, 2008
só...

Tenho acompanhado um blog recentemente que tem me fascinado muito. Não só pelo texto, mas pela transparência dele. É uma leitura cristalina de um sentir muito profundo. Tímido. E acho que ele tem traduzido bem as coisas que vez em quando eu me pego sentindo... Mais que isso. As imagens reluzem muito do que se passa aqui...
Tenho andado nessa escuridão achando que enxergo alguma coisa? Será que todo o caminho que eu percorri está completamente vazio? Será que eu não vejo nada? E fui assolada por essa dor, esse pulsar amargo, que adormece, me esvazia, me encolhe... Olhei em volta e só via a mim mesma. Só. Sem esperança de esperar. Sem nada. Nem um instante de respirar, só esse aperto.
Pensei em sair correndo. Pra qualquer lugar fora daqui. Longe desse sonho. Desse querer viver. Não sabia mais nada. Não (ha)via mais nada. Em canto nenhum. Um apartamento vazio. Um coração em abandono. Uma jogada de toalha aqui e ali que deixam esse gosto amargo nas palavras.
Eu olhei as ruas. As pessoas. Os bares. Gente aqui e ali. Muita fumaça. Muitos olhos perdidos tentando encontrar sei lá o que. E essa angústia no peito. Disse pra Lúcia que eu poderia escrever pra Marie Claire na sessão "eu, leitora". Nunca achei que fosse viver essas dores de alma assim tão fundas. Deu pra se ter uma idéia do que é um desesperar. Um deixar-se...
Fico aqui nesse ir e vir pra aqui e ali. Tem fim? Ou viver é agonizar? Fiquei perguntando qual é a cor do amor...
Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero mais. E temo mais. E sinto mais. Espero. E deixo. Onde? Com quem? Onde foi que eu me larguei? Por que não posso compartilhar? Só pedir? Querer? Espero. Só.
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quinta-feira, maio 08, 2008
Essa é a Lina em mais um dos seus momentos de manha e charme em casa... Dengo puro!
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terça-feira, maio 06, 2008
Caminhando com a discrição habitual de sempre eu costumo - com os queridos - a fazer piadas nas situações mais tensas. Tem sido tenso no trabalho ultimamente. Não pelo trabalho em si, mas pelas emoções que ele envolve. Lidar com pessoas é um desafio maior do que a minha capacidade de aprender. Não é homeopático.
Nesse ir e vir de piadas e numa tentativa quase consciente de transformar os vulcões internos por vezes eu esbarro num limite. Há coisas que por mais que a gente queira mostrar e demonstrar e modificar... se esbarra num limite de compreensão do outro. E no limite da nossa própria prepotência em se querer que as coisas sejam assim. Do nosso jeito.
Esse problema da "alteridade" não reside somente nos planos acadêmicos. Fico com a impressão que, num certo sentido, a gente é outro até pra gente mesmo. E como é difícil administrar essa falta de entendimento. Ou ainda, esse desejo de que não exista limites.
Ainda me frustro. Comigo. Com os outros. Há um querer aqui que extrapola a coisa toda poética do livre arbítrio. Como é arrogante essa vontade de controlar. E mais, como é ansiosa essa vontade de se fazer entender.
Outro dia eu perguntava a um amigo se ele tinha achado esses últimos textos tristes. Ele riu. "Triste não, quase desesperado. Ansioso." Há uma coisa adolescente? Ou será que essa ansiedade ancestral, essa pressa de querer ver as coisas acontecerem são reflexos de um medo de perder... tudo.
Tenho buscado respirar aqui dentro. Olhar em volta. Ser mais discreta nessas trajetórias de trabalho-casa-pesquisa. Menos intensa... ou menos apressada? Me lembro do mar... e das frases soltas do Fernando Pessoa no Livro do Desassossego. Sempre fico me lembrando do motivo de ter dado isso ao Vinícius.
Que cor é mesmo o sentir?
Vontade de caminhar na praia de novo e silenciar. Fiquei hoje cedo brincando com a Lina de esconde-esconde... Não sei quem esconde o que de quem. Mas é divertido pensar que nesse quase-desespero eu tenho tanta gente querida em volta. E que todo esse carinho me deixa menos medrosa. Mais inteira. Mais minha.
Liguei há pouco para minha vó em Porto Alegre. Deu saudade desse jeito ansioso e feliz dela. Tem 90 anos. Fico imaginando que se eu chegar aos 60 com essa disposição já me dou por satisfeita. Ela lida bem com essa ansiedade e essa tentativa de ser discreta na vida. Ri-se mas com maestria de quem convive em trégua com a dor e a alegria. Sempre que me vejo assim eu me lembro dela. O sentir dela é colorido, furta-cor. Prisma no peito.
E peço trégua pra algumas cores...
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domingo, maio 04, 2008
Fim de feriado... Alternâncias de sol e chuva. Dentro e fora de mim. Saí de um nublado anunciando tempestades para depois sentir o sol quente nos dias de frio. Dentro e fora.
Vivi intensamente esses dias sem a família e com ela. Tive vontade de ficar só. Comigo. E ontem, caminhando na beira do mar pude reencontrar nessa solidão voluntária esse silêncio que eu precisava.
Espremi os pés na areia. Fazia um dia lindo, com essa luz difusa de quase-inverno. Eu sempre gostei do pôr-do-sol. Sempre fiz de tudo pra poder assistir esses pequenos espetáculos - gratuitos - que a natureza dá. Eu sinto que é o único instante em que consigo silenciar.
Faz tempo que eu venho buscando o mar... Gostei de pegar a estrada, ver a paisagem naquelas olhadelas de canto pra não bater o carro. Foi bom. Fiquei com os meus sogros e os meus cunhados. Foram momentos bem risonhos, tranquilos.
Fui passear no fim do dia e buscar esse silêncio. Fiquei me lembrando nesse passeio do meu tio que sempre caminhava comigo na praia. Tenho tido saudades dele. Fiquei com o Juliano ali na beira do mar. Sentamos nos chinelos e observamos todas as cores que o céul alternava. Uma por uma. Do azul e do laranja um mundo de rosados, dourados. Contei pra ele de uma das passagens da Ilíada em que a deusa Aurora, de dedos róseos, passava no céu antes e depois do sol desfilar com a sua carruagem. Falei de outras coisas que os povos antigos falavam sobre o céu, o sol e essas coisas da natureza. Acho que um dos motivos de ter estudado História foi poder estender dentro de mim esse universo mágico da mitologia. Simples. Inteiro.
Saímos da praia quando tudo se tornava um azul escuro, quase negro, cheio de manchas brancas das ondas. Hoje, na praça, vimos as mesmas nuanças. Sem o mar. Sinto falta do barulhinho da água. Mas tenho me contentado em observar as cores com mais antenção que o costume. No asfalto da estrada um caminho cheio de brilhos do sol. Fiquei tão impressionada que comprei um prisma para pôr na janela da sala. Todo o apartamento bate tanto sol que eu preciso explorar mais essas poesias coloridas do dia.
E mesmo tendo saído esse tantinho eu tenho gostado de ficar em casa. Curtir a minha gata, o meu cantinho. O Nosso. Tem sido bom. Eu tenho aproveitado esses momentos mais meus. Hoje, acompanhando o blog My corner, me identifiquei com essa vontade de ficar mais em mim. Isso vem acontecendo há tempos. E não é tristeza. É uma outra vontade. De fazer carinho no coração e nesse cinzento que dá um trabalho...
Amanhã a maratona recomeça... Uma semana agitada entre notas, reuniões e toda sorte de solicitações aqui e ali. E pra isso eu levo marcado nos olhos esses dois fins de tarde. Cheio de cores e de um tranquilizar... só... silencioso...
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sexta-feira, maio 02, 2008
encantando-me
Acho que não há mistério no encantar-se. Ontem nesse feriado chuvoso e frio aqui me deixei encantar por uma série de coisas que me rodeiam. Foi aniversário de casamento dos meus pais. 32 anos. Bem vividos.
Horas antes eu tinha assistido Encantada, um filme novo cheio de citações bem-humoradas a Walt Disney e todos aqueles bichinhos que cantam, dançam e as pessoas lindas que vivem felizes para sempre.
Essa tem sido uma reflexão pra mim nos últimos anos. Haja terapia para se descobrir que apesar, ainda é possível ser feliz. Acho que não para sempre, mas quem sabe a maior parte do tempo. Quase para sempre.
Obviamente eu fiquei emocionada com o filme. Eu gosto de contos de fada e desse universo quase-real-sonhado-de-criança que alguém que sonha e escreve e fala muito bem nos deixa de presente. Ora, que mal há nesse sonho acordado? Uma vez ouvi de um amigo que eu era sonhadora demais, que corria o risco de viver alienada. Fico pensando hoje que a gente tem a chance de escolher de qual mundo se alienar. Eu aind prefiro me alienar da dor, quando ela é funda demais. E faço isso de um jeito suave, bem meu. Nesse insistir de acreditar, de querer, de achar que vai dar certo.
Há três culpados por essa minha crença de contos de fada. O cinema e a literatura, por certo. A outra é minha mãe. Ela sempre gostou de brincar de bonecas e de todas essas coisas mimosas que as princesas desse mundo encantado gostam. Nisso eu sempre fui muito menos "feminina" que ela. Me lembro de criança que eu adorava todas as molecagens dos meninos. As brincadeiras eram mais divertidas, serelepes e tinham uma dose de emoção e adrenalina. Aventura pura. A gente nunca se "topou" muito nessa diferença. Mas posso dizer que minha mãe soube cultivar em mim esse universo de mimos que vi desabrochar mais tarde.
Muitas vezes me senti sozinha demais por acreditar no amor, no romantismo (inclusive o alemão!) e nessas coisas de cantar de deixar bilhetes e dizer eu te amo de cantar e dançar na rua. Eu fiz - e faço tudo isso. Me lembro até hoje da noite que o Juliano me convidou para valsar na frente do supermercado. Eram quase dez da noite. Foi bem contos de fada. Poderíamos repetir de novo... De fato eu sempre cultivei isso nas minhas relações, lembrando do aviso do Fernando Pessoa em que todas as cartas de amor são ridículas. E de como gosto de ser chamada de ridícula nessa pseudo-pieguice-amorosa que me deixa feliz por dentro.
Ontem vendo o filme pude ter quase (repito: quase) a dimensão do que é ser vista assim pelas pessoas hoje em que tudo é tão fraturado e picotado (por dentro e por fora)... e a criatividade do amar deixou espaço para o repetir do frustrar(-se). Há descrença. Medo. Um pavor do outro e de se deixar entregar... Um medo do desapego. Acumular hoje não cabe mais aqui dentro do peito. Só na superfície. Da pele mesmo quando a gente fala de "química", de corpos, de transas, de coisas. E o sentir fica circunscrito nessa superficialidade-de-corpo-a-corpo-e-saliva.
Bem longe de ser esse príncipe dos livros, o personagem do quase-príncipe-encantado tinha vontade de viver um romance (no sentido belo do termo) e ao mesmo tempo não sabia se encantar mais com nada. Acho que é esse o serviço do outro na vida da gente. Permitir que haja encantar-se. A princesa por outro lado nunca tinha vivido a dor. Há amor sem dor? Não... e não sei se seria bom... a dor de verdade é o melhor árbitro no nosso livre arbítrio. Ela sinaliza. Não julga. Mas mostra. Informa. Esclarece. Há aqueles que tem a coragem de olhar nos olhos fundos dela e desafiá-la. Há outros que se entorpecem de explicações e alienações que corroem, matam aos poucos.
Ontem fiquei olhando para os meus pais aqui em casa. Tomamos vinho, rimos, falamos de tudo e de nada. Meus irmãos estavam aqui também. Foi bom ver que o apesar, a dor nos deixou escolher o melhor de nós. Essa insistência-perseverança nos "momentos preciosos" que a minha mãe tanto falava. Dei de presente o Castelo de Vidro pra eles. Um confirmar de tudo isso que ela nos deixou. Do seu conto de fadas e das batalhas contra os monstros do mal que ela fazia tão bem...
Dormi com essa história no coração...lembrando do filme, dos muitos outros filmes e livros que (re)criei dentro e fora de mim. Dos meus personagens que cantam, dançam, escrevem e vivem poesia. Dos meus príncipes encantados e das bruxas do mal adormecidas. Das fadas, das madrinhas e dos padrinhos. Dos espelhos, dos lobos, dos bichinhos que falam e dos vestidos de cortina. Dos meus sonhos. Do meu viver. Do meu sentir. E olhei pro jeito que o Juliano vinha vivendo esse encantar-se(me)... Ainda bem. Apesar.
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terça-feira, abril 29, 2008
Sinais
Domingo cedo... Depois de uma noite de pesadelos e sono mal dormido aquele sufocar do peito me tirando de mim e me lançando sei lá pra onde. Fiquei horas na cama depois entre o odiar e o chorar. Sonhos ainda são poderosos demais nisso... Depois daquela convulsão de sentir e pensar e desistir aparece a gatinha no colo...
Custei para acreditar porque passei quase um mês num persuadir diário para termos mais um felino em casa. Mais um porque a leonina aqui é bastante territorial e espaçosa na casa dela.
O bichinho chegou assustado, com sede e uma fominha generosa. Fiz um rápido tour com ele pela casa pra dispersar esse estranhamento territorial. Afinal, felinos se ajudam também. Ficamos nos olhando por uns momentos e achei que eu poderia desabafar ali as minhas dores. Era engraçado. Fiquei imaginando o que aquela gata fazia na porta do prédio abandonada - ou fugida. Me identifiquei nesse abandono... nesse deixar-se pra lá. Coloquei um pote com água e fiquei esperando a sua reação. Minutos depois eu percebi que o problema era outro. Aquela fominha por certo estava ficando maior que ela. Abri a geladeira - depois de consultar bases confiáveis - e descolei um bifezinho cru. Ela comeu depressa e esperou com os olhos pedintes para que a porta da geladeira se abrisse de novo.
Enquanto comia eu pensava num nome. Nome de bicho de estimação tem que ser curto, mas bacana. Até então eu achava que era um gato. Fred. Em homenagem ao meu padrinho e à grande voz do Queen. Achei graça dessa comparação, afinal, nenhum deles estava mais aqui comigo. Só as suas lembranças.
Passei uma tarde gostosa com ela fechando os trabalhos e as notas dos alunos. Mais de 300 e eu pensando na Virada Cultural, no meu choro. Na última sessão de terapia e nas coisas que eu queria apagar da minha vida.
Depois me ocorreu uma coisa boboca de tudo... Lembrei do seriado Early Edition (que certamente me inspirou outra paixão platônica pelo Gary e seu gato e seu jeito de salvar o mundo)... Era a série que o gato trazia o jornal do dia seguinte. Fiquei fantasiando que alguma coisa ali vinha pra mim - ok, não um jornal com as notícias adiantadas, mas quem sabe algumas pistas para como ser feliz, resolver as crises existenciais, como terminar sua tese de mestrado, aguentar o tranco no trabalho, etc. Parei. Me dei conta que essa fantasia de um gato-oráculo me traria mais frustração. A gente se olhou muitas vezes nessa tarde. Meio perguntando quem-é-você-e-o-que-faço-no -seu-espaço... Bacana.
Fui me apegando. Sentindo esse carinho crescer. Uma realização de criança de ter um bicho de estimação... me lembrei de quando eu trouxe a malu - a gata perdida da escola - para casa, dentro da mochila. Depois de ter me arranhado horrores tentando dar um banho na pobrezinha (no tanque gelado de casa! SIM!) e trancafiado ela na mochila ouvindo as aulas de matemática e tentando bancar a defensora dos animais pra minha mãe... fiquei sem gato. Bom pra ela, ruim pra mim.
Ouvi o Juliano me avisando pra não me apegar... e eu - nada secretamente - torcendo para o dono (cruel!!!) dela não voltar. Ontem descobri que a Lina - exFred é menina mesmo. Foi legal reconhecer esse felino-feminino dentro-fora de mim. Me apeguei. Fiquei, deixei ela se instalar na casa como cúmplice dessa catarse de transformações. Eu precisava de uma testemunha. Ficamos brincando de noite com essas bobagens amarradas nas cordinhas. Foi ótimo. Deixei o lado infantil voltar pra deixar a tristonha-desapontada na janela. Olhando pra algum lugar fora dela mesma.
Voltei pra casa ontem esperando ouvir esses miados. Outra noite de pesadelo e sono nada dormido. Vigília e gratidão... Tinha mais gente ali do lado da cama dizendo que tudo ia ficar bem...
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domingo, abril 27, 2008
procurando por mim

Passei dias de respiro, suspiros de saudades de mim mesma...
Fiquei com essa sensação de ser desafiada-contestada-enganada e mais, sem revidar. Fui tomar sol no sábado. Peguei o carro e andei pelas ruas do Mackenzie, saudades do colegial. Passei por perto da casa do Rogério, Ju, tantas lembranças ali.
Reencontrei uma antiga professora numa loja. Falamos de roupas, de USP, da História, de várias histórias que passaram por nós. Lembrei de novo do Vinícius. Deu saudade dele. Das tardes debaixo daquela árvore e das conversas perdidas. Queria saber dele.
Falei pra mim mesma desse novo começar aqui dentro, no meu arredor mais perto. Do peito. Do tato, da boca. Fui buscar o Juliano nesse lugar bacana que ele encontrou. Cheio de histórias do porvir. E que vem, devagarinho no Nosso. deixando ele nessa espera-paciente-budista que custa caro no dia de hoje.
Andando por ali e por aqui recebi uma foto minha que (por acaso?) mostraram exatamente onde estou. No gargalo de mim. Saindo (ou entrando) nesse buraco? Ou será que essa janela escancarada de mim e dos outros, sem vidro, cheia de vento e sol, ruído, poeira e um libertar-se sem preço por essas esquinas de céu que eu venho buscando...?
Vontade de pular. De esperar. De sair. E de entrar para não mais sair...
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sexta-feira, abril 25, 2008
Saí pra ver o dia... sentir o sol no rosto e dar vazão a esse respirar de dentro. Há um adormecer meu aqui dentro. Cheio de rabiscos e cicatrizes mas com essa esperança se acendendo...
Lavei o pus... Saí olhando as coisas em volta do meu bairro. é bom ver gente na rua e sentir essa coisa de pertencimento. Sinto esse lugar meu. Sei os cheiros, as cores, esses ruídos e as conversas de portão. Foi bonito nessa semana surtada de trabalho sentir o coração reconfortado com esses quadrinhos de gibi em volta de mim.
Tenho me dado esses presentes. Do silêncio. Da solidão mesmo. Tenho preferido ficar quieta, em mim, cheia de mim, plena de mim. Tenho observado os meus espaços, os meus desejos e lembrado de gente querida. Ontem saí com o meu padrinho no peito. Faz muitos anos que ele morreu. E não deixou saudade. Deixou uma cratera na minha vida que às vees finjo não existir. Passo pelas beiradas dela. E toda vez que essa plenitude e esse frescor me voltam na alma ele vem devagarinho junto. São todas lembranças felizes dele.Coloridas. Cheirosas e lambusadas. Como eu tenho visto no bairro.
Semana passada eu acho fui a Zafari, um supermercado gaúcho da minha infância no sul. Eu sempre ia com ele e com o meu avô. Foi bom me sentir de volta naquele universo de guloseimas e lembranças nas prateleiras. Coisas de um passado vivo, generoso comigo. Era como se eu me procurasse no meio das compras. Voltei pra casa meio dilacerada-inteira-metade-cicatrizando e era bom poder me sentir criança de novo.
Ontem fiquei com vontade de ir pra lá. Nunca achei que ir ao supermercado me desse essa sensação de me preencher de novo. Que os publicitários não leiam isso. Foram muitas coisas de alívio misturadas a um reencontro comigo. Em profundezas gostosas, cristalinas. Cúmplices de quem eu sou.
Fiquei com saudade de amigos de infância. Dos passeios no Parque da Redenção em que o meu padrinho me empurrava forte nos balanços pra eu pegar as nuvens. Nunca consegui, por mais alto que eu fosse.
Senti saudade das caminhadas em Capão da Canoa no fim do dia. Com aquela praia feia de ver mas tão linda de sentir. Havia tanto de mim naquelas areias. Tantas descobertas, decisões. Fiquei com vontade de ir a Porto Alegre me encontrar. Andar pela rua da Praia e tomar banana-split com a minha mãe nas Americanas. Fiquei com saudade do gabinete do meu avô cheio de livros de passarinhos e música clássica. Senti falta de quando a gente escutava Verdi e todos os românticos alemães. Hoje cedo saí de casa cantarolando o coro dos ferreiros de Nabuco. Ele adorava essa canção.
Cheguei no salão pra fazer as unhas com os olhos molhados e esse respiro saudoso e quente de saudades. É bom demais esse se sentir querido, amado, importante. Parte. Inteiro pra alguém.
Tenho montes de trabalho a fazer e essa sensação gostosa de pertencer e ser me foram devolvidas ontem. Tanto afago no coração. Saudade de uma parte minha que não quero qeu se vá. Uma vontade de extirpar esse câncer do coração... e deixar isso cantarolar de dentro de mim. Sem dor. Só amor. Só carinho.
Fiquei com vontade de dar isso ao Pedro, meu afilhado. De fazer ele se sentir parte-inteiro pra alguém. Ele tem 4 meses. E é como se eu o tivesse a vida inteira comigo. Uma mistura de porvir-saudade. Quero empurrá-lo no balanço pra ele pegar as nuvens. Nem que isso seja quando eu estiver lá...
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Cicatriz
Hoje pela primeira vez em muitos meses senti alívio. Um respirar profundo, leve, sem poeira nos olhos.
Senti naqueles olhos de profundezas a cumplicidade e o acolhimento. Depois de um percurso sem rumo, quase carpideira de mim, pude me ver sã. Inteira de novo.
O sentir tem mais mistérios que eu desconhecia... e senti saudade de mim assim. Intensa, inteira, minha de novo. Havia uma esperança ali. Depositada num silêncio e numa espera de alguma coisa em algum lugar. Tão vago mesmo. Mal sabia dirigir o carro e pudera, nem sabia pra onde voltar. Acho que dei umas voltas em mim naqueles quarteirões intransitáveis dos Jardins. Passei em alguns lugares - memórias esbranquiçadas, cizentas, desbotadas... e outras tão vivas. Recordei muita coisa.
Deveria sair sim com os olhos secos. E só então a imagem do espelho apareceu de novo. Engraçado como a gente se deixa turvar... quase acreditei no que diziam. E cheguei a sentir aquilo - forçosamente? - dentro de mim.
Senti uma vontade louca de escrever. Esse perdido de palavras sem sentido para qeum não me vê daqui de dentro. Textos confusos e uma catarse-emoção sem freio. Mas leve. Quis voltar para muitos lugares. Esquecer de muita gente. E nem saber de outras.
Fiquei dentro de mim. Pude rir, observar. Lembrar de um monte de queridos e de risadas soltas pelo caminho do meu coração. E aquele pisca todo de luzes impacientes dos faróis me deixaram um meditar. Olhei em volta no caos das avenidas e dos happy (será?) hours nas esquinas... um deixa pra lá. Me queria de volta só pra mim. Esvaziada.
E de repente me dei conta dessa cicatriz na alma. Que a todo tempo é esfolada aqui e ali... tantos silêncios e crenças. E me lembrei das profundezas de novo naquele convulsionar de chorar e pedir ajuda e desistir e morrer de dor... Fiquei com a cicatriz no peito, sem tapar. Nem rejeitar. Olhei nos olhos dela... e vi aquele repuxar de sentir, de pensar, de imaginar. De repulsar. E chorei de novo. Deixei de apertar. Pedi ajuda. Senti. E quase me despedindo, segui com ela sem querer chegar aqui... Olho em volta e vejo tudo tão cheio de história, de contos de fada e castelos por vir... Outros a gente deixou pra lá... Fiz tudo direitinho pra seguir adiante. E esse repuxo de sentimentos me acompanhando... e aos poucos percebendo que esse repuxo vinha dali, logo do outro lado da rua... que alívio poder cortar essa corda...
E nunca mais ter a sensação de que te estilhaçam por dentro, apesar das marcas. Da cicatriz dessa história minha, de outras, de tantas e tantos sentir e pensar e querer e largar e repuxar... Parei. Voltei a ser minha de novo. Sem cicatrizar... mas conseguindo me sentir ali.
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sábado, abril 19, 2008
Refluxos dentro de mim... quem dera se tivesse remédio de farmácia pra colocar isso pra dentro (ou pra fora) de uma vez.
Recebi esses dias um convite inesperado pra participar de uma conversa que me remexeu os nervos. O pior das sombras não é quando você as vê, mas quando as pessoas te trazem cada uma delas e insistem que você vê coisas.
Passei o dia com nojo. Sem querer falar nada. E mais, uma mistura de revolta de mim contra mim, e desse sentimento de alívio... "ah, até que enfim se percebe"...
Fiquei os últimos dias chapada com os remédios e mergulhei num lodo de lembranças e mágoas. Olhei no fundo. Havia muita dor ali e não havia nada a se fazer. Desespero completo e uma ansiedade que quase me fez sair correndo de mim. Fiquei me perguntando porque tanto choro. Tanta dor. Fiquei pensando o porquê de tanta insensibilidade. Egoísmo. Egocentrado. E antes que esse texto se torne um vômito desse lodo, cheio de refluxos desencontrados que se lambuzam nas dores, feridas, inflamações magoadas e repulsas de toda ordem eu respiro. E volto do mergulho desses remédios. Sem chão. Não sabia mais quem era, o que era aquilo tudo ao meu redor. As certezas e seguranças, os contornos humanos se perdiam nesse universo nebuloso de tantos personagens e mentiras e histórias e esperanças e omissões e controle e fugas e solidão e carência. Não sabia mais nada. Olhei, durante horas aquilo tudo. E aquela conversa da qual fui convidada a participar me provocou uma fúria de bixo ferido, acuado, abusado, desprezado.
E se eu pudesse ter feito o mesmo... Me peguei num trovão interior de pensamentos e vinganças... Nunca achei que meu lado mais feio pudesse falar tão alto aqui dentro. Crispei as mãos.
Olhava em casa e buscava por essas singelezas que esse cantinho pode me dar. Sinais, meus, dele, nossos, que geralmente suavizam essa angústia e acendem luz nesse buraco de sombras escancarados na alma. Fiquei olhando para as gavetas de novo. Quem estava mesmo ali? Esperei ouvir ele chegar. E deixar esse lodo decantar aqui dentro. Me acuei nesse colo. E tenho até medo de fechar os olhos. Para perder de vez. Fico respirando fundo. Ouvindo essas juras de amor, quietas, que são só pra mim. Procuro a cumplicidade desse crime de amar. E desse desajeito tão humano, que fere, se fere.
E a luz apagava aos poucos, o sono vinha desse monte de remédios pra essa dor nas costas. E eu queria ficar. E nunca ter ido. Nunca mais. Sem pensar. Sem mais refluxos que me deixam vomitar esse horror de tudo. Esse pavor de viver. E fiquei, esperei, rezei. E voltei.
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terça-feira, abril 08, 2008
Vontade de ir de mar, pra longe daqui.
Engraçado. Comecei a assistir de novo os episódios do Galática. Uma série que me encantou a adolescência na Sessão Espacial da Rede Manchete. Esse desejo deles de se encontrarem com os irmãos distantes depois de perder tudo o que tinham e toda a sorte de tragédias, aventuras, que acontecem durante essa viagem... isso sim, te dá vontade de ir.
Fico sempre admirando os heróis dos filmes. Para mim eles tem algo em especial que é acreditar nas pessoas e que as coisas vão se resolver no final. Isso sem falar das miraculosas soluções encontradas para sair das piores enrascadas.
Me deu saudades de um tempo em que eu acreditava mais. De ser ingênua, ter esperança. Senti falta da USP e dos tempos em que eu tinha alguns amigos bem mais perto. Fiquei uns 40 minutos andando na USP à noite e sentindo aquele cheiro de mato molhado nas árvores. Nem a árvore favorita eu vejo mais. Senti falta das épocas em que eu jogava RPG e tinha preocupações mais nobres com o futuro da humanidade. Me lembrei no caminho de volta pra casa com os vidros abertos na marginal do Persépolis e de como a gente vai se endurecendo por dentro.
O Rogério conversou muito comigo no sábado sobre esse movimento... a gente falou dos amores, das dores. Legal escutar ele falando dele. O Fábio tem essa outra mãozinha... me dá a sensação de ficar velha por dentro. De ter um outro brilho desgastado no meu coração - de sentir e continuar sentindo mais - mas sentir diferente.
O Rogério me perguntava se eu tinha amargurado. Não. Mas tenho cansado das pessoas que reclamam demais, inclusive de mim quando me via nesse papel. Eu perguntei pra ele se eu tinha mudado muito já que a gente se conhece desde os 13 anos. Ele riu. Tomamos algumas cervejas em silêncio dizendo aquele básico "ai ai" que silencia e traz todos os outros - velhos e novos - assuntos de volta.
Eu sempre fico feliz de ter os meus amigos por perto. Pra alguém com essas "crises existenciais" cheias de nostalgia e saudade de aqui, dali, de lá, é um jeito especial de não deixar de acreditar. Sem amargar... já que a vida é doce demais.
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"Há uma revolta na sua condição feminina". Essa foi, certamente nos últimos anos, a frase mais machista dita pra mim. Depois de quase dois anos estudando gênero e afins, sou assolapada por fim, pela maior - e mais dolorosa - das ferramentas acadêmicas: a sua própria vida pessoal.
Hoje seria uma noite especial pra sair e tomar um porre com o M. Foucault. Depois de (re)discutir a sua análise brilhante sobre a sexualidade humana na semana passada e passar meses lendo sobre as feministas... finalmente fui acusada de tal. E mais, sob o argumento da minha falta de solidariedade à (requentada e cristalizada) promiscuidade masculina. Me lembro agora de um dos textos de uma dessas feministas - como se diz - desenvolvendo seus argumentos sobre essa naturalidade da putaria masculina e como isso se transformou em enormes argumentos psicanalíticos, sociológicos, antropológicos, para não dizer históricos. Numa cervejada com o Rogério na clássica Braumeister, me recordo de uma fala nossa sobre a promiscuidade - também natural - das mulheres. Ora, no fundo isso sim é natural, talvez. Lamento feministas e machistas. Sim, todo mundo gosta de dar e de comer todo mundo. Quase o caos sexual que as teorias do patriarcado apresentaram no final do século XIX.
E quer saber o pior? Pelo menos a maioria dos moderninhos adeptos dessa "liberdade" sexual se dão conta que apesar da nossa tentativa modernosa - a modernidade nos trouxe de brinde no pacote do individualismo - o nosso profundo egoísmo em dividir. Não dá pra dividir quando se sente, muito menos quando se trata de dividir o outro. quanto a nós... nem sei se sobre algo nessa proposta emancipatória do compartilhar parceiros - tudo muito limpo, travestido de uma nova moralidade. Portanto, cuidado, se você acha alguém bastante moralista, atente-se para não estarem disputando a moral da vez.
Ora, o ponto não é esse. Discussões acadêmicas devem ser feitas apenas entre os especialistas. Vou deixar isso para as solidárias feministas que se lamentam todas de serem mulheres... ou de quererem queimar o sutien em praça pública... Ora essa, por favor! "Estou farta do lirismo comedido" repito o Bandeira... Mas deixemos de fato que os textos falem somente a quem os interessa. Sempre esqueço que as pessoas escolhem o que ler - e como ler. Há outros que se interessam apenas em justificar. Para o sim e para o não.
Fico pensando - e sentindo - muito mais esse clamor da necessidade de sentir. Por que, afinal, a gente quer que o outro sinta EXATAMENTE o que a gente sente? Ou entenda como isso deve ser sentido, doído. Fico aqui me lembrando dos clamores de solidariedade da "dificuldade de sentir" que se manifestam na falta de compreensão do outro, da dor, do dimensionar, de se colocar no lugar do outro, de falar, de dizer a verdade. E ainda, de colocar na mesa o que se entende por verdade. Talvez o agente Mulder esteja certo... a verdade está lá fora, em algum lugar absolutamente inatingível pra nossa completa - plena - falta de solidariedade com o outro.
Fiquei me lembrando das frases de todos os meus amigos - homens, supostamente machistas, mas nem sempre! - sobre as mulheres. Ora, as relações de gênero são mais complexificadas do que se pensa. Talvez a culpa - se é que existe - seja do próprio Foucault em anunciar ao ocidente que o que ele melhor sabe é discutir, sem resolver porra nenhuma. Transformar o sentir, o querer, em discurso arruinou completamente a nossa possibilidade de negociação. Aos meus amigos machistas - assumidos - devo dizer que conforta saber o lugar de onde se fala... facilita alguns entendimentos sobre a condição - estranha? - da amiga de vocês. Aos machistas - não assumidos - hmmm... talvez vocês devessem ler - já que apreciam a leitura e a discursividade dela - um pouco mais sobre o que se entende sobre feminismo, mulheres, etc. Essas "coisas" muitas vezes chamadas de "rótulos acadêmicos". (Acabo de me lembrar da Princesa Leia dizendo ao Han Solo, supostamente uma assumidade nas mulheres, "você não entende nada de mulheres") Às feministas: cuidado para não acharem que vocês são paranóicas (no sentido clínico!), lésbicas, ou ainda que odeiam homens já que são mal comidas. Pãtz... Às não-feministas: cuidado para não serem chamadas de moralistas, ingênuas, permissivas, submissas, silenciosas.
Aos perdidos... por favor, cuidem para não deixarem o sentir discursar demais. Outro cuidado: ao lerem, cuidem para quem vão falar de suas "descobertas" sentidas ou observadas. Viver tem um que de antropológico. O duro é que a tensão sujeito-objeto parte em mil pedaços essa coisa nossa - academicamente falando - chamada indivíduo.
Hoje me perguntaram se eu era juíza, advogado, vítima. Eu me pergunto depois se sou feminista - nessa pobreza dada do termo - ou machista (Lê-se moralista). E me lembro do Ney Matogrosso, do meu tio, dos meus amigos gays assumidos e não assumidos. Das amigas bem e mal comidas. Dos casais que eu sempre escuto terem problema de relacionamento, que insistem em ficar casados reclamando nas festas dos seus casamentos. Me lembro do Juliano rindo de mim porque eu "adoro discutir a relação", me lembro dos namoricos do colégio, das paqueras. Me lembro dos meus pais. Dos meus sogros. E me dou conta que qualquer coisa que eu diga agora, depois, pra quem for, será apenas, e só, somente isso, o meu partucularíssimo ponto de vista. Assim como os outros milhares de pontos espalhados nessas relações, olhares, sentires, que talvez não formem retas, planos. Não formem porra nenhuma na teoria do caos, dos jogos...
Ea talvez, bem possivelmente, o que me reste nesse desabafo "feminista", revoltado com a minha "condição feminina" - que pena isso... - seja apenas a leitura dos textos e as boas cervejadas com os amigos (nada) machistas... e o final eu publico quando a tese de viver terminar.
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terça-feira, abril 01, 2008
Há um mistério no convívio da dor com o amor. Uma coisa aguda aqui dentro que, ao invés de me jogar pra dentro, me atira pra fora. Pra ele.
Passei o domingo cozinhando coisas aqui dentro. Pura fermentação de talvez, se, quem sabe... Num passeio pelo bairro e pela feira, depois de tirar fotos, falar, chorar, explicar, entender, perdoar. Finalmente, se lançar. Ontem dizia para uma amiga que eu não conseguia entender essas sutilezas de um e de outro.
Cheguei em casa depois da maratona trivial da 2a. feira. Conversamos. Matamos o restinho do vinho que tínhamos aqui. Silenciamos. E de repente algumas coisas se derretiam nos carinhos, nos olhares e nessas conversas de fim de dia. Meio "o que você fez de bom hoje?" e tal. Descomprimissados com a dor, com o aperto.
Acho que é isso que o Nosso tem de mais mágico. Essa capacidade alquímica de nos devolver o que mais amamos um no outro. O tempo todo. Mesmo que atrasando as nossas (infantis) expectativas.
No mistério, me devolvo...
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Srta T
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sábado, março 29, 2008
Esperar. esperar... fico aqui cutucando a minha impaciência em esperar. Acho que não aprendi esse vocábulo na escola. Curioso como a vida me trouxe de presente isso aqui...
Estou aqui rascunhando as coisas e acho que pela primeira vez consegui me ver pelos olhos do outro. Vejo ele aqui entupido de papéis e tentando resolver coisas e falando e pedindo e chamando, e solicitando e me tirando do eixo... Uma das minhas habilidades consiste em fazer diversas coisas ao mesmo tempo agora. Ler, ouvir música, falar ao telefone, conversar com as pessoas e ainda rabiscar umas letras soltas. Impacto para quem exige concentração e reclama da dificuldade de.
Fico pensando em como registraria essas coisas sublimes do cotidiano. Ficam mágicas soltas no percurso louco da vida. Fazem tanto sentido aqui dentro. E sempre me pergunto se um dia eu teria a capacidade de fazer as pessoas entenderem essas epifanias do Nosso.
Ele fala sozinho, habitualmente. Na prática não. Eu sempre escuto, fico atenta. E de vez em quando respondo. Mas aí sou alertada do quanto eu desconcentro, interrompo. Chatices à parte fico aqui agora rindo por dentro prestando atenção nessa coisa dele toda contraditória.
Vejo ele falar comigo - da mania de me ensinar, instruir, exigir, explicar. Às vezes parece que eu tenho 5 anos. E quando meu feminismo reclama me lembro dessa mania dele de amar. E de cuidar. Engraçado como as pessoas tem seus códigos particulares pra fazer isso. E se atrevem ainda a dizer ao outro "você precisa se colocar no meu lugar e me entender, me dar crédito"... talvez eu tenha feito o mesmo...
E nessas contradições mais infantis, de implicar, aplicar, silenciar, angustiar, sem esperar, cutucar as mesmas feridinhas aqui e ali, há essas epifanias na esquina. Hoje, ontem. De repente amanhã tem outra. E eu fico muitas vezes me fazendo de difícil pra ver ele se aproximar de novo, mais, mais, mais, mais. E mesmo com outras partes minhas em frangalhos, olho pra isso e me delicio com esse amor todo.
O resto, é só esperar...
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sexta-feira, março 28, 2008
Fiquei saboreando o sol agora na janela. Estou aqui, hoje com o dia brilhando, e mais, talvez de dentro pra fora...
Ontem eu saí e voltei tarde. Antes, me atropelei na escada de casa quase fugida de mim mesma... e dei de cara com ele. acordei hoje cedo com essa sensação estranha de me querer mais e longe e perto...
Engraçado como a gente se humaniza. Ontem conversando com uma amiga me perguntava se eu era a mejera (não domada) que só via o lado ruim das coisas, paranóica, crica, moralista. Falo isso porque, por alguns momentos, confesso, quase acreditei no retrato da Srta T Gray que faziam de mim. Chorei os tubos... Quase aceitar isso me provocou uma catarse de pensamentos sentidos aqui no fundo. Tentei... olhei bem pra mim ontem. Não vi essa mulher.
Mas a gente se humaniza. Voltei pra casa e depois de desaguar mais um pouco comecei a pensar nas coisas que tenho estudado. Imaginei se todos os teóricos da antropologia, os pós-modernos, viveram essas alteridades na pele, numa pesquisa de campo mais afundada e egocentrada. Se as teorias de Mauss e Dumond sobre o indivíduo permitiam esses mergulhos no sentir, no latejar. Fiquei pensando nas teorias de gênero, nas discussões feministas, nos debates políticos, legais, sobre casamento, divórcio, aborto, maternidade. Escutei as mulheres ao meu redor falando. Enfim... adormeci no sofá sem continuar prestando atenção na conversa à lá Nash que levava...
Acordei cedíssimo, com as pontinhas de sol pipocando na cortina do quarto, dançando esse ventinho gostoso da manhã. Fiquei olhando pra ela, sem sono. Olhei pro lado e vi tanta história nessa cama. Nossa. Dele. Minha. Fiquei ali acompanhando ele respirar, dormindinho ainda, me puxando pra perto, murmurando qualquer coisa em qualquer língua, num dialeto que só eu entendo. E essa dor toda no peito parecia balançar aqui dentro. Nem sabia mais onde doía - espalhou.
Estou aqui tentando me deixar no sol. Fico agradecendo silenciosamente pelos amigos. A Lúcia e a Marcia, definitivamente são as minhas irmãs mais velhas. Essas mulheres que me mostram mais de mim. Me revelam essas sutilezas das múltiplas - e parciais - alteridades. Outro abraço, um suco de maracujá pra acalmar esse aperto. E uma soneca ao lado da cortina, que me leva pra lá e pra cá.
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quinta-feira, março 27, 2008
o bolero de ravel
termino a noite escutando essa música e observando solenidades onde não há... me perguntando porque eu gosto tanto de ritualizar a vida. Pior, achando que as pessoas tem os mesmos ritos que eu.
e de resto. resta pouco aqui pra continuar a dizer. Nem trilha sonora do dia, da noite. Nem meus ritos de início e fim. Estou no meio. Mas não sei do que. Nem sei que meio é esse para se viver assim. E se ficar dividida entre o sentir e o pensar ou entre a negação desses dois for outro rito de passagem para além de mim. Para passar além da dor, fico. Não sei mais. Não consigo mais. Não quero ir além desse mais. é demais aqui... fico. bebo. espero. observo. e silencio...
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Fiquei sem tempo pra escrever pra mim... Meus emails tem sido curtos. Vagos. Vazios daquilo que eu mais gosto em mim... deixei na bagagem?
É curioso como o silêncio traz outras coisas aqui pra dentro. Recoloca. Desde que roubaram meu rádio do carro há quase um mês eu perdi aquelas pequenas epifanias do caminho. Da música tocando na hora 11 ou 22 alguma coisa. As árvores ficaram ali, no mesmo lugar. As folhas do outono apareceram ainda timidamente. Tudo é igual ali. Menos o som. E fico me perguntando se eu perdi mais alguma coisa nesse fim de musicalidade.
Tenho conversado mais comigo. Uma dessas conversas que se tem com irmão mais velho. Escuto - o peito também... - e deixo a razão semi-iluminada-enciclopedista-pré-napoleônica ditar as regras das decisões finais. No dia em que saí da escola chateada um sujeito que vende flores no farol que sempre me cumprimenta me ofereceu uma de graça. Era uma rosa amarela. Fiquei pensando como eu ia aceitar ou não essa epifania. Ganhei chocolates aos montes dos meus alunos e, apesar de todo incômodo da Páscoa com as suas formalidades religiosas e blablabla (que minha vó não me leia!) quase hipócritas (Jesus, Moisés e tal estão, certamente, em outra!) fui sensibilizada por um sentimento de renovação de mim.
Dito de outro modo. Vivo minha quaresma sentenciosa e na quietude desses barulhos de mim. Nem sei bem quando ela começou. E nem sei de que modo - e se mesmo ela pode - terminar. Há dias estou chocolatando coisas em mim. Estranhamente já sei qual parte minha foi cumprir rituais de auto-punição e redenção. Nada públicos, acreditem. O mais surpreendente foi o estranhamento da parte que ficou. Ah! sim! Por favor nada de tapinha nas costas com um gesto de quase-coitadinha-da-sensível-imatura... nem me dizer das estranhas-coincidências-dessa-vida-estranha... como por exemplo tocar toda essas músicas na hora em que escrevo sobre isso...
O mais estranho dessas feridas de mim é que quanto mais eu quero me esconder mais eu me exponho. Honestamente, não creio que há qualquer bravura nisso. Ao contrário. Sendo fraca, me enfraqueço. Daí todas as minhas promessas de whisky-blog-chocolate de não ser mais assim. De enterrar naquele sepulcro de pedra essa vergonha de si. De mim. Esse meu cansaço...
E Fernando Pessoa já dizia tudo isso... Nem sei porque insisti em provar que a sua desilusão é apenas literária. Não há nada de literário em sentir desse jeito. Muito menos de temer o tanto que se sente. Mais ainda... não dá para (d)escrever essa tentativa de se pascoalizar... O céu ainda não escureceu. As feridas ainda estão abertas e nenhum sinal de clemência de ninguém ao redor. Sequer os ladrões. devem ter sido roubados de si mesmos... ou de mim...
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Paris ... em 2 dias...
Estou aqui tarde tomando meu trago, para desgosto de alguns. Acordo cedo amanhã mas a lembrança do chopp há duas semanas com o Fabio me ajudarão mais a dormir do que as minhocas tomando whisky...
A dor insiste. Toma conta desse seu pedaço de carne em movimento chamado coração. Minhas promessas de não sentir. Não chorar. Não desistir. Nem deixar. Isso tudo passa turbilhonando a cabeça num golpe duro de dentro pra fora. Voltei dirigindo do cinema ensurdecendo essasm conversas dentro de mim. Há muitos nomes para essa dor: moralismo, paranóia, minhocas e outros nomes menos complicados espalhados nas prateleiras dos nossos desafios.
Olho pra mim mesma naquele espelho turvo. E pela primeira vez vi outra imagem. Em Paris. Uma outra personagem. Dias atrás eu conversava com a Estelinha sobre personagens ... me dei conta de que o meu parece ser mais detestável do que o dela. Fico aqui rodeando o copo. Olhando as coisas em volta da minha almofada. Meu espaço contruído de dentro pra fora quase invadindo territórios proibidos. Há portas de armários nesse quarto que me trazem mais dor. Outras que me tiram daqui e me levam embora de mim. E as gavetas...Meu personagem foi construído nesse quarto. Durante alguns dias de leituras subversivas. Que me custam até hoje...
E ainda há quem diga que há construção aqui... e me perco nesses escombros de mim. deixados de lado por esse sentir que sufoca. E depois me joga. Que quebra um confiar no outro, na vida. Em si. E me sinto só... como se quisesse andar pelas ruas daquela cidade e ver a imagem de mim e dessa personagem neurótica, que não relaxa, que se exige, que se machuca, dançando no dia da música, acompanhada de seu personagem favorito. O amor.
Olho de novo para as portas dos armários. Me lembro de pequena quando, para dormir, fechava todas as portas dos guarda-roupas para o Monstro do Armário não me pegar. Engraçado como algumas fantasias ainda me assombram. E pior. Me pegaram. Desavisada. Ensimesmada. Só que hoje eu prometo não chorar mais.
Fiquei com saudade da Márcia, da Lúcia da escola, apesar da gente se ver todo dia. Senti falta do Vinícius. Max. Do Jedi - e de todas as risadas que ele traz. Do Pico, do meu afilhado... do Rogério. Do chopp com o Fábio que me mostrou essa personagem ali de Paris, do outro lado, bem diferente. Pensei muito nos meus irmãos. Em alguns alunos - e evidentemente no meu pai - que me subtraíam dessas personas de dentro.
De mim? Nem sei do que sentir falta aqui. Nem sei se há do que ter saudade. Me vejo caminhando ali longe. De costas... Fico pensando qual outro filme vai me trazer de volta. E me deixar de lembrança essa suavidade no peito. Enquanto isso eu fico aqui. Esperando a luz acender para eu poder ir...
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terça-feira, março 04, 2008
fronteiras
Há um mistério na fronteira do sonho com o real... quando ele transpõe essa fronteira e atinge você naquilo que tem de mais caro. Mais seu.
Quero silenciar esses sonhos de lá. Que me mostram quem já foi e o que fez. E que ainda me fere na alma. Me trespassa com aquela indiferença que sabe fazer tão bem. E que usa tão bem aquelas que passaram pela sua vida.
Quero deixar isso sair de mim. Esquecer e dormir um sono sem medo. Sem dor. Sem imagens , sem atos que doem. Que matam a gente por dentro. Quero silenciar esse grito e essa revolta aqui dentro. Quero matar isso antes que me corroa e me deixe só.
Há um lodo escuro que enoja, que distancia... que me cega e me afasta. E me faz mergulhar num sentir tão apertado. Vontade de sair por aí... libertando esse ar contaminante que me deixa respirando esse aperto. Essa dor. Esse amargo de não aceitar e não perdoar. Não entender. E me sentir tão mais só. Em mim. No meu pedestal - dizem - que abandona o coração.
Vontade de sair de barco e apagar cadernos e cadernos de mágoa... fazendo barquinhos pro mar. E deixar. Sem levar. E calar.
Ir pra dentro das fronteiras de mim sem deixar que a fúria dessa incerteza de sonhos e medos e pavor me tome. Quero ficar aqui, quietinha sem essa dor na alma. Apagar a memória de ver, de saber, sentir, ouvir... de duvidar.
Me esquecer nessas fronteiras de mim. Sem dono. Sem espaço e limite. Sem dor e lembrança. Na fantasia de poder continuar querendo. E viver isso sem temer o que não se sabe e fugir do que já se soube. E como dizer disso tudo sem revirar-me em dor? Em incompreensão e revolta?
Deixando de sonhar. E talvez nunca mais dormir. Perdendo a inocência colhida nos filmes de Hollywood, com beijo e trilha sonora. E ver que a luz do cinema não se acenda mais. E que esse filme seja longo, sem intervalos. Só a espera... E o silêncio da sala daqui de dentro se esvaziando... sem mais eu mesma pra me deixar doer... Cansaço...
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Srta T
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sexta-feira, fevereiro 22, 2008
2 e 2 são 3
Ontem quase meia noite e eu saía na pressa de chegar em casa ou ligar ao menos antes da virada do dia. Depois de uma janta à lá egípcia com as definições das leituras e caminhos do mestrado me dei conta que outros caminhos precisavam ser revividos na minha vida. Eu adoro celebrações. De todo tipo. Pequenos rituais que nos lembram que estamos além do trivial, do comum. E que nos fazem sentir especiais.
22 de fevereiro. 2005. Eram 6 meses juntos quando esse anelzinho dourado veio parar no meu dedo pra me lembrar que essas alianças só podem existir de verdade no espírito. Nem na mente. Nela não cabe. Me lembro bem do dia. Do dia anterior e do seguinte... Lembro do nervoso e do pré-combinado do Juliano com o povo lá de casa. Lembro bem da minha cara de paisagem quando ouvi o pedido, que era tão de dentro daquele coração. E do meu sim. Tão cheio de certezas também...
Lembro do filme todo, da sequência de imagens, dos sons, das texturas e gestos. O que eu não podia prever naquele dia era o mundo de descobertas de mim e do Nosso que estavam por vir... Definitivamente não. Engraçado como o baile de máscaras terminou em mim aos poucos pra dar lugar a uma valsa lentinha no meu coração. Apaixonada e num salão gigante. Só com a gente dançando. A orquestra afastada, pra deixar a gente se fungar e dar uns beijinhos marotos um no outro... e as cortinas balançando com o vento... Demorado. Eterno. Só da gente.
Outro dia o Juliano me perguntou - daquele jetinho dele - se eu expunha a nossa intimidade aqui. Demorei pra responder. Quase tive medo que sim. Mas mais que isso. Hoje, não sei ser a Thais sem ele na minha vida... Por certo que isso parece piegas... Não me importa.
Hoje o dia 22 de todo mês como todos os minutos 22, e horas, e toda sorte de coisas curiosas e - minimamente - misteriosas com esse número me dá a sensação de completude. Aqueles lembretes que o coração manda pra cabeça numa folha de postit enorme e brilhante.
Se eu escrevo sobre nós? Me pergunto hoje o que há de só meu. Semana passada, saindo de um casamento de amigos eu comentava sobre o papo da "comunhão parcial de bens"... Fiquei pensando sobre como era ritualizar uma união parcial. Não entendia. Lembro que no meio da explicação que ele me dava (aliás, ele adora explicar coisas pra mim... ) parou no trânsito, me olhou e riu. "O amor não pode ser pela metade né?". Isso. E por mais que outros tentem me convencer sobre as garantias da modernidade, sobre as incertezas do amanhã sobre o amor, o outro e tal... a cada dia, em mim, por mais que existam as incertezas do passado, eu não sei viver um amor parcelados, sem juros, correção, inflação, crises no câmbio, risco de sobretaxa e etc.
Eu disse isso a ele um dia antes da gente começar a namorar. Que eu não queria ser metade de mim com ele. Só que nunca imaginei a profundidade dessa - quase profética - sentença. A outra metade nem sempre é legal, compreensiva. Nem sempre perdoa. Minhoca. Discute. Implica. Cutuca. E é tão humana. Tão incerta. Tão em si. Cheia de medos. Fiquei pensando se isso não é comunhão total de bens, de más, de todas as coisas que de fato são minhas...
Uma vez o Geraldo me disse que a gente ganhava o pacote no casamento... é verdade... E que as coisas que saem dali podem ser surpreendentes. Ou muito previséveis. Tudo o que tenho aprendido nesses anos - quase 4 - juntos é que quanto mais eu me quero mais tenho que dar de mim. E tenho ganhado tantos presentes desse amor. Que fazem dor, luz, amar, crescer. E querer. Continuar. Deixar. Esperar. Sem saber. Sem querer. Dar. Receber. Fechar os olhos e ter a certeza de que tudo o de incerto e misterioso e belo ainda estão por vir. Tão certo como 2 e 2 são 3...
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Srta T
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quarta-feira, fevereiro 20, 2008
o castelo além-mar
Eu vi a menina do barquinho na semana passada. Tive a sensação, ao olhar pra ela ainda longe que as coisas estavam mal. Ela chorava na beira da praia. Compulsivamente. O barquinho tida ido embora. Pra longe dela. E as pessoas que ela tinha visto embarcar pareciam ter se afogado naquele choro interminável...
Ela me contou - virada de costas pra mim, cheia de timidez e vergonha do choro - que tinha visto e ouvido coisas muito tristes. Falou de um sonho de atravessar o oceano que tinha sido quase naufragado. Tinham dito coisas feias pra ela. Desse tipo de coisas que as pessoas inseguras dizem pra se defender, sabe? Acontece que com toda aquela sensibilidade ela tinha dado tanta importância pra isso... Me disse que depois de fazer a mala e separar um lenço vermelho bonito pra se despedir na hora da viagem... me contou que esperava muito - e há muito tempo - a hora de ir, de deixar as coisas todas pra trás e seguir um rumo que nem ela sabia direito qual era. Novos ares, novas gentes, paisagens e cheiros. Estava quase sorrindo quando falava desse momento de partida. Mas daí a pequena desabou em si de novo. Contou pra mim que não achavam que ela tinha condições de fazer aquilo. Mais ainda... que ela precisava parar de chorar e ficar se fazendo de coitadinha, afinal a vida era difícil mesmo.
Não tinha a menor idéia do que dizer pra ela. Peguei os seus dedinhos amarrados em si e pedi pra ela desenhar na areia. Ela me contou de um outro dia em que ela fazia um castelo bacana na areia. Nada sofisticado. Um castelinho que cabia muitas pessoas nobres, reis, rainhas, princesas e príncipes encantados. As pessoas eram bem felizes ali no castelo, tinha festa todo o dia e ela gostava de dançar ao som da música que os instrumentos brincavam. Perguntei onde ficava esse castelo. Ela me respondeu que era ali bem pertinho do porto de onde os barcos partiam pro outro lado do Oceano. Mas ela também não tinha estado lá de verdade. Só ouvia a música e ouvia as pessoas que chegavam de lá contando como era legal e bonita aquela festa. Ela sempre quis participar e receber um convite de honra do rei pra poder valsar e brincar como todos aqueles que retornavam.
Foi aí que ela contou que não queriam que ela fosse também pra lá. Ou se queriam, não fizeram muita coisa pra que ela pudesse participar. Sabe como é... as pessoas até querem que vocÊ faça as coisas, querem te ver feliz. Mas parece que essa felicidade é um castelo tão suntuoso que dá mais trabalho ainda de ir visitar. No caso da menina não. Ela repetidamente me dizia que o castelo que ela sonhava - de tanto ouvir falar - era grande, mas as paredes eram feitas de pedrinhas de riso. Isso mesmo. O chão era pintado com carinho e amizade e não existia teto. Nem porta. Cabia todo mundo ali.
Disse que um moço explicou a ela todas as dificuldades de visitar o castelo e fazer parte da festa. Ele disse tantas coisas que ela desanimou. Chorava dizendo que o castelo estava se perdendo em caminhos os quais os mapas e as cartas náuticas antigas não mostravam... Esse rapaz ainda fez toda uma projeção de gastos sobre a viagem dela até lá. Parecia tão difícil. Um dia, quando ela estava fazendo esse castelo na areia e seguindo todas as instruções mentais que o moço tinha dado - quase como fazendo contade cabeça em voz alta - veio uma onda muito forte e dele sobrou uma torre de observação quase desmoronada...
Ela me disse que não queria mais falar disso com ninguém. Que o castelo parecia ficar mais longe e ela mais distante ainda das pessoas legais que frequentavam aquelas festas alegres e coloridas. Perguntei se ela tinha desistido. Ela disse que por enquanto ela só conseguia chorar. Se sentia sozinha porque as pessoas não entendiam como ela ia chegar ao castelo desse jeito. Desse jeito dela. E diziam coisas comuns do tipo "vai dar certo", ou ainda "não se preocupe que se não for agora, vai ser depois". Essas frases vazias de quem não sabe como acolher um coraçãozinho apertado. Foi bom ela ter dito porque eu quase disse a primeira frase...
Engraçado que nessa hora ela me olhou nos olhos. Deu uma risadinha de canto de boca. Apareceram duas covinhas perto dos lábios... Ela era tão bonitinha! Fiquei sem graça com aquela espontaneidade. Eu sempre gostava de conversar com ela justamente por isso. Ela me dizia coisas que eu gostava de aprender e sentir. Levava pra casa no peito por semanas...
Silenciei. Era pôr-do-sol naquele mar azul-prata-esverdeado-que-nem-os-olhos-chorões-dela... Segurei a mãozinha pequena, cheia de areia nos dedos. Passavam umas pessoas apressadas na beira do mar. A gente ouvia os sons dos passarinhos e os roncos de outros barquinhos que deportavam dali. Perguntei se ela estava melhor. "Você sabe de alguém que possa falar com o meu coração?" Travei... E ficamos ali nos olhando mais um pouquinho até o sol baixar de vez e a lua surgir no outro canto do céu.
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Srta T
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outros eclipses
Estive ontem na casa do Jedi, depois de muitos meses sem nos vermos. Ele ainda mora na república Taleban, com os mancebos Du, Igor, Leo. Acho ainda que é o último remanescente da velha convivência da faculdade que eu encontro. Fui lá me refugiar nesses dias de quase sufoco (de)em mim mesma. São tantas imagens, informações de um passado que eu não posso mudar, nem acessar mais. Quem sabe imaginar... mas de fato ainda não sei deixá-lo ir.
Acho que fui em busca do Jedi porque a gente tem uma dinâmica de afastamento muito parecida. É aquele amigo que, mesmo depois de anos sem ver, é como se eu acabasse de sair do boteco, deixando a vida levar. Na semana passada eu tinha ligado pra uma outra pessoa atrás de "colo". Nada. Doeu miúdo aqui dentro. Um sentimento de que eu perdi, ou melhor, estou perdendo há tempos essa coisa bonita e misteriosa da amizade... Nunca achei que eu ia viver coisas no gerúndio. Muito menos a perda. Não dessa forma.
Eu nem sei exatamente o que eu fui buscar ali. Abraço, saudade, cumplicidade, risadas ou mesmo o resgate do meu lado nerd feliz. Não sei. Sei que saí de lá com vontade de escrever. Não sei o que, ou mesmo como isso aqui vai terminar. Mas tinha uma busca da Srta T que ia além dos olhos...
Quando eu estacionei o carro o João já vinha descendo e abrindo a porta... Como de costume a gente deu aquelas risadas gostosas... E eu desmontei chorando ali... Tanta coisa passou naquele choro, imagens, desapegos, decepções, sonhos desmontados, perdas e todas essas coisas que a gente não sabe traduzir mas que espremem a alma da gente...
Foi uma conversa gostosa com os meninos. A gente comeu pizza, tomou coca-cola e bebericou todas as histórias divertidas da nossa turma. Fazem 11 anos que a gente se conhece... eu ia aos poucos respirando aqui dentro e percebendo os caminhos que todo mundo tinha tomado. Quase igual ao poster dos Beatles que eu dei pro Jedi de aniversário... De vez em quando um carinho gostoso no pé e uma piadinha marota sobre o lacinho da minha sandália verde...
Quando eu finalmente resolvi ir embora a gente se sentou na porta da casa. Sabe aquela coisas de adolescente que quer conversar longe dos pais pra conversa não ser ouvida? Isso. Ficamos ali mais de 40 minutos tentando dar conta de toda a avalanche de mistérios que tomavam conta da gente nos últimos meses. Os medos, as descobertas, as revelações da gente, dos outros, dos amores, das decepções e dos desencantamentos do mundo que levavam a gente de volta pra dentro e depois pra fora. Não conseguia chorar ali. Só dizer da dor. Fiquei quieta. Escutei ele contar. A gente riu. Outro carinho no pé e um abraço desajeitado. conselhos e conselhos... cumplicidade dessas que a distância não precisa apagar. E as lembranças da escadaria do Teatro Municipal. Já são quase 5 anos...
Saí de lá mais leve e tomei o rumo de casa com essa sensação de não estar sozinha como muitas vezes eu penso - ou sinto - estar. Liguei pra casa. Nada novo. Uma conversa rápida por causa de um programa interessante na TV. Segui o caminho com as minhas minhocas no banco da frente. (O Jedi disse que elas tinham uma função bonita na minha vida... ainda não descobri qual é...) Entrei no supermercado, olhei aquele monte de prateleiras e procurei alguma coisas anti-tristeza... Nada. O supermercado é mais triste ainda. Cheguei em casa com o Juliano saracuteando beijos e amores e toda sorte de coisas de um sujeito feliz e apaixonado. Escutei ele falar. Do programa, do dia, das coisas todas que se passam ali com ele... E não tive vontade de dizer nada. Só de ficar com esse aperto no peito e deixar as minhocas cavarem mais aqui dentro, esperando encontrar sei lá bem o que...
E João! Olha só... que bom que a gente não se perde um pro outro, hein? Saudades cultivadas no coração...
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Srta T
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quarta-feira, janeiro 16, 2008
o tempo
Nem me atreveria a falar sobre isso de forma inteligente. O que me resta é falar e sentir esse mistério que não sei mais se é criação nossa ou dos deuses, seja lá qual nossa criação sobre isso também...
Há conversas de tempos. e que até nem levam tanto tempo. Doem, e continuam doendo com o tempo. Fico me perguntando se isso é assim mesmo. Ou se eu levo tempo demais pra processar esse monte de sentir em mim. Ou se é apenas o meu apego ao tempo que as faz durar tanto aqui dentro. Há outras conversas que levam mais tempo. Um tempo semi braudeliano que ultrapassa a minha sensação de pseudo-controle do tempo. Há outros tempo para conversar mais. Menos. Há tempos pra silenciar. Esperar. Deixar aquilo fazer ou perder o sentido. Para sempre. Sempre?
Há pessoas que não deixam o tempo passar. Outras o trapaceiam. Há aquelas que fazem do tempo seu meu melhor amigo, inimigo, amante, marido, mulher, filho. Familiam todo ele. e ainda assim ele passa por você, poroso ou não. Há quem o jogue fora. Embora eu sinta que ele é esperto demais pra isso. Vem cobrar o tempo que foi deixado.
Há aquelas pessoas que envelhecem de dentro pra fora. E outras nascem já velhas. Outras se rejuvenescem e de todos os modos. Deixando espaço para essas lendas infantis e (certamente) quase adultas da fonte da juventude...
Há uma dimensão em mim de tempo profundo, escuro. Quase como o irmão mais velho, o Destino. Cego, mas paciente. Há outro tempo mais jovem, serelepeando e golpeando a minha ansiedade. Delírio e Desejo. Há um primo, que prefiro que fique longe. O desespero. Pelo tempo. E a morte. Que tempo?
Ontem recebi a visita de alguns ex-alunos e me dei conta de um apego meu a um tempo. Que nem sei se é tão apegado assim. Mas nunca é quieto. Me lembro de ver num filme (romântico, evidentemente) a cena em que o homem, muitos anos depois, e separado da amada, se perguntava porque a pessoa amada parece nunca envelhecer? Fiquei com isso essa noite. Virei e desvirei. Pra talvez me dar conta que o tempo não envelhece. Mas pode caminhar de mão dada...
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Srta T
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segunda-feira, janeiro 14, 2008
que esse ano seja...
This could be heaven
This could be heaven
This could be heaven for everyone
In these days of cool reflection
You come to me and everything seems alright
In these days of cold affections
You sit by me - and everything's fine
This could be heaven for everyone
This world could be fed, this world could be fun
This could be heaven for everyone
This world could be free, this world could be one
In this world of cool deception
Just your smile can smooth my ride
These troubled days of cruel rejection, hmm
You come to me, soothe my troubled mind
Yeah, this could be heaven for everyone
This world could be fed, this world could be fun
This should be love for everyone, yeah
This world should be free, this world could be one
We should bring love to our daughters and sons
Love, love, love, this could be heaven for everyone
You know that
This could be heaven for everyone
This could be heaven for everyone
Listen - what people do to other souls
They take their lives - destroy their goals
Their basic pride and dignity
Is stripped and torn and shown no pity
When this should be heaven for everyone
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Srta T
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sexta-feira, janeiro 11, 2008
ritos repetidos mitos
Havia um mistério naqueles mergulhos de dezembro... Desses que fazem a gente se perguntar onde começa o mar e onde termina o céu...
E essa menina que mergulhava demais de dentro e mais pra dentro botou os dedinhos na beira da praia. Fincava os dedões rechonhudos na areia fazendo pequenas bolinhas - almôndegas esmagadas de areia. O céu estava naquele azulado feliz do verão. Algumas nuvens se espreguiçavam em cima do mar, pousando para os mais distraídos na paisagem.
Não havia barulho ali. Nem mesmo as pessoas ao redor deixavam o silêncio acordar. Havia uma quietude que ela buscava e que só o mar podia dar. Oferecer, na verdade. Essas quietudes nunca são dadas. Nada é dado. E foi justamente nesse cenário que os mitos, repetidos se materializaram. Um jeito só dela de deixar as coisas passarem. Normalmente nos finais de ano ela ficava bastante tristonha. Esse apego que se tem à vida - quase adolescente - de não querer que a vida passe. De tão boa? De medo do que está na esquina? hm...
Eram pequenos barquinhos de pedidos perdidos no tempo, nas ondas. Eles se prometiam coisas. O azul, o laranja e o violeta como testemunhas desses sonhos de amanhã. Era difícil de ver o alcance dessas promessas. Nem eles mesmos se deram conta. Um horizonte de sol preguiçoso, pronto a se deitar. E deixar os namorados debaixo d'água, num beijo mergulho de despedida. Ela tinha tanto medo de deixar aquele barquinho atravessar o oceano. Mal podia ver as profundezas de si mesma. Do outro. E tudo o que lhe restava era o desapego inconsequente. Deixar(-se) ir. E se foi... num subir, mergulhar pra lugar nenhum...
Havia histórias naquela embarcação... Só dela. E tudo o que se podia fazer era beijar os lábios molhados do oceano naquela despedida eterna de si mesma. São ritos passados, necessários. desajeitos... E por mais que se queira acompanhar as trajetórias incertas das ondas, tudo o que ela tinha ali era a esperança de que os pedidos - dela e do seu amor - chegassem num porto sei lá de onde e fosse lido e atendido sei lá por quem... Deixara-se... Perdera-se... Tomara...
E de novo, o ano, novo, começava com essas esperanças de menina reacendendo dentro dela. Motivando um respiro longo pra outro mergulho que ela sairia nem sei bem onde. Tantos mistérios nesse mar... e tantos desejos a deixar... Via os sorrisos dos dois ali, naqueles beijinhos e abraços e sussurros semi-escondidos pelo sol, nos seus raios que se deitavam nas almofadas do mar... se espreguiçando para só acordar no ano seguinte. E parecia tão longe...
Ontem eu a vi num fim de tarde chuvoso na praça pôr-do-sol. Algumas coisas aniversariavam dentro dela. E a sua celebração era silenciada por aquele fim de dia nublado. Só dela. Nos olhamos meio tímidas pela estranheza do encontro e nos reconhecemos. Lembranças de um 31 de dezembro na beira da praia. Nos lembramos do amor. Das promessas de menina e dos sonhos de eterno apaixonar-se. Não o vimos ontem na praça... Ocupado com o trabalho certamente. Mas me lembrei bem do remetente do barquinho... Ali, na esquina do teu coração. Cheio de saudade. Quis voltar pra casa. E debaixo daquela chuva nos despedimos, até o próximo 31 de dezembro. Ou num dos portos de si mesma...
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Srta T
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quarta-feira, novembro 21, 2007
conversando com meus botões ... e as botas
É engraçado como a nossa memória é seletiva... de certo modo escolhendouma trilha sonora que a gente coloca pra sublinhar algumas coisas além do que a gente entende... Pois como eu digo o mar sempre me revela coisas pra além do que eu penso entender. Ou mesmo alcanço...
Depois de uma conversa séria com os pés descalços... num rito meu de caminhar pela beira da praia e pedir aos deuses dali e daqui que me mandem um sinal... de qualquer coisa que espero poder - decifrar...
Um sofá só nosso... e um silêncio cheio de mistérios de coração sentido e (des)apertando o peito. Aquele horizonte e um suspiro do passado... "Essa é uma das músicas que eu ouvia quando pensava em você e sentia a tua falta demais..."
E fiquei ali, com o horizonte, 4 minutos que foram eternos ontem, há mais de 3 anos... e continuam aqui dentro de mim... Hoje me dei conta que abri as cortinas... deixando o vento suave soprar aquelas feridas ainda tão quentes dentro de mim...
Deixei chegar o sonho, vivo o amor de tantas vidas, sem ter fim. Sendo esse continuando. Cansada de nossa fuga, da minha fugida, das minhas desculpas. Do medo de ter que decidir. De ter que sentir. Cansei de correr de mim. Deixei me pegar. E peguei você pedindo pra eu abrir a janela... e deixando esse sol me ver, e sentir que o amor é mesmo tão maior. O amor já desvendou de fato o nosso lugar. E gosto de procurá-lo junto de ti... Onde mesmo? Onde a estrela cair...
- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- a gente só queria o amor...
- Deus parece às vezes se esquecer
- ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar
- Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder...
- E se amar, se amar até o fim
- sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar
Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
e agora esta de bem
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar
Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além. Vão dizer
que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
vai cair
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Srta T
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6:53 PM
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terça-feira, novembro 06, 2007
Pessoas, Pessoa!
Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.
Ainda não cheguei perto de me ignorar... Mas há um mistério desse sentir e pensar todo que está no amar. Se deixa de ignorar. De disputar você em você mesmo.
Ontem fiquei surpreendida depois de tantos e tantos pensares, sentires, quereres, desistires, retomares e deixares... olhei ali, naquela linha do tempo cheia de imagens minhas, emprestadas, dele, de outros, de tantos. E deixei corajosamente os meus olhos se fecharem nesse repouso do voltar pra casa e saber de onde vem essa disputa do teu peito com a tua cabeça. Onde você ficou mesmo agora? Onde foi mesmo que te encontrei? E onde e como me tiraste dali? Me sinto aquela Emília cantando Queen e assistindo TV com meu pai... Pousei a Enterprise num planeta em que meus equipamentos não funcionam. Meu leme não responde. E tudo o que antevejo é seu? Nosso?
ninguém responde nos outros mundos? Ou será que eu esqueci de ligar os comunicadores? E você? Em que mundo me deixei? ignoro ainda... e caminho sentindo...
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Srta T
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11:50 AM
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