domingo, maio 20, 2007

mais ....

Manhã de 4a. feira... a Clara... deu uma saudade dela, duas noites de sonhos seguidos com a minha irmã. Arauto do meu sonho de soneca na alma... ela aparece, dona de si... e eu passei o dia com esse aperto, de saudade dela, querendo que ela viesse ao vivo, me dizer, me abraçar.

Liguei pra ela durante o dia depois de ler um email assustado, dela, sobre ela... e me senti feliz de participar. De poder ouvir, dela querer confiar, de sentir... essas coisas que os irmãos tem, mas a timidez assusta os corações mais frágeis.

Fomos para um bar na esquina da casa dela. Ficamos ali, fazia frio... e as duas irmãs, mulheres, agora, sem mais Barbies para despertar as garras uma da outra, nem as disputas pelo guarda-roupa. Tínhamos deixado tudo isso de lado, no carro, acho, para pedirmos a ajuda uma da outra. Ora, cerveja e uma conversa transparente, o que mais poderia ser?

Escutei ela falando dos seus amores e desamores, dos sonhos, das contradições dela, da vida, do mundo, do coração. Puxa... e eu ali, com o coração estilhaçado. Nem podia falar, e a única coisa que saía inteira era "traz mais um escuro pra mim"... ela ficou ali, discursando... e eu tão feliz de poder ouvir, testemunhar...sentir aquele amor todo por ela. Admirá-la aos poucos, inteiramente e ver naquele nó de emoções os fios que a dor tece pra deixar a gente virar gente grande... e que coisa mais bonita.

Escutar a Clara foi um deixar-se que me permitiu voltar ao centro da Srta T... escutar outras vozes... e começar a esperar. Tirar de dentro essa coisa colada. Amarras de antes, que se transformaram nos fios do agora... Rimos, falei pouco de mim, mas pude espelhar. E enfim, esperar...

Voltei para casa, dirigi devagar naquela noite, olhando o céu. Não tinha mais lua. Parece que ela levou, de algum modo, a tempestade para outro lugar... E nem quis ligar o rádio. Fiquei com a música da Clara... ali, quietinha no meu coração, agradecendo essa epifania da transformação... que a vida oferece e a gente insiste em pagar... um beijo na Clara...

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paciência

Essa nunca foi uma das virtudes mais cultivadas no coração. Ao contrário. Eu sempre fiz de tudo para me esquivar dela. Foi assim no ballet em que, depois de duas aulas eu queria dançar como as russas. Na escola e na faculdade... queria sair doutora no dia seguinte... e na vida... bem, aquele papo de ter 18 anos logo seguiu caminho com os 19, 20, 21 e ainda sinto a permanência dessa ansiedade. enfim...

Esses últimos meses tem me desafiado nesse item pouco estudado. Empurrado com a barriga mesmo. E pior que isso... negligenciado pela famosa máscara do "eu tenho razão". Paciência é o sacramento para se viver com paz. Essa palavra, percebi recentemente tem mais ramificações e raízes do que eu pudera, até então imaginar.

Ontem assistindo Little Miss Sunshine me dei conta que é a paciência que nos aproxima das pessoas, da gente mesmo. Invejei a menina que sabia esperar a hora e o jeito melhor de revelar aos seus o que elas tinham de melhor. Em nenhum momento ela se apressou para isso. Não se angustiou, não chorou. E olhei pra ela, com aqueles óculos enormes... ela tinha mais, era mais, muito mais inteira.

Assisti aquela reunião de dramas, de desejos, frustrações... e a paciência, passageira mais cara na combe amarela da viagem, apontava soluções que não são milagrosas, mirabolantes, mas pacientes, cuidadas. Acarinhadas.

E é com esse sentido mesmo que o amor caminha ao lado dela. Fiquei pensando essa noite como eu poderia ter tido mais paciência em relacionamentos anteriores, mas minha pressa em ver as coisas acontecerem me deixaram com os ingressos na mão. E hoje, ao lado do Juliano, me vejo com esses tickets comprados, esperando a hora de entrar no show. Mas estou deixando de curtir essa espera gostosa, realizadora, tranquilizante, da fila. Olho à frente, não vejo as coisas que tem acontecido aqui, tenho desligado outros sentidos. E a paciência não aparece. Tenho ficado com pressa até para que ela apareça, pode?

Tenho cultivado ainda a ansiedade voraz de ter as coisas aqui, do jeito que devem ser, pra mim. E não sei esperar pelas pequenas epifanias. Estou diante do mar, aberto, ventania nos olhos cheios de areia, no ouvido cheio de água do mar. E molhada, não espero o sol sair para me secar. Fico ali, entrando e saindo da água. E sem conseguir sentir a beleza daquela imagem no Rio de Janeiro. De um mergulho esperado. E de um abrir de braços, amoroso, apaixonado, inteiro... Fico ali, na beira da praia esperando, com os pés na beiradinhas da água, sem conseguir me soltar por causa do frio de fim de tarde. E vejo as pessas correndo na praia. E vejo o corpo mergulhado, salgado, com o sorriso de menino, distante, lá longe, assustado, cheio de vontade de entrar mais fundo no mar...

E eu ali, na beira do mar aberto. As nuvens chegando. O sol indo, devagar, paciente, esperando eu ainda perder o medo e a vontade aumentar... e me deixar levar por aquelas ondas... pra onde elas quiserem, sem carta náutica, sem estrela polar ou cruzeiro do sul... E onde ficou mesmo a paciência? Não me lembro de tê-la trazido para a vida. Acho que ainda, de algum modo, fico esperando o mar me trazê-la, numa ondinha discreta... Mas minha ansiedade só me deixa ver as ondas grandes, aquelas que machucam, que arrastam, que vão embora de uma vez. E que levam o pior (d) e para você...

Ele está ali. E olha para mim. E sorri. E me chama, e me grita palavras de criança, gargalha, e me me jura de amor, de paixão. E eu aqui... ainda sem paciência de olhar atenta as pequeninas ondinhas amorosas que chegam, remechendo nas profundezas daquele oceano que desconheço. E me lembro ali do pôr-do-sol no arpoador, dos bilhetinhos, das promessas e das noites de abraço em silêncio... e olho para o mar. Onde ele deixou mesmo a minha paciência?

Uma pena que a gente não traz na bolsa pílulas diárias de virtude para oferecer aos outros quando nos pedem. Mais vento ainda... e eu aqui, tentando deixar a razão calar-se. E deixar-se ir, para o meu coração trazer de volta... calma, paciência, menina... o sol já se pôs e você vai ficar aqui... à beira do mar... ele está ali, Vênus apareceu do outro lado no céu. Lembrou pra você que o amor não vem com manual de instruções e que a sua ansiedade, nada generosa, poderia ficar ali, à beira do mar, apaixonada por ela mesma... e aí, aí sim, você pode entrar na água, de corpo inteiro, mergulhando a alma no sal... purificando... cicatrizando... mas até pra isso é preciso ter paciência... a conquista... nunca é dada de presente...

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segunda-feira, maio 14, 2007

dia das mães

Esse dia certamente faz parte dos nossos dias. Ontem foi engraçado... um sentimento de vontade de voltar pra casa, sem querer voltar. Fui cedo ver minha mãe. Embora já tivesse perdido o tempo da bagunça dos irmãos na cama dela. Café da manhã igual ao que a gente fazia naqueles tempos de presentinhos, cartinhas de amor e coisas que as crianças fazem... - ainda me lembro bem dos desenhos desajeitados que fazia dela. Acreditando que ela era a mulher mais bonita do mundo, embora o desenho não demonstrasse isso exatamente...

Ficamos lá, tomando café da manhã em família. Rimos juntos e repetimos o enredo de anos... eu com meus discursos contra a Igreja - vendo a missa do papa... - meu irmão fazendo piadas de como é o filho (único) mais lindo e gostoso do mundo e minha irmã falando do excesso de trabalho. Meu pai sempre derrubando coisas na mesa e dando o habitual exemplo de glutão. Em algum momento ali eu deixei de lado e passei a assistir minha família. Foi uma delícia repetir o roteiro.

Fui para o quarto da minha mãe com ela. Ia se arrumar e sair com o Gustavo para comprar - o atrasado - presente. Ia dar uma carona aos 3. Olhei pra ela. De óculos, perto da janelinha do quarto onde entrava luz e aquele cabelo dourado já se prateava todo. Vi as rugas no rosto, as manchas nas mãos. E ainda era a mulher mais bonita do mundo. E só os meus olhos ali viam isso. Invejei ela. Com essa maturidade, bom-humor. E me achei tão mais complicada, encanada com a minha mesmice de sempre - intelectualidades frouxas e o coração apertado. Segurava o espelho para ela arrumar as sombrancelhas. Branquinhas como as de nenê. Tenho as mesmas sombrancelhas dela. Mais finas. Ficamos rindo ali da idade dela e da minha. De como as coisas caem, e outras se consolidam. Ouvi ela reclamar da falta de dinheiro, de que se achava feia e em meio a tudo isso ríamos das bobagens que nos dizíamos, das caretas, dos segregos ainda não ditos. Expressos.

Olhava pra ela e ria - os óculos, o espelho e apinça para tirar as sombrancelhas. Foi divertido. Ficamos ali nos equilibrando nas emoções das passagens rápidas da vida. Ouvi mais uma vez histórias de quando eu era pequena. Do meu pai e dos meus irmãos. Lembrei de outros dias das mães em que acordava mais cedo que os outros e preparava bilhetinhos e corações. Senti falta de não ter mais essa cama pra pular cedo de manhã...

Fiquei escutando ela falar do meu pai, do casamento de 30 anos dela... dos dias de praia na Bahia... do sol e do mar. Dos sonhos de amor, de viajar, de conhecer o mundo. Ouvi o falar de tudo isso como se fosse uma música circular gostosa de dançar - que não tinha fim nunca. E deixei ali... o meu ouvido pra me encantar... "Nós construimos coisas tão bonitas... eu e seu pai. Eu amo tanto ele" E olhei fundo naquele azul de céu dos olhos dela. Havia tanto amor ali. Queira um pouquinho pra mim... E só retribuí dizendo um sorriso condecendente. Antes que eu pudesse terminar ela disse "nossa! me emocionei com isso!" E rimos. De novo. Eu repetia o roteiro. Assistia e me emocionava. Uma coisa de criança mesmo. Gostosa de sentir. Na hora, nem pensei nesse papo todo de maternidade, de dar à luz, de ver crescer. Só deu um calor no coração, de pensar que naquela mulher ali tão e mais bonita eu podia ainda contemplar coisas que só as crianças podem ver... todos os dias...

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amortecendo

Tenho sentido esse adormecimento, depois de tanto querer
Olho pra fora, pra dentro, e só o que vejo é a possibilidade de amortecimento completo.
Eu não quero mais. Deixar isso tomar conta é tão assustador, sim... parece que se vai, de mim, pra fora.

É como se, de alguma forma, eu não pudesse mais respirar. Nadando dentro do peito já é tão difícil... pudera nadar em mares que a gente, pretenciosamente, deseja conhecer... é mais que arriscoso. É quase suicídio.

Passei a noite em claro, ouvindo a janela bater, olhando os vultos do quarto. Sentindo as brisas de chuva... lembrava da tarde agradável de domingo, esperando a noite chegar. O céu, com aquele multicolorido azulado, lilás... meia-dúzia de estrelas escondidas pelas milhares que caíram no chão. Fiquei ali, enroscada nos pensamentos sem sentido de dor, ouvindo a minha própria solidão chamar o mundo dele que não me pertence. Sentia as mãos, os beijos, os afagos... e me protegia de tanta coisa... olhava, deitada a imensidão do céu e queria ir embora... navegar naquele azul pra fora de mim... poder respirar aliviada. Como se eu não pudesse sentir mais.

À noite, depois de sonhar com a Clara, curiosamente clareando os meus monstrengos de pensar... fiquei acordada, como disse. Esperando o dia chegar com alguma resposta. Acho que é mais fácil a gente pensar que está aliviada se parar de sentir. Como eu invejo essa possibilidade. Tenho me sentido em frangalhos. Aos pedaços, de novo. Aquela sensação que vivi há 3 anos atrás parece ter voltado. Eu não quero desistir. Mas tem sido tão solitário...

Queria poder pedir, agir, sentir menos, querer menos. Rezar para esquecer, deixar. E nada disso. Só aquele entorpecimento depois de um choro longo, doído nas almofadas. Como se, de algum modo, as lágrimas pudessem arrastar para fora de mim essas lembranças tortuosas, doloridas. E purificar. Senti um vazio depois do choro, como se não houvesse mais nada dentro de mim, nem a dor. Só esse sono, essa exaustão de querer, de tentar. E de não conseguir mais esperar. Tanto por viver... por sonhar. E tantos desejos a realizar nesses beijos, carinhos. E tudo o que eu senti ontem foi esse amortecer de dentro. De querer descansar. De quase poder parar. E deixar isso ir. A gente não perde aquilo que nunca teve... Isso dói mais - a sensação de nunca ter tido... e de imaginar, por minutos de amortecer... que talvez, mesmo, eu nunca venha a ter... e seja só um sonho bom, um sonhar de menina apaixonada. Infantil... desses que a gente carrega no peito pela eternidade...

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quarta-feira, maio 09, 2007

soprinhos...

Algumas vezes eu tenho a sensação de que, na minha ausência completa de qualquer possibilidade de controle... tudo está fora, perdido...
Esfriou... passou um tempo de calor excessivo, sol quente no rosto deixando a vista cega e o corpo cansado...

Vi ali, na rua molhada, indo longe... pra mim e de volta... a calmaria dos tempos de inverno, a tranquilização que esse silêncio de dentro traz... soprinhos no pé do ouvido pra deixar a alma se aquietar...

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segunda-feira, maio 07, 2007

passeios de fim de lua

Esse fim de semana... que coisa. Tempestades de sábado terminaram na virada cultural que viraram cervejas no Emapanadas, que viraram chá de erva-cidreira no Frans... 2 da manhã aterrisando em casa, na pontinha dos pés... luzes apagadas. E mais nada. Só a sensação de que não se pode fugir de si mesma. Das coisas que a gente mesma traz para a própria vida. Ainda sinto no coração a Fabi falando... doeu ver a minha amiga assim de novo.

Domingos de feira, gente mal-educada e bagunçada... coisas que não se espera, mas se vê. Leituras de samurais... sol na sala. Entupida de almofadas e pantufas preguiçosas. Tempestades iam e vinham... eu olhei. Nada de lua ainda. Ela tinha ficado na balada de sábado, me olhando pelo meio dos prédios confirmando a reflexão anterior... eu não vou ter respostas nessa hora mesmo!

Ontem resolvi dar o fora de casa. Liguei para Márcia. A gente ia jogar conversa fora... ficar à toa e se espreguiçar no sol. Fomos para a minha praça favorita. Eu queria muito mostrar essa praça para ela. Ficamos ali, deitadas na grama, falando dos casamentos, das crises, dos sonhos e das angústias. Ficamos ali... Umas cervejas pra animar o papo. Era engraçado estar ali com ela. A Márcia é testemunha - sem sempre silenciosa - das minhas peripécias mais contraditórias e intempestivas. É um tipo de cumplicidade maior que pode existir. Complicado de explicar. Fácil de sentir quando estou junto dela.

Tomamos duas "eskóis" cada uma, rimos e falamos todo o tipo de besteira que duas mulheres, recém casadas, maluquetes e exigentes, podem falar. Nada ficou de fora. E pra minha surpresa, a gente não parava de rir um minuto. Fiquei me lembrando há quanto tempo eu não tinha uma tarde dessas com risadas. E foram muitas. Fazia tempo que a gente não se matava assim. Esses risos infantis que deixam os adultos constrangidos nos espaços públicos. Ora... Nisso, posso garantir, a escola que trabalhamos foi muito generosa. Estivemos por muito tempo sobrecarregadas com as humilhações, pressões e etc e tal que nossa alternativa de subversão era - e ainda é, creio - o riso. Interessante como alguns hábitos são cultivados. A Márcia tem essa capacidade de trazer uma poesia diferente na minha vida. Uma espécie de coisa de criança que faz a minha (pseudo)adultisse se derreter e me centrar. Escuto as broncas dela, as queixas, as desilusões... e me vejo ali. Espelhada.

Fim de lua ou não. Deixei a Marciota no metrô... o sol tinha ido. A Lua aparecia, já pelas metades dela. Em meio às nuvens. Linda. OLhei pra ela e para o Juliano no carro. Havia tanto para silenciar ali naquele olhar. Fiquei e insisti. Esperei. A ternura aparece dos jeitos tímidos do outro. Sem jeito. Sem condições de dar mais. E eu ali, na minha exigente lua que ia e voltaria daqui há algum tempo... sem avisar.

Voltei pra casa e não dormi. Pensei, pensei... onde eu caibo nisso tudo? Há vagas? Ou a vida já é lotada demais de coisas. De gente, de dor, de saudade e de angústia. Ainda ne vejo, aqui, em casa, esperando o visto permanente na vida. Só ganhei ainda o de turismo. Tomo café. Escrevo. Lembro dos passeios de fim de lua no fim de semana e vejo as nuvens se afastando da tempestade que se deixa em paz... e eu fico aqui. Sem conseguir mais esperar...

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sábado, maio 05, 2007

E a lua mesmo?

Ontem me peguei olhando para o céu... isso acontece há algum tempo especialmente em dias de lua cheia...

Fiquei olhando pra ela, como se, de alguma forma, as perguntas que eu sempre faço tivessem naquele brilho a resposta... quanta bobagem me passou ali...

Tenho olhado para uma ferida, cada vez mais profunda, que cava buracos enormes... e que tem, ultimamente, deixado a superfície esburacada... dói muito, e cada vez mais. E mais ainda pela percepção, cada vez mais nítida, de que nada do que eu queira, ou faça, terá uma repercussão efetiva. Talvez seja mesmo essa a "mágica" da frustração... nada se faz... nem se pode, e agora, nem se deva. Estou cansada. De tanta coisa.

Acendi um incenso dentro de casa. Inalo esse perfume do mesmo modo que pergunto à Lua se ela tem algo a me dizer. Se ela, ou qualquer outro astro lá em cima tem algum controle sobre o que eu sinto. E sobre o que o outro sente. Ora, seria até irônico pensar que alguém o controla. Ele, que teme tanto o descontrole de si mesmo, de sua inútil e infantil maneira de se portar e de se descomportar. Senti nojo. Me lembro da Lua... e mais nojo ainda. Como se pode permitir tantas máscaras, iludidas em si mesmas para afastar, e justificar e completar e caminhar, cada vez mais pra longe. Olho pra fumaça do incenso aqui... ele invade o quarto, a sala e a cozinha. Entranha-se na vida alheia. E os outros nada fazem pra isso... não o impedem, não disputam com ele esse poderzinho territorial. O ponto principal é acendê-lo. E nada mais. De novo, olhei pra Lua na 5a. feira... ela crescia, majestosa à minha frente... e escondia charmosa as suas esburacadas cicatrizes - feridas... doídas do impacto de astros metidos a besta. Cometas que invadem, tomam, estragam tudo com essa luz tão bonita... e somem... Me perguntei se eu era capaz disso... mais... se eu de fato queria isso. Para que? Para preservá-lo da certeza de que ele não sabe - e me parece cada vez mais que não quer - ser alguma coisa a mais que um cometinha bestalhudo... se relacionar em profundidade... é ser tão responsável assim? Ora... claro... e nada mais parece se clarear dentro de mim, a não ser a certeza que estou, a cada dia, mais, mais e mais iludida. Desejando manter essa ilusão daqui, de dentro de mim mesma. E não sei mais tirar isso de fora.

O incenso acaba... ninguém parece perturbado aqui dentro. Só eu. Olho para o redor dos objetos. Há um Dexter no meu computador. Ele aponta para a janela. É isso, talvez. As coisas estejam demais aqui dentro. E eu esteja, profundamente exausta, cansada de tudo. Deixando de acreditar. Fé não pode ter esforço. E eu vejo que tenho feito força demais...

Ah, claro. A Lua? sim... continua ali, deixando todo mundo com a ilusão de que ela controla alguma coisa... Bela maquiagem para os fracos de si mesmos... que temem tanto o seu próprio deixar-se... bela maneira de ir embora sem precisar se despedir. E sem se comprometer... deixo lá. No canto, vejo a Lua indo... o incenso apagando, eu, cansando, quase deixando de ir... de uma vez...

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quarta-feira, maio 02, 2007

será que eu consigo?

Será que posso? Esperar, ver o milagre acontecer? o u o milagre é apenas a ilusão de que posso esperar? Construída... sentida... deixada ali. Em espera na fila de desejos que só cresce...

Medo... e a expectativa de não chegar... eu ficar a vida, esperando. Sem ver...

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domingo, abril 29, 2007

feriado de molho

Ontem tirei o dia para fazer nada. E é especial quando a gente deixa a vida levar, o dia, as coisas correrem naturalmente - preguiçosamente. No frio, o chimarrão.
Meus ex-alunos vieram me visitar: Zé Paulo, Tamira, Fred e o Fernando. Já não são os mesmos, imaginem, eles tinham 10 anos! São transformações abertas, porosas ao mundo. E que delícia participar disso - mesmo à distância.

Ficamos em casa. Jogando conversa fora, falando da vida, de planos, de frustrações. E de muita ansiedade. Ouvia a deles e escutava os berros da minha aqui dentro. Foi gostoso.

E na ida... uma muvuca básica no Pacaembu, só para dar ares de aventura a uma mera carona pra casa. E risadas misturadas com a saudade de sala de aula e com o desejo de que ela nunca mais volte e só dê lugar a um futuro esplendoroso, que pretendo testemunhar. De cada um ali.

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quarta-feira, abril 25, 2007

de molho

De molho no orgulho doído. A gente erra mesmo e só o que nos resta de quase-salvação é admitir. Fiz essa lição de casa bonitinho para o Juliano esses dias. Essa minha - danada - incompetência de administrar as contas... Descontos emocionais à parte é bonito ver uma relação amorosa tomando contornos mais profundos, humanizados, contraditórios e intensamente apaixonados. A gente vai emergindo do outro, no outro...

Estou satisfeita com meus lampejos de humildade. Nada fáil para uma leonina. Enquanto isso, na sala de justiça, fico aqui, arrumando a caixa da cabeça com leituras complicadas de antropologia, história, e uma pitada de poesia maluquete... esperando a nevasca passar.

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quarta-feira, abril 18, 2007

 
e ver a noite chegar...

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se despedindo...

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vontade de eternizar...

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pôr (d)o sol...

A parte boa do dia. Aulas ao fim, terminados os compromissos. Fugi correndo para pegar o pôr do sol na praça. Estou virando colega dela demais. Passo ali todos os dias e recordo muita coisa. Muita! Agora que o horário de verão acabou eu não tenho mais a rapinha do sol. Ele foge antes. Acorda mais cedo que eu. Nada mais justo.

Fiquei ali. Cheguei cedo, sol alto. Pessoas pelas escadas. Cachorros que levam os donos para passear. Uma brisa que trazia no colo o vento gelado do outono. Quase de noitinha. Desci do carro e fui caminhando solenemente até o meu cantinho. Já posso dizer que é meu. Sempre me espera.

Levei minha garrafinha de água pra molhar a garganta depois de um dia (quase)lotado de coisas pra fazer com a voz... Abri um pacotinho de clube social. Integral (quanta mania de saúde! aff...) Fiquei ali quase uma hora. Vi o disco laranja. É a única hora do dia que eu posso olhar o sol. Não me machuca os olhos. Olho de frente, de cabeça erguida. COm vontade de colocar aquela luz, aquela grandeza toda aqui dentro.

Esses dias o Juliano explicava - terapeuticamente - o significado das infinitas fungadas que eu dou nele... vontade que ele se misture comigo. Isso sempre. De ter toda essa coisa do Nosso mais e mais entranhado em mim. Quase funguei o sol hoje. Que delícia. Mas ele é grande demais para a minha mania de grandeza leonina. Mesmo com o sol no signo. É demais.

Me contentei ali. Olhei a luz cheia de charme se esconder atrás da nuvem. Sedução pura. Mostra escondendo. E deixa a gente ali, se apaixonando platonicamente. Sem nenhuma chance. Rabisquei no caderno. Não tinha nada a dizer. Uma paz esses dias. Um respiro longo. Sinal de que é preciso por o sol aqui dentro. Interiorizar a grandeza e a compreensão de que o dia e a noite só existem um pelo outro. E respeitar a noite na gente. Saber esperar a aurora. E receber de corpo quente o vento gelado da vida. Que de manhãzinha começa a soprar mais caloroso... até o meio dia, insuportável.

Acho que quis dizer isso à minha mãe hoje. Não consegui. Me deixei ali na praça? Agora o sol se pôs. E eu aqui, pondo dele em mim. No meio da noite.

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estranhezas

Hoje eu resolvi ter uma conversa com a minha mãe. Falar desse distanciamento dela. Da falta de proposição, apesar dos telefonemas todos. É engraçado como a gente vai se escondendo ao longo da vida. Coisa esquisita essa. E nem sei mesmo se tem propósito qualquer.

O mais curioso é perceber-se pelos olhos dos outro. Mais que desafiador. Enfim... Eu nem direito como começar esse texto. Hoje cedo pedi para que ela viesse tomar café em casa. Sinto saudades. Das conversas, do cheiro dela e dessas coisas que só as mães fazem pela gente. Ela está com medo de se meter na minha vida. É complicado demais explicar que o volume de trabalho, a ocupação interminável não permite visitas constantes. E mais: que a visita não tem o propósito da "peregrinação geriátrica" como diz o meu sogro. É mais. Muito mais.

Tem todo um aspecto metafísico nisso: a saída da casa dos pais. Não se trata de psicologizar as coisas, mas de perceber uma outra dimensão dos ritos de passagem. Não foram feitos no meu caso. Rompi. Saí. "Foi escolha sua". Sei. Mas isso não me deixa mais infeliz, em nada. Ao contrário. Crises não destroem. Desmontam. E talvez essa desmontagem seja difícil demais pra ela.

Tive que ouvir algumas coisas - previsíveis - outras surpreendentes. A terapia tem me distanciado. Mudado demais essa pessoazinha que eu sou. Ora, faz tempo. A diferença é que a pessoazinha não se mostrava nas suas crises. É mais fácil, como dizia esconder-se de si mesmo. Que dirá dos outros. Tão ignorantes das próprias cavernas, esconderijos.

Sobre meu comportamento defensivo. Puxa, estava pensando se estou de fato tçao defensiva assim com as pessoas. Por que? Talvez só uma vontade de ficar aqui, em silêncio apesar de todo barulho fora de mim. Vontade de me olhar, me descobrir, desabrochar. Sem temer. Mas o medo é bonzinho, até certo ponto... ajuda a gente ser prudente. Difícil estabelecer fronteiras... existem?

Quem me vê afinal? O que acontece com a minha mãe? Mulheres. Duas. Adultas. E não há mais jogos a fazer. Ou só não aprendi as regras do novo. E pareça qualquer movimento meu - ataque. Só colo eu queria. E poder sentir sinceridade ali. Sem metades. Sem esquivas e discursos arranjados. Nada. Só transparentes...

Mas deixei a coisa rolar ali. Ela tomava café - suco de maracujá! - e comia um pãozinho com manteiga, outro com creamcheese. Olhava pra ela. Cabelos mais brancos. As rugas aparecendo no canto dos olhos. Mas é tão bonita essa mulher! E percebia naquele gesto de comer e falar uma traiçoeira brincadeira - ser mãe te dá imunidade a algumas coisas. Mas os filhos aos poucos sabem o antídoto. Deixei ela falar. Ouvi. Disse que ia pensar.

Pegamos o carro e ela dizia que estava doente. Mas que não era nada sério. Imagine se eu falar dos meus exames! ai ai... estava mais camuflada. Dentro do carro, dirigi devagar. Ela sabe que eu sou rápida na direção. Deixei ela no centro e abri uma declaração dessas que a gente faz com 5 anos de idade e depois vai desaprendendo. "Mamãe, eu te amo muito, viu? Nunca esquece. Tu tá sempre no meu coração e quero que a gente continue assim!" Ela nem me olhou nos olhos, acho que estava emocionada. Disse "a mamãe também"... Me deu um beijo, saiu do carro, um tchauzinho tímido pela calçada escura. Perfeito para aquela timidez... Businei. Deu saudades. Não de casa. Mas de uma fase que a gente perde mesmo. Mesmo. Não sou mais criança.

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conversando no trem....

Segue o link... texto bem escrito. Faz pensar. Postei um comentário ali.

http://www.coletivo.com/2007/04/conversa-de-marreteiros.html

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segunda-feira, abril 16, 2007


Acordei pensando no meu domingo. Eu adoro domingos desde que conheci o Juliano. Ontem foi a comprovação de que - de fato - eles podem ser maravilhosos. E por quase nada. Por pouquíssimo. Pela simples sensação de que no mínimo, no detalhe, no sublime... as coisas se revelam. E acontecem.
É preciso dizer, sem machucar. Se colocar sem assombrar os outros. E esperar. E receber. Milagres cotidianos, tão banais que nem seriam mencionados à exceção do brilho no peito que ele deixa. Filosofia não... transcendência do eu. Maturando...
Esse gostinho de poder sorrir por dentro. E ver que esperar tem valido a pena. Uma hora, acontece. Sorte sua se estiver ali pra testemunhar.

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domingo, abril 15, 2007

Ontem reencontrei o Vinícius. Depois de quase dois meses após a sua defesa de mestrado. É engraçado sentir que uma pessoa faz parte assim da sua vida mesmo se você fica todo esse tempo sem ver. Eu tenho reclamado. Sim. Há tempos que a gente não se vê com frequência e meus impulsos leoninos de apego aos grandes amigos não compreende a frase clássica da modernidade "a vida tá uma loucura". Ridículo. Principalmente por que eu repito isso com frequência às reclamações dos meus amigos.

Foi um reencontro curioso. Eu, Max, Vinícius... se reconhecendo ao longo de um processo de 10 anos de convivência - e testemunhos - interessantes. Eu tenho muito amor por eles. Admiro-os como homens, como pessoas, amigos, namorados. Acho bonito vê-los ao lado das queridas.

E por vezes, em meio a uma, duas cervejinhas... fico ali, em silêncio comigo agradecendo pelas presenças... Ontem eu quis ir sozinha nesse churrasco. Estava com uma vontade de sumir do mundo. Mas o Juliano insistiu para ir comigo, fazer companhia e essa coisa toda de casal que a gente cultiva - e que é super bonito. Eu quase disse não. Tenho vivido um esforço de dizer os meus nãos sem parecer campanha feministas brega e despolitizada. Na real... eu tenho tido vontade de ficar cada vez mais sozinha. E isso não tem nada a ver com ele. Nem com mais ninguém...

Fomos e eu entrego as chave do carro demodo habitual. Não quero dirigir com ele mesmo dando pitacos ou se contendo pra isso. Não preciso. Tenho evitado confrontos de infantaria. Chegamos lá e eu com mil minhocas na cabeça sobre meus exames médicos. Quando a gente convive com alguém não se pode mesmo esconder nada. Eu tento fazer essa encenação com os meus amigos e a minha família. Sempre dá certo. Mas meus dotes artísticos com o Juliano tem ficado mais limitados.

Saímos tarde de lá e eu evitando a mim mesma. Só tinha vontade de ficar na estrada. Andar. Tomar o vento no rosto. Sair por aí. Entupir a casa com livros. Comprar vinhos. E esquecer que eu preciso ser assim.

Tenho saudades da faculdade. Não da época, ou do local. Mas de uma convivência mais levem divertida, apesar de todas as crises. Estar com os meninos ali, de alguma forma, me trouxe esse respiro de volta. Voltava aos poucos a estar com a cabeça na direção do horizonte... olhando no olho, respirando e rindo. Meu apego é tão grande qeu chega a me dar impressão que não saberia sair mais de mim, nem por esforço intelectual. Não sei mesmo, se de fato, isso é possível para alguém.

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Tenho andado de molho escrevendo... Nada de significativo exceto pelo fato de outra vez, mergulhar demais. SObre o feriado da Páscoa... melhor não dizer nada. Há tempos esse feriado não diz nada pra mim. Nem "coma chocolate pra caramba até morrer". Na verdade, eu me revolto demais com esse papo culposo da morte de Cristo. Antes de mais nada se vive há milênios, num crescente de culpa e martírio porque ele morreu. Não morreu por mim, por nós. Morreu por ele. Numa proposta de transformação e exemplificação (se assim quisermos dar o tom religioso) que não diz nada a respeito da gente. Sobre os aspectos históricos... melhor nem levantar a bola. Messias aos montes com promessas de salvação num contexto absolutamente promissor para narrativas fantásticas.

Acredito no Cristo. Mas não nesse que vejo na "semana santa". Francamente... Mas procuro entender porque as pessoas ainda precisam disso, dessa imagem de filme de terror ensanguentada e mutilada, pacificada e resignada.

O ponto é que a Páscoa é pra mim de fato um monte de dias para colocar a cabeça no lugar. E nem isso aconteceu nesse período. Ao contrário. Quase eu me deixo ir, para algum lugar nada conveniente.

Voltei do feriado sem descansar. Feliz de ter ficado perto de gente tão bacana. Mas com aquela vontade de ir embora para o meu mundo. Acho que perdi o endereço dele também.

Andei amargada esses dias. Em silêncio, querendo deixar de lado essas coisas que a gente se esforça tanto para entender e aceitar. Honestamente... cansei. É mais que uma coisinha adolescente de "estou de saco cheio do mundo". Ao contrário, trata-se, acredito, de priorizar o que eu quero de verdade me preocupar. Onde quero depositar meu foco de transformação e inquietação. É quase um ligar o "F" de forma profissional. Sem apegos ou crises de "não vá embora" "não faça isso", "não isso", "não aquilo"...

E é com todos. Tenho olhado as pessoas ao meu redor e pensado que todos nós temos os nossos "querer e poder". E nem sombre podemos. E o que eu tenho com isso? Nada... É um crescer de respeito dentro de mim. De aceitação. E de não esperar mais pelas pessoas. É, de fato isso pode parecer muito arrogante. Mas não é... e quem pensar ao contrário. Ok.

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quarta-feira, abril 04, 2007

Stand by me

O Claudio. Vulgo Pico. A gente se conhece desde os 6 anos de idade. Pãtz! São tantas histórias com ele... ele é uma testemunha e tanto dessa minha vida cheia de crises, minhocas e empolgações. Viu o lado negro da Srta T antes que qualquer um...

Eu, quando éramos crianças admirava muito ele, e ainda sustento essa admiração com todas as minhas fibras. O Pico sempre foi um cara inteligente, sensível demais... e, com eu, com esse sentimento de estar deslocado do mundo. Acho que ele foi o meu primeiro amor. A gente brigou muito depois na adolescência, mas sem se desgrudar. Quando tinha 12 anos, assisti o filme Stand by me e chorei horrores pensando nele! A gente nunca mais tem amigos como se tem aos 12... Outro dia passou o filme de novo na televisão. Chorei outro monte. Mas não consegui ligar pra ele pra dizer isso. Demorou quase uma semana para que a gente se falasse ao telefone.

Na infância o Pico tinha todos os brinquedos, as viagens, o pai dele era o dono da escola que a gente estudava. Eu tinha uma certa inveja de tudo isso, a família da gente, recém-chegada em São Paulo tinha muitas privações materiais. Enfim... passaram -se os anos e o Pico está trabalhando na FNAC. Nunca achei que fosse ver isso. Achávamos, quando crianças, que ambos iam ser da indústria de cinema, ele diretor. Eu atriz. A gente até brincava com os nomes dos nossos ídolos. Thais Lucas e Pico Spielberg. Adorávamos todo o tipo de ficção, fantasia. Ele foi quem me apresentou o Monty Pyton. E depois, anos mais tarde, o RPG. E com isso tudo um grupo de amigos que eu amo de todo o coração hoje, o qual eu não posso imaginar a minha vida sem aquela risada compulsiva e boba, o tempo todo.

Devo muito a ele, talvez a maior amizade, mais extensa, plena, verdadeiramente cúmplice que a gente tem na vida. Não importa se a gente fica anos sem se ver - agora isso não acontece mais...!

Ontem fui ve-lo no emprego. Estava com uma saudade aguda dele. Acho que o Pico é uma das poucas pessoas, de fato de um círculo muitíssimo reduzido, que me deixa espontânea. Eu estava com saudade dessa sensação. Apesar de ter sido o máximo a sala de aula ontem... eu queria mais. Cheguei no Shopping Morumbi e corri para a Fnac. Queria que ele não visse a minha cara de "estou morta hoje com esse calor" e dei um jeito rápido no cabelo, passei um batom. Cheguei na loja e - com a claridade toda da luz - não enxergava direito. Encontrei! Me aproximei do moço e vi que não era ele. Ok. Perguntei: "O Claudio Villa?". Resposta: "CD ou DVD?" Fiquei uns 20 segundos olhando para o moço... como assim? "Não. Ele é meu amigo... trabalha aqui". "Ah! É que a senhora está na sessão de música!". Pãtz...

Fui ao balcão de informações e perguntei onde ele ficava. Obviamente. Nos livros. Subi correndo. E lá estava o Pico. Com o uniforme da loja, mexendo no balcão. E sempre me recebe com o sorriso mais doce...com um olhar de "seja bem vinda ao nosso pequeno, mas verdadeiro universo". Era exatamente isso que eu estava precisando. Abracei ele demoradamente. Foi uma delícia. Fiquei ali, quietinha. Quase chorando. Ele perguntou se eu estava bem. "Carente de amigo". E foi só o que eu consegui dizer...

Ora. A gente nunca mais tem esses amigos, mas se puder mantê-los... melhor para você. Conversamos um pouco. Deveria ser umas 20:30. Vi que ele queria me dar atenção, mas a loja o chamava. Clientes com perguntinhas bobas. Francamente. Dicas de leitura. E sabe o que mais me tocou ali? Eu vi o quanto o Pico é generoso. Ele transforma tudo o que está ao redor dele. Um cara como ele, cheio de coisas brilhantes, ali, dando o melhor. Melhor mesmo. Carinho, atenção. E aquela leitura toda acumulada desde que a gente começou a ler.

Na hora eu me lembrei de um trabalho que fizemos para o Sidão, nosso professor de redação da 6a. série. Tínhamnos que contar uma história como se fosse um programa de rádio. Para isso... sonoplastia. É claro que a gente fez o trabalho juntos e que a nossa megalomania de efeitos especiais estava ali.

Saí de fininho da loja, com vontade de ficar. Dei um rolê até o Market Place e fui no Braumeister. Minha cervejaria favorita. E fui reencontrar o gerente. Marquinhos. Abracei a loja inteira e tomei um chopp escuro. Fiquei ali, escrevendo. Arrumando a agenda e pensando na minha trajetória desde muitos anos. Ando reflexiva. Ontem a vontade de sumir passou. Fiquei quase 1 hora na cervejaria batendo papo com os garçons e o gerente. Matando saudade de uma pessoa dentro de mim. Era bom me ver ali, espontaneamente viva.

Dei outro giro na concorrente - a livraria Cultura e voltei para o Shop. Ver o Pico. Fiquei ali enrolando e vendo ele arrumar, orientar. Sei lá. Tantos pensamentos ali. Pensei como é louco a gente conhecer uma pessoa há mais de 20 anos e ainda admirar, se surpreender. E se maravilhar. Fiquei quietinha ali, agradecendo à vida por ele ter sugido. Meu primeiro amigo em São Paulo.

Levei ele pra casa e fiquei escutando os sonhos de escritor dele. Ele escreve bem demais! Desde sempre. Contei algumas peripécias das minhas aulas e ele riu. Claro. A gente sempre riu um do outro. Deixei ele em casa. Foi tão rápido. Me despedi. Errei o caminho de volta e quando atingi a Marginal Pinheiros fui me lembrando da formação de todo o cenário na minha vida. Saudades do ginásio, Pico... mas que maravilha ver você ainda tão perto do meu coração. Chorei de novo no carro. Eu ando sensível com essas coisas. Mas foi tão gostoso... o vento. Uma música de fundo, quase inaudível. E aquele monte de lembranças de aventuras, de mundos fantásticos. De Duna, de Star Wars. De tudo o que a gente ainda carrega um do outro na alma. Obrigada.

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