quinta-feira, maio 22, 2008

Meus novos Indiana Jones


Há 19 anos atrás meu pai me levou para assistir no cinema Indiana Jones e a última Cruzada. Desde sei lá quando ele me mostrou o mundo dos heróis. Coisa engraçada que uma menina como eu fosse incentivada a ver os filmes de ação, guerra e toda a sorte de aventuras e tiroteios.

Me lembro da primeira vez que assisti Os caçadores da Arca Perdida. Foi na praia com o meu avô e ele. Foi um dia desses em que minha mãe e minha vó queriam dar uma volta e na época, recém lançado o video-cassete, ele alugou o filme pra mim dizendo "Esse filme você vai gostar de ver!". Ainda me lembro da minha mãe dizendo pra ele baixinho se o filme não era muito "pesado" pra mim...

Lembro bem que a gente se divertiu muito e na semana seguinte ele alugou O templo da perdição. Eu descobri. Estava completamente apaixonada pelo Indiana. Mais ainda quando relacionei que ele era também meu outro herói, Han Solo. Engraçado como essas coisas povoam as fantasias da gente. Eu fiquei anos recortando reportagens de jornal com ele e lendo tudo o que podia sobre arqueologia. Não posso dizer que não foi uma influência na minha escolha em ser historiadora... Mas mais que isso, essa influência meio mágica dos contos de fada do meu pai.

A gente nunca foi assim muito sensível um com o outro. Acho que perdemos isso quando viemos a São Paulo, deixando a família, as coisas boas, tudo quase, em Porto Alegre. Ele sempre foi um pai muito amoroso, desses que adorava fazer carinho, brincar e dar presentinhos. Éramos muito próximos. Mas isso se perdeu nessa vinda a São Paulo, e acho que ficamos até hoje reinventando esse jeito de se amar.

"A Thais é a minha companheira de televisão", ele dizia aos amigos adultos e eu me orgulhava muito de ter esse estatuto tão especial, já que a minha mãe não curtia esses monstrinhos e mundos de faz de conta. Adorava naves espaciais e cheguei a cogitar de ser astrônoma ou alguma outra coisa que me levasse ao espaço. Acho que isso ficou pro meu irmão...

Mas voltando ao Indiana... Me lembro bem do dia em que ele disse pra minha mãe "hoje vou levar a tati pra ver o Indiana Jones comigo". Vibrei! Adorei a idéia de ver isso em tela grande e ficar cantarolando a musiquinha clássica durante dias (incluindo o caminho até o cinema). O mais incrível de ver esses filmes com o meu pai é que ele entrava no espírito da brincadeira, todas as perseguições de carro, tiros, escapadas fantásticas e todas as mentiras (im)possíveis que o cinema é capaz de criar arrancavam risadas dele! Os comentários, as conversas que ele tinha com os personagens e as interferências nos efeitos especiais... tudo isso me deixava ainda mais feliz de poder ver um filme desse jeito, de poder estar próxima dele apesar de toda a dor que ele carregava por ter vindo pra São Paulo. Acho que nesses momentos de cumplicidade com o universo dos heróis a gente dizia muita coisa um pro outro sem saber... enfim.

Tenho saudades de ver esses filmes com ele. Há muitos momentos cinematográficos que marcaram. Sou capaz de lembrar até os comentários dele... as cenas que ele gosta...
Ontem foi a minha vez de tentar retribuir os favores... Convidei o grande para assistir a pré-estréia do Indiana Jones comigo. Pouco ligava em saber quem ia comigo. Éramos nós dois com certeza. Havia um ciclo importante a se fechar nisso. Fiz questão de sentar do lado dele depois, e comentar e rir e gritar e aplaudir na pré-estréia ao lado do meu pai, como os verdadeiros fãs sabem fazer. Foi um jeito de voltar há 19 anos atrás assistindo a Última Cruzada. E mais, de dizer, desse nosso jeito desajeitado que ele é o meu grande companheiro de televisão e de muitas outras coisas.

Na semana passada foi aniversário dele. E não hesitei em gastar um dinheirinho comprando um presente bacana. Fomos depois ao show do Dominguinhos, uma figura especial que toca as músicas do nordeste, com as quais eu cresci ouvindo. Houve uma identidade ali, silenciosa, que me emocionou. Por mais que esse mundo nordestino esteja distante de mim na prática, no meu dia-a-dia, ele está aqui dentro. Eu sabia as letras das músicas, as melodias.

Fiquei olhando em volta. A minha família toda ao redor. Tanta história ali. Tanta coisa atravessada juntos. Essa cumplicidade que fortaleceu a gente e fez tantas outras coisas calarem em nome desse amor... Me lembrei muito das nossas idas ao aeroporto de Porto Alegre ou à rodoviária. Houve uma ocasião que pedi à minha mãe que comprasse sapatinhos novos, como os de boneca. Mas com verniz. Um rosa e um preto. Com aquelas fivelinhas e lacinhos. Pedi para ir ao aeroporto com ela só pra mostrar ao meu pai os meus sapatos. E nesse dia quando ele chegou de mala e com aquela cara de cansado cantava pra gente uma das músicas do Dominguinhos

Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
Que bom,
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim



E isso se repetiu muitas vezes na minha infância até a gente vir pra cá. Na novela do Roque Santeiro, nas músicas do Luis Gonzaga. No chapéu de couro, nos filmes e na literatura de cordel que ele sempre lia. Nos repentes que ele criava pra entreter a gente e fazer a minha mãe rir... Nessas duas últimas semanas tanta coisa do meu pai voltou assim, de tudo e inteiro dentro de mim. Deu saudade. Uma admiração que se ampliou por dentro do peito, numa onda de gratidão por tudo o que eu sou hoje, pelo que tenho, pelas coisas que fascinam. Pelo estudar, pelo batalhar, pelo rir e brincar e ser espontânea nas minhas demonstrações, apesar de ele ter ficado depois tão mais fechado.

Vi esse homem desfilar as suas histórias ontem pra mim. E me emocionei de poder fazer parte desse filme. E nele, ser uma personagem importante, cheia de coisas ainda por fazer e contar. Fiquei olhando ele no show e sentindo essa alegria desajeitada de querer retribuir e dizer tantas coisas... Me dei conta que essa mistura toda que eu sou e essa idiossincrasia de personalidade se devem, e muito, a essa presença de Indiana que ele é... uma mistura de tantas coisas e cheia de sutilezas que eu ainda aprendo a perceber e a entender. Hoje, 19 anos depois e mais 29 depois... vi tantos indianas na minha vida se passarem, tantas trilhas sonoras, efeitos especiais, aventuras, acidentes de carro, brigas, incêndios, e muitas outras corridas... Não encontrei essa arqueologia dos filmes, mas achei um caminho meu, profissional, povoado de histórias, minhas e dos outros. Achei as minhas paixões, naves espaciais, ainda que sem sair desse planeta. Não participai das lutas entre o bem e o mal e não viajei à Europa ou ao Egito para encontrar algum tesouro perdido ou fazer a grande descoberta científica do século. Também não saltei de aviões e botes salva-vidas em cachoeiras e penhascos... Mas tenho muita coisa nessa maleta pequena do meu coração. É bom ter um aconchego pra voltar. Aqui dentro. Nessa mistura de sonho com memórias e os "momentos preciosos" que a minha mãe sempre sinalizou onde procurar.

Todo esse fantástico, papai, obrigada. E sinto saudades da gente... No sonho e na realidade. E ansiando pelas nossas aventuras nessa vida...

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sexta-feira, maio 16, 2008

só...


Tenho acompanhado um blog recentemente que tem me fascinado muito. Não só pelo texto, mas pela transparência dele. É uma leitura cristalina de um sentir muito profundo. Tímido. E acho que ele tem traduzido bem as coisas que vez em quando eu me pego sentindo... Mais que isso. As imagens reluzem muito do que se passa aqui...


Tenho andado nessa escuridão achando que enxergo alguma coisa? Será que todo o caminho que eu percorri está completamente vazio? Será que eu não vejo nada? E fui assolada por essa dor, esse pulsar amargo, que adormece, me esvazia, me encolhe... Olhei em volta e só via a mim mesma. Só. Sem esperança de esperar. Sem nada. Nem um instante de respirar, só esse aperto.

Pensei em sair correndo. Pra qualquer lugar fora daqui. Longe desse sonho. Desse querer viver. Não sabia mais nada. Não (ha)via mais nada. Em canto nenhum. Um apartamento vazio. Um coração em abandono. Uma jogada de toalha aqui e ali que deixam esse gosto amargo nas palavras.

Eu olhei as ruas. As pessoas. Os bares. Gente aqui e ali. Muita fumaça. Muitos olhos perdidos tentando encontrar sei lá o que. E essa angústia no peito. Disse pra Lúcia que eu poderia escrever pra Marie Claire na sessão "eu, leitora". Nunca achei que fosse viver essas dores de alma assim tão fundas. Deu pra se ter uma idéia do que é um desesperar. Um deixar-se...

Fico aqui nesse ir e vir pra aqui e ali. Tem fim? Ou viver é agonizar? Fiquei perguntando qual é a cor do amor...

Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero mais. E temo mais. E sinto mais. Espero. E deixo. Onde? Com quem? Onde foi que eu me larguei? Por que não posso compartilhar? Só pedir? Querer? Espero. Só.

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quinta-feira, maio 08, 2008


Essa é a Lina em mais um dos seus momentos de manha e charme em casa... Dengo puro!

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terça-feira, maio 06, 2008

Caminhando com a discrição habitual de sempre eu costumo - com os queridos - a fazer piadas nas situações mais tensas. Tem sido tenso no trabalho ultimamente. Não pelo trabalho em si, mas pelas emoções que ele envolve. Lidar com pessoas é um desafio maior do que a minha capacidade de aprender. Não é homeopático.

Nesse ir e vir de piadas e numa tentativa quase consciente de transformar os vulcões internos por vezes eu esbarro num limite. Há coisas que por mais que a gente queira mostrar e demonstrar e modificar... se esbarra num limite de compreensão do outro. E no limite da nossa própria prepotência em se querer que as coisas sejam assim. Do nosso jeito.

Esse problema da "alteridade" não reside somente nos planos acadêmicos. Fico com a impressão que, num certo sentido, a gente é outro até pra gente mesmo. E como é difícil administrar essa falta de entendimento. Ou ainda, esse desejo de que não exista limites.

Ainda me frustro. Comigo. Com os outros. Há um querer aqui que extrapola a coisa toda poética do livre arbítrio. Como é arrogante essa vontade de controlar. E mais, como é ansiosa essa vontade de se fazer entender.

Outro dia eu perguntava a um amigo se ele tinha achado esses últimos textos tristes. Ele riu. "Triste não, quase desesperado. Ansioso." Há uma coisa adolescente? Ou será que essa ansiedade ancestral, essa pressa de querer ver as coisas acontecerem são reflexos de um medo de perder... tudo.

Tenho buscado respirar aqui dentro. Olhar em volta. Ser mais discreta nessas trajetórias de trabalho-casa-pesquisa. Menos intensa... ou menos apressada? Me lembro do mar... e das frases soltas do Fernando Pessoa no Livro do Desassossego. Sempre fico me lembrando do motivo de ter dado isso ao Vinícius.

Que cor é mesmo o sentir?

Vontade de caminhar na praia de novo e silenciar. Fiquei hoje cedo brincando com a Lina de esconde-esconde... Não sei quem esconde o que de quem. Mas é divertido pensar que nesse quase-desespero eu tenho tanta gente querida em volta. E que todo esse carinho me deixa menos medrosa. Mais inteira. Mais minha.

Liguei há pouco para minha vó em Porto Alegre. Deu saudade desse jeito ansioso e feliz dela. Tem 90 anos. Fico imaginando que se eu chegar aos 60 com essa disposição já me dou por satisfeita. Ela lida bem com essa ansiedade e essa tentativa de ser discreta na vida. Ri-se mas com maestria de quem convive em trégua com a dor e a alegria. Sempre que me vejo assim eu me lembro dela. O sentir dela é colorido, furta-cor. Prisma no peito.

E peço trégua pra algumas cores...

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domingo, maio 04, 2008

Fim de feriado... Alternâncias de sol e chuva. Dentro e fora de mim. Saí de um nublado anunciando tempestades para depois sentir o sol quente nos dias de frio. Dentro e fora.
Vivi intensamente esses dias sem a família e com ela. Tive vontade de ficar só. Comigo. E ontem, caminhando na beira do mar pude reencontrar nessa solidão voluntária esse silêncio que eu precisava.

Espremi os pés na areia. Fazia um dia lindo, com essa luz difusa de quase-inverno. Eu sempre gostei do pôr-do-sol. Sempre fiz de tudo pra poder assistir esses pequenos espetáculos - gratuitos - que a natureza dá. Eu sinto que é o único instante em que consigo silenciar.

Faz tempo que eu venho buscando o mar... Gostei de pegar a estrada, ver a paisagem naquelas olhadelas de canto pra não bater o carro. Foi bom. Fiquei com os meus sogros e os meus cunhados. Foram momentos bem risonhos, tranquilos.

Fui passear no fim do dia e buscar esse silêncio. Fiquei me lembrando nesse passeio do meu tio que sempre caminhava comigo na praia. Tenho tido saudades dele. Fiquei com o Juliano ali na beira do mar. Sentamos nos chinelos e observamos todas as cores que o céul alternava. Uma por uma. Do azul e do laranja um mundo de rosados, dourados. Contei pra ele de uma das passagens da Ilíada em que a deusa Aurora, de dedos róseos, passava no céu antes e depois do sol desfilar com a sua carruagem. Falei de outras coisas que os povos antigos falavam sobre o céu, o sol e essas coisas da natureza. Acho que um dos motivos de ter estudado História foi poder estender dentro de mim esse universo mágico da mitologia. Simples. Inteiro.

Saímos da praia quando tudo se tornava um azul escuro, quase negro, cheio de manchas brancas das ondas. Hoje, na praça, vimos as mesmas nuanças. Sem o mar. Sinto falta do barulhinho da água. Mas tenho me contentado em observar as cores com mais antenção que o costume. No asfalto da estrada um caminho cheio de brilhos do sol. Fiquei tão impressionada que comprei um prisma para pôr na janela da sala. Todo o apartamento bate tanto sol que eu preciso explorar mais essas poesias coloridas do dia.

E mesmo tendo saído esse tantinho eu tenho gostado de ficar em casa. Curtir a minha gata, o meu cantinho. O Nosso. Tem sido bom. Eu tenho aproveitado esses momentos mais meus. Hoje, acompanhando o blog My corner, me identifiquei com essa vontade de ficar mais em mim. Isso vem acontecendo há tempos. E não é tristeza. É uma outra vontade. De fazer carinho no coração e nesse cinzento que dá um trabalho...

Amanhã a maratona recomeça... Uma semana agitada entre notas, reuniões e toda sorte de solicitações aqui e ali. E pra isso eu levo marcado nos olhos esses dois fins de tarde. Cheio de cores e de um tranquilizar... só... silencioso...

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sexta-feira, maio 02, 2008

encantando-me

Acho que não há mistério no encantar-se. Ontem nesse feriado chuvoso e frio aqui me deixei encantar por uma série de coisas que me rodeiam. Foi aniversário de casamento dos meus pais. 32 anos. Bem vividos.

Horas antes eu tinha assistido Encantada, um filme novo cheio de citações bem-humoradas a Walt Disney e todos aqueles bichinhos que cantam, dançam e as pessoas lindas que vivem felizes para sempre.

Essa tem sido uma reflexão pra mim nos últimos anos. Haja terapia para se descobrir que apesar, ainda é possível ser feliz. Acho que não para sempre, mas quem sabe a maior parte do tempo. Quase para sempre.

Obviamente eu fiquei emocionada com o filme. Eu gosto de contos de fada e desse universo quase-real-sonhado-de-criança que alguém que sonha e escreve e fala muito bem nos deixa de presente. Ora, que mal há nesse sonho acordado? Uma vez ouvi de um amigo que eu era sonhadora demais, que corria o risco de viver alienada. Fico pensando hoje que a gente tem a chance de escolher de qual mundo se alienar. Eu aind prefiro me alienar da dor, quando ela é funda demais. E faço isso de um jeito suave, bem meu. Nesse insistir de acreditar, de querer, de achar que vai dar certo.

Há três culpados por essa minha crença de contos de fada. O cinema e a literatura, por certo. A outra é minha mãe. Ela sempre gostou de brincar de bonecas e de todas essas coisas mimosas que as princesas desse mundo encantado gostam. Nisso eu sempre fui muito menos "feminina" que ela. Me lembro de criança que eu adorava todas as molecagens dos meninos. As brincadeiras eram mais divertidas, serelepes e tinham uma dose de emoção e adrenalina. Aventura pura. A gente nunca se "topou" muito nessa diferença. Mas posso dizer que minha mãe soube cultivar em mim esse universo de mimos que vi desabrochar mais tarde.

Muitas vezes me senti sozinha demais por acreditar no amor, no romantismo (inclusive o alemão!) e nessas coisas de cantar de deixar bilhetes e dizer eu te amo de cantar e dançar na rua. Eu fiz - e faço tudo isso. Me lembro até hoje da noite que o Juliano me convidou para valsar na frente do supermercado. Eram quase dez da noite. Foi bem contos de fada. Poderíamos repetir de novo... De fato eu sempre cultivei isso nas minhas relações, lembrando do aviso do Fernando Pessoa em que todas as cartas de amor são ridículas. E de como gosto de ser chamada de ridícula nessa pseudo-pieguice-amorosa que me deixa feliz por dentro.

Ontem vendo o filme pude ter quase (repito: quase) a dimensão do que é ser vista assim pelas pessoas hoje em que tudo é tão fraturado e picotado (por dentro e por fora)... e a criatividade do amar deixou espaço para o repetir do frustrar(-se). Há descrença. Medo. Um pavor do outro e de se deixar entregar... Um medo do desapego. Acumular hoje não cabe mais aqui dentro do peito. Só na superfície. Da pele mesmo quando a gente fala de "química", de corpos, de transas, de coisas. E o sentir fica circunscrito nessa superficialidade-de-corpo-a-corpo-e-saliva.

Bem longe de ser esse príncipe dos livros, o personagem do quase-príncipe-encantado tinha vontade de viver um romance (no sentido belo do termo) e ao mesmo tempo não sabia se encantar mais com nada. Acho que é esse o serviço do outro na vida da gente. Permitir que haja encantar-se. A princesa por outro lado nunca tinha vivido a dor. Há amor sem dor? Não... e não sei se seria bom... a dor de verdade é o melhor árbitro no nosso livre arbítrio. Ela sinaliza. Não julga. Mas mostra. Informa. Esclarece. Há aqueles que tem a coragem de olhar nos olhos fundos dela e desafiá-la. Há outros que se entorpecem de explicações e alienações que corroem, matam aos poucos.

Ontem fiquei olhando para os meus pais aqui em casa. Tomamos vinho, rimos, falamos de tudo e de nada. Meus irmãos estavam aqui também. Foi bom ver que o apesar, a dor nos deixou escolher o melhor de nós. Essa insistência-perseverança nos "momentos preciosos" que a minha mãe tanto falava. Dei de presente o Castelo de Vidro pra eles. Um confirmar de tudo isso que ela nos deixou. Do seu conto de fadas e das batalhas contra os monstros do mal que ela fazia tão bem...

Dormi com essa história no coração...lembrando do filme, dos muitos outros filmes e livros que (re)criei dentro e fora de mim. Dos meus personagens que cantam, dançam, escrevem e vivem poesia. Dos meus príncipes encantados e das bruxas do mal adormecidas. Das fadas, das madrinhas e dos padrinhos. Dos espelhos, dos lobos, dos bichinhos que falam e dos vestidos de cortina. Dos meus sonhos. Do meu viver. Do meu sentir. E olhei pro jeito que o Juliano vinha vivendo esse encantar-se(me)... Ainda bem. Apesar.

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terça-feira, abril 29, 2008

Sinais

Domingo cedo... Depois de uma noite de pesadelos e sono mal dormido aquele sufocar do peito me tirando de mim e me lançando sei lá pra onde. Fiquei horas na cama depois entre o odiar e o chorar. Sonhos ainda são poderosos demais nisso... Depois daquela convulsão de sentir e pensar e desistir aparece a gatinha no colo...

Custei para acreditar porque passei quase um mês num persuadir diário para termos mais um felino em casa. Mais um porque a leonina aqui é bastante territorial e espaçosa na casa dela.

O bichinho chegou assustado, com sede e uma fominha generosa. Fiz um rápido tour com ele pela casa pra dispersar esse estranhamento territorial. Afinal, felinos se ajudam também. Ficamos nos olhando por uns momentos e achei que eu poderia desabafar ali as minhas dores. Era engraçado. Fiquei imaginando o que aquela gata fazia na porta do prédio abandonada - ou fugida. Me identifiquei nesse abandono... nesse deixar-se pra lá. Coloquei um pote com água e fiquei esperando a sua reação. Minutos depois eu percebi que o problema era outro. Aquela fominha por certo estava ficando maior que ela. Abri a geladeira - depois de consultar bases confiáveis - e descolei um bifezinho cru. Ela comeu depressa e esperou com os olhos pedintes para que a porta da geladeira se abrisse de novo.

Enquanto comia eu pensava num nome. Nome de bicho de estimação tem que ser curto, mas bacana. Até então eu achava que era um gato. Fred. Em homenagem ao meu padrinho e à grande voz do Queen. Achei graça dessa comparação, afinal, nenhum deles estava mais aqui comigo. Só as suas lembranças.

Passei uma tarde gostosa com ela fechando os trabalhos e as notas dos alunos. Mais de 300 e eu pensando na Virada Cultural, no meu choro. Na última sessão de terapia e nas coisas que eu queria apagar da minha vida.

Depois me ocorreu uma coisa boboca de tudo... Lembrei do seriado Early Edition (que certamente me inspirou outra paixão platônica pelo Gary e seu gato e seu jeito de salvar o mundo)... Era a série que o gato trazia o jornal do dia seguinte. Fiquei fantasiando que alguma coisa ali vinha pra mim - ok, não um jornal com as notícias adiantadas, mas quem sabe algumas pistas para como ser feliz, resolver as crises existenciais, como terminar sua tese de mestrado, aguentar o tranco no trabalho, etc. Parei. Me dei conta que essa fantasia de um gato-oráculo me traria mais frustração. A gente se olhou muitas vezes nessa tarde. Meio perguntando quem-é-você-e-o-que-faço-no -seu-espaço... Bacana.

Fui me apegando. Sentindo esse carinho crescer. Uma realização de criança de ter um bicho de estimação... me lembrei de quando eu trouxe a malu - a gata perdida da escola - para casa, dentro da mochila. Depois de ter me arranhado horrores tentando dar um banho na pobrezinha (no tanque gelado de casa! SIM!) e trancafiado ela na mochila ouvindo as aulas de matemática e tentando bancar a defensora dos animais pra minha mãe... fiquei sem gato. Bom pra ela, ruim pra mim.

Ouvi o Juliano me avisando pra não me apegar... e eu - nada secretamente - torcendo para o dono (cruel!!!) dela não voltar. Ontem descobri que a Lina - exFred é menina mesmo. Foi legal reconhecer esse felino-feminino dentro-fora de mim. Me apeguei. Fiquei, deixei ela se instalar na casa como cúmplice dessa catarse de transformações. Eu precisava de uma testemunha. Ficamos brincando de noite com essas bobagens amarradas nas cordinhas. Foi ótimo. Deixei o lado infantil voltar pra deixar a tristonha-desapontada na janela. Olhando pra algum lugar fora dela mesma.

Voltei pra casa ontem esperando ouvir esses miados. Outra noite de pesadelo e sono nada dormido. Vigília e gratidão... Tinha mais gente ali do lado da cama dizendo que tudo ia ficar bem...

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domingo, abril 27, 2008

procurando por mim


Passei dias de respiro, suspiros de saudades de mim mesma...

Fiquei com essa sensação de ser desafiada-contestada-enganada e mais, sem revidar. Fui tomar sol no sábado. Peguei o carro e andei pelas ruas do Mackenzie, saudades do colegial. Passei por perto da casa do Rogério, Ju, tantas lembranças ali.

Reencontrei uma antiga professora numa loja. Falamos de roupas, de USP, da História, de várias histórias que passaram por nós. Lembrei de novo do Vinícius. Deu saudade dele. Das tardes debaixo daquela árvore e das conversas perdidas. Queria saber dele.

Falei pra mim mesma desse novo começar aqui dentro, no meu arredor mais perto. Do peito. Do tato, da boca. Fui buscar o Juliano nesse lugar bacana que ele encontrou. Cheio de histórias do porvir. E que vem, devagarinho no Nosso. deixando ele nessa espera-paciente-budista que custa caro no dia de hoje.

Andando por ali e por aqui recebi uma foto minha que (por acaso?) mostraram exatamente onde estou. No gargalo de mim. Saindo (ou entrando) nesse buraco? Ou será que essa janela escancarada de mim e dos outros, sem vidro, cheia de vento e sol, ruído, poeira e um libertar-se sem preço por essas esquinas de céu que eu venho buscando...?

Vontade de pular. De esperar. De sair. E de entrar para não mais sair...

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sexta-feira, abril 25, 2008

Saí pra ver o dia... sentir o sol no rosto e dar vazão a esse respirar de dentro. Há um adormecer meu aqui dentro. Cheio de rabiscos e cicatrizes mas com essa esperança se acendendo...

Lavei o pus... Saí olhando as coisas em volta do meu bairro. é bom ver gente na rua e sentir essa coisa de pertencimento. Sinto esse lugar meu. Sei os cheiros, as cores, esses ruídos e as conversas de portão. Foi bonito nessa semana surtada de trabalho sentir o coração reconfortado com esses quadrinhos de gibi em volta de mim.

Tenho me dado esses presentes. Do silêncio. Da solidão mesmo. Tenho preferido ficar quieta, em mim, cheia de mim, plena de mim. Tenho observado os meus espaços, os meus desejos e lembrado de gente querida. Ontem saí com o meu padrinho no peito. Faz muitos anos que ele morreu. E não deixou saudade. Deixou uma cratera na minha vida que às vees finjo não existir. Passo pelas beiradas dela. E toda vez que essa plenitude e esse frescor me voltam na alma ele vem devagarinho junto. São todas lembranças felizes dele.Coloridas. Cheirosas e lambusadas. Como eu tenho visto no bairro.

Semana passada eu acho fui a Zafari, um supermercado gaúcho da minha infância no sul. Eu sempre ia com ele e com o meu avô. Foi bom me sentir de volta naquele universo de guloseimas e lembranças nas prateleiras. Coisas de um passado vivo, generoso comigo. Era como se eu me procurasse no meio das compras. Voltei pra casa meio dilacerada-inteira-metade-cicatrizando e era bom poder me sentir criança de novo.

Ontem fiquei com vontade de ir pra lá. Nunca achei que ir ao supermercado me desse essa sensação de me preencher de novo. Que os publicitários não leiam isso. Foram muitas coisas de alívio misturadas a um reencontro comigo. Em profundezas gostosas, cristalinas. Cúmplices de quem eu sou.

Fiquei com saudade de amigos de infância. Dos passeios no Parque da Redenção em que o meu padrinho me empurrava forte nos balanços pra eu pegar as nuvens. Nunca consegui, por mais alto que eu fosse.

Senti saudade das caminhadas em Capão da Canoa no fim do dia. Com aquela praia feia de ver mas tão linda de sentir. Havia tanto de mim naquelas areias. Tantas descobertas, decisões. Fiquei com vontade de ir a Porto Alegre me encontrar. Andar pela rua da Praia e tomar banana-split com a minha mãe nas Americanas. Fiquei com saudade do gabinete do meu avô cheio de livros de passarinhos e música clássica. Senti falta de quando a gente escutava Verdi e todos os românticos alemães. Hoje cedo saí de casa cantarolando o coro dos ferreiros de Nabuco. Ele adorava essa canção.

Cheguei no salão pra fazer as unhas com os olhos molhados e esse respiro saudoso e quente de saudades. É bom demais esse se sentir querido, amado, importante. Parte. Inteiro pra alguém.

Tenho montes de trabalho a fazer e essa sensação gostosa de pertencer e ser me foram devolvidas ontem. Tanto afago no coração. Saudade de uma parte minha que não quero qeu se vá. Uma vontade de extirpar esse câncer do coração... e deixar isso cantarolar de dentro de mim. Sem dor. Só amor. Só carinho.

Fiquei com vontade de dar isso ao Pedro, meu afilhado. De fazer ele se sentir parte-inteiro pra alguém. Ele tem 4 meses. E é como se eu o tivesse a vida inteira comigo. Uma mistura de porvir-saudade. Quero empurrá-lo no balanço pra ele pegar as nuvens. Nem que isso seja quando eu estiver lá...

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Cicatriz

Hoje pela primeira vez em muitos meses senti alívio. Um respirar profundo, leve, sem poeira nos olhos.

Senti naqueles olhos de profundezas a cumplicidade e o acolhimento. Depois de um percurso sem rumo, quase carpideira de mim, pude me ver sã. Inteira de novo.

O sentir tem mais mistérios que eu desconhecia... e senti saudade de mim assim. Intensa, inteira, minha de novo. Havia uma esperança ali. Depositada num silêncio e numa espera de alguma coisa em algum lugar. Tão vago mesmo. Mal sabia dirigir o carro e pudera, nem sabia pra onde voltar. Acho que dei umas voltas em mim naqueles quarteirões intransitáveis dos Jardins. Passei em alguns lugares - memórias esbranquiçadas, cizentas, desbotadas... e outras tão vivas. Recordei muita coisa.

Deveria sair sim com os olhos secos. E só então a imagem do espelho apareceu de novo. Engraçado como a gente se deixa turvar... quase acreditei no que diziam. E cheguei a sentir aquilo - forçosamente? - dentro de mim.

Senti uma vontade louca de escrever. Esse perdido de palavras sem sentido para qeum não me vê daqui de dentro. Textos confusos e uma catarse-emoção sem freio. Mas leve. Quis voltar para muitos lugares. Esquecer de muita gente. E nem saber de outras.

Fiquei dentro de mim. Pude rir, observar. Lembrar de um monte de queridos e de risadas soltas pelo caminho do meu coração. E aquele pisca todo de luzes impacientes dos faróis me deixaram um meditar. Olhei em volta no caos das avenidas e dos happy (será?) hours nas esquinas... um deixa pra lá. Me queria de volta só pra mim. Esvaziada.

E de repente me dei conta dessa cicatriz na alma. Que a todo tempo é esfolada aqui e ali... tantos silêncios e crenças. E me lembrei das profundezas de novo naquele convulsionar de chorar e pedir ajuda e desistir e morrer de dor... Fiquei com a cicatriz no peito, sem tapar. Nem rejeitar. Olhei nos olhos dela... e vi aquele repuxar de sentir, de pensar, de imaginar. De repulsar. E chorei de novo. Deixei de apertar. Pedi ajuda. Senti. E quase me despedindo, segui com ela sem querer chegar aqui... Olho em volta e vejo tudo tão cheio de história, de contos de fada e castelos por vir... Outros a gente deixou pra lá... Fiz tudo direitinho pra seguir adiante. E esse repuxo de sentimentos me acompanhando... e aos poucos percebendo que esse repuxo vinha dali, logo do outro lado da rua... que alívio poder cortar essa corda...

E nunca mais ter a sensação de que te estilhaçam por dentro, apesar das marcas. Da cicatriz dessa história minha, de outras, de tantas e tantos sentir e pensar e querer e largar e repuxar... Parei. Voltei a ser minha de novo. Sem cicatrizar... mas conseguindo me sentir ali.

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sábado, abril 19, 2008

Refluxos dentro de mim... quem dera se tivesse remédio de farmácia pra colocar isso pra dentro (ou pra fora) de uma vez.

Recebi esses dias um convite inesperado pra participar de uma conversa que me remexeu os nervos. O pior das sombras não é quando você as vê, mas quando as pessoas te trazem cada uma delas e insistem que você vê coisas.

Passei o dia com nojo. Sem querer falar nada. E mais, uma mistura de revolta de mim contra mim, e desse sentimento de alívio... "ah, até que enfim se percebe"...

Fiquei os últimos dias chapada com os remédios e mergulhei num lodo de lembranças e mágoas. Olhei no fundo. Havia muita dor ali e não havia nada a se fazer. Desespero completo e uma ansiedade que quase me fez sair correndo de mim. Fiquei me perguntando porque tanto choro. Tanta dor. Fiquei pensando o porquê de tanta insensibilidade. Egoísmo. Egocentrado. E antes que esse texto se torne um vômito desse lodo, cheio de refluxos desencontrados que se lambuzam nas dores, feridas, inflamações magoadas e repulsas de toda ordem eu respiro. E volto do mergulho desses remédios. Sem chão. Não sabia mais quem era, o que era aquilo tudo ao meu redor. As certezas e seguranças, os contornos humanos se perdiam nesse universo nebuloso de tantos personagens e mentiras e histórias e esperanças e omissões e controle e fugas e solidão e carência. Não sabia mais nada. Olhei, durante horas aquilo tudo. E aquela conversa da qual fui convidada a participar me provocou uma fúria de bixo ferido, acuado, abusado, desprezado.

E se eu pudesse ter feito o mesmo... Me peguei num trovão interior de pensamentos e vinganças... Nunca achei que meu lado mais feio pudesse falar tão alto aqui dentro. Crispei as mãos.

Olhava em casa e buscava por essas singelezas que esse cantinho pode me dar. Sinais, meus, dele, nossos, que geralmente suavizam essa angústia e acendem luz nesse buraco de sombras escancarados na alma. Fiquei olhando para as gavetas de novo. Quem estava mesmo ali? Esperei ouvir ele chegar. E deixar esse lodo decantar aqui dentro. Me acuei nesse colo. E tenho até medo de fechar os olhos. Para perder de vez. Fico respirando fundo. Ouvindo essas juras de amor, quietas, que são só pra mim. Procuro a cumplicidade desse crime de amar. E desse desajeito tão humano, que fere, se fere.

E a luz apagava aos poucos, o sono vinha desse monte de remédios pra essa dor nas costas. E eu queria ficar. E nunca ter ido. Nunca mais. Sem pensar. Sem mais refluxos que me deixam vomitar esse horror de tudo. Esse pavor de viver. E fiquei, esperei, rezei. E voltei.

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terça-feira, abril 08, 2008

Vontade de ir de mar, pra longe daqui.

Engraçado. Comecei a assistir de novo os episódios do Galática. Uma série que me encantou a adolescência na Sessão Espacial da Rede Manchete. Esse desejo deles de se encontrarem com os irmãos distantes depois de perder tudo o que tinham e toda a sorte de tragédias, aventuras, que acontecem durante essa viagem... isso sim, te dá vontade de ir.

Fico sempre admirando os heróis dos filmes. Para mim eles tem algo em especial que é acreditar nas pessoas e que as coisas vão se resolver no final. Isso sem falar das miraculosas soluções encontradas para sair das piores enrascadas.

Me deu saudades de um tempo em que eu acreditava mais. De ser ingênua, ter esperança. Senti falta da USP e dos tempos em que eu tinha alguns amigos bem mais perto. Fiquei uns 40 minutos andando na USP à noite e sentindo aquele cheiro de mato molhado nas árvores. Nem a árvore favorita eu vejo mais. Senti falta das épocas em que eu jogava RPG e tinha preocupações mais nobres com o futuro da humanidade. Me lembrei no caminho de volta pra casa com os vidros abertos na marginal do Persépolis e de como a gente vai se endurecendo por dentro.

O Rogério conversou muito comigo no sábado sobre esse movimento... a gente falou dos amores, das dores. Legal escutar ele falando dele. O Fábio tem essa outra mãozinha... me dá a sensação de ficar velha por dentro. De ter um outro brilho desgastado no meu coração - de sentir e continuar sentindo mais - mas sentir diferente.

O Rogério me perguntava se eu tinha amargurado. Não. Mas tenho cansado das pessoas que reclamam demais, inclusive de mim quando me via nesse papel. Eu perguntei pra ele se eu tinha mudado muito já que a gente se conhece desde os 13 anos. Ele riu. Tomamos algumas cervejas em silêncio dizendo aquele básico "ai ai" que silencia e traz todos os outros - velhos e novos - assuntos de volta.

Eu sempre fico feliz de ter os meus amigos por perto. Pra alguém com essas "crises existenciais" cheias de nostalgia e saudade de aqui, dali, de lá, é um jeito especial de não deixar de acreditar. Sem amargar... já que a vida é doce demais.

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"Há uma revolta na sua condição feminina". Essa foi, certamente nos últimos anos, a frase mais machista dita pra mim. Depois de quase dois anos estudando gênero e afins, sou assolapada por fim, pela maior - e mais dolorosa - das ferramentas acadêmicas: a sua própria vida pessoal.

Hoje seria uma noite especial pra sair e tomar um porre com o M. Foucault. Depois de (re)discutir a sua análise brilhante sobre a sexualidade humana na semana passada e passar meses lendo sobre as feministas... finalmente fui acusada de tal. E mais, sob o argumento da minha falta de solidariedade à (requentada e cristalizada) promiscuidade masculina. Me lembro agora de um dos textos de uma dessas feministas - como se diz - desenvolvendo seus argumentos sobre essa naturalidade da putaria masculina e como isso se transformou em enormes argumentos psicanalíticos, sociológicos, antropológicos, para não dizer históricos. Numa cervejada com o Rogério na clássica Braumeister, me recordo de uma fala nossa sobre a promiscuidade - também natural - das mulheres. Ora, no fundo isso sim é natural, talvez. Lamento feministas e machistas. Sim, todo mundo gosta de dar e de comer todo mundo. Quase o caos sexual que as teorias do patriarcado apresentaram no final do século XIX.

E quer saber o pior? Pelo menos a maioria dos moderninhos adeptos dessa "liberdade" sexual se dão conta que apesar da nossa tentativa modernosa - a modernidade nos trouxe de brinde no pacote do individualismo - o nosso profundo egoísmo em dividir. Não dá pra dividir quando se sente, muito menos quando se trata de dividir o outro. quanto a nós... nem sei se sobre algo nessa proposta emancipatória do compartilhar parceiros - tudo muito limpo, travestido de uma nova moralidade. Portanto, cuidado, se você acha alguém bastante moralista, atente-se para não estarem disputando a moral da vez.

Ora, o ponto não é esse. Discussões acadêmicas devem ser feitas apenas entre os especialistas. Vou deixar isso para as solidárias feministas que se lamentam todas de serem mulheres... ou de quererem queimar o sutien em praça pública... Ora essa, por favor! "Estou farta do lirismo comedido" repito o Bandeira... Mas deixemos de fato que os textos falem somente a quem os interessa. Sempre esqueço que as pessoas escolhem o que ler - e como ler. Há outros que se interessam apenas em justificar. Para o sim e para o não.

Fico pensando - e sentindo - muito mais esse clamor da necessidade de sentir. Por que, afinal, a gente quer que o outro sinta EXATAMENTE o que a gente sente? Ou entenda como isso deve ser sentido, doído. Fico aqui me lembrando dos clamores de solidariedade da "dificuldade de sentir" que se manifestam na falta de compreensão do outro, da dor, do dimensionar, de se colocar no lugar do outro, de falar, de dizer a verdade. E ainda, de colocar na mesa o que se entende por verdade. Talvez o agente Mulder esteja certo... a verdade está lá fora, em algum lugar absolutamente inatingível pra nossa completa - plena - falta de solidariedade com o outro.

Fiquei me lembrando das frases de todos os meus amigos - homens, supostamente machistas, mas nem sempre! - sobre as mulheres. Ora, as relações de gênero são mais complexificadas do que se pensa. Talvez a culpa - se é que existe - seja do próprio Foucault em anunciar ao ocidente que o que ele melhor sabe é discutir, sem resolver porra nenhuma. Transformar o sentir, o querer, em discurso arruinou completamente a nossa possibilidade de negociação. Aos meus amigos machistas - assumidos - devo dizer que conforta saber o lugar de onde se fala... facilita alguns entendimentos sobre a condição - estranha? - da amiga de vocês. Aos machistas - não assumidos - hmmm... talvez vocês devessem ler - já que apreciam a leitura e a discursividade dela - um pouco mais sobre o que se entende sobre feminismo, mulheres, etc. Essas "coisas" muitas vezes chamadas de "rótulos acadêmicos". (Acabo de me lembrar da Princesa Leia dizendo ao Han Solo, supostamente uma assumidade nas mulheres, "você não entende nada de mulheres") Às feministas: cuidado para não acharem que vocês são paranóicas (no sentido clínico!), lésbicas, ou ainda que odeiam homens já que são mal comidas. Pãtz... Às não-feministas: cuidado para não serem chamadas de moralistas, ingênuas, permissivas, submissas, silenciosas.

Aos perdidos... por favor, cuidem para não deixarem o sentir discursar demais. Outro cuidado: ao lerem, cuidem para quem vão falar de suas "descobertas" sentidas ou observadas. Viver tem um que de antropológico. O duro é que a tensão sujeito-objeto parte em mil pedaços essa coisa nossa - academicamente falando - chamada indivíduo.

Hoje me perguntaram se eu era juíza, advogado, vítima. Eu me pergunto depois se sou feminista - nessa pobreza dada do termo - ou machista (Lê-se moralista). E me lembro do Ney Matogrosso, do meu tio, dos meus amigos gays assumidos e não assumidos. Das amigas bem e mal comidas. Dos casais que eu sempre escuto terem problema de relacionamento, que insistem em ficar casados reclamando nas festas dos seus casamentos. Me lembro do Juliano rindo de mim porque eu "adoro discutir a relação", me lembro dos namoricos do colégio, das paqueras. Me lembro dos meus pais. Dos meus sogros. E me dou conta que qualquer coisa que eu diga agora, depois, pra quem for, será apenas, e só, somente isso, o meu partucularíssimo ponto de vista. Assim como os outros milhares de pontos espalhados nessas relações, olhares, sentires, que talvez não formem retas, planos. Não formem porra nenhuma na teoria do caos, dos jogos...

Ea talvez, bem possivelmente, o que me reste nesse desabafo "feminista", revoltado com a minha "condição feminina" - que pena isso... - seja apenas a leitura dos textos e as boas cervejadas com os amigos (nada) machistas... e o final eu publico quando a tese de viver terminar.

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terça-feira, abril 01, 2008

Há um mistério no convívio da dor com o amor. Uma coisa aguda aqui dentro que, ao invés de me jogar pra dentro, me atira pra fora. Pra ele.

Passei o domingo cozinhando coisas aqui dentro. Pura fermentação de talvez, se, quem sabe... Num passeio pelo bairro e pela feira, depois de tirar fotos, falar, chorar, explicar, entender, perdoar. Finalmente, se lançar. Ontem dizia para uma amiga que eu não conseguia entender essas sutilezas de um e de outro.

Cheguei em casa depois da maratona trivial da 2a. feira. Conversamos. Matamos o restinho do vinho que tínhamos aqui. Silenciamos. E de repente algumas coisas se derretiam nos carinhos, nos olhares e nessas conversas de fim de dia. Meio "o que você fez de bom hoje?" e tal. Descomprimissados com a dor, com o aperto.

Acho que é isso que o Nosso tem de mais mágico. Essa capacidade alquímica de nos devolver o que mais amamos um no outro. O tempo todo. Mesmo que atrasando as nossas (infantis) expectativas.

No mistério, me devolvo...

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sábado, março 29, 2008

Esperar. esperar... fico aqui cutucando a minha impaciência em esperar. Acho que não aprendi esse vocábulo na escola. Curioso como a vida me trouxe de presente isso aqui...

Estou aqui rascunhando as coisas e acho que pela primeira vez consegui me ver pelos olhos do outro. Vejo ele aqui entupido de papéis e tentando resolver coisas e falando e pedindo e chamando, e solicitando e me tirando do eixo... Uma das minhas habilidades consiste em fazer diversas coisas ao mesmo tempo agora. Ler, ouvir música, falar ao telefone, conversar com as pessoas e ainda rabiscar umas letras soltas. Impacto para quem exige concentração e reclama da dificuldade de.

Fico pensando em como registraria essas coisas sublimes do cotidiano. Ficam mágicas soltas no percurso louco da vida. Fazem tanto sentido aqui dentro. E sempre me pergunto se um dia eu teria a capacidade de fazer as pessoas entenderem essas epifanias do Nosso.

Ele fala sozinho, habitualmente. Na prática não. Eu sempre escuto, fico atenta. E de vez em quando respondo. Mas aí sou alertada do quanto eu desconcentro, interrompo. Chatices à parte fico aqui agora rindo por dentro prestando atenção nessa coisa dele toda contraditória.

Vejo ele falar comigo - da mania de me ensinar, instruir, exigir, explicar. Às vezes parece que eu tenho 5 anos. E quando meu feminismo reclama me lembro dessa mania dele de amar. E de cuidar. Engraçado como as pessoas tem seus códigos particulares pra fazer isso. E se atrevem ainda a dizer ao outro "você precisa se colocar no meu lugar e me entender, me dar crédito"... talvez eu tenha feito o mesmo...

E nessas contradições mais infantis, de implicar, aplicar, silenciar, angustiar, sem esperar, cutucar as mesmas feridinhas aqui e ali, há essas epifanias na esquina. Hoje, ontem. De repente amanhã tem outra. E eu fico muitas vezes me fazendo de difícil pra ver ele se aproximar de novo, mais, mais, mais, mais. E mesmo com outras partes minhas em frangalhos, olho pra isso e me delicio com esse amor todo.

O resto, é só esperar...

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sexta-feira, março 28, 2008

Fiquei saboreando o sol agora na janela. Estou aqui, hoje com o dia brilhando, e mais, talvez de dentro pra fora...

Ontem eu saí e voltei tarde. Antes, me atropelei na escada de casa quase fugida de mim mesma... e dei de cara com ele. acordei hoje cedo com essa sensação estranha de me querer mais e longe e perto...

Engraçado como a gente se humaniza. Ontem conversando com uma amiga me perguntava se eu era a mejera (não domada) que só via o lado ruim das coisas, paranóica, crica, moralista. Falo isso porque, por alguns momentos, confesso, quase acreditei no retrato da Srta T Gray que faziam de mim. Chorei os tubos... Quase aceitar isso me provocou uma catarse de pensamentos sentidos aqui no fundo. Tentei... olhei bem pra mim ontem. Não vi essa mulher.

Mas a gente se humaniza. Voltei pra casa e depois de desaguar mais um pouco comecei a pensar nas coisas que tenho estudado. Imaginei se todos os teóricos da antropologia, os pós-modernos, viveram essas alteridades na pele, numa pesquisa de campo mais afundada e egocentrada. Se as teorias de Mauss e Dumond sobre o indivíduo permitiam esses mergulhos no sentir, no latejar. Fiquei pensando nas teorias de gênero, nas discussões feministas, nos debates políticos, legais, sobre casamento, divórcio, aborto, maternidade. Escutei as mulheres ao meu redor falando. Enfim... adormeci no sofá sem continuar prestando atenção na conversa à lá Nash que levava...

Acordei cedíssimo, com as pontinhas de sol pipocando na cortina do quarto, dançando esse ventinho gostoso da manhã. Fiquei olhando pra ela, sem sono. Olhei pro lado e vi tanta história nessa cama. Nossa. Dele. Minha. Fiquei ali acompanhando ele respirar, dormindinho ainda, me puxando pra perto, murmurando qualquer coisa em qualquer língua, num dialeto que só eu entendo. E essa dor toda no peito parecia balançar aqui dentro. Nem sabia mais onde doía - espalhou.

Estou aqui tentando me deixar no sol. Fico agradecendo silenciosamente pelos amigos. A Lúcia e a Marcia, definitivamente são as minhas irmãs mais velhas. Essas mulheres que me mostram mais de mim. Me revelam essas sutilezas das múltiplas - e parciais - alteridades. Outro abraço, um suco de maracujá pra acalmar esse aperto. E uma soneca ao lado da cortina, que me leva pra lá e pra cá.

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quinta-feira, março 27, 2008

o bolero de ravel

termino a noite escutando essa música e observando solenidades onde não há... me perguntando porque eu gosto tanto de ritualizar a vida. Pior, achando que as pessoas tem os mesmos ritos que eu.

e de resto. resta pouco aqui pra continuar a dizer. Nem trilha sonora do dia, da noite. Nem meus ritos de início e fim. Estou no meio. Mas não sei do que. Nem sei que meio é esse para se viver assim. E se ficar dividida entre o sentir e o pensar ou entre a negação desses dois for outro rito de passagem para além de mim. Para passar além da dor, fico. Não sei mais. Não consigo mais. Não quero ir além desse mais. é demais aqui... fico. bebo. espero. observo. e silencio...

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Fiquei sem tempo pra escrever pra mim... Meus emails tem sido curtos. Vagos. Vazios daquilo que eu mais gosto em mim... deixei na bagagem?

É curioso como o silêncio traz outras coisas aqui pra dentro. Recoloca. Desde que roubaram meu rádio do carro há quase um mês eu perdi aquelas pequenas epifanias do caminho. Da música tocando na hora 11 ou 22 alguma coisa. As árvores ficaram ali, no mesmo lugar. As folhas do outono apareceram ainda timidamente. Tudo é igual ali. Menos o som. E fico me perguntando se eu perdi mais alguma coisa nesse fim de musicalidade.

Tenho conversado mais comigo. Uma dessas conversas que se tem com irmão mais velho. Escuto - o peito também... - e deixo a razão semi-iluminada-enciclopedista-pré-napoleônica ditar as regras das decisões finais. No dia em que saí da escola chateada um sujeito que vende flores no farol que sempre me cumprimenta me ofereceu uma de graça. Era uma rosa amarela. Fiquei pensando como eu ia aceitar ou não essa epifania. Ganhei chocolates aos montes dos meus alunos e, apesar de todo incômodo da Páscoa com as suas formalidades religiosas e blablabla (que minha vó não me leia!) quase hipócritas (Jesus, Moisés e tal estão, certamente, em outra!) fui sensibilizada por um sentimento de renovação de mim.

Dito de outro modo. Vivo minha quaresma sentenciosa e na quietude desses barulhos de mim. Nem sei bem quando ela começou. E nem sei de que modo - e se mesmo ela pode - terminar. Há dias estou chocolatando coisas em mim. Estranhamente já sei qual parte minha foi cumprir rituais de auto-punição e redenção. Nada públicos, acreditem. O mais surpreendente foi o estranhamento da parte que ficou. Ah! sim! Por favor nada de tapinha nas costas com um gesto de quase-coitadinha-da-sensível-imatura... nem me dizer das estranhas-coincidências-dessa-vida-estranha... como por exemplo tocar toda essas músicas na hora em que escrevo sobre isso...

O mais estranho dessas feridas de mim é que quanto mais eu quero me esconder mais eu me exponho. Honestamente, não creio que há qualquer bravura nisso. Ao contrário. Sendo fraca, me enfraqueço. Daí todas as minhas promessas de whisky-blog-chocolate de não ser mais assim. De enterrar naquele sepulcro de pedra essa vergonha de si. De mim. Esse meu cansaço...

E Fernando Pessoa já dizia tudo isso... Nem sei porque insisti em provar que a sua desilusão é apenas literária. Não há nada de literário em sentir desse jeito. Muito menos de temer o tanto que se sente. Mais ainda... não dá para (d)escrever essa tentativa de se pascoalizar... O céu ainda não escureceu. As feridas ainda estão abertas e nenhum sinal de clemência de ninguém ao redor. Sequer os ladrões. devem ter sido roubados de si mesmos... ou de mim...




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Paris ... em 2 dias...

Estou aqui tarde tomando meu trago, para desgosto de alguns. Acordo cedo amanhã mas a lembrança do chopp há duas semanas com o Fabio me ajudarão mais a dormir do que as minhocas tomando whisky...

A dor insiste. Toma conta desse seu pedaço de carne em movimento chamado coração. Minhas promessas de não sentir. Não chorar. Não desistir. Nem deixar. Isso tudo passa turbilhonando a cabeça num golpe duro de dentro pra fora. Voltei dirigindo do cinema ensurdecendo essasm conversas dentro de mim. Há muitos nomes para essa dor: moralismo, paranóia, minhocas e outros nomes menos complicados espalhados nas prateleiras dos nossos desafios.

Olho pra mim mesma naquele espelho turvo. E pela primeira vez vi outra imagem. Em Paris. Uma outra personagem. Dias atrás eu conversava com a Estelinha sobre personagens ... me dei conta de que o meu parece ser mais detestável do que o dela. Fico aqui rodeando o copo. Olhando as coisas em volta da minha almofada. Meu espaço contruído de dentro pra fora quase invadindo territórios proibidos. Há portas de armários nesse quarto que me trazem mais dor. Outras que me tiram daqui e me levam embora de mim. E as gavetas...Meu personagem foi construído nesse quarto. Durante alguns dias de leituras subversivas. Que me custam até hoje...

E ainda há quem diga que há construção aqui... e me perco nesses escombros de mim. deixados de lado por esse sentir que sufoca. E depois me joga. Que quebra um confiar no outro, na vida. Em si. E me sinto só... como se quisesse andar pelas ruas daquela cidade e ver a imagem de mim e dessa personagem neurótica, que não relaxa, que se exige, que se machuca, dançando no dia da música, acompanhada de seu personagem favorito. O amor.

Olho de novo para as portas dos armários. Me lembro de pequena quando, para dormir, fechava todas as portas dos guarda-roupas para o Monstro do Armário não me pegar. Engraçado como algumas fantasias ainda me assombram. E pior. Me pegaram. Desavisada. Ensimesmada. Só que hoje eu prometo não chorar mais.

Fiquei com saudade da Márcia, da Lúcia da escola, apesar da gente se ver todo dia. Senti falta do Vinícius. Max. Do Jedi - e de todas as risadas que ele traz. Do Pico, do meu afilhado... do Rogério. Do chopp com o Fábio que me mostrou essa personagem ali de Paris, do outro lado, bem diferente. Pensei muito nos meus irmãos. Em alguns alunos - e evidentemente no meu pai - que me subtraíam dessas personas de dentro.

De mim? Nem sei do que sentir falta aqui. Nem sei se há do que ter saudade. Me vejo caminhando ali longe. De costas... Fico pensando qual outro filme vai me trazer de volta. E me deixar de lembrança essa suavidade no peito. Enquanto isso eu fico aqui. Esperando a luz acender para eu poder ir...

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terça-feira, março 04, 2008

fronteiras

Há um mistério na fronteira do sonho com o real... quando ele transpõe essa fronteira e atinge você naquilo que tem de mais caro. Mais seu.

Quero silenciar esses sonhos de lá. Que me mostram quem já foi e o que fez. E que ainda me fere na alma. Me trespassa com aquela indiferença que sabe fazer tão bem. E que usa tão bem aquelas que passaram pela sua vida.

Quero deixar isso sair de mim. Esquecer e dormir um sono sem medo. Sem dor. Sem imagens , sem atos que doem. Que matam a gente por dentro. Quero silenciar esse grito e essa revolta aqui dentro. Quero matar isso antes que me corroa e me deixe só.

Há um lodo escuro que enoja, que distancia... que me cega e me afasta. E me faz mergulhar num sentir tão apertado. Vontade de sair por aí... libertando esse ar contaminante que me deixa respirando esse aperto. Essa dor. Esse amargo de não aceitar e não perdoar. Não entender. E me sentir tão mais só. Em mim. No meu pedestal - dizem - que abandona o coração.

Vontade de sair de barco e apagar cadernos e cadernos de mágoa... fazendo barquinhos pro mar. E deixar. Sem levar. E calar.

Ir pra dentro das fronteiras de mim sem deixar que a fúria dessa incerteza de sonhos e medos e pavor me tome. Quero ficar aqui, quietinha sem essa dor na alma. Apagar a memória de ver, de saber, sentir, ouvir... de duvidar.

Me esquecer nessas fronteiras de mim. Sem dono. Sem espaço e limite. Sem dor e lembrança. Na fantasia de poder continuar querendo. E viver isso sem temer o que não se sabe e fugir do que já se soube. E como dizer disso tudo sem revirar-me em dor? Em incompreensão e revolta?

Deixando de sonhar. E talvez nunca mais dormir. Perdendo a inocência colhida nos filmes de Hollywood, com beijo e trilha sonora. E ver que a luz do cinema não se acenda mais. E que esse filme seja longo, sem intervalos. Só a espera... E o silêncio da sala daqui de dentro se esvaziando... sem mais eu mesma pra me deixar doer... Cansaço...

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