Sempre gostei de trilhas sonoras de filme. Há tempos que eu venho descobrindo John Williams. Sempre que uma trilha me toca fundo, a música é dele. Assisti Memórias de uma Gueixa há um pouco mais de 2 anos. No cinema. Na época que vi o filme, por recomendação do Tomas e do vinícius, eu tinha que enfrentar uma coisa que me corroía a alma. De antes? De sempre? Dessas descobertas que a gente faz da gente e do outro que, ou põe tudo a perder, ou se ganha para sempre.
Acho que o resultado tem sido o segundo. Esses dias consegui a trilha do filme e passei o dia corrigindo as provas, correndo aqui e ali com material de construção, vendo gatos, com essa música na casa. Fui lançada àquele fim de tarde de 2006. Antes da Páscoa. E me descobri ali, quieta por fora, agonizando por dentro. E me lembrei que a personagem era como a água. Atravessava e se moldava às coisas. Tinha essa virtude de seguir, sem se amedrontar com os buracos e curvas. Invejei. Desde aquele dia não consegui reproduzir esse deslizar. Escorrer.
Na verdade, tenho cavado mais fundo, mas sem deixar a água entrar. Lembro bem que um amigo me disse que as minhocas vivem em lugares úmidos. Mas não submersos. Fiquei com vontade de ser essa água. Ontem, lendo o livro Amor em minúscula com a trilha do filme, me dei conta que eu ainda não consegui lavar esses buracos aqui dentro. Há pouca luz. E ainda por cima os escondo com panos cintilantes para disfarçar.
Voltei a ter insônia e não dormi essa noite. Invejei os gatinhos que pulavam pra cá e pra lá. E eu rolava inquieta. Sem poder dormir. Sem poder acordar. Havia um silêncio pré-tempestade dentro de mim. Fiquei com as memórias. Não as minhas. Dele. E me confundi. Me perdi aqui dentro nesse novelo de lembranças picpotadas em cadernos e frases perdidas. Fora do contexto. Sem texto que me dissesse respeito. E a dor... esperando no pé da cama. Ouvindo o meu respirar apertado. Nervoso. E de repente, sobressaltada pelo pulo do Fred na cama que me olhava fixamente, achei irônico me encantar com as memórias dos outros. Sempre tristes, dizia o Juliano. E me apertei mais em mim. Vi um desfile sombrio de rostos e curvas de pessoas. Cores e tamanhos que se confundiam com esses fantasmas aprentados pra mim. Não dormi mais.
Apertei a boca nas mãos pra conter esse respiro. Senti uma pontada no peito e uma vontade louca de me esquecer. De tudo. De nunca saber. O desconhecido pode ser mesmo um grande abençoar. E chorei mais. Me desesperei nessa vontade de me apegar mais, mais. De querer. e de ouvir e saber... sem mais ter que ler...
Não me lembro mais de ter dormido, mas fui sacudida pelo despertador do Juliano que ia viajar cedo. Mais panos. Menos cintilantes. Como a gente pode mesmo sublinhar essas emoções com música? Fiquei pensando nessa coincidência de ouvir de fora, de dentro, desse mundo cheio de memórias. Dessas que se quer esquecer, dessas que se apertam no coração e entre os dedos para não escapar. Dessas que se pode perdoar. Mas não se pode.
Lembrei de mais um monte de coisas hoje cedo. Quase nostalgia de 28 anos que ainda não se foram? Me senti velha. Jovem. Inteira. Fractal. Pensei e deixei de pensar. Fui fazer essas coisas do cotidiano e meio para fazer de conta que se está bem por dentro, comecei a falar e a falar. Com gatos. Resolvi problemas da obra e não tive vontade mais de sair de casa. Fiquei aqui. Atirada no meio das provas. Ouvindo a mim. E pedindo ao John Williams que sublinhasse essas outras coisas aqui que eu ainda não sinto, nem percebo, mas existem dentro de mim. Pedi música. Perdi memórias. E me deixo com votade de ter mais esquecimentos e lacunas... pra deixar a água passar.
terça-feira, julho 15, 2008
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segunda-feira, julho 14, 2008

Hoje acordei com saudade desse mar. Desse ir e vir pra dentro, cada vez mais.
Desse me banhar de mim, de luz e de sal. De ondas que vão me levar pra sei lá onde. Trazendo tudo, deixando nada. Fiquei com saudade dessa solidão cheia de plenitudes que não se explicam. Nem se dizem. Vontade desse mergulho. E ficar. Nesse escuro do fundo do mar que deixa o sol se por e a vida calar.
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Eu me espanto ainda com algumas coincidências dessa vida. Depois de viver essa tragi-comédia grega com o universo dos felinos, a história ainda parece continuar... Estava na semana passada dando uma rodeada pela livraria da FEA e - pela segunda vez - esbarro num livro chamado Amor em minúscula. Gostei do título, mas gostei mais porque tinha um gatinho na capa. Igualzinho à Malu.
Malu foi uma gatinha que encontramos na escola. Estava na 7a. série. Sempre gostei de gatos, mas minha mãe na época não queria bichos em casa. Mais ainda: tínhamos herdado um papagaiozinho do meu avô que falecera no ano anterior. Era uma combinação perigosa, para não dizer mortal. Achamos a Malu no páteo do colégio. Gata de rua mesmo. E, acho que já contei essa história aqui, enfiei a Malu na mochila, e trouxe pra casa.
O pior não foi confinar a gatinha numa mochila com livros de escola e aguentar o trajeto de ônibus - aproximadamente 20 minutos - até a minha casa. Inventei de dar um banho - isso mesmo! - no tanque de casa, com a água gelada. Foi quase um campeonato de luta livre, o qual, honradamente eu ganhei depois de ser arranhada até onde não podia. Malu andou em casa, tranquila. Minha mãe chegou e fui obrigada a começar o sermão pró-felinos. Inútil. Tive que levar a gata pra escola. Na mochila. E assistir as primeiras aulas com ela.
Me lembro que a aula antes do intervalo era de matemática e o professor era um querido. Jihad. Nada a ver com as jihads. Era um coroa bonitão e muito engraçado. Tive que disfarçar que a mochila se mexia e miava. Pobre Malu. Os colegas ainda tentaram acobertar - afinal era um plano coletivo dar uma salvação à gata. Mas ninguém ficou com ela no fim das contas. O duro de se ter 13 anos é que as decisões bonitas que você toma nunca param em você. É preciso pedir autorização à cúpula dos pais(es)desenvolvidos.
Mas o que de fato me trouxe nesse livro nem foram tanto as lembranças da Malu ou a relação com os gatos. Mas o título, certamente, me provocou um suspiro gostoso no coração. Dessas brisinhas de felicidade não inteligíveis. Gosto das coisas simples: ir a padaria, andar de bicicleta e ficar passeando pela cidade a pé. Gosto de andar descalços e poder usufruir do que a minha mãe sempre chamou de "momentos preciosos", traduzidos na linguagem cotidiana por vários outros vocábulos.
Comecei a sapecar com o livro e achei lindo a possibilidade de viver um amor, minusculamente falando. Miudinho. Não o amar pequeno. Mas de encontrar essas joinhas nas nossas intermináveis horas. Há um gato que traz a um professor solitário e cabuçudo de filologia um suspiro gostoso desses. De certa forma, tinha muito a ver com o meu café da semana passada. Descobertas dessa forma de viver que não ficam restristas à academia. Mas que se pode viver bons livros nesse nosso peregrinar em nós mesmos pela vida.
É engraçado quando a gente se reconhece nas linhas dos outros. E acho que foi essa vontade de me reconhecer aqui e ali, me achar nas entrelinhas do existir que deixaram de olhinhos vidrados no livro. Há essa coisa que me lembra ainda a Lina, que os animais ensinam. E que nem sempre a gente se predispõe a aprender qualquer coisa. Com eles ou com outros. Esse nosso jeitinho simplificado de organizar a nossa vida para que seja suportável viver assim tão cheio de "não sei" e "não entendo". Saboreio esse romance que se costura com os meus. Em silêncio.
O autor. Claro! ele escreve bem, mas falando mesmo dessas coincidências ele cita muito Kafka, Goethe... e pra me deixar mais extasiada o Livro do Desassossego do Fernando Pessoa, sem contar o Pink Floyd e o "Dark side of the moon"... O livro está cheio de citações bonitas e que deixam a gente suspirar com as páginas abertas da alma... Tem uma delas que eu fiquei..., que me deixou assim com essa vontade de escrever sobre sei lá o que
toda luz tem sua sombra. as pessoas aparentemente mais simples ocultam um mundo no qual acontecem coisas impensáveis. quando entramos nele por acaso, somos invadidos por um sentimento de desconcerto e temor, como quem invade um jardim alheio.
(...)
Por isso às vezes é conveniente não querer saber tudo.
E acho que foi exatamente isso que me pegou. Porque eu sempre quero saber tudo o tempo todo. E me lembro da Clarice dizendo "você é daquela que precisa de garantias". É. Assustadoramente assim. E isso nunca se tem. Já dizia Malu, Lina, ...
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terça-feira, julho 08, 2008
Recebi uma boa notícia em relação ao meu mestrado. Mas a coincidência foi que, exatamente hoje, tomando um café na FEA antes da aula de alemão eu ouvi uma voz bem familiar. Até demais que olhei. Era a uma antiga amiga minha da faculdade.
Há coisa que 6 anos atrás ela tinha tudo o que eu almejava - quase tudo - tinha seu carrinho, sabia ingles, alemão e francês, latim, estava terminando o mestrado e se lançando ao doutorado. Tinha ido algumas vezes para a Inglaterra para estudar. E podia comprar livros e passar o dia estudando. Tinha bolsa. E uma família que podia bancar as coisas. Além de tudo isso, era bastante lida, estudiosa e séria nos seus trabalhos. Minha primeira apresentação - quase - séria em congressos foi com ela. Sempre admirei. E sentia uma inveja positiva. Algo do tipo "quando crescer quero ser assim".
A gente se dava muito bem. Saíamos juntas e eu cultivava essa mistura de admiração-projetada-de-sonhos. Ela tinha personalidade. Eu também. Dizia o que pensava. eu também. Havia muita afinidade e chegamos a participar de momentos bonitos da vida uma da outra.
Num determinado momento do curso ficamos mais próximas e como ela morava bem perto de casa me dava carona. Pouco tempo depois - não me lembro exatamente quanto - a gente se afastou. Crises na família dela. Eu ocupada. Enfim. Essas coisas que a vida vai fazendo pela gente. E a gente deixa de fazer pela vida. Nos estranhamos uma vez e acho que depois disso, por mais carinho que existisse, não foi igual. Eu fui trabalhar. Terminei a faculdade. Corri atrás dos meus sonhos: estudei línguas, rererereescrevi projetos. Briguei com orientador. Caí na sala de aula.
Nesse percurso mudei de namorado. Gandaiei. Conheci a Marcia. Enfrentei Stelas e Manuelas. Muita coisa salgou em mim. Outras adoçaram. Me desencantei com a academia. Com a sala de aula. Com amigos e colegas. Fiquei deprimida. Enfrentei monstros e minhocas. Depois me apaixonei. Casei. Fiquei desempregada. Corri atrás. Pedi emprestado. Suei. Deixei de dormir. Chorei. Discuti a relação. Briguei em casa. Chorei mais. Trabalhei. Escrevi. Estudei. Li. Achei pessoas. Presentes. Alunos. Mestre. Voltei a me encantar com a academia. Com pessoas e com a nossa dificuldade de conviver.
Muita coisa aconteceu desde então. Hoje, tomando aquele café ali eu vi a mesma mesmice de anos atrás. O falar mal. O rancor. A disputa e a insegurança que a intelectualidade insiste em dizer que não tem. Vi um castelo de vidro. Lindo. Frágil. Cheio de ranhuras que podem quebrar. Montado sobre um solo de areias orgulhosas. Senti por ela. Pelo tudo o que eu gostaria que ela tivesse vivido. E pelo que um dia eu quis viver. Senti. Toquei no braço dela algumas vezes dizendo que sentia saudade. Nem sei bem do que. De quem. De mim ou dela? De nada...
Saí pra aula meio cambaleante. Subi as escadas correndo como se fosse encontrar no terceiro andar a menina do terceiro ano deslumbrada com o conhecer. Cheguei ali e não vi nada a não ser meu reflexo no vidro escurecido pela noite. Passavam das 18:30. Passa(r)vam por mim muita cenas translúcidas naquela tela quase etérea do meu vivido. Pensei ali no que eu vinha me transformado. E como Deus depois da criação, vi "e achei que era bom". Gostei do meu metamorfosear dolorido. Das minhocas cavando em mim e saindo sei lá pra onde. Gostei desse amargo de viver e da doçura do se transmutar. Achei bom a dor-prazer. E agradeci a quem de direito por isso tudo em mim. Dentro. Fora. Lembrei do Tatá... meu mestre. Nas coisas da cabeça. Das suas lições de humildade e de seguir. Persistir e achar bonito não vencer de cara. Gostei de ter crises com a falta de tempo. Da minha demora em fazer o mestrado. De adiar. Nunca de desistir. De saber esperar. Saber chorar. Perdoar. Reconhecer. Iluminar e escurecer. Gostei de ter mordido a língua. De ter de pedir desculpas. De ter razão. E de não ter poder.
Voltei da aula de alemão com o coração latejando aquela dor. Ainda lacinante de feridas antigas e doídas. Fantasmagóricas que me assombram pela História e por tantas histórias que me atravessam. E trespassam o Nosso. Tinha ligado pro Juliano. E feliz-triste pedi saudade e um SOS pro meu coração que esses dias foi bem sacudido. Pedi carinho e aquela confirmação que é mistura de manha e medo de quem é-foi ontem-hoje, e nunca mais. Cheguei em casa assim. Meio tropeçada por um de mim. E dele. Da gente. Da USP. Da História. De cada um.
Senti saudades de casa. Daqui mesmo. Entrei. Procurei alguma coisa que eu acabara de reencontrar. Senti saudades da minha amiga. E de quem fomos uma pra outra. Mas soube que eu era mais inteira agora. E o quanto eu precisei perder pra me deixar assim, com menos frações de mim. Me deu uma melancolia. Um me alegrar cheio de pontadinhas no peito. Mordiscadas de vida transmutada arranhando o coração. Tão frágil trocando de pele. Ah, isso sim acontece. Os corações também trocam de pele. Com menos frequência porque estão bobamente blindados pelo nosso jeito metidinho de ser. Mas quando a pele é arrancada... aquele pulsar em carne viva te dilata inteiro por dentro. E a pele nova demora pra nascer. Fazendo esse nascimento doloroso, definitivo até que se troque de pele de novo.
Abri a porta procurando juntar as pelinhas que saíam e nasciam aqui dentro. Me lembrei das caminhadas na semana passada e dos muitos e lindos e silenciosos "até amanhã" do sol... das cores na praia. Da água do mar. E desse sal de Clarice tomando conta de mim de novo. Me lembrei das cores. De que cor é mesmo sentir? E se sente tanto? Abro a porta. E ali estava o Juliano. Flores amarelas nas mãos e aquela camisa amassada do dia. Laranja. E o rostinho corado de sol. Brilhou aqui dentro. E da pele e do sangue e da dor eu senti aquele quentinho no peito. Anestésico. Um olhar e o silêncio de quem se testemunha trocando de pele. Um abraço. Um carinho e um sussurro perfumado dessas flores amarelas. Luminosas. Cheias de vida. Do Nosso. E ali, tudo se fez. Fechei os olhos e vi o sol aqui dentro. Nascendo... até amanhã.
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segunda-feira, julho 07, 2008
De volta ao lar... ainda em reconstrução e, claro, para dar certo o ciclo pós viagem, chegando em casa me deparo com uma carta de uma vizinha pitizenta.
Achei curioso como a intuição é pouquíssimo ouvida... recebendo as notícias perto do mar (que ela não saiba) de que o prédio estava mais do que apodrecido por dentro, senti que o distúrbio na força seria bem maior do que pareciam mostrar as imagens de nuvens no céu.
Não vou dissertar o longo apreço que tenho por essa figura que tem lá os seus amarres históricos comigo. Para não falar de outros engodos. Isso sem falar nos 6 meses de azucrinação volta-do-trabalho que eu tinha que escutar sem manda-la para aqueles lugares. Enfim. Aos poucos as coisas faziam mais e mais sentido e a aparente "não-vou-mesmo-com-a-sua-cara" se materializou em uma briguinha muda (da minha parte) por uma coisa meio fêmea-alfa. O mais difícil numa situação de guerra não-declarada é quando o inimigo sabe mais que você. E o seu aliado se recusa a dividir algumas informações vitais para a compreensão da peleia. Ora, ficou mais simples depois que o Juliano "situou" algumas questões.
Acho que pela primeira vez a frase "We have a situation here" fez tanto sentido. Ontem, chegando daquele descanso mais que merecido e suadinho... me dei de cara na minha casa com uma cartinha da moça. Francamente. Além de escrever mal, a figura parecia ter escrito a Papai Noel reclamando que a sua bicicleta não tinha chegado. Me vi enfurecida. Odeio invasões na minha intimidade e quando atacam os meus, enfureço mesmo. Vi uma leoa andando em alerta na porta de casa e nas escadas. Importante: a carta era endereçada ao meu marido. Bom. E muito ruim. Acendeu uma veia estrategista minha - que sempre temo: serviços secretos do mundo que se cuidem! - que imediatamente levantei um arsenar de coisas para atacar efetivamente.
O mais estranho de tudo era o fato de eu saber que isso não era "politicamente correto". Ora, há maneiras e maneiras de se fazer políticas corretas. Depende sempre do objetivo, não é? Comecei a minhocar. Fazia tempo que as minhocas não apareciam assim tão enfurecidas. Glorioso.
Tive que ouvir o Juliano argumentar e falar de rancores, propostas de armistícios e tentativas diplomáticas. Ouvi. Enfureci de novo. Bom jeito de se treinar a paciência. Aliás, livros de auto-ajuda deveriam recomendar veementemente ter um vizinho mala e mau-caráter. Faz brotar em você um misto de instinto civilizado.
Hoje cedo, depois de tomar um café da manhã emburrada e ter passado a maior parte da noite em claro rezando e maldizendo a criatura - os céus vão ter que fazer sua reunião de paz também... - vou buscar os gatinhos no hotel. Depois de abraçar e apertar bem os dois - recém de banho tomado, fofos, e saudosos - dei de cara com a fofa na escada. Tudo se resumiu a um "oi" meu, bem longo, irônico talvez, mas elegante. Em cima do salto como dizem as vovós. E a um oi seco, grosseiro e bastante enfurecidinho. Não vou mentir que gostei que ela ficou sem água. Uma certa vingancinha silenciosa pelas coisas todas que ela me disse.
Agora, nesse jogo de birras... só espero passar esse engodo no peito e voltar a passear pelas escadas sem armas na mão. Incrível como a gente é humano. Bixo. Instinto territorial mesmo. Com algumas armas mais ferinas que as dos animais. Essas deles podem cicatrizar e fechar. As nossas são permanências...
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quinta-feira, julho 03, 2008
caminhos por aqui por dentro
Vim acompanhar o Juliano nessa semana de trabalho e me refugiar de mim mesma. Tenho tentado isso há algum tempo mas sem muito sucesso. Estou aqui há 2 dias e escrevo e leio e penso e despenso muito de mim...
Trouxe a Clarice Lispector e a Karen Armstrong para esses dias sabáticos de não-pensar. E o mais engraçado é que nesse cultivo de solidão literária eu me largo nem sei onde. Foi uma delícia o dia de hoje pensar se dormia ou lia, ou caminhava na praia. E resolvi deixar de querer escolher. A gente tem que escolher o tempo todo e cansei dessa obrigação.
O livro dos prazeres, da Clarice, tem me deixado absolutamente em transe hipnótico. Fiquei meio chocada com a pungência desse observar-sentir a vida dela. Invejei. Quis escrever assim. Como se escrever assim me aliviasse esse eterno angustiar-se. E ela dizia no livro que não há literatura sem dor. Fiquei pensando no tamanho da dor dela. A gente pode medir a dor?
Estranhamente, não tanto assim, a Karen escreveu um livro chamado A Grande Transformação. Fala de um período da história chamado Era Axial em que surgiram - ao mesmo tempo - os grandes mestres e algumas buscas espirituais. Achei graça dessa minha seleção de viagem pro mar. Devorei os dois hoje, mas ainda não sei pra onde isso vai me levar. Acho melhor não prever mesmo. Gostei dessa experiência de cair nas ondas do mar da vida e me soltar um pouco das amarras elásticas que prendi nela.
Hoje fiz coisas bem do dia-a-dia. Daqui há pouco vou comprar detergente e esponja. Fiquei com vontade de lavar a louça. Arrumar a casa e esperar o Juliano de banho tomado e cheirosa pra gente tomar outro vinho e quem sabe deixar o frio esquentar debaixo das cobertas. Me vi feliz hoje com essa condição de ser humana. A Clarice dizia ontem que o destino de todo ser humano é se tornar ser humano. Fiquei cavocando esse destino na areia do mar hoje. Não achei. Ainda. Mas não fiquei com pressa de achar. Vai saber como vou encontrá-lo não é?
Me deu uma satisfação de estar desaprendendo uma série de coisas. Gostei desse estado de lentidão cerebral e paciência de sentir. Espera. Sem pressa. E largada nesse ir, voltar, deixar. Vontade de ficar aqui nesse café e devorar os outros livros e cafés. Só para deixar o sonho ser no acordar. Por que dormir?
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trombadas
Domingo. Era por volta das 11 da manhã eu acho. Estava num vai e vem de gatos e reforma e material de construção. Juliano me chama pra olhar pra trás na saída do prédio... Lina na porta.
Mal pude acreditar que era possível depois de mil olhadelas na vila a gatinha surgiria debaixo do carro estacionado empacando a minha entrada. Me abaixei e só senti o coração acelerar. Era uma sensação de ter de volta algo que, de certo modo, nunca tinha sido plenamente meu. Um insaciável satisfeito. Recheado. Mas com mil buraquinhos pelas bordas do peito com os arranhões que só o apego - e seu irmão mais novo, birrento, o desapego - pode ter.
Chamei a gatinha. Juliano ficou ali parado. Havia outro com ela, um dos muitos com quem ela dividia a casa. Ela olhou. Chamei-a de Lina mesmo. Era o que ela era pra mim. Ela veio. Miou. Peguei no colo. Apertei ela gostoso. A gente se reconheceu. Ela - como de hábito - esfregou o rostinho no meu. Só consegui dizer um "ó" terno e manhoso e retribuir. Pedi ao Juliano que tirasse umas fotos da gente. Não tive como pedir isso dia que ela foi.
Fiquei pensando em quantas vezes eu a procurei, a chamei em pensamento para ela me "surpreender" na porta. Achei graça dessa coisa toda infantil e de menina apegada. Fiz carinho, disse que ela era importante e que eu sentia saudade. Acho que ela entendeu. Estava grandona, mas mais aculturada. Engraçado como eu reparei nisso. Um sentir, cheio de sutilezas. Eu também não era mais a mesma. A perda e a separação provocam coisas na gente. Coisas porque isso não se define, não se nomeia. Mal consegue-se sentir.
Soltei ela no chão. Observei. Ri. Ela rodeou. Miou mais um pouquinho e eu adorei. Era um sinal da gente como "estamos aí, a gente vai se trombando". Naquele momento só nosso eu fiquei pensando na Lina como a vida. Ela vai, vem, volta e e vai de novo. Sem a gente controlar. Sem a gente querer. E nesse ir, vir e voltar há transformações sutis dentro da gente. Aquelas unhas arranham umas entranhas estranhas de nós mesmos. Mostram os nós, os arrepios e medos, os engasgos e até os miados mais disfarçados cheios de charme que escondemos nesse silêncio de existir. Fiquei ali agradecendo a ela por isso, por me presentear com a vulnerabilidade, com a fugacidade da experiência, da alegria, do ter, do amar. Do sentir. Fiquei com isso. Peguei ela no colo de novo. Era um tchauzinho mais conformado de nós duas - mais do que no dia que ela arranhava a porta de vidro na casa dela - mais inteiro também. Mais adulto. Sofrido, mas cicatrizando. Depurando algumas verdades sobre esse nosso gatear...
Olhei pra frente. Um barulho no portão da vila. Era a Fran atrás dela, preocupadíssima dela ter fugido. Não minto que eu quis que fosse verdade. Quis me tornar a mulher invisível ali com a Lina no colo e sumir do mapa com ela. Como fazem os super-heróis. Ri sem graça tentanto esconder esse desejo meio gato-traiçoeiro-apego. Ela me viu e riu. Havia na gente essa cumplicidade da vida tirando e dando coisas ao mesmo tempo agora. Tão rápida e intensamente que o máximo que a gente consegue fazer é se olhar - rapidamente - e rir. Desajeitadamente. Disse que a Lina estava aqui, bem. Bastante óbvio para o meu flagrante de quase-rapto. Ela contou que a Lina tinha aberto a janela da sala de jantar e fugido. Ri por dentro. Quase comemorei.
Mas a gatinha miou e me dei conta que os meus delírios de Marvel estavam com os segundos contados. Soltei ela no chão. Ela voltou pra mim. Ficou. Rondou. Conversamos um pouquinho. A Fran me desperta tanta ternura e generosidade, mas ao mesmo tempo ela me tirou a Lina. Como essas coisas podem andar juntas? Olhei de novo a Lina. Comia grama daqui e dali, olhava. Miava. Ouvi ela contar dos outros gatos. Não tive vontade de contar dos meus. Mas intimamente agradeci a ela. Era um experienciar de não-entender que eu vivia. Aliás me dei conta que eu precisava viver não-entender mais vezes. Que nos últimos anos essa ansiedade por entender coisas me deixaram quase de concreto. Um cérebro metido a besta quase tomou conta. Mas deixei que a luta fosse bem sangrenta e as cicatrizes ainda passeiam pelo meu corpo. Subitamente a dor da perda se foi. Respirei. Foi bom olhar pra ela e deixá-la livre. Não era bem desapegar. Mas soltar a linha - elástica - que nos unia. Na hora me dei conta que nem todos eu amarrei com elásticos. E que mesmo ela foi difícil trocar as amarras. Me deu pressa de fazer isso logo. Listei rapidissimamente todos os que eu queria bem amarrados a mim. Me perdi. A lista era grande demais e os meus dedos desajeitados não iam dar conta disso assim tão rápido.
Juliano me chamou e me dei conta. Respirei de novo. Olhei de novo pra Lina. Fiz uma prece agradecida pra ela. Por ela. Pelo que ela trouxe pra mim. E generosamente deixou em mim, não levando com ela. Olhei pra cima como querendo ver os dois novos gatinhos que estão em casa. Fred e Filó. Disse em silêncio que uma hora eles iam se ver. Meio parafraseando o filme Promesses.
Há dois dias estou em Florianópolis. Choveu hoje e passei a maior parte do dia trabalhando. De repente vi que a imagem da Lina no computador tinha sumido. E que eu tinha acabado de ligar para saber dos gatinhos no hotel da clínica. Achei meio mágico que isso tivesse acontecido assim ao mesmo tempo. E gostei da sensação. Ontem, caminhando pela praia, tive uma epifania desse ir e vir das ondas, da Lina, da vida, dos (não) meus. E como a gente pode criar retinas mais coloridas para deixar esse banhar-se vida tomar conta da alma. Sem se esconder. Sem se amarrar. Quis ir com as ondas ontem. Naquele púrpura de fim de tarde que eu adoro. Que é tão cheio de mensagens cifradas ao espírito. Que revela essas ranhuras de viver sem ser, de se arrastar pela gente mesmo. Molhei a mão no mar pra limpar a areia. Foi que eu vi... os arranhões que a Lina deixou na minha mão no dia que ela foi estavam cicatrizados. Só aquela manchinha rosa, como o céu e o mar. Enchi os olhos d'água e de fato, não entendi, senti. Chorei miudinha sei lá porque. Um choro sem lágrimas. Fiquei tímida diante desse oceano salgado na minha frene. Cheia de não-entender, senti, sendo, entregando ao Tempo esse viver-vivo e misterioso. Coloquei a saudade nas asas das gaivotas e pedi que elas levassem ao mar. Uma hora as ondas trazem de volta. Pra gente curtir de pertinho a saudade e novamente deixar ir. Ir, vir, voltar, diluir, sem cicatriz, só os dedos róseos da Aurora no coração...
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quinta-feira, junho 26, 2008
Reformas e pó. Combinação para um começo de férias bem inusitado. Começamos uma reforma no apartamento. Engraçado porque faz uma semana que a Lina foi embora. E literalmente a casa virou de pernas pro ar. Entretanto eu fiquei com a sensação de que faz mais tempo. Doeu muito e ainda me pego dando umas espiadinhas na vila aqui do lado pra ver se eu "trombo" com ela.
Passei o domingo tirando as coisas do lugar e arrastando móveis e subindo escadas e banquetas. Acho que trabalhei umas 7 horas nesse vai e vem. Achei graça porque, afinal, domingo é dia de descanso. E consegui descansar a minha cabeça mais assim do que atirada na praça por do sol com o chimarrão.
Suei, reclamei. Dormi exausta. Acordei cedo dia seguinte com o prenúncio de um dia frio, agitado e cheio de correrias. Minha última semana de trabalho antes das férias foram bem emocionantes.
Fiquei imaginando aquele monte de entulhos dentro de mim. A gente costuma demolir as coisas - quando não demolem pra gente - e nem sempre joga fora o entulho caído. Olhei a minha cozinha no chão e me dei conta de um apego sutil ali. Lembrei das coisas boas que aconteceram naquele lugar. Das tristes. Das discussões com o Juliano, enfim. Das minhas horas de café da manhã sozinha. Em silêncio. Dos pensamentos, pesares, saudades, alegrias. Muita coisa ali desde os 2 anos que viemos pra cá. Pensei em fotografar mesmo e registrar o lance do processo... mas não.
Olhei a casa toda desarrumada e achei graça de gostar dessa bagunça. Hoje cedo fiquei aqui cozinhando essas coisas de memória, saudades. De repente percebi que as coisas são mesmo bem transitórias. Nada é de fato nosso. Nem o corpo.
Nas minhas tomadas de consciência (vamos dizer assim...)nesse universo ocidental de academia, trabalho e consumo me peguei ontem numa rotina engraçada. Trabalhei, saí pra correr e malhar e depois passei na Cobasi pra comprar remédios e comida para os gatos. Humanizada. Curti isso. Ter quem me espere cheio de dengos - além do Juliano evidentemente, sujeito a alterações de trabalho e humor.
Quando chegava em casa me lembrei da Lina, do tempo que ela passou comigo e tudo o mais. Abro a garagem e vejo o carro da Fran, dona dela, saindo da esquina. Apertou o peito aqui dentro. Entro em casa e vejo a Filó. Olhei aquela filhotinha carinhosa, sapeca agarrada em mim. As coisas nos são emprestadas mesmo. E essa mistura toda de reforma, destruição, construção, desapego e quero mais me deixaram hoje meio amortecida, sem saber direito onde e como ir, fazendo o que... com vontade de deixar passar... esperar e ver.
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quarta-feira, junho 18, 2008
Depois de um dia de luto... Vamos em frente. Acordei meio zonza ainda e virada do estômago. Mal saí da cama... Acordei e quase me pego chamando a Lina de volta pra cama. Respirei. Chorei miudinha mais um bocado deitada. Veio a Filó. Pequeninha e pretinha. Enroscada em mim nos cabelos. Me comovi com isso e vim pra sala depois. Abri a janela da sala e procurei a Lina na rua... me senti tolinha. Trabalhei o de sempre. Ajeitei as coisas e depois tomei coragem.
Queria muito ver a Fran hoje. E a Lina. Toquei o interfone da vila e meio tremendo por dentro para não chorar de novo... Ela abriu a porta com um super sorriso. Nos abraçamos. Disse a ela meio engasgada que eu queria agradecer pelas coisas todas que ela tinha feito. E pedir desculpas pelo meu descontrole emocional do dia anterior. Senti que ela gostou daquilo. Perguntei como estavam as meninas e a sogra. Todos bem. A gatinha. Bem. "Reacostumando com a casa e a rotina"... Vi a carinha dela pela porta de vidro. Enchi os olhos d'água e ela me perguntou se eu queria ver a Fiona. Aceitei. Abriu a porta e a Lina veio correndo. Subiu em mim e deu aquela esfregadinha gostosa no rosto.
Segurei ela só um pouquinho. Ela miou. Queria chão. Voltei pra casa depois mais aliviada e com um pesar menor no peito... Vi que ela era ali mais uma. Comia de tudo, brigava com os outros e queria desesperadamente sair... Doeu pequeninho aqui dentro. Fui embora com essa lembrança, meio tentando dizer a ela "telepaticamente" que ela sabia onde eu morava... e que podia voltar a hora que fosse. Engraçado como a gente se alimenta dessas coisas. Fiz um combinado de "a gente brinca de novo" ou qualquer coisa besta do tipo.
Dei as aulas, me recuperando devagar de tudo... Saí da sala e vi um por-do-sol cor de rosa. Lindo. Ficando lilás... Uma lua cheia aparecendo no fundo... Parei ali um bocadinho lembrando das pessoas que eu já perdi. Dessa transitoriedade toda de tudo. Doeu. Respirei. Rezei em silêncio pra mim mesma... pedi força, paciência. Coragem pra enfrentar os desapegos do porvir. Fiquei pensando no meu medo de perder as pessoas que eu amo. Agradeci pelo Juliano. Por tudo... Voltei pra casa sentindo ainda vontade de passar ali e dar um alo pra Lina... Pensei nos outros gatinhos e no que a Fran tinha me dito: "os animais vem para nos ensinar... e muitas vezes nos colocam em situações muito cruéis."Tentei trazer a Lina pro peito e ficar com a sensação que ela não foi mesmo devolvida, mas está morando aqui do lado. Minha vizinha. Só sei que aprender leva tempo, e que nem sempre quem ganha, ganha tudo...
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terça-feira, junho 17, 2008
Despedidas
Hoje a Lina foi embora... De vez. Na hora de sair para o trabalho toca o interfone. Era a dona da nossa gatinha. "Preciso falar com vocês"...
A história não estava acabada. Eu sentia isso. Juliano também. Nenhum de nós falávamos sobre o assunto. Parece que a simples idéia de perder a Lina seria demais para os dois. Ignoramos. Fingimos não saber. Ficamos mais duas semanas assim depois da coversa de sábado.
Ao que parece o meu exercício de desapego chegou ao nível de exigência de gente grande. "é só um gato"...
Ouvi a Fran falar. Escutei com o coração na boca. Ela pediu o gato de volta depois de uma trama complicada de ex-sogra e ex-marido mais filhos birrentos. De fato, não queria estar na pele. Nem no primeiro dia que nos vimos. Eu já teria tomado a gata de volta... e admirei a generosidade dessa mulher que me dava a gatinha comprando uma briga das grandes com a família. Corajosa.
Eu pedi. Implorei. Chorei. Cheguei a quase desmaiar e passar mal mesmo. Fiquei envergonhada da minha humanidade vomitando na porta do prédio depois de passar 3 dias com o estômago ruim e dores aqui e ali. Não sei se isso era um sinal...
Fiquei pensando antes de escrever aqui quem deveria contar essa história. Shakespeare, Goethe... Nelson Rodrigues. Os irmãos Andersen... Não consegui. Chorei os tubos. Como fazem as crianças. E revivi esses dois meses como numa alucinação-emocional... Lembrei do dia em que ela entrou em casa pela primeira vez. Dos carinhos, das brincadeiras e de todo o cuidado e amor que ela despertou. Lembrei da gente amarrando um barbante com pedaços de papel e da faceirice dela correndo pra lá e pra cá... da minha frustração ao comprar brinquedinhos e ela nem ligar. Lembro da primeira consulta à veterinária... da minha versão da história... do apego com a Lina que crescia e invadia o peito.
Lembrei do dia da cirurgia e do dia que saí chorando do hotelzinho ouvindo ela miar e esfregar o rostinho, toda sedada, na minha mão... Achei aquilo tudo cheio de significados no meu universo pequeninho aqui dentro.
Lembrei de todas as vezes que exibi a fotinho dela no celular e contei feliz que a Fran tinha me deixado ficar com ela. Hoje doeu. Dilacerou... Nunca achei que fosse cometer essa micagem toda emocional e quem sabe imatura-fútil-apegada-mesquinha me deixassem assim...
Eu saí de casa tendo antes ligado pra minha mãe. Claro. Entendi profundamente a dor da Fran. Ela me pediu perdão por levar a Lina. Não sei quem deveria perdoar quem ali. Na versão dela eu tirei a gatinha da família dela. Ela nem tinha como fazer diferente. A ex-sogra está com câncer e se recusou a falar com ela depois de saber que a gata, viva, estava "doada" com outra pessoa. Vizinha do lado... Imagino como a sensibilidade da doença tenha deixado ela arredia. E as meninas. Nem sei. Hoje me senti como elas. Adolescente. Há duas semanas eu julguei: birra. Hoje, vivi. Senti. E doeu fundo. Compreendi tão fundo que não tive outra escolha a não ser deixar a Lina ir. Chorei mais na escada subindo pra casa. Sabia que era um subir de escadas pra fundo de mim...
Entrei no apartamento. Ela me esperava na porta. Subiu no colo. Chorei mais. Mais. Não consegui dizer nada. Aí sentei com ela no sofá e disse que a gente precisava conversar. Hoje, talvez, pela primeira vez, entendi a tirinha do Calvin quando ele perde um bichinho de estimação... e a mãe só conseguiu dizer que ele tinha ido para o céu dos bichinhos. Pensei se existia mesmo um e se um dia a Lina - egoisticamente - seria minha de novo. Num céu desses de contos de fada.
Fiz os cafunés que ela gosta. Brinquei com o papel amarrado no barbante. Disse a ela que a verdadeira mãe tinha voltado e que ela deveria voltar. Agradeci a ela pelo tempo que ficou comigo, pelas coisas que ensinou... deixou aqui fundo... pela alegria. E por ter me ensinado a entender essas coisas estranhas da vida que a gente nem explica nem entende. Só vive. E sente. Ela me olhou e de novo agarrou o meu pescoço com as patinhas. Hoje cedo a brincadeira dela era moder o meu dedão do pé. Chegou a furar a minha meia...
Desci a escada me esforçando pra ter a atitude honesta, sincera, inteira com a Fran. Quando elas se viram a Lina foi arisca... Viu a Beti, quem fez as devidas conexões com a história da Lina-Fiona... Ela mostrou os dentes pra ela... Juliano e eu nos olhamos rapidamente. A Fran disse que ela seria bem cuidada. Nessa hora a Lina colocou a patinha no meu queixo e ficou me olhando... era o nosso tchauzinho. A mãe tem sempre que ser o adulto da situação. Batalhei fundo pra isso na hora...Ela pegou a Lina.
"Eu vou indo pra você não sofrer mais"... acho que nós duas sabemos que isso não era possível... Ela pediu desculpas de novo. Agradeceu. Eu não consegui responder. Nem consegui olhar muito pra ela. Lina e eu ficamos ali nos olhando. Juliano me abraçou. Pedi pra ver a Lina atravessar o portão... Vi ela sumir no colo da dona. Vi o tamanho do meu apego... Doeu tanto. Subi a escada... Chorei mais. Olhei pra caminha dela na sala... e o barbante.
Por alguns instantes achei isso tudo piegas e irracional. Claro. Trata-se de assuntos em que somos pouco treinados.
;]
Pensei depois nas coisas que podia ter dito. Feito. Meio novela mexicana... Voltei pro sofá. Olhei a casa vazia... Só a Bia aqui limpando... queria poder limpar as lembranças e passar um pano nesse pó que a memória se torna. Queria ter tido forças pra dizer não. Impossível. Acho que era exatamente isso o que a Fran queria me dizer quando pediu perdão...
Estou em casa de novo. Agora com dois gatinhos... conto depois... ainda nos olhando e namorando. Exceção da filhotinha. A Filó. Tem o Fredy... Os três nesse dia frio. Cheios de coisas... e esse mistério do viver e morrer. Não quero pensar que a Lina morreu. Quero poder dar de cara com ela na rua aqui da frente, fazer uns chamegos e respeitar esses aprendizados que os gatos nos trazem. Vou levar a Lina comigo... hoje percebi, olhando dezenas de gatos para adoção (idéia do Juliano de como conter uma leonina desesperada e inconsolável), procurei ela ali no meio. "Lina só tem uma", me disse baixinho no ouvido... E é mesmo. Sinto falta dela. Choro ainda. Mas quero que isso se torne uma das páginas bonitas da minha vida. Cheia de saudade, manha, carinho, e essa generosidade que ela veio me trazer empacotada no coraçãozinho. Fico imaginando as filhas da Fran com ela. Não senti ciúmes. Mas foi gostoso imaginar que elas podem sentir o mesmo alívio que tive há duas semanas atrás. E que a vó doente ia quem sabe, fazer o exame hoje depois da notícia e fazer as pazes com a família. Dói. Mas é uma dor com alívio... Fiquei com a lembrança dela agarrada em mim hoje cedo. E da nossa despedida cheia de silêncios e significados. Senti como um agradecimento pelo amor que ela recebeu da gente. Uma espécie de "também vou sentir saudades, a gente se tromba por aí"...
Os gatos nem sempre são livres pra escolher. Hoje eu vi isso. Mas encerro o post com um sentir grande de saudade-gratidão-amor-tristeza-apego-amor... Lina.
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segunda-feira, junho 16, 2008
Cansaço... estava lendo um poema do F. Pessoa sobre isso. Sempre falando do cansaço da alma. Ontem e hoje me bateram uma exaustão do corpo mesmo...
Há algumas semanas estou fazendo o esforço para conter o desânimo e a exaustão. Emocional e física. Engraçado como a gente sente que as coisas estão chegando ao seu limite. Sempre acho que vou dar conta das coisas e por mais que eu tenha um nível de exigência exagerado e de auto-cobrança... cansei.
Ando pouco sociável... com vontade de ficar deitada em casa esperando as fadas com a Lina e no chamegos do Juliano. Pela primeira vez depois de muito tempo sinto que estou jogando as toalhas... Tenho evitado discutir, retrucar. Descordar. Dá trabalho. Não estou a fim.
Sábado fui na festa de uma amiga querida e minha vontade era ficar ali vendo TV... achei graça porque sempre fui a baladeira, a alegre... e tenho me esvaído. A última semana me exigiu muito no trabalho. Minha mãe sempre diz que isso é pra me fortalecer o emocional... senti o contrário. Fiquei fragilzinha e cansada. É duro ter que provar o tempo todo que se tem capacidade... isso mata por dentro.
Conto os dias pra chegar as férias. Faltam poucos. E já inventei mais coisas pra fazer nela: curso disso e daquilo, tese, leituras... reformas. Ai ai... Sinto como se chegasse o Natal, mas não julho. Tenho tentado pedir colinho. Cafuné e aqueles sussurros carinhosos que te deixam feliz. Nem isso tenho conseguido. Cansei. Vontade de dormir, quase pra sempre...
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domingo, junho 15, 2008
A hora das fadas
Compre um prisma para a minha janela. Bate sol o dia todo no apartamento. É ventilado. Iluminado. Posso espalhar plantinhas pela casa e enfeitar com cortinas coloridas.
Tem sido mágico observar essas coisas. Meus últimos dias não tem sido muito fáceis. Foram simples. O de sempre na rotina do fazer. Mas muito diferente e intenso no sentir. No perceber. tenho evitado até de escrever para que algumas coisas não sejam colocadas de forma leviana. Não se trata de não desabafar. De não-dizer. Mas como preservar alguma sacralidade em alguns eventos.
Fui testada à exaustão no meu emocional nesses últimos dias. Nem o dia dos namorados escapou... Fiquei trabalhando muito em casa nessas manhãs de outono disfarçado. Gosto de olhar as janelas e imaginar com os olhos o que se passa aqui fora da minha casa. Hoje cedo, muito cedo, vi o amanhecer na janela. Tantos desenhos e cores no céu. Tão bonito. Valeu ter despertado agoniada. Voltei a dormir depois.
Nessas manhãs de trabalho-prece-agonia fico esperando a hora das fadas. Engraçado como eu consigo recolocar alguns pedaços da minha infância no dia-a-dia. Queria até que isso fosse mais constante. Quando o sol bate na janela da sala eu empurro o prisma (quando o vento está ocupado demais pra fazer isso por mim...) e vejo aquele monte de cores dançando na minha parede. É mágico. Lina e eu temos basicamente a mesma reação. Ao contrário dela - que fica pulando de um lado pro outro "caçando" as luzinhas coloridas eu fico aqui olhando elas se multiplicarem. E é a minha melhor parte do dia. Observo essas coisas e me voltam memórias, sentimentos, pessoas. É como se a casa se enchesse mesmo de fadas... nas cores, nas coisas que trazem consigo e nas risadas que me despertam vendo a Lina saltitar.
Agora mesmo estava aqui escrevendo sobre a escravidão e o café. Estava imaginando por que os trabalhos avulsos que me surgem estão sempre relacionados à História do Brasil... fico reclamenta, apesar de encontrar um prazer secreto - e bem timidamente birrento - nele. Liguei uma musiquinha e vi a Lina cochilar. É bom tê-la aqui do lado. Em paz. Sendo minha (egoistinha eu... sei disso). Trocamos uns cafunés e miados e quando volto pra sala pra continuar escrevendo preguicenta no sofá dou de cara com as fadas saracuteando nas minhas paredes. Tinha fechado as janelas por causa do vento forte. O dia esquentou de repente. Fui lá há pouco e abri a janela. Dei um soprãozinho no prisma... as fadas vieram.
Fico aqui me lembrando das conversas com o meu avô, das brigas com a Clara, minha irmã. Senti saudades dos passeios com o Vinícius na faculdade e da sessão besteirol com o Jedi. Olhei em volta e vi os meus cantinhos de novo. Juliano saiu e deve voltar em breve. É bom sentir essa presença dele em casa. Mesmo com as suas astronautices, vazios e silêncios. Suas distâncias medrosas e assustadas de mim. Doeu o coração lembrando de algumas das nossas discussões. Depois, como se um sussurro de fada viesse ao ouvido, fiquei olhando em volta e percebendo todas as coisas que ele me dá - generosamente - sem que eu peça. E talvez, a maior fonte do atrito seja justamente a falta de sincronicidade no pedir e no dar. Não acontece quando se quer. Mas quando se disponibiliza a dar e a receber.
Lembrei da primeira vez que eu peguei as chaves do apartamento e vi as paredes sujas sem pintura. Sentei no chão agradecendo por ele ser nosso. Foi um dos vazios mais plenos que eu tive. Lembrei de quando a Clara deu um fiasco porque eu ia sair de casa. Das minhas brigas com o meu ex-orientador, meu ex-namorado. Lembrei das ex-chefes. Tantas coisas importantes se tornam ex pra nós. E fico pensando aqui no significado de tudo isso. De como as coisas, pessoas, sentimentos, simplesmente passam (através de) por nós... e ganham outros contornos embaçados e diluídos... Tudo vira vulto...
Olhei uma foto minha com o Juliano... há tanta coisa do Nosso que passou, que passa. Se presentifica. Fortalece. E esse passar todo das pessoas, das coisas. Essa passagem etéra é tão desconcertante para alguém apegada como eu. Olhei pra Lina aqui de novo. Vi outras coisinhas ao redor que guardam consigo tanta coisa importante pra mim. Será que a gente carrega nosso museusinho particular pela vida?
As luzinhas ainda dançam aqui. O sol está passando para outra janela. Quero colocar prismas nas outras janelas daqui. Quero povoar minha vida mais com essas fadinhas. Coloquei duas fadinhas em casa. Uma no alto da parede da sala. De sainha de girassol. A outra, verdinha fica no meio dos livros de literatura. As duas tem olhinhos fechados e os cabelos enrolados. Acho gostosa a sensação de poder olhar pra elas e de algum modo, materializar esse universo infantil-fantástico-sonhador. Poucas pessoas entendem e muitas, quando entram em casa, acham tudo isso meros objetos de docoração pra deixar uma casa "bonitinha".
Gosto desse meu segredo decorativo. Bem ritual. Cheio de coisas só minhas. Nunca me pensei tão territorial e caseira. Juliano é assim. Não sei se isso é obra da convivência ou de uma nova revelação de uma fragilidade...
As fadas diminuem aqui na sala. Fico com essa sensação de epifania no coração... guardando pelo dia, até o sol do dia seguinte. Vendo as cores do sentir e do lembrar. Do guardar. Dançando em volta de mim. E eu, de algum modo - pouco treinado ainda... - tentando imitar a caça da Lina, agarrando com os olhos esse universo multi-cores de mim.
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quarta-feira, junho 11, 2008
Ainda vivendo apegos... a experiência de reencontrar a dona da Lina me deixou com alguns dilemas. Morais. Dói e é incrível como a dor sinaliza na gente um cannyon de sentir. Umas coisas profundas cheias de sombras e mistérios.
Passo ali do lado da casa dela com gratidão. Há muita generosidade nesse gesto de deixar a Lina com a gente. E ao mesmo tempo, sabendo de tudo o que as meninas sentiram com o sumiço da gatinha... me vi sendo a bruxa má da história. E é impressionante como a gente pode ser a mesma coisa. Ao mesmo tempo.
Na 2a. feira o Juliano, voltando do veterinário, encontra na rua dona da gatinha... Disse que os filhos todos ficaram muito mal com ela. Quando ouvi a notícia me deu um aperto no peito. Tanto apego! Me senti tão pouco generosa, egoísta mesmo. E fiquei nesse ir e vir...
Tenho pensado muito sobre a generosidade. Juliano sempre me disse que eu era muito generosa com as pessoas. Sempre acreditei que essa era uma virtude minha. Mas ontem, e refletindo sobre as coisas que tenho feito, do modo como tenho feito, me descobri - humanamente - egoísta. Percebi como toda a teoria sobre identidade, alteridade e essas "dades" todas da antropologia e da História me deixaram sem resposta para as coisas que tenho vivido. Aqui fez sentido a frase do Ulpiano, meu ex-orientador "você tem de idade menos da metade do meu tempo de carreira". A presunção intelectual dele era um alerta para a minha presunção ainda não classificada.
Tenho vito as pessoas ao meu redor com atitudes que tem me ensinado muito. Esses dias no trabalho uma das professoras de alemão que eu gosto muito foi muitíssimo carinhosa. Tenho percebido isso nos meus pais, sobretudo o meu pai com aquele jeito meio durango-palhaço. O Juliano, deixando o Nosso se abrir mais... Tenho percebido a minha fragilidade nesse período e adoraria crer que se trata do clássico "inferno astral", afinal, falta quase 1 mês para eu dar outra cabeçada em Saturno.
Olhei a Lina aqui em casa pedindo carinho por causa dos cortes da cirurgia... manhosa. Dei uma olhada hoje cedo na minha casa, andei e percebi os cantinhos que fazem sentido pra mim aqui dentro. Quase secretos. Livros, incensos, quadros e outros badulaquesinhos. Tem um quadro de um Pã tocando flauta no alto de NY. Gosto da solidão tranquila dele. E do jeito que ele parece ignorar aquela coisa toda surreal ali embaixo no universo dos humanos. Ou será que ele sabe (in)exatamente como a gente é (inexato)? Deixei a música vir para o dia de hoje... e suavizar o coração...
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domingo, junho 08, 2008
Apegos
Sempre fui apegada. Não sei se por configuração astral (que meu irmão não me leia) ou por personalidades ancestrais. Sábado me dei conta que a ascendência capricorniana e a lua em escorpião podem ser combinações intensas demais. Encontramos a dona da Lina...
Deveria ser por volta das 11:40 quando depois de provar umas roupas e me serelepar toca o telefone e escuto um "oi meu amor" bem tristonho. Perguntei o que aconteceu. "Achamos a Dona da Lina". A Lina é a minha gata. Já falei dela aqui. Estamos com ela há quase 2 meses. Encontrada na porta do prédio miando bem docinha e assustada. Desde então eu tenho me apegado e apegado. Levamos no veterinário, banhinho, comidinha, cuidados dali e daqui e sempre com muitas brincadeiras e risadas. Isso sem falar de todo o dengo e carinho que a gatinha tem dado.
Juliano me falava, desde o primeiro dia que eu não deveria me afeiçoar muito à Lina. Pena. Tarde demais. Estávamos os dois encantadinhos - e particularmente eu - com o fato de que todos os meus gatinhos de casa (de madeira, de porcelana, de desenho, de pelúcia, etc. ) estavam materializados na Lina.
Eu sempre fui bem chata com a idéia de que as pessoas tratam melhor os animais que os humanos. Nunca concordei com essa tendência (mesquinha-egoísta) da gente... Engolida pela língua. Estou pasma comigo. Como esse amor pode brotar da gente, uma vontade de cuidar, de deixar bem. Outro dia lendo o blog My Corner, soube que o autor vai ser papai pela segunda vez. Sempre gostei da idéia de ter filhos, mas nunca pude imaginar desse sentir todo e inteiro e intenso que sai da gente. "Imagina quando tivermos filhos", disse ao meu marido depois que saí da veterinária 4f passada. A Lina fez uma cirurgia. Castramos. E isso foi uma decisão difícil. Passei dias pensando e meditando sobre a minha pretensa humanidade. É interessante quando a gente verbaliza discursos adquiridos e comprados em bibliotecas. Questionei todos eles ao passar algumas noites sem dormir com o cio da Lina. Depois mais uns dias matutando sobre as minhas crenças (diria o Juliano) feministas sobre a liberdade e o controle (ops) sobre o próprio corpo, etc e tal.
Dei 14 aulas no dia que a Lina fez a cirurgia e fiquei ligando a cada instante para saber se ela estava bem. De repente me senti quase como a socialite brasileira que deu uma festa sensacional de aniversário ao seu poodle. Socorro! Muitos antagonismos num dia só! Cheguei em casa o mais rápido possível e fomos levar as coisinhas da Lina no veterinário. Ela estava dopada e com as pupilas super dilatadas. Isso sem falar na dor. Assim que ela me percebeu saiu aquele miado miúdo, apertado. Sentido. E um roçar na minha mão que me arrancaram umas lágrimas tímidas. Fiquei meio sem jeito de me emocionar daquele jeito. O Juliano me abraçou, me pediu calma. Continuei chorando... Saí de lá com o coração estraçalhado.
Passei a 5f esperando a hora de ver a gatinha depois de ir e vir com alunos para o mangue e o mar - depois vou ter que falar disso...! - e somente na 6a. a Lina ia voltar pra casa. Eu me sentia tão responsável por cuidar... e isso provocou uma série de questões sobre o meu estudar-experienciar o gênero...
Tudo isso me passou - e mais - na hora que eu soube que a dona da Lina tinha sido encontrada. E mais, que ela era assim tão importante nesse meu universo pseudo-maternal. Eu fiquei tão desnorteada que só conseguia pensar em como isso era quase - bem pouco - impossível. Chorei, tremi, temi. Fui passional em tudo o que eu tinha direito. Inclusive - parece patético - de ligar para minha mãe. E o comentário dela depois... "não se apega, vai dar tudo certo".
Quando eu cheguei em casa mal pude subir os três lances de escadas. Pedi ao Juliano para descer e encararmos por fim a realidade - a dona da Lina. Mil imagens se passaram na minha cabeça sobre a suposta imagem da figura. E, ao dar de cara com ela, segurar toda a vontade de chorar. Nem quero pensar no meu estado ao bater à porta da mulher. Ela saiu, sorridente. Mais aliviada na verdade, do que sorridente. Contou a história da Lina. Ela tem só 5 meses e saiu do interior de São Paulo daqueles lugares que se matam animais. Ela ia morrer e a mãe da Fran - a dona da Lina tem nome! - depois de ameaçar a gata com todos os modelos de vassouras disponíveis no mercado, apesar de ter salvo a vida dela, deu a Lina (Ex-Fiona) para as netas.
Escutei isso com o coração na garganta. Fiquei mal ao saber que aqui na vizinhança existem tipos de "serial killers" de gatinhos. E de todas as ameaças reais que a Lina sofreu. Depois de narrar esse conto de terror ouvi um "Não precisa chorar que o gato vai ficar com você" meio atropelado pelo alívio de "ela estava mais perto do que eu imaginava" com "ela está super bem cuidada". Perdi a fala. Não sabia bem se eu continuava escutando a história triste da Lina ou se eu pulava na mulher e enchia ela de beijos e de gratidão eterna. Pura pieguice, eu diria há 6 meses! Tomei!
O mais desafiador ao meu desapego - profundamente esgoísta - foi escutar a reação das meninas - adolescentes - sobre a perda da Lina. Uma delas faltou na escola não sei quantos dias e teve um febrão. A outra, algo parecido. Quase comecei a chorar de novo e nesse redemoinho todo de sentir, uma mistura de felicidade com a minha imagem de bruxa-má-sequestradora de gatos. Pobre espelho meu. Foi incrível como eu me vi naquelas meninas. Como me vi menina. Nesse apego inconsequente e esgoísta de ter só o meu. Sofri mesmo por elas. Fiquei sem graça de entrar na casa e ver os outros gatos ali e a carinha delas sem jeito de me olharem. Foi a primeira vez que duelei com o sentir-me culpada e salvadora ao mesmo tempo.
Apertou o peito. Só consegui agradecer às duas. Tímida. Quase miando, como a Lina no dia da cirurgia. Houve um silêncio das duas partes. Espero que com a legenda de "eu imagino como você deve se sentir". A gente nunca sabe de fato como o outro sente. Mal arrisco dizer o que eu mesma sinto.
Conheci os outros gatos. A casinha original da Lina e seu ex-nome. Ouvi mais histórias e só consegui me despedir, sem falar. Agradeci àquela mulher com um abraço nada comedido. Mas silencioso. Emotivo. Olhei bem nos olhos dela e só consegui murmurar uma parte do que eu admirava e invejava nela. O desapego. "Nem sei como te agradever por ela. Ela chegou num momento muito importante pra mim." E não saía mais que isso. Calei. Abracei. Não olhei pra trás. Entrei no prédio e abracei forte o Juliano. Chorei de novo. Criança. Alívio. Apego-desapegando do que eu achei que sabia. Sentia.
Subi as escadas e quando abri a porta lá estava a minha - de fato, minha - gatinha. Olhando ainda com dor, curativos, miudinha. Ficou no meu colo. Dia, noite, pedindo carinho. E eu me via ali. Apertada, querendo colinho. Talvez a nossa pretensa visão de supra-sumo-evolutivo-planetária... sei lá, deixe de perceber essas sutilezas do amor, do carinho e do cuidado. Desses presentes que a vida dá pra gente. em silêncio... Retribuindo esse querer. Escrevo isso e ainda me emociono vendo a Lina aqui do lado, carente, frágil com esses pontinhos e cheia de curativos. Mas tão companheirinha. Carinhosa. Charmosinha do jeito dela. E de como eu percebo essas epifanias de sentir... Agradecida...
Talvez a minha mãe tenha razão mesmo. Eu sou apegada demais aos que amo, aos que eu admiro. E não aprendo a viver sem eles depois. Acumulo sentir. Acúmulo de querer mais. E mais...
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domingo, junho 01, 2008
Tenho lido muito pouco, muitíssimo menos do que eu gostaria... e na semana passada, depois de um banho de mar à noite, chego em casa e sou convidada a esse poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, uma poetisa portuguesa que, como esperado, fala do mar, e alimenta em mim esse desejo-admirado pelo oceano...
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Como disse um comentário recente, essa cobrança vem sempre da gente...
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terça-feira, maio 27, 2008
A pior escolha é entre o bom e o ótimo...
Tenho vivido isso diariamente. Um emprego que gosto, mas não é meu projeto de vida. Tenho tentado estudar, ler, aprofundar a pesquisa e me vejo num mato sem cachorro... Tenho essas dores no peito, uma coisinha incômoda chamada angústia, cuja melhor amiga é a ansiedade. Tenho pensado muito. Feito muito, mas pouco mesmo daquilo que quero viver pra fazer.
Esses dias recebi uma notícia que me deu uma felicidade imensa, mas misturada a um aperto agudo... inveja? Não sei. Doeu. Me senti parada no tempo, presa aos meus próprios sonhos e os meus fantasmas assistindo isso lambendo os dedos. Quero ir. Sair, deixar tudo. E não tenho sabido como... E me levo, me angustio, não respiro, não durmo, não faço. Dói. E paro. No tempo, no peito, no corpo. Entorpeço pensando na prisão. Na equação sem resposta desse viver.
E me inquieto e fico. Esperando sei lá quem fazer sei lá o que... muitos medos de uma frustração sem volta na vida... pra onde eu fui mesmo? O que foi que eu deixei ali atrás de mim? Querer é tão penoso assim?
Não sei mais escolher, nem sei por onde voltar a agir... Parei. Senti. Aperto. E fiquei.
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quinta-feira, maio 22, 2008
Meus novos Indiana Jones

Há 19 anos atrás meu pai me levou para assistir no cinema Indiana Jones e a última Cruzada. Desde sei lá quando ele me mostrou o mundo dos heróis. Coisa engraçada que uma menina como eu fosse incentivada a ver os filmes de ação, guerra e toda a sorte de aventuras e tiroteios.
Me lembro da primeira vez que assisti Os caçadores da Arca Perdida. Foi na praia com o meu avô e ele. Foi um dia desses em que minha mãe e minha vó queriam dar uma volta e na época, recém lançado o video-cassete, ele alugou o filme pra mim dizendo "Esse filme você vai gostar de ver!". Ainda me lembro da minha mãe dizendo pra ele baixinho se o filme não era muito "pesado" pra mim...
Lembro bem que a gente se divertiu muito e na semana seguinte ele alugou O templo da perdição. Eu descobri. Estava completamente apaixonada pelo Indiana. Mais ainda quando relacionei que ele era também meu outro herói, Han Solo. Engraçado como essas coisas povoam as fantasias da gente. Eu fiquei anos recortando reportagens de jornal com ele e lendo tudo o que podia sobre arqueologia. Não posso dizer que não foi uma influência na minha escolha em ser historiadora... Mas mais que isso, essa influência meio mágica dos contos de fada do meu pai.
A gente nunca foi assim muito sensível um com o outro. Acho que perdemos isso quando viemos a São Paulo, deixando a família, as coisas boas, tudo quase, em Porto Alegre. Ele sempre foi um pai muito amoroso, desses que adorava fazer carinho, brincar e dar presentinhos. Éramos muito próximos. Mas isso se perdeu nessa vinda a São Paulo, e acho que ficamos até hoje reinventando esse jeito de se amar.
"A Thais é a minha companheira de televisão", ele dizia aos amigos adultos e eu me orgulhava muito de ter esse estatuto tão especial, já que a minha mãe não curtia esses monstrinhos e mundos de faz de conta. Adorava naves espaciais e cheguei a cogitar de ser astrônoma ou alguma outra coisa que me levasse ao espaço. Acho que isso ficou pro meu irmão...
Mas voltando ao Indiana... Me lembro bem do dia em que ele disse pra minha mãe "hoje vou levar a tati pra ver o Indiana Jones comigo". Vibrei! Adorei a idéia de ver isso em tela grande e ficar cantarolando a musiquinha clássica durante dias (incluindo o caminho até o cinema). O mais incrível de ver esses filmes com o meu pai é que ele entrava no espírito da brincadeira, todas as perseguições de carro, tiros, escapadas fantásticas e todas as mentiras (im)possíveis que o cinema é capaz de criar arrancavam risadas dele! Os comentários, as conversas que ele tinha com os personagens e as interferências nos efeitos especiais... tudo isso me deixava ainda mais feliz de poder ver um filme desse jeito, de poder estar próxima dele apesar de toda a dor que ele carregava por ter vindo pra São Paulo. Acho que nesses momentos de cumplicidade com o universo dos heróis a gente dizia muita coisa um pro outro sem saber... enfim.
Tenho saudades de ver esses filmes com ele. Há muitos momentos cinematográficos que marcaram. Sou capaz de lembrar até os comentários dele... as cenas que ele gosta...
Ontem foi a minha vez de tentar retribuir os favores... Convidei o grande para assistir a pré-estréia do Indiana Jones comigo. Pouco ligava em saber quem ia comigo. Éramos nós dois com certeza. Havia um ciclo importante a se fechar nisso. Fiz questão de sentar do lado dele depois, e comentar e rir e gritar e aplaudir na pré-estréia ao lado do meu pai, como os verdadeiros fãs sabem fazer. Foi um jeito de voltar há 19 anos atrás assistindo a Última Cruzada. E mais, de dizer, desse nosso jeito desajeitado que ele é o meu grande companheiro de televisão e de muitas outras coisas.
Na semana passada foi aniversário dele. E não hesitei em gastar um dinheirinho comprando um presente bacana. Fomos depois ao show do Dominguinhos, uma figura especial que toca as músicas do nordeste, com as quais eu cresci ouvindo. Houve uma identidade ali, silenciosa, que me emocionou. Por mais que esse mundo nordestino esteja distante de mim na prática, no meu dia-a-dia, ele está aqui dentro. Eu sabia as letras das músicas, as melodias.
Fiquei olhando em volta. A minha família toda ao redor. Tanta história ali. Tanta coisa atravessada juntos. Essa cumplicidade que fortaleceu a gente e fez tantas outras coisas calarem em nome desse amor... Me lembrei muito das nossas idas ao aeroporto de Porto Alegre ou à rodoviária. Houve uma ocasião que pedi à minha mãe que comprasse sapatinhos novos, como os de boneca. Mas com verniz. Um rosa e um preto. Com aquelas fivelinhas e lacinhos. Pedi para ir ao aeroporto com ela só pra mostrar ao meu pai os meus sapatos. E nesse dia quando ele chegou de mala e com aquela cara de cansado cantava pra gente uma das músicas do Dominguinhos
Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo
Um sorriso sincero, um abraço,
Para aliviar meu cansaço
E toda essa minha vontade
Que bom,
Poder tá contigo de novo,
Roçando o teu corpo e beijando você,
Prá mim tu és a estrela mais linda
Seus olhos me prendem, fascinam,
A paz que eu gosto de ter.
É duro, ficar sem você
Vez em quando
Parece que falta um pedaço de mim
Me alegro na hora de regressar
Parece que eu vou mergulhar
Na felicidade sem fim
E isso se repetiu muitas vezes na minha infância até a gente vir pra cá. Na novela do Roque Santeiro, nas músicas do Luis Gonzaga. No chapéu de couro, nos filmes e na literatura de cordel que ele sempre lia. Nos repentes que ele criava pra entreter a gente e fazer a minha mãe rir... Nessas duas últimas semanas tanta coisa do meu pai voltou assim, de tudo e inteiro dentro de mim. Deu saudade. Uma admiração que se ampliou por dentro do peito, numa onda de gratidão por tudo o que eu sou hoje, pelo que tenho, pelas coisas que fascinam. Pelo estudar, pelo batalhar, pelo rir e brincar e ser espontânea nas minhas demonstrações, apesar de ele ter ficado depois tão mais fechado.
Vi esse homem desfilar as suas histórias ontem pra mim. E me emocionei de poder fazer parte desse filme. E nele, ser uma personagem importante, cheia de coisas ainda por fazer e contar. Fiquei olhando ele no show e sentindo essa alegria desajeitada de querer retribuir e dizer tantas coisas... Me dei conta que essa mistura toda que eu sou e essa idiossincrasia de personalidade se devem, e muito, a essa presença de Indiana que ele é... uma mistura de tantas coisas e cheia de sutilezas que eu ainda aprendo a perceber e a entender. Hoje, 19 anos depois e mais 29 depois... vi tantos indianas na minha vida se passarem, tantas trilhas sonoras, efeitos especiais, aventuras, acidentes de carro, brigas, incêndios, e muitas outras corridas... Não encontrei essa arqueologia dos filmes, mas achei um caminho meu, profissional, povoado de histórias, minhas e dos outros. Achei as minhas paixões, naves espaciais, ainda que sem sair desse planeta. Não participai das lutas entre o bem e o mal e não viajei à Europa ou ao Egito para encontrar algum tesouro perdido ou fazer a grande descoberta científica do século. Também não saltei de aviões e botes salva-vidas em cachoeiras e penhascos... Mas tenho muita coisa nessa maleta pequena do meu coração. É bom ter um aconchego pra voltar. Aqui dentro. Nessa mistura de sonho com memórias e os "momentos preciosos" que a minha mãe sempre sinalizou onde procurar.
Todo esse fantástico, papai, obrigada. E sinto saudades da gente... No sonho e na realidade. E ansiando pelas nossas aventuras nessa vida...
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Srta T
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sexta-feira, maio 16, 2008
só...

Tenho acompanhado um blog recentemente que tem me fascinado muito. Não só pelo texto, mas pela transparência dele. É uma leitura cristalina de um sentir muito profundo. Tímido. E acho que ele tem traduzido bem as coisas que vez em quando eu me pego sentindo... Mais que isso. As imagens reluzem muito do que se passa aqui...
Tenho andado nessa escuridão achando que enxergo alguma coisa? Será que todo o caminho que eu percorri está completamente vazio? Será que eu não vejo nada? E fui assolada por essa dor, esse pulsar amargo, que adormece, me esvazia, me encolhe... Olhei em volta e só via a mim mesma. Só. Sem esperança de esperar. Sem nada. Nem um instante de respirar, só esse aperto.
Pensei em sair correndo. Pra qualquer lugar fora daqui. Longe desse sonho. Desse querer viver. Não sabia mais nada. Não (ha)via mais nada. Em canto nenhum. Um apartamento vazio. Um coração em abandono. Uma jogada de toalha aqui e ali que deixam esse gosto amargo nas palavras.
Eu olhei as ruas. As pessoas. Os bares. Gente aqui e ali. Muita fumaça. Muitos olhos perdidos tentando encontrar sei lá o que. E essa angústia no peito. Disse pra Lúcia que eu poderia escrever pra Marie Claire na sessão "eu, leitora". Nunca achei que fosse viver essas dores de alma assim tão fundas. Deu pra se ter uma idéia do que é um desesperar. Um deixar-se...
Fico aqui nesse ir e vir pra aqui e ali. Tem fim? Ou viver é agonizar? Fiquei perguntando qual é a cor do amor...
Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero. Espero mais. E temo mais. E sinto mais. Espero. E deixo. Onde? Com quem? Onde foi que eu me larguei? Por que não posso compartilhar? Só pedir? Querer? Espero. Só.
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Srta T
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quinta-feira, maio 08, 2008
Essa é a Lina em mais um dos seus momentos de manha e charme em casa... Dengo puro!
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Srta T
às
8:14 AM
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