quinta-feira, outubro 16, 2008

Disse Nietzche que tudo seria permitido se Deus não existisse, e eu respondo que precisamente por causa e em nome de Deus é que se tem permitido tudo, principalmente o mais horrendo e cruel.
(Saramago)

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quarta-feira, outubro 15, 2008

Dia de professores

A minha terça feira foi insana mesmo. Se eu ouvisse essa história de outra pessoa, possivelmente desconfiaria das capacidades mentais. Mas a graça não está mesmo só no que a mente pode dizer - ou fazer. Está no sentir.

Charles foi meu professor de portugu6es na 7a série. 1992. Faz tempo. Mas é muito atemporal aqui dentro de mim. Já falei dele aqui. A última vez que nos vimos foi em 1998. Eu já o havia visitado no cursinho que ele lecionava no ano anterior. Conheci o Rodrigo ali. Meu outro querido.

Passaram-se dez anos. Foi tanto, e nada. Há tempos que eu queria reencontrá-lo e dizer que a menina que ele tinha conhecido crescera. Essas coisas que a gente quer mostrar e dizer. Uma tentativa até de resgatar as coisas que a gente tem de especial, de importante, de valor. Sentia falta de conversar com ele. De explicar, perguntar, ouvir. Gostava de ouvir ele cantar na sala e dizer todas aquelas poesias incríveis que ele conhecia. Nos falamos brevemente em 2006 depois de uma empreitada minha quase FBI ou CIA. Digo sempre ao Juliano que eu poderia trabalhar num desses serviços de inteligência. E rimos.

Depois de uns quatro emails a gente se perdeu. De novo. Mas é estranha a sensação de não se perder alguém de fato. Havia uma sintonia ali. Esse ano, mais uma vez eu voltei a procura-lo. E nesse meio tempo um monte de fantasias infantis do porque-que-ele-sumiu-de-novo voltavam e voltavam. Era quase um disco riscado. Sonhei, procurei. Nada.

Fui para Jundiaí ontem atrás dele. Depois de descobrir a escola, telefone, endereços. Peguei o carro e me preparei para voltar em seguida com um até-logo, ou o-que-você-faz-aqui. Essas coisas. Fiquei esperando o intervalo num texto longo de papirologia... e eis que ali surgiu essa figura. Do jeitinho que eu o conheci - de cabelos curtos e uma barba esquisita. Mais branca. Os mesmos olhos e aquele jeito tímido de chegar.

Rimos porque era tão absurda a minha presença ali - a começar pela cara da secretária quando me viu. Imaginei que ele deveria ter um monte de fãs entre as alunas e que era comum essa tietagem toda. Mas seria difícil mesmo explicar esse significado. Talvez para muitos isso tenha cara de paixão platônica enrustida, ou coisa assim. Mas me marcou muito a Fátima Freire - a filha do Homem - dizendo que a gente tem que devolver para o outro as coisas que recebemos. Acho que, pela primeira vez, me sentia em condições de devolver qualquer coisa ao Charles.

Foi bonito. Conversamos e eu assisti a uma dele. O tema não poderia ser mais apropriado para a minha busca de realidade. Romantismo. Me lembrei das aulas do Nicolau na USP que me tiraram o sono com esse tema. Das leituras do Fausto. Da dança e da música. E de tudo isso que a gente foge e volta na vida. Como é triste idealizar o entorno. E ouvindo o que ele dizia eu me lembrei do Juliano. Das coisas que eu queria dele, de nós. E de tudo o que essa perspectiva romântica de viver nega: crescer.

Saímos da aula e fomos assistir uma apresentação dos alunos. Uma espécie de show de talentos. Recordei a minha - amarga às vezes - adolescência cheia de crises e complexos. Foi engraçado. Estava ali, com 29 anos, liberta da maioria das neuras juvenis, ao lado do meu professor. Uma testemunha ocular de uma parte minha que morreu, morria. E de um (re)nascimento custoso. Fiquei imaginando se isso era parecido com o texto de Saramago sobre a cegueira. Deve ser estranho ver quando ninguém enxerga.

Almoçamos depois de um percurso de estrada. Quase a minha estrada ali revisitada depois de 17 anos. Mais velha. Mais eu. Mesmo que eu ainda não saiba que eu é esse. Ou esteja romanticamente analisando essa perspectiva egocentrada de Eu. Tem tantas coisas que eu queia contar e mostrar. Me senti numa galeria de mim mesma escolhendo qual era a melhor obra. Era engraçado agora sermos colegas de trabalho. Humanos...

Saí desse almoço meio enebriada com lembranças e as experiências que - ainda - eram tão recentes em mim. Fui para a USP buscar a Marly e depois ir para a casa do meu orientador. Horas de conversa entre o mais acadêmico e o mais humano. Músicas, café, coca-cola, e essa coisa toda da cultura trash... Vimos os livros, artigos, falamos do futuro, de mim, dele. Falamos dessas mulheres estudadas pela História. E dos historiadores que pouco se olham, mas muito se estudam. Fiquei agradecendo aos imortais por essa generosidade da vida. Que bom ter um mestre assim. Saí de lá quase 2...

Voltei pra casa. Chorei pelo Sidnei. Outro mestre. Agradeci pelos meus. Que são presentes. E por esse reencontro comigo. Ontem, hoje e amanhã. Vi o Charles e o Tatá numa imensidão de linha do tempo aqui dentro do peito. Tudo atemporal nessa minha transformação. E esse sentir de plenitude. Só meu. Que por mais que eu escreva, fale, sorria, mostre, vai ficar sempre aqui dentro comigo. Aos mestres, todo meu carinho, e a minha gratidão. Sempre.

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segunda-feira, outubro 13, 2008

o sapatinho vermelho


Sempre gostei de vermelho. Principalmente de sapatinhos vermelhos. Dão personalidade ao nosso andar tão desatento nesse mundo. Quando me dei conta que a meninice se tornava outra coisa, comprei muitos deles. Sempre daquele mesmo jeito que eu usava quando criança. De bonequinha.

Dia 22 tinha quase se tornado sinônimo de angústia. Terapias a parte, essa minha visão romântica de mundo não é fácil não. Dá muito trabalho. Pra mim. E para os outros. 22 de setembro. Início de primavera aqui dentro. Sinais de um desabrochar cheio de mistérios e desabotoares silenciosos nas noites. Apesar dos dias cinzentos e friozinhos eu sentia que as tempestades de agosto poderiam se dispersar.

Saí do trabalho com as minhocas dirigindo comigo. De fato, as safadinhas sempre sabem como costurar caminhos nos seus precários neurônios. E o caminho desse ir-buscar-depois-do-trabalho-da-natação-e-da-luta... ficavam mais e mais longos. Quase intermináveis aqui dentro.

O carro com as luzes fracas e apagadas. A neblinazinha sinistra que mais parecia sair de dentro de mim me motivou a dar um telefonema qualquer. Chegando via o Juliano com uma flor vermelha nas mãos. Me perguntava ali onde eu tinha deixado a Thais. Ou para onde ela tinha ido sem avisar.

Me enlaçou o pescoço numa correntinha pequenina, que pendurava aqui e ali um sapatinho vermelho. Igual aos que eu sempre usei. E ainda uso. "É para você saber onde está o teu caminho no coração, pra ele te levar sempre pra mim"... E de volta.

Me senti como a mocinha do Mágico de Oz andando numa estrada de tijolos amarelos. Via aquele sapatinho reluzindo pra mim e me mostrando - de fato - coisas que eu sequer poderia escrever. Tão sutis. Um transformar-se genuíno que me escapa e me move. Me deixa inteira. Olhando de frente para todos os lados ao mesmo tempo. Prismática.

Caminhei alguns dias nessa estrada que me deixaram sonhar de novo. E sonhos de ontem, de amanhã. De nunca. De gente que foi, que fica, que vai um dia. E que nunca chegou. Olhei todas as estradas em volta. Algumas mais coloridas, outras mais barulhentas. Peguei a mais vazia. E sigo nela. Só pra mim. Com esse andar perdido de menina-moça, querendo saber e ver, sentir, experimentar. E percebo o quanto esse viver-com atinge em cheio o meu sentir romântico. Quando penso em andar descalços, o sapatinho fica mais confortável. Protege. Ensina. Mostra que os caminhos aqui de dentro não são trilhados com a mente. E mesmo que lagartichas verdes atravessem a estrada - sem minhocas - eu consigo saltar. Pra esse outro sonho de mim. De nós. E só, continuo. E ainda que não encontre o mágico que me leve de volta... vale a companhia na estrada e quem sabe, eu já tenha chegado.

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quinta-feira, setembro 18, 2008

ancorando

Preciso ancorar num local que conheça meus próprios símbolos. Ainda não sei onde fica. Por que estaria tão perto, e tão longe de mim. Não vi espelhos, nem outros objetos que me dessem essa impressão de ser mais eu mesma. Não vi. Não sei. Nem lembro se soube.

Depois de ter esvaziado todo meu arsenal de coisas e falas e tudo. Estava traduzindo ontem para a aula de grego um texto sobre as amazonas. Disfarças, lutaram contra os helenos, mas foram derrotadas. As que foram derrotadas, capturadas e levadas às naus. COmo os helenos - por saberem que eram mulheres - não ligaram muito para sua captura, não as vigiaram adequadamente; e o navio sucumbiu numa emboscada. O complicado porém, é que as amazonas desconheciam absolutamente a arte de navegar. E se perderam, indo parar nas terras dos citas. Lá, lutaram mais uma vez, disfarçadas de homens. E ao carregar os cadáveres, os citas perceberam que eram mulheres. Ao invés de combatê-las, foram para seu acampamento tentar uma aproximação: queriam filhos delas.

Achei curioso esse texto parar nas minhas mãos depois de tanto tempo pensando sobre esse meu universo simbólico, perdido pelos mares de aqui. Me vi uma das amazonas tentando fugir de uma outra emboscada. Meu disfarce, porém, facilmente descoberto. Mais lutas. Não sei onde acampar ainda e essa fúria de sair, de descobrir. Heródoto fala que elas não reconheceram os citas: não entendiam suas palavras e eles as delas. Esse estranhamento todo de ouvir e ver é a minha perplexidade diante de mim. Olho os olhos.

Acordei hoje com essa meio-gripe depois de viver 4 semanas de UTI (unidade de trabalho intensiva). Quase saindo... e me jogando na cama exausta. Sem possibilidade ainda de acampar. Os citas, aqui tão perto, são ainda estranhos que eu tento reconhecer. Sua língua, costumes... e não os entendo. Nem suas ações. Mas que importa o que foi feito antes? (fico me repetindo isso)... Basta o encontro. O mar, o novo. E aquilo que esse acampar me reserva: ficar, lutar ou amar? Chega de enfrentamentos. Uma trégua. E o tempo servindo os ventos que levam. Trazem... e apaziguam esse esperar.

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quarta-feira, setembro 17, 2008

Há frio demais antes da primavera. Não sei se esse oscilar do tempo é alguma coisa além da própria previsão do tempo. Tenho me olhado, deixado de ver. Ontem, depois de mal dormir - aliás não durmo há semanas... - caí numa crise de choro que me deixaram parada dentro do carro. Por que é tão difícil a gente se olhar melhor?

Fiquei sentindo o choro cair, os olhos turvarem. E uma sensação de nova primavera se abrir em mim. De dentro. Sem depender de ninguém mais.

Esse sentir atropelado que eu tenho de tudo ao mesmo tempo e agora me exauriram. Por inteira. Ea única coisa que eu consigo é me repetir eternamente nesse ciclo de vontades desmedidas de sair. E um pavor me sufoca nesse vão estreito que me joguei. Não há espaço pra ninguém, mal eu caibo nisso.

E ontem, depois de dirigir pela garoa da manhã meio sem prestar atenção em nada, descuidada, abriu uma frestinha de sol na escola, eu chegava ali meio sem nada, sem jeito, ouvindo (pela milésima vez) a música do U2... é but I still haven't found what I'm looking for.

Pra dizer a verdade, desisti de procurar. Vou deixar isso de molho, pra diminuir o enchaço dos pés... e seguir. Sem buscas. Gostaria, comodamente, que me buscassem de volta. Não me lembro onde fiquei.

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domingo, setembro 14, 2008

Afoguei-me no trabalho. Tenho vivido no último mês o período mais anti-social da minha vida. E bom...

nunca achei mesmo que fugir seria uma atitude boa pra mim. Mas fugi com honras de mim mesma nesses tempos. Tem sido cicatrizador, apesar da dor. Evito de pensar, sentir. A cabeça pode de fato tomar conta desse mundo interior e anestesiar você por inteiro. Esse torpor me levou ao abismo de estudar, corrigir coisas que nunca foram as minhas afinidades. E que delícia tem sido...

Fico em casa socada nos submundos da minha inquieta apatia, brinco com os gatos e finjo que estou bem. Funciona. As pessoas sempre perguntam a mesma coisa e você sempre dá a mesma resposta...

A novidade é a luta. Isso mesmo. Há um mês tenho feito aulas de tae kwon do. Um bom jeito de lidar com a frustrante trajetória pseudo-jedi... tenho enfrentado o meu lado negro que nem gente grande. Skywalker sentaria com um saco de pipocas pra assistir. Saí machucadinha umas duas vezes, muito bom porque se anestesima outras dorezinhas incômodas daqui de dentro.

Ontem uma amiga escreveu dizendo que eu era muito complicada. Achei graça - nem respondi - pensando se tem alguém aqui embaixo do céu simplificado pelas divindades. Eles tem senso de humor. No entanto essa pausa pra escrever aqui - antes de enfrentar uma tradução de grego... - é pra pontuar (pra mim mesma) uma necessidade de desangustiar o peito. Tenho me sentido miúda e meu plano de fuga nos livros e nas coisas tem fracassado. Tenho prazos. E quando eles acabarem não sei como vai ser esse dia seguinte. Olho para os gatos com inveja - comer, dormir, brincar, buscar carinho. Não sei até que ponto eu me diferencio tanto assim nas minhas buscas deles dois...mas queria mais tempo pra experimentar esse brincar.

A única coisa que consigo descrever - e pegar - em mim é o cansaço. O restante lateja. Mesmo as lutas nas aulas terminam com um desejo de sair daqui de dentro. Me enjaulo e me angustio. Nem sei onde deixei de sentir e por que exatamente... nem sei mais tantas coisas... só essa vontade incontrolável de dormir, sem mim.

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domingo, agosto 31, 2008

presentes

A gente ganha... de quem menos se espera... no anonimato mesmo.
Meu Mundo e Nada Mais
Guilherme Arantes

Composição: Guilherme Arantes

Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia...

Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por meu mundo
E nada mais...

Não estou bem certo
Que ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura...

Como ser mais livre
Como ser capaz
De enxergar um novo dia...

Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer...

Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por meu mundo
E nada mais...(3x)


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Há um desafio em se permanecer aberto... diferentemente dos livros, as pessoas não tem um fim. Os pontos finais nunca encerram nada.

Tenho oscilado. Me abro demais ou me fecho, me escondo completamente. Inclusive de mim. Há um pavor, maior que o medo. E o mais engraçado nisso tudo é a sensação de solidão. As pessoas dizem que compreendem. Mas não.

Tive uma discussão com a minha mãe. Ela sempre é desajeitada quando diz que compreende. Não compreende nada. Há um que de mãe mesmo. Uma tentativa de se colocar solidária... Fiquei espantada hoje com a sensação de solidão que se abateu em mim. Foi forte. Me apunhalou e me derrubou. Não tive vontade sequer de falar. Com ninguém. É sempre estranho quando as pessoas te acham desequilibrada e, por mais que você tente fazê-las ententer, tudo o que você consegue é um "eu sei como você deve estar, mas.." Essas coisas não tem "mas"...


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sábado, agosto 30, 2008

UTI

Talvez o mais desafiador naquilo que dói é reconhecer que se está - de fato - doente.

Não é de hoje. E poderia citar muitas causas pra essa dor dilacerante que gangrena em mim. Coisas de mim. De outros. De fora e de dentro que ficam aqui, latejando. Deveria ter imaginado que a contaminação das minhocas seria mais profunda do que abalar simplesmente a minha - aparente - tranquilidade emocional.

Faz semanas que choro. Muitas. Por coisas que são quase impossíveis de perdoar. De imaginar. De acreditar. Me lembro de um dia que um professor me explicou o que era confiar. Uma imagenzinha boba de um vaso de vidro. Depois de quebrado, mesmo colado, nunca mais seria a mesma coisa. Me perdi tentando colar partes de mim que foram estilhaçadas. O mais doloroso é que ao estilhaçar te colocam pra fora da vida. Te embutem num armário de "está a minha disposição". E fui obrigada a dividir o armário com mais um monte de fantasmas mofados.

Eu não sei se eu posso mesmo perdoar. Essa é a doença. Também acho qeu a dor que eu tenho aqui não será jamais compreendida por quem causou. Uma vez ouvi um conselho estúpido de "mostre como dói". O mais difícil foi reconhecer a minha incapacidade de devolver na mesma moeda. Não me rebaixaria tanto a esse nível quase degradado de carência e entendimento descartável das pessoas.

Estou na UTI. E me vejo sem conseguir pedir para desligarem os aparelhos. Uma exaustão que há tempos venho sinalizando. Será que eu sempre amei errado? Será que eu acreditei demais? Não vejo perspectivas em mim. A dor tomou conta e virou um cancer na alma.

Eu bem que poderia ficar me fazendo de vítima pra sempre. Seria até fácil. O difícil é ver a cura disso aqui dentro. Há uma sucessão de machucados transformados... uma tentativa minha pseudo-heróica de fazer alguém sentir e viver custa caro assim? Teria valido a pena de qualquer modo...

Tenho vontade de apagar a luz. Dormir. Esquecer de tudo. Fazer de conta que nunca foi. Voltar pra minha cômoda postura sonhadora. Me sinto doente. Fraca. Deprimida mesmo. E sem forças pra pedir ajuda. Sem coragem de me expor mais e pedir. Acho que já expus tanto... pedi tanto. E me sinto mendiga, andarilha da minha própria vida. Um desejo de sucumbir porque as forças acabaram. Tenho rezado para não desistir de acreditar. Há sinais de cura, os aparelhos apitam. Aqui dentro.

Onde eu ponho tudo isso inflamado? Será que cicatriza um dia? E será que eu tenho força pra esperar. Vejo. Sinto. Ouço as coisas se transformando aqui pertinho de mim... tenho pedido colo. Tem doído mais do que a dor pode expressar. E tenho me sentido só. Profundamente só. Sem nada a minha volta pra me agarrar.

Um perder-se de si. Do resto. Pra onde mesmo? Fiquei treinando hoje as defesas que aprendi no tae kwon do... como se pudesse me proteger do que já bateu. Sangra. Dói. E vou deixando de respirar. A dor penetra no peito e me tira isso que a gente chama de vontade de ficar. Nem de ir eu tenho vontade mais. Só. O trabalho, a sala de aula fica o meu esconderijo mais seguro. E os livros me jogam pra dentro desse universo das palavras, mais concreto e mais meu. Ando por aqui. E não vejo mais nada.

Escuto de longe os bips de aparelhos pedindo pra eu voltar, ficar. Preciso de ajuda. E não sei quem pode me (des)ligar...

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terça-feira, agosto 26, 2008

Me sinto andarilha em mim mesma. Perdida nos sonhos e nas fantasias que criei na infância. Crescer... é possível mesmo? Ontem assisti Intelgência artificial e me comovi com a cena do menino pedindo à Fada Azul que o transformasse num menino de verdade.

Parece que essa necessidade de amor que a gente tem vai além dos "limites da carne"... Depois de uma conversa longa com a minha mãe nesse fim de semana me dei conta que há muito de mim lá de longe, de antigamente... um antigo infantil, cheio de uma ingenuidade do mundo. Me senti tão boba. Como se eu quisesse provar ao mundo que os contos de fada existem...

Chorei muito. Me senti muito só. Tentando, acreditando, pedindo. Esperando. Me senti egoísta por querer que as pessoas realizem os meus sonhos... Nem Disney fez isso. Ninguém realiza nada por ninguém. Fiquei com vontade de sair correndo de mim e voltar pra escola. Brincar com os meninos de nave espacial - as minhas galázias eram bem mais interessantes que essa - e ficar ensaiando peças de teatro que nunca foram terminadas.

Senti saudades de andar de bicicleta na área de serviço - suspensa em um apoio - me dando a impressão que eu andava nas motinhos do Retorno de Jedi. Fiquei imaginando como seria a minha vida se eu tivesse ficado por ali mesmo. Frustrar-se é um desapego de si. Mas que se arranca partes da alma que são muito valorizadas.

Disse pra minha mãe que eu tinha vontade de sumir. Sumir mesmo. Acho que foi a primeira vez que disse isso a ela. FOi bom. Foi importante ela dizer que entendia. Quis voltar pra algum lugar... apagar uma série de coisas que me deixaram assim... de voltar atrás, bem atrás. De me rever e me acomodar. Me senti fraca, sem coragem. Vontade de me entregar nesse choro miúdo que não passa há dias... e dormir.

Queria patinar no gelo e cair - como quando eu era pequena. Me lembro que toda a vez que eu ficava muito triste com os meus pais ou alguém na escola eu me lembrava que a dor de cair no gelo e queimar as mãos era muito maior. Deixei o coração cair ali? Não tenho conseguido pegar dessa coisa escorregadia.

E chorei. Mais... não paro de chorar tentando recompor os pedaços de sonho. Um livro em fascículos. Rasgado. Fico parada diante de mim olhando e me perguntando se vale mesmo o preço ser tão sensível. E acreditar nessa sorte de bobagens de "ser feliz pra sempre" e um romantismo meloso de cinema. Me lembro que eu tinha um fã na praia - eu devia ter uns 13 ou 14 anos - ele cantava. Nossa turma passou o verão cantando nos luais e nos bares de Capão da Canoa. Ele era muito mais velho e tinha os olhos verdes mais lindos que eu conheci. Acho que desenvolvi uma paixão platônica por ele. Nunca aconteceu nada. Nem um beijinho. Mas eu babava... e me lembro que no dia de eu voltar pra São Paulo ele me chamou num canto e fez uma seleção de músicas pra mim. "Para você se lembrar que é especial, mas eu não posso ir além disso"... achei lindo. Uma delas era "se todos fossem iguais a você"... perfeita para uma leonina. Sublinhou em mim essa vontade de ser sensível.

Mas tenho tido poucas forças pra continuar nisso. Ao mesmo tempo é profundamente doloroso porque eu não consigo ser nada diferente de mim mesma. Egoísmo, egocentrismo... ou pura ignorância de viver. Não sei. Mas tenho caminhado em busca desses sinais da vida pedindo ou retirando... e não sei. Me canso. Me sinto só. Pedinte. Ausente de mim. Desapegando de coisas que são caras a mim. Querendo (des)acreditar nesse universo do belo e do mágico. Será que eu me tranquei no castelo da Cinderela? Perdi os dois sapatos... e o resto ... já tem passado da meia-noite? ou eu fico aqui ouvindo o som do relógio pra sempre?

Silencio de novo aqui dentro. E paro. E espero. Cicatrizo. E me largo.

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sábado, agosto 23, 2008

Tem dores que permanecem... e doem à medida que a distância aproxima ainda mais essa solidão de você. Em você.

Queria contar uma história cheia de celebrações marcantes. Dessas inesquecíveis. Queria poder viver esses momentos que o cinema separa - e escolhendo a dedo - mostra sempre com trilhas sonoras deslumbrantes. Eu sempre gostei de trilhas sonoras. Dos beijos de cinema e do jeito que os casais apaixonados se comportam.

Gostava das frases de efeito, das ações corajosas e de toda essa sorte de coisas que encantam o peito. Mas parece que deixei de ver A rosa púrpura do Cairo. Ou o vi muito pouco. Não existem histórias assim. Me deixei ficar adolescente e o que a gente chama de realidade é mais cru do que somos capaz de engolir.

Queria poder falar de feitos. De entregas e de um conjunto infinito de momentos preciosos como diz a minha mãe. Mas nada consigo contar agora. Nem mesmo quantas vezes choro e porque... não conto nada. Dos sucessos. Dos fracassos. Fico em silêncio tentando me achar no espelho. Olhei o que deixei pra trás... o que vi pela frente. Temi. Suspirando. Passei a tarde em revisões e brincadeiras de gatos. Até o Fred me arranha...

Paro. Emudeço. Quase desistindo de sonhar. E lembrando de Nelson Rodrigues... de Ulisses. De mim. De estar só...

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Ainda estou com as minhocas de Nelson Rodrigues. O que será que é amar errado? É pedir, esperar, dar, sonhar, querer, (não)dizer?
Há pouco tempo eu me senti a própria utopia. Isso não é um auto-elogio. Tãopouco esse pedestal... muito menos a insaciedade...

O interessante de se escrever aqui é que nem sempre as pessoas que te lêem entendem de fato o que você escreve. Isso é bom. Uma espécie de código do sentir transcrito nesse monte de palavrinhas articuladas. Isso é um bom andar-sonhando...

Ainda me pergunto se o meu idealizar vai me manter viva nos próximos x anos. Há tanto por entender e desaprender. Fiquei com a Clarice esse dias: entender é limitado. O texto falando de Ulisses e Lorelay... ele soube esperar ela ficar pronta. E disse isso a ela. Invejei. Acho que encerrei meus tempos de espera nessa encarnação. Esperar cansa. Mesmo que você esteja sentado. deitado... Hoje me dei conta que essa espera minha parece estar bastante mutilada. Cheia de pus e com um hematoma bem no meio... me dá uma fraqueza, lá de dentro, antiga, mofada.

Fiquei pensando se a vida fosse mesmo do jeito que a gente quer, se as pessoas fossem massinhas de modelar. Mas fiquei com o peito doendo porque às vezes o desafio que a gente se impõe é maior do que se pode ceder. Analisei as bases hoje cedo. Há muito o que ceder ainda? Parar de pedir é possível? É bom?

Por que?

Fiquei com a sensação da utopia... todos nós somos utópicos. Acreditamos tanto nas próprias referências que as tomamos como lei. E desejamos que outros legislem como nós. Fiquei triste. Doeu. Me senti tão e extremamente só que curvei. Dobrei os joelhos e abaixei a cabeça aqui dentro. Parecia que o dia terminara sem o por do sol. E o que se havia de belo a ritualizar... ficou... não sei onde. Se perdi? Não sei. Não encontro mais. E ainda aperto os machucados pra ver se sai mais...

Será que a gente ama certo algum dia? Existe isso? Ou se ama com o que se tem? Me lembro sempre do Vinícius que me repondia à frase "as pessoas dão o que podem de si" com "as pessoas dão o que querem"... até hoje não resolvi essa equação.

Olhei em volta em casa hoje cedo. Eram menos de 7 horas e eu já estava enebriada de trabalho e a cabeça funcionando. Senti o coração doer. Voltei pra cama. Voltei pro computador. Nada. Doía e eu sentia esse solitário dentro de mim crescer. Era como se eu tentasse convencer Salamanca que a Terra era redonda de fato. Mas só eu sabia. E ainda sabia, mais acreditava do que sabia. Nunca vi a Terra de cima pra provar isso, oras. Será que a gente precisa ver o amor de cima? Napoleão um dia disse que no amor, como na guerra, pra se vencer era preciso ver de perto. Não sei se eu consigo chegar assim tão perto...

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domingo, agosto 17, 2008

Reconstruir dá mais trabalho do que começar do zero. E deve ser por isso mesmo que viver um grande amor dá trabalho.

Ouvi essa semana o Vinicius de Morais cantando "para viver um grande amor" e senti que essa poesia só dá pra viver - na música - dentro de si. Doideiras à parte é preciso mergulhar dentro desse poço sem fundo de si e se permitir viver esse descascar sem fim.

Fui no Museu da Língua Portuguesa e fiquei estupefata com a quantidade de poemas dedicados a isso. No tempo. Como se ama e se deixa de amar. Se desiste, se persiste, se machuca, se inflama. Se rompe. Se some. Se apaga e se incendeia.

Dei de cara com o Nelson Rodrigues. Parecia uma conversa minha com o Juliano depois das habituais DRs... mas cheias de uma ternura piedosa dos nossos próprios limites. Serão 4 anos... que se parecem eternidades, um piscar. Fiquei com esse poema essa semana e achei curioso eu me lembrar tanto dele hoje, dia 17, 4 anos depois... Dancei com os poemas dentro da minha cabeça e me via - mais ainda - um tanto mais adolescente que aquele punhado de alunos de 8a série. E deixei. Calei.

"Se o homem soubesse amar não elevaria a voz nunca, jamais discutiria, jamais faria sofrer. Mas ele ainda não aprendeu nada. Dir-se-ia que cada amor é o primeiro e que os amorosos dos nossos dias são tão ingênuos, inexperientes, ineptos, como Adão e Eva. Ninguém, absolutamente, sabe amar. D. Juan havia de ser tão cândido como um namoradinho de subúrbio. Amigos, o amor é um eterno recomeçar. Cada novo amor é como se fosse o primeiro e o último. E é por isso que o homem há de sofrer sempre até o fim do mundo - porque sempre há de amar errado."

Nelson Rodrigues - Morrer com o ser amado - 1968


não sei o que o Nelson viveu... aliás, sei quase nada da vida dele. Mas sei, aqui, que essa solidariedade da ignorância do amar me dilata o peito. E, mais humilde, resignada, vejo que como disse o outro poeta: amar, se aprende amando... errado... certo... impreciso e único...

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sexta-feira, agosto 15, 2008

Ainda não consegui terminar o que comecei no meu aniversário...
Há uma solidão. Um calar... uma espera de sei lá o que, que às vezes parece que nunca vai vir... e espero. sinto, deixo.

Nadei mais de uma hora ontem. E nas braçadas me perguntava porque a gente se esforça tanto pra ir contra... Por que se treina isso?

Deixei a resposta no fundo do mar?

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sexta-feira, agosto 01, 2008

Passou... mais um ano. Não. Mais de 20. Quase mais de 30...

Há um mistério eu creio na comemoração de aniversários... Fiz o meu ontem. Dia 31. Estranhamente ele foi sereno. Uma felicidade suavizada. Pela idade?

Acordei cedinho. Fiz as coisas de sempre. Brinquei com os gatos, olhei os emails. Beijinhos e chamegos no Juliano. O trivial. O dia estava particularmente azul. Tomei café e esperei o telefonema da minha mãe. Nada. Ligou uma amiga minha. Foi gostoso. A gente falou de tudo e de nada. Mas foi bom sentir esse carinho pelos fios do telefone.

Fui resolver pendências de banco. Comprei docinhos pra levar pra escola. Espreguicei. Falei com mais um amigo. Olhei as vitrines da rua. Essas coisas... e percebia nesse dia que, apesar de eu ser a mesma há 29 anos, ainda era bem diferente de algum tempo atrás. Muda-se, mas permanece-se.

Dirigi até o trabalho ouvindo as músicas que eu queria. Escolhi várias do Queen porque sempre me lembram do Tio Fredy. E toda a bagunça que a gente fazia nos 31 de julho. Senti falta do meu pai. Do Gu que está na Itália. E, apesar de tantos amigos e pessoas queridas, a única coisa que eu queria era a minha família. Vontade de ficar quietinha. Aconchegada.

Fui pra escola e, chegando depois da agitação da primeira aula eu fui recebida com bastante afeto. Por gente que não me conhecia direito, mal me via. Fiquei ganhando surpresinhas aqui e ali. Beijinhos, abraços, um aperto daqui, dali. Fiquei feliz. Meio tímida-enebriada-desengonçada.

O carinho de alguns - inacreditável! - alunos e mais de um monte de gente que vê o teu nome no mural de aniversariantes. Comemorei. Do meu jeito. Meio quieta comigo e com as coisas que tinham acontecido.

Me lembrei de aniversários antigos, recentes. De 4 anos atrás... de promessas que eu fiz, que fizeram. Um passatempo meio de criança tentando localizar os sucessos e os fracassos. Nada pretencioso, mas fiquei com vontade de não fazer nenhuma lista. Só de me calar. Observer esse amadurecer-verde dentro de mim. Fiquei com vontade de me sentir igual aos navegadores espanhóis e portugueses que chegaram ao Novo Mundo. Ainda procuro isso aqui dentro. Mas parece que essa viagem vai além das 750 léguas depois das ilhas... será preciso ultrapassar mais cabos, mais tormentas. Uns sem esperança. Outros cheios de monstros e cantos... quis ser mais, ser menos. Quis parar, desistir e fazer tudo bem depressa. Voltar atrás. Apagar um monte de coisas. Deixar tudo como sempre foi. E... esperar mais 29 anos...?

Ficar no mar. E deixar. Ser. Sem esforço naquilo que eu acho que posso. Sem querer descobrir mais nada do que não posso. E ir...

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terça-feira, julho 22, 2008

os 2...

Ao ficar com vontade de escrever sobre o Nosso, me dei conta do número da postagem... 222. Acho graça ainda e consigo me surpreender com as coincidências.

Esses dias depois de umas discussões, questões e avaliações, fiquei remoendo umas lembranças. Pensando no que seria, no que é. Em como será. Sempre que as coisas pareciam confusas essa tranquilidade de-nã0-sei-onde aparecia. Sublinhada com o 2, 22. Eram 22 hs quando ele ligou, quando eu mando um msn malcriado, 11:22. É bom notar essa permanência depois de se dizer cética. Em relação a uma série de coisas.

Eu sempre me surpreendo com o Juliano. Fico pensando uma vez que ele me disse que pra ele, eu era a sua primeira namorada. E ri - afinal namoradas é o que não faltou no currículo dele - achando essa fala uma mistura de quero-te-agradar com eu-não-sei-o-que-dizer. Mas depois, observando e comprovando o que ele insistentemente me dizia "ninguém nunca teve tanto de mim", me deixando perceber as sutilezas do que é ser a primeira namorada...

Engraçado como isso ainda me pega. Ontem mesmo, depois de fazer um melodrama por telefone, bancando a sabidona e a que sempre tem razão eu fui desmontada por essas demonstrações súbitas, inteiras dele. E mais que isso: ainda me admiro com a intensidade desse despojar-se dele. Para um sujeito fechado, com as suas crises e as necessidades de espaço e tal, mergulhar assim, do alto, causa estupefação.

O mais estranho é que essa constância de renovações e inteirezas fractais do Nosso ainda me deixam muda. Sempre fico achando que essas fissuras são profundas, que as coisas vão se abalar. Nesse sentido, a romântica aqui é a mais cética. Cega, pra ser mais precisa.

E sou surpreendida. Todos os dias. Nem sempre falo. Afinal, dizer nunca é mais fácil. São quase 4 anos. E toda vez que eu penso que a peça vai acabar uma platéia inteira dentro de mim aplaude esse artista. Que me encanta. Me faz rir, e me move. A melhor sensação é poder se surpreender num relacionamento. E se perceber diferente de duas horas atrás. De dias, de meses. De sempre. É deixar que a rotina traga uma constância desigual. Inteira.

Há pouco abri os emails. Sempre tem uma notinha ali. Uma mensagem no celular e essa coisa toda de (primeiros) namorados. Que fica. Que cresce. Que surge de dentro pra fora. Sem as prescrições de uma exigência mal compreendida. Gostei de acordar com esse corpo...

E por mais que o dia seja esse, outro, intenso, duro, cheio, mal, ou qualquer outra coisa que comprove meu ceticismo... é bom saber que as surpresas não tem aviso prévio. Que não se programam ou encomendam... mas que são vividas. Sempre, no meu silêncio. Em mim. Em ti. No Nosso.

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segunda-feira, julho 21, 2008

Há alguns dias a Filó está mal...Nunca achei que fosse ficar tão envolvida com uma gatinha dodói.

Foi um corre daqui e dali pra hospital e farmácia e toda essa coisa de semi-maternidade. Na semama passada dei de cara com a Lina na porta. Miando. Chorando e pulando no meu pescoço... mexeu bastante. Tive que devolvê-la para a dona com aquela cara de quem não fazia o que queria. Ela percebeu.

Prenúncios a parte, estou preocupada com essa fraqueza e mistura de febre e mal estar e mal sei lá-o-que-ela-tem... enfim. A gente ama mas não faz mágica. Custou ficar à mercê de um hemograma cheio de números indecifráveis e segurar a pequeninha no colo toda molenga.

Mas o pior do hospital de animais não foi ver a Filó assim. Depois ela ficou melhor, se recuperou um bocadinho... Assistir as pessoas apegadas aos seus animais me deixou mais aliviada em relação a tudo o que eu vivi com a Lina - e venho vivendo agora com os dois gatos. Não sei explicar isso, nem sei se terapia resolveria esse mistério. Mas naquela noite chegou uma cachorrinha com os médicos do resgate. Tempos depois, a dona. Vi os olhos agoniados das duas. E um pouquinho mais de tempo depois a dona subiu. Fiquei ali agarrada com a Filó no colo torcendo para que todas as coisas boas acontecessem com os dois bichinhos.

Nada. Silêncio. Aquele clima de sala de espera de hospital. Nada diferente dos humanos. Ou seria a nossa semelhança animal? Fragilidade física. Do sentir. A Filó ardia em febre e eu ali tentando pensar nas coisas boas e que eu não perderia outra gatinha. Fui acordada do meu transe pelo choro doído da dona da cachorrinha. Me apertou o peito. Eu já sabia o que era. Alguns dos donos se olharam na recepção. Mais silêncio. E aquela solidariedade cheia de medo de que a cena se repetisse naquela noite.

Não consegui dizer nada. Fiquei ali revivendo a Lina, os aparecimentos súbitos dela na minha porta e os carinhos trocados. Revivi o dia que os dois chegaram em casa. E olhava a Filozinha toda frágil no meu colo. Como dá vontade da gente fazer milagre!

Fiquei - loucamente? - pensando nos meus pais comigo e meus irmãos pequenos em cenas parecidas. Sem saber. Esperar. Rezar. Acreditar. Acho que nessas horas faz sentido a palavra fé. Não se explica o acreditar. Mas se acredita. Não há nada teórico - nem prescrito. Há o sentir. Pensei. Olhei aquele corre corre dos médicos. A dor. Papéis de internação. Custos. Fiquei pensando porque a gente se importa mais com esses pequenos do que, muitas vezes, com outros humanos como nós. Será uma necessidade de poder-fazer? E não se pode nada nenhum.

Fiquei humanamente animalizada. Sensação de impotência, cumplicidade. Saí de de lá chorando e me dando conta que - de fato - mais uma vez, a gente não controla nada. Nunca. Fiquei com vontade de resolver o problema de todo mundo e fazer a Filó sair pulando de novo. Passei a noite em claro vendo como ela reagia. Se comia, tomava água, ficava bem. Se miava. No dia seguinte tratei de dar outro geral na casa antes de voltar ao hospital. Mas não deu. Passei o domingo trabalhando aqui pra tirar a poeria e deixar tudo bonitinho pra ela.

Estou desde aquele dia velando essa gatinha. Achando mágico essa vontade de cuidar. De fazer. De melhorar. E me estranhando com esse universo paralelo dos humanos: expostos à vida como qualquer outro animalzinho frágil. Que não sabe o que o espera. E dizendo que entende. Que sabe, que quer e faz...


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quarta-feira, julho 16, 2008

Acordei hoje com a Filó me puxando os cabelos. Achei tão bonitinho esse acordar. Acho que entendo porque os solitários sempre tem animais de estimação. E entendo o estágio mais avançado de se ser só. Não é preciso nem isso. Fiquei um tempo com ela na cama e depois vi os dois rolarem pra cá e pra lá se fazendo carinho e brincando.

Sempre esse cotidiano me deixou meio encantada. Não gosto de rotinas, mas gosto de uma permanência na vida. De coisas que se repetem, com serenidade. E que se constroem aos poucos. Levantei e vi a casa de pernas pro ar. Cheia de pó branco de tinta e massa. Uma poeira bonita que dançava com as luzes do sol e o prisma da janela que, apesar de esbranquiçado, ainda refletia... Achei tudo isso meio mágico, uma coisa de achar bonita a destruição.

Nunca me incomodei tanto com sujeira como nos últimos dois dias. Mas apesar da reclamação, estou achando bom ficar na minha toquinha. Sem precisar me expor ao mundo da sala de aula. Essa madrugada fiquei fuçando na internet... resolvi procurar o Charles. Meu antigo professor de literatura. Vi um blog dele, mas sem nenhum contato. Tinha apenas uma foto. Fiquei me lembrando das aulas e das músicas que ele cantava. De todas as coisas que ele passou. Dos lançamentos de livro. De presenças e ausências. E lembrei que ele nunca mais escreveu, deu notícia. Por muito tempo eu fiquei pensando porque isso tudo tinha acontecido e se tinha um mistério nesse desaparecer.

Mas no meio do café da manhã na poeira da sala eu me lembrei que muitas vezes o sumiço é mais presencial. Sumi de algumas pessoas. E sei porque. Senti saudade dele, de ser aluna de novo. Fiquei me lembrando se depois eu tinha encontrado um professor parecido... e de certa forma a minha adolescente idealização dele se transmutou num silêncio. A gente conversava pouco. Mas era o suficiente. E vi de novo depois as fotos. Os livros e as dedicatórias. Achei graça dessa passagem de tempo que ao mesmo tempo congela as vidas das pessoas em lembranças. Fiquei com vontade de tomar um café com ele e contar tudo o que se tinha passado em tantos anos.

Mas percebi que esse café não era necessário. Quando a gente conhece o outro sabe diagnosticar nas feições do rosto as coisas que mudaram. As que foram escondidas. E outras apagadas. Me deu vontade de falar disso depois de reclamar do meu excesso de sensibilidade. Ele era uma das pessoas que valorizava isso. Mesmo reconhecendo o quanto ele estava endurecendo com a vida. E não era conselho de professor mais velho. Ele via algo nisso que me dava a sensação de ser compreendida. Ora, para uma adolescente sem auto-estima: grandona, de cabelos enrolados e que gostava de ler coisas estranhas na época... nada mais adequado. Esse acolher dele sempre me deu vontade de retribuir. E de alguma forma, é o que venho fazendo na sala de aula com os meus alunos. Na medida que posso. Que aprendo. Que vejo e sinto. Engraçado como uma inspiração pode transformar tanto assim... e atravessar as eras da idade da alma.

Fiquei a manhã nostálgica. Com saudades das peças de teatro. Das brincadeiras com p Pico, dos meninos do MIR. Me deu vontade de voltar no tempo e saber lidar com esse sentir todo, sem me machucar tanto. Era mais simples. Desafios mais generosos. Sem dor. Eu sabia o que queria. Mesmo que não soubesse quem era. E hoje, sabendo mais quem sou, sei menos o que quero. Ou sei todo fragmentado dentro de mim. Será que o Charles teria algo mais a ensinar? Sobre o baú de ossos? Sobre ir, vir, sumir. Sobre não entender...? Acho que procurar o nome dele na internet foi um pouco essa tentativa de descobrir uma receitinha. Mas esqueci da grande dica de ontem: terapia. E vamos nessa...

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terça-feira, julho 15, 2008


Me armando. De mim.

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Chego em casa de noite e não tem ninguém. Achei tão bom e tão ruim essa solidão. Invejei os que são sós. De verdade. Daqueles que não precisam de outro. Daqueles que nem sequer sabem como se apaixona-se.

Depois de um dia todo de reflexões e de uma certa tentativa - honesta - de trazer as coisas para um nível de generosidade e compartilhamento, esbarro com a receita de "vá a terapia". Ora, essa é uma excelente muleta para aqueles que nunca se desafiaram a conviver com o outro de verdade e de tão perto. Conviver com terapeuta é bom. Mas paga-se. Um preço que ao meu ver vale bem menos do que uma vivência inteira com alguém. Mas fazer o que... Fiquei aqui pensando com a minha cervejinha - e os gatos - que muita gente nunca teve com quem conversar de fato e só foi ensinado naquela salinha, com aquela pessoa.

Gostei muito da minha terapia - e tenho vontade de voltar (acho melhor eu escrever com maiúsculas: EU VOU VOLTAR PARA A TERAPIA - isso adianta?) No entanto a falta de sensibilidade será mesmo recuperada na terapia? Ou se consegue isso com o conviver, o espelhar, o deixar-se aproximar. O curtir-se. Sim. "Se curtir" é algo que só se faz sentindo. Nem que seja prazer. Puro. Físico. Mas isso só se pode com alguém, certo? Ou será que entramos num esquema tão profundamente solitário de andar por entre as gentes que se utilizam outros recursos? Dá pra sentir sem outro por perto?

Hmmmm...

Eu sempre rio pra ironia de um esforço meu em me mostrar mais humanizada. Sempre é frustrado. Dói. E fico pensando se isso é para que eu me humanize mais. Dizia na terapia que eu gostaria de não ser sensível assim. Minha chefe antes das férias me disse algo parecido "me preocupa você ser tão sensível, você precisa criar uma capa". Procurei as minhas capas em casa. Não achei nenhuma. Ao contrário. Em casa não há capas. Joguei todas fora. Mas começo a sentir falta delas. Me vejo num sentir agudo pedindo ajuda. E tudo o que ouço nesse processo de limpeza de espelhos no labirinto é para que eu procure um profissional. Ok. Eu não sou a santinha sensível mesmo. Nunca fui. Nem quis ser, apesar de ser, muitas vezes, acusada de olhar a humanidade do meu pedestal.

Fico pensando porque eu me importo. Porque eu me importei tanto há 4 anos... há 10, há mais de 13... E vejo - sem crise de vítima, PLEASE!!!! - que muito pouco foi importado pra mim... Que ironia isso. Se pedir para uma pessoa com a sensibilidade sangrando na pele - doendo mesmo - se acalmar. É quase como dizer que não há dor. Mas antes que eu esqueça. A dor é minha. Ninguém provoca dor no outro, não é mesmo? Deve ser por isso que as pessoas sofrem tanto, brigam tanto e discutem tanto. Porque elas são loucas em si. Sem precisar de ninguém. Vivem perambulando nesse solitário ser delas mesmas. E fazem de conta que precisam dos outros só pra ser bem visto? Ah! Esqueci da palavra carência.

Tem gente que esconde tudo aí. Tudo é carência. Os erros, as precipitações e irresponsabilidades diante da dor do outro. Mas tem gente que apesar de admitir a carência, e a sensibilidade, sem se esconder nela - ou por ela - é confundido com insaciável.

Estava lendo na academia o Amor em minúscula. Achei graça desse começo de paixão. Me lembrei do Nosso. Do Juliano. Achei bonito um sujeito durão se abrir inteiro pra viver um grande amor. Nos termos de Vinícius de Morais. E ainda assim, fiquei com vontade de me refugiar. De endurecer. Por que? Por causa do Juliano. Não... claro que não... mas por excesso de sensibilidade que me parece, a vida sinaliza para eu perder. Alguns chamariam isso de amadurecer. Mas uma fruta bem madura não tem a pele toda sensível? Será que essa minha sensibilidade vai me fazer apodrecer? Será que eu sei mesmo o que estou fazendo com ela? Hoje tive vontade de me esconder de mim mesma. Peguei o carro e saí pra dar uma voltinha de madrugada. Sempre isso me ajudou na conversa com as minhocas, não é?

Fiquei aflita em pensar que eu sinto demais. Um transe mediúnico que me fez ter vontade de correr. Pra dentro. Pro mais meu. Sem sentir. Como é isso? Esbarro num email antigo do Vinícius falando pra eu nunca deixar de ser assim... e de todas as coisas bonitas que esse sentir me permitiram... epifanias. Diárias.

Mas pra se sentir tanto se paga tanto assim? Sem reembolso? Por que as feridas quase cicatrizadas são rasgadas quando eu as mostro? Por que essa tentativa de me "humanizar" vem sempre acompanhada de flagelos?

Ok, muito shakespereano, talvez. Ouvi música depois. Trilhas. Buscando em mim mesmo o que eu deveria sublinhar com elas... Rabisquei o texto todo de mim mesma. e vi uma bizarrice de cores sentidas. Intensas e multiplicadas. Fractais. Prismas inteiros e quebrados nesse meu devaneio de querer não querer. De só parar. Onde eu desligo? Pra onde fica o silêncio e o vazio? Não quero mais sentir tudo ao mesmo tempo. Nem agora, nem mais.

Senti o amargo tomando conta. Esse vinagre escorrendo pelas veias. Dilatando e contraindo por mim. Não tinha pra quem ligar. As linhas desse canal não atendem mesmo. Pensei em voltar a sair de carro. Mas me lembrei que eu tinha tomado uma cervejinha... e a lei seca... sim. Ia ser muito mico ser pega embriagada por querer parar de sentir tudo.

Senti as agulhadas da vida. Li umas cartinhas que achei na pasta. Bilhetes. Fui olhar a casa reformando. "Vamos nos curtir", disse o Juliano. Olhei as coisas ali e agradeci. Há um curtir nisso tudo... E antes que eu seja vista - novamente - como alguém que nunca está satisfeito com nada... é melhor eu parar... de querer não sentir mais. E esperar essa dor respirar. Parar de tomar conta. Eu queria ser anestesiada da vida. E deixar. Quis viver a estátua. Quis ficar muda. E não ter mais nada a dizer. Porque não sinto mais nada.

E Clarice dizia que só se escreve com dor. Por que? Por que sentir tem que doer? Onde isso pega na gente? Como eu faço? Como eu faço de conta que eu não me importo? Como eu paro de me importar? Como eu finjo ignorar? Tenho medo que esse pedido de distância me afastem pra sempre. Já vi isso acontecer. Fiquei com saudade do mar.

Liguei. Nada. Nada falava comigo... e eu tentava falar com tudo. Será que se eu falar com o terapeuta resolve? Ora... Será que lá se aprende a parar de sentir? De lembrar? De esperar? Será que se ensina isso? Se treina? Hoje quis zumbizar pela terra. De noite e de dia. Tanto faz. Sozinho. Acompanhado. Faz diferença quando não se sente?

E fiquei aqui olhando esses livros todos em volta de mim. Tem tantos deles que sentiram demais, e não aguentaram. Uns escreveram. Outros fizeram isso e também piraram... outros ficaram. Outros entenderam. Uns deixaram disso, afinal, entender é sempre limitado, dizia a Clarice. Eu quis limites hoje. Dentro de mim. Por que esse escancarar meu pro mundo? O que isso tem me trazido? Há poros dilatados demais. E entupidos de tanta secreção. Pus, suor. E as outras "inas" que fazem bem também... deixam a gente com essa sensação de estar extasiado pelo existir aqui.

Passei uma lista das pessoas que passaram - e passam ainda - pela minha vida. Identifiquei um número assustadoramente pequeno daquelas que tinham esse compreender - não entender - esse ser cúmplice de um motor em explosão aqui dentro. Por mim. E achei ao mesmo tempo bom, e triste, essa solidão. Talvez a terapia cure não isso, mas corrija as lentes da observação. Sempre se é míope ao sentir. Sentir o outro: dá outro ensaio sobre a cegueira, Saramago? Sem pontuação. Nem correção.

Chamei o Sandman pra próxima rodada de cerveja. Eu, os irmãos. E os gatos. Ainda bem que o Destino é cego. E a Morte exuberante.


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