sexta-feira, janeiro 30, 2009

meus caminhos

 


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quinta-feira, janeiro 29, 2009

Tango

Danço. E caio, e me envolvo. E deixo. E me revolto. E controlo. Para em seguida me descontrolar. De uma vez. E cair. No ardente choro de um desespero sem fim.

E danço. E quero. E vou. E me arrasto, com as mãos crispadas de um ódio pisoteado pelos sapatos. E sigo. E busco. E largo.

E dançando... me revolto. Me deixa. Me afasta. Me quer e me busca novamente. Naquele abraço suado e odiado. De dor. E choro. E quero. E peço. E viro. Rápido. Num colapso de não entender o ritmo da música. Que não acompanho. E choro. E desejo. E grito. E aperto contra o peito. E esfrego aquelas mãos sobre mim. E pergunto. E imploro. E me deixa.

E danço. E giro. E corro. E pulo sobre esses pés que me confundem o ser. E não sei mais. E espero. E explico. E suplico.

E danço. E volto. E não quero. E vou. E saio. E afasto. E me desespero. E perco. E deixo. E esqueço. E olho nos olhos. E afastamento. E duvido. E canso. E espreito. E sigo. E volta. E me pede. E fala. E grita. E afasta. E chama. E me perco. E me largo nesse girar e perder-se de mim mesma. E caio nessa escuridão. E quase pra sempre desisto. E quase até o fim apago de mim. E afago. E te peço.

Dança.

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sexta-feira, janeiro 23, 2009

Estava eu na minha maré desiludida, me afogando em textos acadêmicos... e aí a tecnologia serve para alguma coisa - de fato - humana.

Como por sintonia (isso sempre acontece) o Vinícius entrou no msn. E há algum tempo a gente não conversava. Chamando isso de conversa, evidentemente. Há uma coisa interessante nessas amizades profundas. É um vínculo que se faz de silêncios.

Foi legal poder ve-lo na camera da ferramenta. Acho que não o via desde o casamento. E foi bonito. Eu, de cabelo mais curto e bagunçado, ele na casa nova, barbudo e rodeado de livros. Foi engraçado como, depois de tanto tempo, e apesar de tudo, algumas coisas permanecem. Me lembrei de um trabalho que fizemos juntos e que quase surtamos. Horas e horas de icq pelas noites adentro. Ele riu de mim porque tinha que entregar coisas amanhã. Da minha pressa e da mania de perfeição. Riu também das aulas de tae-kwon-do. Disse a ele que estava treinando direitinho.

No fundo, os assuntos são sempre os mesmos. Mas há graus diferentes de sutilezas com o passar do tempo. Fala-se sempre pouco nas nossas conversa. Mas o suficiente. Senti uma saudade. Ele era sempre o amigo que cuidava de mim na faculdade. Aquele irmão mais velho e grandão que defende a gente das pessoas do mal. Apelidei ele de Sullivan - o monstro azul de Monstros SA, da Pixar. Ele em contrapartida me deu o bonequinho. Guardo até hoje.

É engraçado como é confortável a sensação de que a gente precisa - e pode - ser cuidado, sem diminuir a nossa capacidade de ser o que se é. Me lembrei de várias coisas no caminho do treino e senti o coração mais leve sabendo dessas existências silenciosas. Sinto falta dele mais perto, mas entendo as escolhas, os caminhos.

Pedi para ele ler meu texto depois. E me ajudar com umas coisas e observações mais metodológicas. O Vinícius sempre foi a minha confiança acadêmica. O único cabeção que não perdia o humor, o jeito carinhoso de tratar as pessoas (apesar dele ser super azedo). De repente me deu vontade de voltar para a USP e sentar por horas debaixo daquela árvore... e assistir a vida dali, como num filme dos anos 50. Acho que foi mais que nostalgia. Fiquei me lembrando da frase do Juliano essa semana: tirar férias emocionais. Acho que ele não tem a menor idéia do que estava dizendo. Mas fica a sugestão. Quis conseguir isso e me desligar. Viver a minha solidão silenciosa. A companhia do Vinícius me deixava confortável nessa solidão.

Fiquei rindo das minhas reflexões pensando que hoje eu sou casada, apaixonada. E de fato não vivo - nada - sozinha. Ao contrário. Vivo um arrombamento da minha solidão. Da minha - arrogante, talvez - sensação que posso viver só, apesar de estar sempre tão rodeada de gente. É quase uma fuga isso. Estar com as pessoas para não me entregar a isso. E o quanto isso me esvazia e preenche. Me desafia para um encontro ao avesso de mim.

Vivi um treino intenso. No meio dessas coisas que iam e vinham por mim. Libertei uma raiva doída. Magoada. Mas não a deixei ir de todo. Ficaram ainda essas sombras. Que se diluem em treinos futuros, em conversas debaixo de árvores e por do sol. Fiquei com raiva de mim. E foi ótimo.

Que bom que tem a camerazinha... e gente ali do outro lado.

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Há uma série de sutilezas no início de ano. Tantas promessas de coisas inovadoras, sensacionais, incríveis. Transformações de toda a ordem e uma lista interminável de realizações.

o ponto aqui é ficar sempre nessa promessa. Voltei pra casa pensando se a esperança não é um ópio (des)necessário pra gente. Uma coisa do "amanhã eu faço" na pior versão de Scarlet Ohara de "vou pensar nisso amanhã".

Essa minha pressa se mistura agora com um azedo na boca. Uma vontade de desistir. Abandonar. E parar de ficar esperando. Acreditando que as coisas ficam bem em algum momento. Tá aí uma coisa que a gente vive correndo atrás: plenitude. E o máximo que a gente tem são uns lampejos disso na vida. E o resto se vive atrás.

Passei a noite rodeando a sala e as cortinas da casa. Olhando o vento ir e vir. A companhia dos gatos quase detecta esse ser horrendo que há em mim. E um respeito mútuo das feras silencia nessa noite.

Nada. Nem os desabafos servem. Nem os choros, a verdade dita do que se sente, de como se sente. Nada afeta. E esse espelho ainda me chama de arrogante. De sensível passo a arrogante. De quem sofre e se preocupa e tenta resolver a uma "complicada" que precisa voltar para a terapia. Não dou o direito de ninguém ser como é. E sou soberba.

Vim caminhando na rua a passos bem lentos. Quase fui atropelada na frente de casa... achei graça da minha cara no meio da rua, como se buscasse a mim mesma em alguma esquina aqui perto. E acho que essa sensação de não saber mais, exatamente, quando, como e para onde estou andando me alucina. Voltei pra casa com chocolates e uma coca cola. Os gatinhos me esperavam. Os textos do mestrado. As coisas todas por fazer... e eu aqui, contemplando a grandiosidade da minha limitação, arrogante, cansada, paralizada esperando alguma coisa de não sei quem. Quem?

Lembrei das minhas promessas de início de ano. De coisas que se definham... da minha vontade de sumir numa dessas bibliotecas do mundo. Sim... eu adoro a solidão. Talvez eu seja tão arrogante que me baste nisso. Na companhia - nada silenciosa - de livros e gatos. Fiquei com saudade da praia. De coisas que ficam pra trás no tempo... e de algumas que eu ainda gostaria de viver... mas sem mais esperanças.

Talvez eu precise de mais pragmatismo e desligar o botão (alguém sabe onde fica?) da chamada sensibilidade. Hoje conhecida como birra, infantilidade, e coisas afins.

E espero. Eu mesma. Acordar.

Ou quem sabe eu mergulho de uma vez na pesquisa? talvez ela responda mais... sinta mais, dê mais, queira mais. E eu não passe mais a ser um io-io que não deve esgotar. Mas esperar. Aceitar. Compreender. Sem sentir.

Fiquei me lembrando de uma conversa com Winston na praia esse ano. "a gente precisa aceitar todas as pessoas nessa vida" ele dizia... achei um absurdo esse conformismo. Talvez isso deva se chamar maturidade. Ao menos ela não é arrogante. Talvez seja isso mesmo. Deixar passar. Inerte. Sem sentir. Só deixar. Como se não fosse comigo. E aí? não há nada melhor que a solidão se for se viver assim? sem (im)pactos...

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quarta-feira, janeiro 07, 2009

 


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segunda-feira, janeiro 05, 2009

Filó

 



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segunda-feira, dezembro 15, 2008

de criança para criança...

Fiquei boa parte da noite em claro. Sonhos esquisitos e a agitação do Juliano com outra viagem.

Fiquei sabendo ontem de mais uma notícia de um amigo com o filho. A Marcinha, minha grande amiga passou uma coisa terrível outro dia com a criança dela. Dois meses e um risco de uma grave cirurgia.

Ainda não tenho filhos. E sei que os terei um dia. Só tenho o Fred e a Filó que são os meus nenês, por assim dizer. Fiquei me lembrando da Marcia falando sobre o que os filhos nos trazem. Um amor tão sobrenatural para os mais cabeçudos, como eu e ela. Rezei, pensei. Mal dormi.

Fiquei pensando no meu afilhado. No jeito que a vida da gente se transforma com a presença dos outros. Me lembrei do Charles há quase onze anos atrás. O Gabriel, filho dele teve mil complicações ao nascer e aquilo mobilizou pessoas de todos os cantos. Fiquei ontem pensando sobre a fé. E como a gente desconhece isso. Parece que a fé só existe depois que as coisas se resolveram. Um modo estranho de confirmar que tudo ia - e deu certo. Ela - na nossa ignorância - não serve ao seu propósito primordial: nos dar certeza.

Há um tempo atrás fiquei com questões sobre isso: afinal, a gente é ensinado a crer num Deus que se ocupa de tudo para nós. E que às vezes esse sujeito fica de mal humor e está ocupado demais para dar conta das nossas questões. Fiquei com coceiras dessa mentalidade católica. Me dei conta que essa meu desconhecer sobre a fé e sobre a minha própria capacidade de enfrentar problemas com a auto-confiança, inclusive de que sou merecedora da felicidade, me travam para prosseguir.

Acordei hoje com a rotina de semi-férias. Uma preguiça de resolver e fazer as coisas. E uma inquietação sobre isso que me roubaram o sono. Fiquei pensando nos pais, nas crianças. Em como a gente é frágil. Fiquei pensando no que dizer, em como rezar e pedir. Pensei na Marcia. No Charles. E no meu companheiro de blog, o Emanuel. Por fim, essa sensação de impotência me fez lembrar de uma história bem forte na minha família.

Gustavo, meu irmão, quando nasceu com complicações no parto, manifestou isso anos depois. Tinha uns 3 ou 4 anos, mais ou menos. Eu não sei bem o que ele teve - mas era uma coisa neurológica, com um daqueles nomes difíceis. Meu irmão sempre foi o cara frágil, sensível. Arteiro, mas silencioso. A arritmia que ele teve comprometia a sua coordenação motora (fina?) se não me engano e ele teria dificuldade com uma letra caprichada, mas nada ligado à aprendizagem cognitiva. Me lembro muito das conversas dos meus pais que falavam as coisas em códigos achando que eu não entendia. Gu tomou remédio por algum tempo. Fez um longo tratamento. Mas de verdade, o pânico da minha mãe se resolveu - ou pelo menos se acalmou - quando fizemos em casa uns quadradinhos de madeira com as letras gravadas em lixas. Ele tinha que ficar passando o dedinho ali para alinhar a coordenação. Me4 lembro bem que eu não entendia porque ele tinha que ficar "brincando com as lixas", mas ficava com ele e a minha mãe. Horas e horas todos os dias.

O tempo passou e as preocupações - constantes - se transformaram em uma sensação de conquista. A gente tinha acabado de sair de Porto Alegre e vindo para São Paulo. Não tínhamos ninguém aqui da família. Os amigos, contávamos nos dedos de uma mão. Não havia nada nem ninguém além de nós 5. A Clara, a minha irmã mais nova, não tinha nem um ano.

Lembro do Gu indo para a escola com medo de ter uma crise de novo. Minha mãe se preocupava e eu tinha um senso de proteção com ele, apesar das brigas que a gente tinha. Eu era bastante chata com os meus irmãos, mas os defendia. Me lembro de socar vários coleguinhas dele que o ameaçaram na escola. Era o meu jeito de dizer que me importava.

Ficamos anos convivendo com isso. Com o receio, as idas ao hospital para dar pontos na cabeça dele toda a vez que ele batia com ela em alguma quina. As consultas na neurologista (me lembro que era uma mulher inteligentíssima, que lia revistas em francês e eu ficava folheando isso tentanto entender alguma coisa enquanto esperava a consulta terminar) e os exames que ele tinha que fazer periodicamente (isso eu gostava de olhar porque os eletrodos me lembravam os filmes de ficção científica que eu via com o meu pai).

Hoje, anos depois, meu irmão está terminando o mestrado em astronomia. É um físico incrível e um dos geninhos da família. Mas muito mais que isso, ele é um testemunho pra mim da paciência, que eu nunca tive, de esperar e ver as coisas acontecerem. De perseverança. E mais, de resignação. E de uma resignação que, como li outro dia, é uma aceitação com o coração, não com a cabeça. O Gustavo certamente tem isso. Ele me inspirou sempre, sobretudo porque nunca perdeu a ternura. Ou os risos. Ele tem o maior sorriso do mundo. (se ele ler isso vai achar que é piada! ele tem uma boca enorme!) E toda a vez que eu o vejo, aqui em casa falando bobagem, dançando, discutindo filosofia comigo, ou arrumando o meu computador, me lembro da gente no quintal de casa com os dedinhos nas lixas. Me lembro dos tombos de bicicleta. Das brigas. Das vezes que eu não queria que ele saisse comigo porque o achava um pirralho! Das conversas e dos abraços que foram se sofisticando, nas sutilezas. De coisas que ele me falava, me perguntava. Me lembrei das minhas apresentações de ballet em que ele era o que mais me aplaudia... e essa inspiração toda de sorrir. Exatamente como o poema do Chaplin que postei outro dia.

Tem coisas lindas que o outro ensina pra nós sem se dar conta. Mal sabe ele que até hoje eu recordo dessas coisas. E do quanto eu sou grata a ele por esse aprendizado. Que veio de criança. Para criança. E que ainda hoje me revela que o nosso descontrole sobre o mundo, sobre nós e a vida, é o que nos revela, verdadeiramente a natureza dos milagres. O sublime.

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domingo, dezembro 14, 2008

Essa semana, parece, finalmente terminam as reformas aqui de casa. Achei engraçado - já devo ter mencionado isso - que esse fim de reforma - e o clássico ritual de arrumar a casa - encerram um ciclo de grandes arrumações internas.

Hoje, ao passar numa livraria visitei a sessão de astrologia. Sempre gostei de ler essas coisas no fim do ano. Não que eu acredite nelas. Mas a sensação de que alguém pode saber do que vai acontecer com o mundo me deixa um pouco mais tranquila nessas cachoeiras imprevisíveis do viver.

Obviamente não falarei das previsões. Isso se faz nas livrarias. Mas achei divertido sair dali e ficar perambulando nas minhas lembranças. Tenho feito muitas retrospectivas da minha vida. E tentado direcionar coisas para um futuro bem próximo, vamos assim dizer.

Hoje cedo, colocando o espelho no banheiro, fiquei pensando sobre os espelhos que atravessam o meu dia. Lembrei de sonhos que hoje pouco importam. Pessoas que perderam-se nos seus (in)significados. Dos desejos. Das coisas de aqui e ali. Olhei a casa hoje. Diversas vezes parei para olhar os nossos livros e as nossas fotos. Engraçado que parece pra mim o mais palpável do Nosso. Aquilo que fica de materializado de mim e dele pela casa. Claro, há outros sinais. As almofadas. Velas. Coisinhas por todas as partes. Mas projetamos tanto de nós naquelas fotografias. E os livros espelham conversas, desejos, desentendimentos. Sonhos. Desencantos. Aprendizados. Fiquei olhando ele suspenso na escada pendurando para colocar o espelho na parede. Ri de mim mesma tendo essas elocubrações enquanto alcançava chave de fenda e martelo.

Quando saíamos de casa depois... fiquei olhando a porta se fechando. Quanto há de nós nessas paredes. Tão isolados do mundo ali. E o quanto do mundo atravessa essas construções que às vezes parecem só nossas...

Foi bom olhar tudo isso e sentir que uma nova relação se faz - todo o momento - quando me permito escavar os fantasmas de mim e deixar a luz do sol bater nas minhas janelas. Renovo o ar me deixando levar pela vida sem querer congelar nada dentro de mim. Sem deixar que nada apodreça. É bom ve-lo apaixonado. Sentir o desejo, a ternura e o cuidado dele comigo. Ver que um esforço genuino de transformação parte dele sem que eu o peça... E que isso tudo vem de nós. de um mistério de querer. E deixar.

Há uma reforma dentro de casa que nunca termina.

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terça-feira, dezembro 09, 2008

Ainda sobre o tempo. Esse ano me dei conta da passagem do tempo por alguns motivos curiosos. Um par de motivos curiosos foi o casamento do Vinícius e o nascimento da Laura, filha da Marcia.

Há quatro anos atrás me lembro de nós 3 muito preocupados com outras coisas. Muitas outras, menos filhos e casamentos. Eu estava com um namoro afundado, a Marcia um casamento destruido e o Vinicius em pleno encantamento pela amada.

Fomos juntos no aniversario da Tereza, onde conheci o Juliano. Chovia muito e o meu mau-humor naquela ocasião só me traziam perspectivas ruins. Esse ano vi a Marcia ser mãe. Gravidíssima com uma barriga linda de morrer. Reclamenta, como sempre. Mas em clara transformação pela maternidade. Se transfigurando. Foi lindo. Nunca achei que veria a Marcinha assim. Ela sempre dizia que não queria filhos, que isso e aquilo. Mas pude ser testemunha do que a Laura fez a ela, desde o início. Hoje a pequenina está fofa, sorridente. E a mãe mais ainda.

O Vinícius... puxa! Casado! Feliz e mestre! Bom ver o melhor amigo numa situação dessas. Estou orgulhosa dele. E ao mesmo tempo, sem me surpreender. Já esperava que ele teria um futuro (próximo) bom. Merecido.

Olho os meus dois amigos como testemunha do tempo. Mais que de amizade. Isso está em tudo o que falo e sinto deles. Mas o tempo... Eles presenciaram, certamente, coisas da Thais que nem ela esperava. Das mais intensas rupturas. Corte de entranhas para um desenlace de si mesma. Foram as testemunhas mais fiéis. Silenciosas. E briguentas também. Dos conselhos mais sábios. Dos poucos que eu escuto. Irmãos mais velhos.

Hoje passei o dia fazendo coisinhas aqui e ali. Sempre me deparo com as fotos deles pela casa. E pela lembrança do quanto fazem parte da minha vida. Eu me surpreendo. Como o tempo pode ser generoso e permitir que a gente veja pessoas especiais permanecerem na nossa vida. E uma permanência que aflora, não gangrena. Olho pra eles hoje e pra mim, com a minha trajetória... cheia de momentos de sim e não, talvez, quem sabe, desisto e deixa pra lá... com umas conquistas... que só o tempo dá.

Senti saudades dos dois hoje. Daquela noite de chuva forte em 2004. Fazia frio. Das broncas da Marcia e do Vinícius. E do jeito desajeitado que sempre cuidaram de mim. Senti saudades das noitadas com a Marcia, das rizadas e de todas as conversas profundas sobre a vida e o futuro da humanidade que eu tinha com o Vinícius. Fico olhando a árvore da USP, palco desses monólogos. E hoje, a humanidade continua a mesma (provavelmente há uns 100 milhões de anos assim...), mas sem a árvore na USP. E sem o Vinícius tão perto.

Fiquei refletindo sobre os meus apegos. E me sentindo bem - e apegada - ao que pode se transformar no tempo. Às ondas do viver que me golpeiam por dentro. E ainda me deixam perplexa, surpresa pensando - e sentindo - o poder de estar vivo. Por dentro.

Quis dizer tudo isso a eles hoje. Fiquei sem jeito de ligar e despejar essa coisa enlouquecida dentro de mim. Ficou uma saudade de mudar mais. E poder testemunhar esse devir. Sem previsões. Sem pressa. Que vem debaixo de chuva... deixando o sol vir do jeito certo.

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quarta-feira, dezembro 03, 2008

negociando com o tempo

Depois de reler o Sandman fiquei fantasiando que o Tempo deve ser uma entidade daquele tipo. Sinistra e descolada. Fiquei imaginando como o Neil Gaiman desenharia esse sujeitinho tão presente (e ausente) na nossa existência.

Tirei o atraso de algumas coisas nessa primeira semana de quase sossego: assisti E o vento levou mais uma vez.

Revivi meus momentos de Scarlet e as coisas que o Tempo provoca na gente. Esse papo todo de amadurecer. Há alguns dias atrás ouvi que era preciso negociar com o tempo. Tenho pressa em fazer esse mestrado, terminar a pesquisa, finalizar. Encerrar e poder outra vez começar outra coisa. Há muitos planos. Um medo desse desconhecido, tão próximo de mim. Uma vontade de atravessar as fronteiras e invadir esses territórios meus e dos outros.

E a ansiedade volta. Fica. Permanece... Li. joguei papéis fora, arrumei armários. E ainda sinto essa desorganização aqui em mim. Uma confusão de priorizar todas as vontades. Tirar o atrazo. Mas quem me disse que estou atrasada? De repente me senti tomando café da manhã com o coelho branco de Alice no país das Maravilhas. Tenho pressa pra tudo. Olhei minha vida nos dois últimos anos. Só corri. Nem sei bem para que... para quem... mas para mim não foi...

Ou corri de mim...

Estou bem agora. Tenho o Tempo comigo. Preciso usa-lo ao meu favor... mas ainda nao sei de que jeito. Ou como diz o velho ditado, nao sei quanto tempo o tempo tem... Fantasiei outras coisas... Olhei os calendários. Tentei organizar agendas, metas, prioridades. E tudo o que me restou foi uma perplexidade completa diante do Tempo. Me lembrei da época que frequentava a faculdade de física e ouvia as loucuras e teorias - físicas - sobre o tempo. Até a blasfêmia para um historiador: o Tempo não existe. Não ousaria discutir isso. Acho que há capacitados... mas até essa constatação me assusta. O que se tem? Não temos nada, só que somos. E até isso parece intangível demais para nós...

Quis parar o tempo. Como se param filmes, livros. Congelar. Me lembrei do meu apego às pessoas e aos lugares. É. Sou muitíssimo apegada. Fico tentando segurar os momentos por entre os dedos. E me incomoda como escorregam da gente. Ontem recebi meus irmãos em casa. Foi uma delícia e ficamos rindo até de madrugada escutando música... quis congelar aquilo... diante dos meus olhos. E me dei conta nesse momento que eu viveria uma vida congelada. Cheia de momentos assim. Com amigos, com família. E que desse imenso iceberg eu jamais poderia caminhar ou sair. Que morreria de frio em mim mesma. E que tudo o que eu pudesse, reteria. Como um grande buraco negro, faminto de felicidade... que tragaria pessoas. Não seria livre. E nem deixaria ninguém livre - de mim. Achei graça dessa imagem. E naquele instante disse ao Coelho Branco para tomar um chá de cidreira. Ou um suquinho de maracujá... e que esperasse mais um pouco. Desenhei o tempo como um grande polvo. Cheio de braços, que me lançavam longe e me traziam de volta. E eu seria minimamente um io-io simpático... que saberia ir. E voltar. E me divertiria de estar nos braços do Tempo, saracoteando pelo Universo.

Me lembrei do Pequeno Príncipe. E aquelas viagens nos cometas... poder ir, voltar, esperar, ficar. Isso o Tempo deve permitir. Marquei uma entrevista com ele. Para ser feita durante a vida. É o tempo que ele tinha na agenda. Ficamos de "ir conversando"... E que ele seria o primeiro a me receber... depois o Sandman, o Destino, o Delírio. E depois a Morte. E depois... só depois.

Pus a água na chaleira... e vou esperar a hora do chá.

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sábado, novembro 29, 2008

Smile though your heart is aching
Smile even though its breaking
When there are clouds in the sky, you'll get by
If you smile through your fear and sorrow
Smile and maybe tomorrow
You'll see the sun come shining through for you

Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That's the time you must keep on trying
Smile, what's the use of crying
You'll find that life is still worthwhile
If you just smile

Light up your face with gladness
Hide every trace of sadness
Although a tear may be ever so near
That's the time you must keep on trying
Smile, what's the use of crying
You'll find that life is still worthwhile
If you just smile

That's the time you must keep on trying
Smile, whats the use of crying
Youll find that life is still worthwhile
If you just smile

(Chaplin)

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Ontem foi meu último dia no trabalho. E misturado a uma sensação de alívio e apego eu me vi ali, enfiada em mim mesma nesse monte de pensar e sentir e entender.

O mais mágico foi me lembrar - e sentir de novo - todas as coisas lindas sobre o último dia de aula. Como se fosse o fim de uma coisa muito importante da minha vida.Pixar camisetas, escrever bilhetes e dizer aquele monte de coisas (in)esquecíveis. Muitas daquelas assinaturas se apagaram e eu quase não me lembro de tudo... Mas a gente tem uma tendência a eternizar as coisas todas dentro da gente. Como se pudesse se agarrar o tempo com as mãos e colocar isso dentro do peito. Retocar as assinaturas, as pinturas dos retratos e corrigir os sons das conversas e despedidas, escutanto pra sempre.

Mas a memória é mais implacável... não se permanece como se quer. E que bom. Fiquei hoje cedo escutando Queen - who wants to live forever - e pensando no que seria a gente ficar assim, pra sempre, assistindo e vivendo a humanidade. O quanto a gente deixaria de ver o novo. De ser o novo. Essa palavra provavelmente desapareceria do nosso vocabulário. E eu queria entender porque ela sempre é tão necessária pra nós.

Ontem saí pelos corredores ritualizando em mim esse fim. Esse novo novo que se abre - e que ainda não sei onde está. Me lembrei do primeiro dia que entrei ali, naquela imensidão de prédios e ansiedade. Lembrei das entrevistas. Das frustrações da primeira fase. Do primeiro dia de aula. Lembrei do dia da saudação aos novos professores... dos que conheci. Dos aplausos que todos nós recebemos com a nossa chegada. Um auditório com quase 500 pessoas. E fiquei olhando naquela multidão quantos tinham saído para que entrássemos... quanta dor, desapego.

Olhei o sol se pondo no meio das árvores. As pessoas passando - sempre correndo - e sempre ocupadas. Olhei aquele encerrar de ano. Passei pelos corredores das salas de aula. Vi os que gosto, os que não. Olhei as salas vazias. Era um encerrar mais profundo pra mim do que o simples ano letivo. Vi as pessoas se aproximarem, falarem, inconformarem-se... Ouvi. Recebi abraços, bilhetes e até que chegasse naquele quiosque de festinhas e comilanças fui deixando o melhor de mim e levando uma coisa que jamais algum deles vai ter...

Recebi a gritaria dos alunos e aquele monte de pedidos de fotos, assinaturas de camisetas, ritos de passagem, de negação da ordem... Assinei me lembrando das assinaturas antigas. Daqui há alguns anos eles mal vão se lembrar dessas coisas, dessas pessoas, tãopouco das aulas. Tudo vira uma penumbra sem retoques no tempo. Olhei aqueles meninos e pensei o que eles vão ser daqui há 20 anos, onde estarão. Ah! se a gente soubesse. Eu não sabia há 20 anos atrás. Não via nada...

Ri bastante com os colegas e fotografei os bilhetes para mim. Olhei aquele clima de festa e notei que o ciclo estava de verdade encerrado. E isso me dava uma paz. Encerrei para eles, os alunos, não para a instituição. A máquina da instituição é insaciável. Nunca está bom. Mas para as pessoas, os alunos, há um saciar dado pela vida. Que não é saturação. Lembrei de muitos dos meus professores. Alguns mais, outros menos. Lembrei dos significados silenciosos de muitas das aulas. Das brigas e de tudo o que acontecia que parecia aos meus olhos a coisa mais importante do mundo. E de fato era. A diferença é que meu mundo foi se ampliando... ficou grande demais para aquilo.

Encerrei a minha participação. O mais difícil não é sair da vida das pessoas. Mas escolher o modo como se faz isso. A gente entra e sai da vida um do outro com a maior facilidade. Os relacionamentos são todos agora descartáveis. Um supermercado onde sempre o cliente tem razão. Deixei aquele lugar escolhendo quem levar comigo. Quem, de mim, deveria ficar comigo. Me despedi com alegria de todos eles. Levei as fotos, os bilhetes e todos os presentinhos.

Parti de um porto que não teria mais sentido. Que me enjaulava nessa vontade de sair e descobrir. Zarpei dali levando, nas bagagens especiais, um monte de lembranças e uma conquista minha, muito silenciosa. Não há paraísos mesmo. Mas constru-os aqui dentro, onde eu os possa levar.

E foi assim em cada classe.

E busco outros portos, menos barulhentos, onde eu possa ver mais o por do sol, escutando esse ir e vir das ondas, das gentes, de tudo o que a vida leva, traz, afunda no mar... e dissolve na água do tempo.

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sexta-feira, novembro 28, 2008

encerrando...

canto... nos cantos de mim...

It's coming on Christmas
They're cutting down trees
They're putting up reindeer
And singing songs of joy and peace
I wish I had a river
I could skate away on
But it don't snow here
It stays pretty green
I'm going to make a lot of money
Then I'm going to quit this crazy scene
I wish I had a river
I could skate away on
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly

I wish I had a river
I could skate away on
I made my baby cry
He tried hard to help me
You know, he put me at ease
And he loved me so naughty
Made me weak in the knees
I wish I had a river
I could skate away on
I'm so hard to handle
I'm selfish and I'm sad
Now I've gone and lost the best baby
That I ever had
Oh I wish I had a river
I could skate away on
I wish I had a river so long
I would teach my feet to fly

Oh I wish I had a river
I could skate away on
I made my baby say goodbye

It's coming on Christmas
They're cutting down trees
They're putting up reindeer
And singing songs of joy and peace
I wish I had a river
I could skate away on


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segunda-feira, novembro 10, 2008

Acordei pouco mais de 4 da manhã com a habitual insônia. Levantei, tomei um suquinho de uva. Andei pela casa acompanhando os progressos da reforma. Li emails. Brinquei com os gatos.

E ainda me pego descoberta pelas sombras do passado. Essas que não querem ir. Ficam. Rodeiam o meu espírito por dentro. E escrevem. E insistem. Achei graça disso. Tenho uma pilha de caderninhos e fitas para queimar. Olho-os todos os dias consagrande esse luto. Me despeço. E vou. Sigo, sem eles e as suas delícias que machucam tanto.

E voltam. No meio do dia. Cedo no café. Me visitam. As minhocas sempre ficam aqui e ali passeando. Lagartixas verdes que saem do piso. Meu ultimato funcionou, e o desespero delas nessa agonia de quase-morrer ainda me tiram essa energia. Elas se vão, queimadas em suas estacas de madeira na semana que vem. E jogo ali todas elas, suas lembranças, batons, perfumes e risadas. Deixo-as no lugar que jamais deveriam ter saído. Diluídas no universo.

E volto para o meu cantinho, submersa nessa vida... e esse meu renascer volta feliz. Aliviado, cheio de transformações que me devolvem ao Juliano. E ele a mim. Do jeito que a gente é. O Nosso. Sem mais nós.

E espero, contando os dias do sonhar, para desancorar esses barcos fétidos do meu (a)mar.

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domingo, novembro 09, 2008

Há duas semanas eu vivo um renascer. O fato de eu não controlar - nada - a minha vida tem as suas vantagens. Vivi uma reviravolta profissional que tem misturado alívio, mágoa, decepção (fuuuunda) e uma (re)descoberta de possibilidades. Intuições à parte, estou feliz, apesar dos medos.

A solidariedade dos colegas nesses momentos de ruptura é sempre um conforto. Mas, mais que isso, tem sido pra mim uma resposta do destino que, de fato, há outros portos para ancorar. Outros, zarpar depressa. Tânia me disse para não queimar navios. Quase tive vontade de incendiar a biblioteca de Alexandria. Mas me contive, pensando e sentindo que essas transformações só servem se virarmos do avesso.

Na verdade o que tenho sentido é que estou sendo revirada do avesso. Voltando para o meu eixo de sempre. Trabalhei tanto nos últimos dois anos que abri mão de conviver, sentir, (re)ver pessoas. E acho que a avalanche que me devolve isso é um sinal de gratidão. Apesar da dor. Apesar...

Achei que - em teoria - minha auto-estima ia ficar abalada. Ao contrário disso, me senti tão mais forte e convicta do que eu realmente (não) quero fazer na minha vida... nada me segura agora.

Mas os mistérios do ir e vir, do sentir, da dor e da decepção ainda vão precisar de uns dias. Em mim. Decantando para que eu transmute isso - esse visco - em estradas de tijolos amarelos. O resto. Só caminhar.

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domingo, outubro 26, 2008

Fiquei a semana me perguntando desse sentir solitário dentro de mim. Achei que tivesse entendido. Utopias.
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Mas a sensação ficou forte quando me deparei com o real. O possível. Fiquei tentanto crer que o possível é sempre o que a gente pode querer realizar. Dentro de um campo - possível de negociações. Me enganei. Estou só. E muito.

Achei - iludida? - que pertencia a projetos. A sonhos. E me dou conta que os meus não cabem naquele mundinho - acostumado - de solidão. Fez tudo só. Sempre. Achei meio mágico que isso pudesse de alguma forma ter se transformado. Engano.

Me lembro de ouvir na terapia há alguns anos atrás - as pessoas não mudam. E do Vinícius insistindo em me repetir: as pessoas dão o que elas querem dar. E me percebi sempre disposta a oferecer. Mais de mim. E o mais irônico nesse papo é que quando eu peço, me transformo na devoradora insaciável. Dos sonhos alheios. E me esqueço que ali, bem ali, de fato eu não caibo. Não pertenço. Não sei se dói mais ter acreditado que isso era sim, possível. Ou por ainda esperar.

Sinto um cansar tão profundo... doído. De silêncios. Não sei mais comunicar. Acho que desisti de pedir. Já vi isso acontecer anos atrás... por que será que pedir está errado? Fiquei sem chão... sem mais referências do que acreditar, nem esperar. Nem sei mais dizer que dói, que machuca, que sinto. Que queria que fosse diferente. E espero, e preciso - mais e mais - ser compreensiva. Entender. Esperar. Aceitar. Onde eu me pus nisso mesmo? Não posso mais.

Vontade de ficar. De sumir, de nadar. Sem voltar. E deixar - mesmo - de sonhar.

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quarta-feira, outubro 22, 2008


Hoje deu saudade dessa turma...

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Só é irônico quando a gente - ainda - cria expectativas de coisas que jamais vão se modificar. E a nossa estupidez - ainda - insiste em crer. Fiquei rindo de mim hoje depois dos choros. Um riso sarcástico da minha própria dor - e ingenuidade...

e ainda sentia aqui dentro que poderia ser surpreendida. Pelas ações, gestos, palavras. Pela significância de coisas - que a muitos são - tão insignificantes. E me senti tal qual. Engraçado como a gente se engana. E se sente, e se dói. E se espera.

Voltei para a tela, livros do grego e a minha cervejinha vermelha. Para voltar ao que a gente chama - ironicamente - de realidade. Fiquei me lembrando da aula do Charles na semana passada sobre o Romantismo. Ri. De mim. Do meu olhar romântico para o mundo. Exatamente. Igualzinho ao que ele fez no exemplo aos alunos. Olhos fechados.

E ainda teimo em querer olhar. Esqueci. Cultivei essa esperança - como gostam de dizer - infantil. Aliás... eu tenho sido mesmo criança. Sonhando demais... há semanas atrás comprei danoninho. E depois aquelas papinhas de crianças. Pedro e eu compartilhamos esse universo - infantil - nostálgico da infância.

Hoje quis (me) sair daqui. E definitivamente acordar. Deixar de esperar e querer e crer e desejar. Só parar. E seguir depois. Só. Sem mim. Sem nada.

Ligo o computador e fico acompanhando as notícias - aparentemente - tão mais interessantes - e provocadoras - do que os meus anseios, sim. Infantis. Birrentos. E mais uma vez me senti só. Nesse querer, esperar. Abandonar. Compartilhar. deixar... Compreender... tanta solidariedade...! me cansa. me larga, me esquece...

Filó e eu. Nessa carência felina. Indo, voltando, saindo, deixando(-me)... em lençóis... umedecidos e apertados, sós.

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terça-feira, outubro 21, 2008

envenenamento

Onde guardei os venenos que insistem colocar em mim? Fico procurando junto às lagartixas verdes, coloridas. Não encontro.

Fico pensando porque, por onde. E tudo o que me sobra são essas lembranças azedas, depositadas em mim. Mistura ocre de inveja e rancor. Continuo me lavando. E não sei tirar de mim. Ontem subindo as escadas afundava os pés naquele lodo viscoso. Nada além de mim sobrevivia... Vontade de me esquecer de tudo. De nem saber mais quem sou.

Voltei ao lugar de sempre. Cheio de minhocas e bichos. O escuro. Vontade de chorar. Sumir. Fugir. E me peguei de novo indo embora de mim. Não voltei ainda. Fico aqui procurando novas portas de saída. Sem barras, sem pânico. Me afundei de novo em poesias distantes. Como se quisesse acender a luz debaixo da terra. Ninguém me veria mais. E me escondo. Me procuro. Me sigo para esse caminho torto de mim. Angustiado de novo. Sem resposta. E a cicatriz rasga nesse passado interminável de dor.

Paro. Não respiro. Por onde mesmo? E leio Pessoa. E desisto. Cansaço profundo de novo. Vontade de apagar. Dormir. Esquecer e resfriar essa ardência toda.

Não guardei os antídotos.

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sábado, outubro 18, 2008

Arrumando armários

Uma das coisas que me distrai nessa solidão de dentro é organizar o guarda-roupa. Parece engraçado. Eu sempre fui organizada, sistemática com as coisas que me dão prazer. Sempre gostei de arrumar a casa. Sobretudo a minha.

Sinal de desatenção é curado arrumando papéis e tralhas e roupas. Percebi que essa patologia de organização acontece de tempos em tempos. Fico horas separando as coisas que quero e não quero. Ritualizo essas arrumações com as músicas que me devolvem a Thais. Sexta-feira saí cedo e quando voltei comecei a organizar os papéis da pesquisa. Isso se transformou num caminho sem volta. Abri caixas que estavam fechadas há tempos. De dentro de mim também. Achei cartas antigas, bilhetes, fotos, cartões de aniversário. De gente que se foi há muito tempo. Recolhi umas joinhas que meu avô deixou pra mim com umas mensagens à "bailarina". Outros do tio Fredy. Desenhos. Cartas de mim pra mim. Recados da minha mãe. Poesias do meu pai em dias de aniversário. Meu discurso de formatura da 8a. série. Tantas coisas... achei até uns bilhetinhos do Pico, de quando a gente tinha uns 11 anos. Achei graça de ter preservado essas coisinhas mimosas. Muitas delas ainda são vivas em mim.

Depois fiz uma arqueologia subaquática nas minhas lágrimas. Tirei as dores que ficaram incrustradas na alma. E que me ancoravam nesse mar morto... salgado demais. Me lembrei do Caio Abreu... que seja doce... e comecei a tirar papéis e lembranças. Dessas dores, muitas deixaram uma névoa sutil. Quase escondida. Outras eram mais espessas e doía demais mexer. Encostei. Mas tirei das caixas.

Abri compartimentos novos nos armários. Depositei ali as lembranças boas. De adolescente, de quando brincava na rua e dos meus caminhos no ônibus do Paralelo até em casa. Eu adorava ficar olhando o jeito das pessoas andarem e falarem. Até imitava quietinha na minha cabeça. Comprei uma caixa rosa pink. Isso mesmo. Fiquei com vontade de ser menina e gostar de rosa. Menos vermelho talvez suavize o coração. Achei um recado de um antigo fã que ria da minha configuração astrológica: leonina, ascendente capricórnio. Lua em escorpião. Depois me lembrei do Pico dizendo que eu era a melhor nerd que ele tinha conhecido... É curioso como as pessoas pintam a gente com cores tão próprias. Me lembrei do Fernando Pessoa no livro do Desassossego mais uma vez... que cor é sentir?

Revivi um arco-iris bonito. Intercalado pelas tempestades discretas desses anos. Umas mais turbulentas. Coloquei as coisas bonitas nessa caixa rosa. Foi importante ritualizar essa transição. É importante sentir que se cresce. Como dizia o Sidnei... é bom saber que a gente dilata. Fiz uma prece quietinha. Olhei ao redor. A Filó ficou o tempo todo comigo, com esses olhinhos grandes, amarelos. Solares.

Agradeci. Me arrependi. Me desfiz e desfilei pra mim mesma. Tomei um banho comprido... gelado. Senti a alma baixar a febre. Demorei mais ainda. Deitei e olhei pra cima. Como se lá no alto alguma confirmação dessas mudanças fosse sinalizada... o lustre balançava com o vento. e as cortinas... vi os gatos brincarem com isso. Fechei os olhos e escolhi as melhores coisas que me aconteceram... as mais singelas. Muitas mais discretas do que eu poderia perceber na época. Fiz uma listinha na cabeça. Organizei. Coloquei no coração. Respirei fundo nisso. São raros esses momentos de completude e felicidade dentro da gente.

Me lembrei mais uma vez do meu tio. Dessa alegria dispersa-angústia. E abri uns livrinhos soltos de alemão. Histórias de criança para adquirir vocabulário. Fiquei olhando as figuras. Desenhos bonitinhos e cheios de cores. Li quase nada.

Meio adormecida em cima dos livros fiquei com esse perfume aqui dentro. Me lembrei dos outros armários... de uma casa que se refaz diariamente dentro - e fora - de mim. Apertei o travesseiro e gostei de ficar ali. Só. Cheia de lembranças. Dançando comigo nesse salão recém arrumado.

Tocou o telefone. A Clara, minha irmã, ligada nas turbinas. Rapidamente voltei à realidade ouvindo as suas palavras me atropelando. Ia encontra-la pra por a conversa em dia. E quem sabe, falar da faxina. Fechei a caixa rosa. A porta. E transitei por São Paulo sem mais correntes.

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