quarta-feira, março 28, 2007

me vendo de perto

Ok, levei as minhocas para passear no domingo. Nada tranquilo, mas vi que elas gostam do sol e de um gramado verde para descansar. Andei com elas pra procurar uma cerveja gelada. Estava quente demais e ninguém merecia aquele calorão!

Sentamos na praça, embora ainda faltasse muito tempo para o pôr do sol. Ficamos ali, observando as famílias, as crianças e os casais de namorados que se afagavam carinhosamente. Uma tarde tranquila aparentemente, exceto pelo fato de repetirmos - de novo - o mesmo assunto. Já me perguntei se elas saberiam o motivo de tantas perguntas.

3 cervejas e a coisa começava a ficar intensa. Eu, as minhocas, e a praça. Tudo ali muito simples, mas um desespero por dentro. E pior, pra quem gritar ali e pedir ajuda? 4a. cerveja. Caminhei, meio trilili. 5a. cerveja. Um telefonema para a Márcia, tentativa de socorro, mas a moça tinha acabado de se casar e ainda curtia o sonho da princesa. Dor... falei com ela e não consegui ser sincera. Liguei para a Clara, minha irmã, diversas vezes. Nada. Ocupada com o Congresso das fonos. Comecei a escrever e de súbito me deu uma vontade de fugir. Levantei acampamento quando percebi que estava quase perdendo a batalha para elas. Francamente, quanta fraqueza... mas passava e doía. Peguei o carro e me fui embora. Dei uma volta pela cidade, vendo o sol baixar, fui para lugares estranhos, em ruas desconhecidas que queria que me fossem familiares. E as lembranças e as dúvidas. Duvidar dói. Descartes esqueceu de mencionar isso. Machuca.

Fui parar num terreno conhecido. Antigo. Contei meia duzia de bobagens sobre meu passeio minhoquento, sobre a dor, a frustração e a vontade de fugir. Silêncio. Ela vai chorar. E ficou ali, horas, que nem criança... sozinha. No colo da mãe.

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segunda-feira, março 26, 2007

Praça pôr-do-sol. 3 da tarde. Domingo. 5 cervejas... um telefonema para a Márcia. um caderno. E a busca da minha própria companhia. Devaneios. Tristeza. Apertou tanto o peito. E uma vontade de sumir. De mim, dali. E não voltar nunca mais, nem pra perguntar se está tudo bem.

Queria esse retiro de dentro de mim.

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sexta-feira, março 23, 2007

Ontem eu saí do trabalho tomada por uma dose de sono que há tempos não sentia. Um cansaço. Meu. Com o coração apertado ficava me lembrando da Maria, que trabalha comigo em casa, pedindo dinheiro para trazer a irmã que passa fome no Nordeste.
E eu aqui chateadinha com vacilos dos meus irmãos. Me senti pequena. Agradecida à vida. E com vontade de resolver o problema do mundo...
Me recordei de todas as discussões sobre diferenças sociais e bla bla do capitalismo, a vidna dos nordestinos para São Paulo, etc e tal.
Dizia ao Juliano antes de dormir que o aprendizado da espera é o mais doloroso, mas o mais nosso, fica inscrustrado na alma depois. E como é difícil a gente desenvolver a tal da paciência. Nem sei onde anda a minha... se perde dentro de mim e demoro para encontrá-la.
Queria poder dizer mais, da inquietação, da injustiça. Das coisas que vi no caminho de casa. Os adolescentes fazando malabares na rua. Pedindo, vendendo. Voltei com o coração apertado. Esperando...

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quinta-feira, março 22, 2007

outonos

Sempre gostei dos outonos. Misturam uma luz que não me fere os olhos e uma expectativa do inverno. Sempre gostei do frio. Me dá mais certeza, segurança. Juliano diz que a frase que ele mais escuta depois de "eu te amo" é "eu odeio calor". Ok, adoraria sim morar na Europa, bem ao norte e não precisar enfrentar os grudes do verão. Só na praia. No Brasil.

Mas me dei conta ao terminar o texto sobre a árvore da USP que eu adorava os outonos ali. Via de fato as folhas caindo e tudo com aquela cara amarelada, charmosa. Caramelizando o dia.

Tenho algumas lembranças bonitas do outono. Quando era criança, em Porto Alegre, me lembro bem das árvores que tinham em casa. Gostava de sair para o jardim da frente e ver a grama verde disfarçada pelas folhas. Quase um caso de amor. Gostava também de ficar rolando naquelas folhas e ouvir o barulho que isso fazia. Era bem "crocante" como dizia para o meu tio.

É um convite à minha introspecção que se mistura ao uso de roupas que me escondem, camuflam a minha timidez. Fico com chazinhos, chimarrão, chocolate quente. Todos esses mimos gostosos do friozinho. Pantufas e um monte de safadices debaixo das cobertas. Com o brinde do pôr do sol mais bonito do ano. Que bom que veio, já peguei o chá.

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andando por fora

Tenho observado alguns atalhos emocionais pelos quais a gente se apega. Coisa que a psicologia chamaria de defesa... É um movimento engraçado da gente dar a volta por nós mesmos, olhando a paisagem e esquecendo o painel do carro emocional que nos dirige.

Ontem foi assim. A gente se desculpa, pensa demais. Meias-palavras. Esquivas. Foge aqi e ali e entra num campo confortável do argumentar. Me lembrei do fundo do mar e das promessas de vingança. Dói... mas é mais fácil.

Voltei para casa passeando na cidade universitária. Procurei meu caderninho mais uma vez. Fantasiei que o sujeito que lesse aquilo estaria se divertindo muito. Tão sinistra essa sensação. Vi o prenúncio do pôr-do-sol. Estacionei o carro, abri o vidro e desliguei o rádio.

A árvore da usp que eu adorava e era a companheira mais fiel, confidente, não estava lá. Só os tapumes da construção nova... deu um aperto. Voltei para o prédio da História e fiquei olhando as coisas ali do alto da escada. Foi uma sensação esquisita de querer voltar no tempo. Ver o Juliano ali, anos antes de mim. Ver os meus colegas, professores, a Thais que desaparecia gradativamente atrás da praça do relógio. Os meus namoros naquela árvore, agora, soterrados pelo tempo. Nem mais as lembranças dali eu cultivo.

Nostalgia mesmo. Louco como a gente pega esses atalhos e sai da gente, tentando se encontrar. Me deu saudades do Vinícius ontem, um aperto no peito, pontiagudo. A gente conversava tanto ali, naquele lugar. Tantas confidências e tentativas de explicação... desabafos. A vida toma caminhos mesmo muito engraçados. Hoje, não tenho mais aquela árvore, só a foto que tirei dali no meu primeiro ano de faculdade. Há 10 anos. Parece que foi ontem. Em preto e branco. Eu sabia, de algum modo, o que, naquela época eu queria congelar. Tinha até trilha sonora.

Semana passada, indo na casa do Jedi para comer um hot dog ficamos falando dessa árvore. Todo mundo ali tinha experienciado aquela raiz coberta de concreto que tinha o banco mais charmoso da USP. Cada um ali relatou suas vivências. Modestas, mas tão significativas. Rolou até aquela emoção de filme americano: universitários que se encontram anos depois e lembram com saudades as suas aventurazinhas e momentos juvenis... Quase isso. Tomando Coca-Cola. E comendo hot-dog. Com catchup. A gente riu disso depois.

Fiquei com aquela conversa ali no coração ontem e vi o desfile de momentos muito especiais na minha vida. Que se soterravam. Mas dizia antes, eu tenho trabalhado o desapego...e como ele dói. Tenho aqui só aquela foto. Distante, quase desbotada. Comprei um porta-retratos para ela e vou colocar no escritório. Ao lado dos livros de história. Portalzinho para a saudade de uma apegada.

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quarta-feira, março 21, 2007

coisa de pai

Meu pai... puxa, maluquíssimo escrever sobre ele. É uma mistura complexa - não à toa que fez engenharia química - que dá nós na cabeça de mortais. Os deuses, pobrezinhos...
O moço dá trabalho. Há uma série de coisas aqui que eu poderia - e irei - contar sobre ele... mas devagar, são como as lembranças de Sto Amaro. Lentamente vão voltando...

Esses dias ele resolveu fazer o doutorado. Acho que foi bem assim mesmo. Esses dias. É um sujeito impulsivo, que quando decide, faz mesmo. Mas vamos lá. Pagou umas aulas de inglês e se mandou a fazer a prova. Nada simples. Na USP, como ele gosta de encher a boca para falar. Enche a boca até para dizer que a prova não foi - mesmo - NADA FÁCIL... em um linguajar que lhe é bastante peculiar. Imaginem... nordestino, criado na porra-loquice dos anos 60, num bairro de periferia. Essas coisas que ou constroem heróis, ou bandidos. Ou se destroem inocentes...

Meu pai. Saía o resultado da prova ontem. Nem me lembrei. Pois o cara foi até a universidade e olhou a lista. Melhor dizendo: uma lista. Qualquer lista. "Reparou na data?" Claro que não. Isso não é um detalhe importante para ele. Poucos detalhes são importantes para ele... a não ser a minha mãe. Que de detalhe na vida do moço não tinha nada.

Voltou para casa arrasado. Mudinho. Silenciou na dor, na decepção pois seu nome não estava na lista. Quando foi encontrar seu professor de inglês - malandro esse outrto moço! - falava arrasado do seu fracasso. Já tinha delineado planos para refazer a prova, etc, etc...

O ponto é que o rapazinho viu a lista do ano passado. Clara, minha irmã já tinha avisado meio mundo e combinado também de dar o trote no calouro... Sem ovada (se bem que merecia!).

Hoje à noite ele me ligou. A gente nunca foi muito bom para falar de sentimentos e tal, embora eu tenha sido exigente com ele. Sempre fluimos bem nas conversas mais "cabeça". Somos parecidos. Em muitas coisas. Fiquei orgulhosa dele e feliz que tenha querido me contar. Agora o epílogo... "você vai contar essa história pra todo mundo?" Dei uma risadinha - coisa de filha - "pqp" ele decodificou.

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contágios

Entupida pelos livros. Devoro-os, de uma vez... e me contagio com a ansiedade e pavor, e medo, e loucura dos autores. Nem os acadêmicos escapam... que gostosa essa doença...

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Estou aqui de novo com vontade de escrever... perdi meu caderninho ontem na USP. Tantas coisas ali importantes... tão minhas. E a sensação de estar exposto. De verem o seu lado mais feio, mais humano. Sórdido.

E caiu ali, antes da aula de antropologia... que dor... uma sensação de que agora eu não pertenço nem mais a mim mesma. E meus segredos, medos, do mundo.

Fiquei fantasiando... será que alguém vai se dar ao trabalho de devolver? e para quem? jogar no lixo seria o melhor. O caderninho é uma resposta ao poema do Pessoa. Dói, mas humaniza.

Hoje cedo, lendo o evangelho... Dar a outra face. Estranho estar disposto a se desarmaar quando a única certeza que nos resta é a de que podemos nos defender. Um friozinho aqui.

Estou trabalhando tanto o meu desapego... deixei a moça flutuando no mar. Queria que ela levasse pro fundo o que escrevi naquele caderninho - povoado de lembranças tristes e amargura só minha. Que azedume. Não queria que provassem esse lado meu. Dá embrulhos no estômago. Mas... desapego... deixar de controlar... deixar pra lá. Deixe estar... ser... e não há nada a temer...

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Pessoa humaniza

Segue o poema do F Pessoa. Li hoje cedo... de um amigo...

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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terça-feira, março 20, 2007

Humores

Reparei nesses dias como a gente é suscetível a humores. Tenho rido muito. Sozinha, em casa e no carro. Quase me preocupei com isso. Mas ontem, dirigindo de novo na Raposo, lembrei que a dor, a tristeza afundaram naquele navio. E vi a moça que carregava isso flutuando. Maltrapilha. Fez promessas em agonia. E teve medo de cumpri-las quando a hora chegou. O mar não levou ainda. Está ancorada, no fundo. Com algas e aquelas coisas feias do fundo do mar. É tão pesado que ela não pode puxar. E afunda. Afunda devagar até o ponto de esbugalhar os olhos e o mar levar o seu último ar. Desiste. Insiste. E não respira mais.

Ali no fundo. Ela flutua. Sozinha. E faz muito frio. Silencia... O verde das águas mostram aqueles cabelos translúcidos. E os olhos, namorando eternamente os peixes predadores. Eu olhei pra ela ontem. Profundamente. Quis puxá-la de volta, e ela não me via. Buscava ali no fundo do mar alguma coisa que fizesse sentido. E a maré, traiçoeira, levava embora. Pra onde ela não pode mais ir. Flutuava... na sua própria amargura e solidão. Na sua dor, que era ali maior que o mar. E a solidão tomava conta do seu silêncio.

Não tinha mais nada. Ninguém. O descontrole das profundezas é tão maior... e nos faz flutuar.

Estendi a mão. Ela não me via mais. Não queria mais...Não sabia mais das sua força... usou as últimas para fazer juras.

Escutava barulho daquelas águas. E ri, dentro de mim... Que bom que a gente pode deixar algumas coisas para o mar levar.

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admirável mundo novo

Estive ontem na fábrica da Volks com a escola. Foi uma experiência. Legal a gente ver ao vivo aquilo que a gente tanto fala e ouve falar. Lê, acha que sabe. Histórias e marxismos à parte acredito que aquilo ali me mobilizou a um ponto tal que não tive sono ontem durante o dia. Consegui ficar ligada 13 hs trabalhando direto.

A viagem foi curta, rápida até. COnversava com uma aluna no caminho sobre as intempéries da vida. Essas coisas que os adolescentes gostam de perguntar ao professor porque acha que eles sabem. E que os professores adoram falar também porque acham que sabem. Enfim. Eu conversei um bocadinho com ela sobre isso. E dizia da minha serenidade em relação a algumas coisas na vida. Ela tinha me perguntado se eu - em algum momento da minha vida - era de arrumar briga. Ora, era complicado demais pra responder. Enfim. A gente dá uma resposta semi-ética. Achando que eles não sacam a gente.

Mas o ponto aqui é sacar outras coisas. Eu estive ali por quase duas horas e me perguntava ao andar por aquela fábrica assustadoramente gigante - mesmo! - o que o Sr Huxley tinha sentido ao ver a Inglaterra tomada pelas indústrias. Acho que valeria um café com ele. Um chá.

Nem podíamos respirar por causa do ar. Meus alunos se queixavam de dor de cabeça e mal estar, mas o lixo ali produzido - bem como os demais restos - eram todos "aproveitados". Uma empresa compra o lixo. Achei confortável você se colocar numa posição de passar o problema pra frente. Sem culpa. Afinal, outros enriquecem com você. Era estranho ver o pessoal - inclusive meus alunos - discursando sobre os problemas do meio-ambiente - inclusive eu - e sermos a pequena parcela de 10% de brasileiros que promovem essa meleca. Compramos a maior quantidade de carros, eletrônicos. Usamos (quase) nada de público e desfilamos com ipod, som, roupas bacanudas e uma longa série de etiquetas penduradas em nós. Ainda acho que somos nós que nos dependuramos nelas.

Escutava o louco som daquelas máquinas imensas que muito mais pareciam as sentinelas do Matrix. Braços robóticos imensos. Não havia pessoas em muitos dos locais pelos quais passamos. O medo desse futuro não era mais coisa de Blade Runner ou sci-fi. Aquela fumaça tomava conta de mim. Dos meninos. Eu me angustiava. Queria sair dali mas precisava manter a "postura científica". Francamente...

Uma das minhas alunas me perguntou onde estavam as mulheres que trabalhavam ali. 3. Ao longo de horas caminhando. Todos uniformizados e o barulho enlouquecedor daquelas máquinas. As faíscas de solda me pareciam a única beleza daquele lugar. Pensava nos sujeitos que ficam ali durante horas, dias, meses. Anos. E o que sobra pra eles? Ok, a alienação do capital... nenhum daqueles caras ali veria tão de perto o carro que fabricavam. A única chance de dirigir um desses é para levar ao pátio do estacionamento da fábrica. Ok. Meus colegas revoltados marxistas da FFLCH parecem ter razão aqui. Mas esse não é ponto. O mais maluco, esquisofrênico ali era o deslumbramento do horror. Não há como negar que o ser humano é super inteligente, criativo, etc, etc... Ora... isso não é contestável. Só sai dali com a sensação de que caminhamos deslumbrados - narcísicos - em direção ao nosso cérebro. Poder. Há tanto disso em nós. Mais que as máquinas.

Eu fiquei ali, olhando os alunos. Melancólica. Fiquei pensando nos filhos, netos, em mim. Como a gente é pequeninho diante daquele monstruoso campo de sentinelas. E parece não haver saída de fato... Kilômetros de extensão e uma faixa coroando a matriz... "A fábrica é uma extensão da sua casa. Economize água e energia elétrica". Tomo banho mais curto, sinto-me culpada quando esqueço a luz da sala acesa... e que perigo isso... tomaram conta da minha casa. Nem tinha visto.

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domingo, março 18, 2007

irritando

Estranho como a minha irritação se torna... Ela de repente é... e toma conta de mim.Comprimidos para isso existem? ou a gente só sai do transe quando a porrada de fora é maior que a de dentro?

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bola de meia, bola de gude... e um dente.

Engraçado como são as "coincidências" da vida.
Essa semana me deparei com uma das mais bizarras situações na vida escolar. Daria pra escrever um conto de terror ou ainda uma comédia trash... Tudo isso depois de filosofar horas com um amigo sobre os poréns do futebol. Feminismos e feministas à parte, claro.

Fiquei a semana sem conexão com a internet e quase maluca pra não esquecer de registrar esses "pequenos incidentes"...

Início de semana, os meninos iam jogar bola. Escondidos, claro. Já que a disposição do espaço do colégio, apesar de grande, não permite que aconteçam jogos de bola. E o mais engraçado é que quando se é adolescente, o proibido só tem conotações pessoais. Pois bem. Enfrentando as ameaças do perigo, os garotos se aventuraram a jogar bola - num esquema que faria qualquer serviço de inteligência tremer de medo.

Um grupo de adolescentes de todas as idades - pequenos e grandes - mas envolvidos nessa coisa - tipicamente masculina - de disputa de força física e habilidade. A cada dia vejo que as aulas sobre evolução humana estão sendo aproveitadas mais por mim do que pelas crianças. O jogo de futebol se transformara ali, naquele lugar recôndido , num palco de lutas e cooperação. Pena Darwin não ter tido tempo de experimentar a sua teoria nos campos... Mas, sim. Cooperação entre machos em desenvolvimento é fundamental. À primeira ameaça de uma fêmea ou macho mais velhos se aproximarem de sua aventura eles precisariam correr. E muito. Fugir não era apenas uma solução, mas escapar sem deixar vestígios e sem ser visto. Isso é bastante facilitado - e eles sabem - pelo fato de usarem uniformes e por nós, adultos, acharmos que "todos os adolescentes são iguais". Campanhas feitas na área militar demonstram que o inimigo sempre deve conhecer de perto seu adversário. Napoleão já dizia, no amor, como na guerra, para se vencer é preciso ver de perto.

No entanto a frase foi levada a sério pelos garotos. Numa disputa clássica de bola, dessas que a gente se pega, se bate, se mata, mas tudo é "na esportiva", um dos meninos deu uma cabeçada na boca do outro. Ouviu-se o estrondo e...! Correr. Era a única coisa que restava antes que a situação desse alardes demais e deletasse o grupo. Num instante não se via nada ali. E como num campo de batalha mesmo, o coitadinho da cabeça arrebentada, da 6a. série jazia ali. Os granddalhões das outras classes nem se deram ao trabalho. Soldado ferido é soldado morto. Atrasa o grupo.
Instantes depois o menino foi socorrido. Levaram-no à enfermaria para fazer um curativo. Sangrava bastante. Foi interrogado para saber quem era o causador de tudo aquilo. Não sabia. Claro que não. Um nome que em meio a milhares não tirava o moço do anonimato.

Mas o pior estava por vir. A enfermeira escavando o ferimento encontra um vestígio que denunciaria o agente. Um dente. Isso mesmo. Um dente dentro da cabeça do menino. A escola entrou em desespero e começaria a saga para encontrar o dono do dente. Isso não seria complicado já que a troca da dentição do garoto tinha acontecido anos antes. Ninguém é banguela aos 14 anos...

Nada. Não se achava naquele universo o dono do dente. Parecia um episódio do CSI. Horas mais tarde. Um telefonema. A mãe. "Boa tarde, estou ligando porque meu filho perdeu o dente". Ok. Calma. Tudo seria resolvido "Pois não, senhora, temos o dente do seu filho". "Ele precisa logo para fazer o reimplante". "Não se preocupe, estamos encaminhando.". "Obrigada... ah, mas são dois..."

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quarta-feira, março 14, 2007

voltando de lá

Trata-se de um pequeno amontoado de reflexões perdidas...

A Márcia vai se casar. Não estarei lá. Tem todo um complicador de tempo, espaço, logística e emprego novo. Noite passada não dormi. Essa noite o sono foi agitado e fiquei com o peito apertado sabendo que a gente não ia estar juntas nesse sábado. Tantas histórias e entrelinhas na nossa relação. Tanta coisa testemunhada, silenciada, dita de tantas formas entreroscasdas.

Fiquei pensando alto isso o dia todo. À noite, no meio da aula de antropologia, pirando sobre Saussurre e os poréns da linguística/língua e tal me dei conta que a gente tem um vocabulário pobre para falar do sentir. Mesmo o português... Doeu um pouco essa limitação toda e pensei que mesmo fazendo anos de exercícios emocionais a gente não atinge performances desejáveis. Nem mesmo aceitáveis.

Fiquei com vontade de ligar para ela e dizer um monte de coisas. De sumir e estar lá. Qualquer sacrifício pareceria pouco para retribuir tudo o que a Márcia é pra mim. Viajar horas, não dormir. Mas parece que a gente é escravo dessa vidinha que pediu a Deus. Pobre Deus de novo... tá sempre ocupado.

Eu saí da USP e fui dar um rolê pela cidade, rápido porque estava na rua desde as 7:30 da manhã e queria um banho... Ouvi música, acelerei o carro. Tomei muito vento na cara e nada me tirava a sensação de estar em falta com ela. Talvez, Marcia, se você ler isso uma hora, pareça um pedido de desculpas. Mas pelo que mesmo? Eu nem saberia começar essa cartinha miserável.

Vou ficar aqui, imaginando você de noiva, mandando todas as vibrações. E com o coração profundamente apertado. Não há possibilidades de negociação no trabalho. Imagem. Significa muita coisa. E todo esse senso de responsabilidade que a gente tem, que às vezes é tão pesado. E que torna o viver muitas vezes tão mais pesado. Faltei nas aulas de resistência. O roteirista me colocou em outro departamento.

Vou sentir saudade de viver esse momento com você. Presenciar a sua família te libertando, oficialmente - embora o coração esteje sempre preso... Ver os seus amigos que de alguma forma também são meus. Ver coisas todas que me foram dadas por você num exercício fantástico de imaginar.

Eu volto de lá. Imaginando tanta coisa. Fantasiando a minha lealdade e compartilhar. Com essa sensação de vazio. De um querer dividido. Sofridinho até. E com receio que essas cenas se repitam na vida. Escolher exige tantas habilidades emocionais...

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Pensando ainda na idéia de colocar um espaço de reflexão acadêmica das minhas leituras num blog. Com a informalidade que desejaria nos espaços de criação... mas segue uma coisinha que recebi ontem. De certo modo, inspirador. Mas cautela...
Essas relações históricas muito diretas sempre me preocupam...

Amor, Sexo e Tragédia
Como gregos e romanos influenciam nossas vidas até hoje

Simon Goldhill

Tradução: Cláudio Bardella


Quando você vai à academia de ginástica ou segue as últimas dietas
recomendadas pelos famosos, está fazendo algo que era moda já na Grécia
antiga. Quando compra no pay-per-view o direito de assistir a uma luta de
vale-tudo, está agindo de modo muito semelhante aos romanos que se
amontoavam no Coliseu para ver os gladiadores.

Com inteligência e bom humor, Amor, sexo & tragédia mostra como as
tradições greco-latinas estão muito mais presentes em nossa vida do que
imaginamos. Do lazer à política, da psicanálise à religião, o mundo
clássico está por trás de todo o sistema de pensamento ocidental.

Conhecer esse passado longínquo – mas surpreendentemente atual – é
necessário para entendermos a conturbada época em que vivemos.

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Acordando cedo e dormindo tarde. Hoje me dei conta que estou prestes a surtar com minha vontade de dominar o mundo. Nada tão pretencioso como o Sr Cérebro. Mas a (in)capacidade de fazer todas as coisas ao mesmo tempo. agora.

Esse é um problema dos que hoje são conhecidos (talvez famosos) por possuírem distúrbio de déficit de atenção. Ou hiperatividade. Tenho os dois. Eles não me têm. Por enquanto. Fico pensando como é confortável a gente se desculpar por ter essas coisas. Tudo fica inteligível: nossa desorganização, desatenção com as pessoas amadas, problemas emocionais, irritação, etc. Tudo vai para essa gavetinha simpática do DDA.

Nunca fui muito ligada nesse papo de distúrbios, etc. Na verdade acredito que ficamos perturbados demais com coisas que não temos conseguido entender ou resolver. Nosso vocábulo não dá conta de explicar, exprimir e mesmo expremer o milhão de coisas que nos passam. Enfim. Por essa razão mesmo a gente faz terapia, toma remédio, cerveja com os amigos, faz academia e yoga. No meu momento de preguiça matinal (que tem sido cada vez mais curto) fiquei refletindo sobre esse (des)conforto humano de ser. E como é complicado mesmo a gente se manter em qualquer coisa - minimamente - centrada em nós mesmos. O quentinho daqui de dentro, à medida que a gente se aproxima de si mesmo, vai se tornando um caldeirão de bruxaria, insuportavelmente quente. Fora todos os bichinhos e seres de sci-fi que a gente encontra ali. Velhos de guerra.

Mas eu não pretendia ser pessimista hoje cedo, somente lembrar (pra Srta T) que dominar o mundo - no seu sentido mais pueril - é compra de frustração. Não dá. Esquece. Milhões de livros pra ler, filmes para assistir, namorar, ficar quieto, tomar banho de mar, cachoeira. Ainda bem que a gente reencarna (se descobrir que isso é mentira, vou precisar voltar para a terapia)...

Mas deixando o domínio de lado. Estou aqui com uma coceira no coração. Coça porque há tantas coisinhas para dizer aqui. Nem sei. E mais que isso... Desassossego do Mestre Pessoa. To com saudades de tomar café com ele. Esse fim de semana rola? Lá no Suplicy mesmo. E te mostrar o meu caderninho tão desassossegado. Agora, recheado de Lévi-Strauss. E eu recheada de mim mesma ali. Tá derramando. Mas, de fato, há alguém para se conversar?

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segunda-feira, março 12, 2007

Acabei de voltar pra casa... são mais de 11 pm... não estou com sono e estou com uma sensação incômoda de alívio. A dor parece ter diluído. Para onde ela foi? e o que eu faço agora sem ela?

Voltei dirigindo na Raposo. Chovia e eu me preocupava em escolher uma trilha sonora que condizesse com meu estado de espírito. Não sabia muito bem como poderia tocar. O pensamento se ia. Eu acelerava na esperança de passar a outra curva e sair de mim. Enfim... procurava.

Tocou bola de meia, bola de gude ... Fiquei ouvindo e uma emoção me tomou conta quando dizia a frase quando o adulto balança o menino vem pra me dar a mão. Comecei a procurar o lado mais generoso de mim mesma e pensando se ia valer a pena tanta misericórdia. Chovia mais.

Ontem assistindo o a procura da felicidade me dei conta que é esse o único direito que de fato temos. Procurar sermos felizes. Procurar ser. Não somos. Acho que nada. Além de genuinamente contraditórios e humanos (pobre Spock!) E que os americanos, mais uma vez são felizes em expressar a obviedade da vida e a sua genialidade em textos aprentemente despretenciosos a discussões existencialistas. Hoje à tarde, lendo o comentário do João no texto do Bush fiquei me perguntando se eu tinha me expressado direito ou se eu era mesmo assim. Fragmentada e dificultosa na percepção do mundo. Mas que mundo mesmo? Acho que ele tem razão.

Voltando... Subia a Rebouças com aquela iluminação toda me cegando e a música acabava. Me tirava do torpor anestésico da dor. Cantava e me emocionava com o fato da vida sempre oferecer pra nós o direito à busca da felicidade. Isso mesmo. A segunda, terceira, quantas chances você quiser. E ela só pede pra você esperar. Só isso. Nem que sejam milênios. Você guarda a dor, como peça de museu, cuidadosamente colocada na vitrine do seu antiquário emocional, cheio de peças romanas. Bustos. Jóias. Estátuas sem olhos. E brancas. sem vida. E passa horas se enganando de que não quer mais aquilo. Nem preço você põe. Ela te pertence e não está à venda.

Foi um pouco essa a sensação de voltar para casa hoje. Acho que comecei a me despedir do antiquário colocando as peças a leilão... alviei o peito. Mesmo que demorem a comprar, ao menos anuncio. Voltei para o meu apartamento, docemente tentada a parar num bar e pedir uma dose de whisky. Ia levar aquele papo com Deus que há tempos tenho tentado. Sabe como é... me explicar, contar causos e enxer o velho de perguntas. Mas acho que ele prefere um dry martini. Vou refazer o convite.

Abri uma cervejinha na falta de coisa mais sofisticada. Sentei no sofá e fiquei namorando a minha fonte de água rodeada pelas plantas... havia aquela simplicidade genuína. Humana. E um alívio profundo. Deixava uma parte lamacenta de lembranças tristes se lavarem naquela fonte... e se irem... Só queria agradecer à vida por isso. Por me deixar contar outras coisas. Por reapresentar essa sensação de tranquilidade e bem-querer que eu nem sabia mais que tinha... e João. o Bush... já, já...

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continuando o bush

Segue o comentário do Jedi...

Tá me fazendo repensar os pontos de vista... as sensações de estranhamento... Mas insisto. Acho que ainda temos uma dificuldade - esquizofrênica - de olhar por fora de nós mesmos. Me pergunto. Há outra possibilidade? Ou a sociedade é só nosso laboratório de sentir e experimentar. To pensando como unir o que há aqui dentro com o que há aqui fora... Ou se essa fronteira de mundo"> é de verdade... ou pura ficção.


Acho que valeria um chopp com O Jorge Grespan e com o pessoal. Isso é hermenêutica?



Jedi,

Estenda essas palavras ao seu blog, se você assim o
desejar. Escrevi em cerca de cinco minutos,
velozmente, e não vou fazer revisões. E não revisarei
– por incrível que pareça – por respeito a quem for
ler...

Começo com suas próprias palavras: “Não havia nada ali
de mais profundo. De verdadeiro ou genuíno. Eu estava
num curso de ciências humanas e via a ausência de
humanidade ali”. Concordo com a desumanidade, num
sentido bastante elástico, mas discordo de não ser
genuíno: aquilo tudo foi verdadeiro sim! A
desumanidade que você enxergou, o despropósito, as
contradições e paradoxos são marcas profundas do viver
em sociedade atualmente, e elas estavam presentes e
evidentes naquelas circunstâncias e espaço. Vivemos
numa cidade em que uma universidade pública está
cercada por muros e portarias com vigilância. Em
primeira instância, deveria ser assustador. Mas não o
é. A cidadania, o espaço público, os direitos e
deveres e toda uma parafernália que herdamos do
liberalismo europeu estão dando chabu há muitos anos,
mas o princípio de tudo isso é sempre o mesmo: os
modernos seres humanos, em primeiro lugar – depois os
cidadãos – estão dando chabu há tempos. Pense comigo:
o que eu mais ouvi nos ônibus e nas ruas (sim, ando
bastante de ônibus e ando um monte pelas ruas) é que a
vinda do presidente de outro país atrapalhava o
acontecer da cidade. Todos se preocupavam com o
trânsito, com o possível atraso nos mini-compromissos
dos micro-egos, com a mudança temporária operada no
espaço urbano por uma visita AUTORIZADA PELO GOVERNO
BRASILEIRO, eleito inclusive pela população da cidade
que parecia protestar. Ouvi do cobrador de um ônibus –
coisa rara em São Paulo: ele olhava nos meus olhos
enquanto falava (já sabemos o que isso significa, em
muitas dimensões, certo?!) – a seguinte frase: “o cara
vem aqui, pensando que manda no mundo”. Que ele estava
aqui, já sabíamos; que ele pensa que manda no mundo,
nós também já sabemos; no entanto, a que “mundo” ele
se referia? Me peguei sem resposta. Em que medida
podemos chamar o que experimentamos de “mundo”, senão
na dimensão individual? Vivemos numa cidade em que o
trânsito complicado é um problema naturalizado: quando
um elemento externo surge para complicar uma condição
intrínseca, nós sagazmente direcionamos o problema
para fora. A descrição em psicologia para o fenômeno
por meio do qual o indivíduo não consegue conectar-se
com a consciência de si é “esquizofrenia” (apesar de,
tecnicamente, jogar o problema para fora também
envolver uma afrodisíaca dose de sublimação...).
Quando isso acontece com grupos, comunidades,
multidões, cidadãos, qual o limite? O céu?

Nossa experiência social é genuína, verdadeira, e
temos de defendê-la, pois ela expressa o que de mais
profundo temos como indivíduos. Que a vida em
sociedade não possui um sentido imediato, isso já está
dado: sociedade não existe sem ausência de sentido. Me
pergunto freqüentemente, principalmente como
professor: o quão corrompidos interiormente estamos
todos, na medida em que nos esforçamos tenazmente dia
após dia e há séculos para nos apartamos da Natureza
da qual somos apenas mais uma peça entre muitas
outras? Na faculdade de Ciências Humanas não tivemos
um belo preâmbulo do que enfrentaríamos como seres
sociais plenos?

Os deuses existem para nos ensinar a experimentar a
jornada de sermos humanos. Na Índia existe um ditado
ancestral: “o hóspede é Deus”. Não é irônico que
quando Deus venha finalmente nos visitar (já se disse,
inclusive, que Ele é brasileiro), nós lhe repudiemos
como todo filhote ingrato faz quando confronta seu
espelho?

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em busca da felicidade

Ontem à noite fui assistir o filme. Nada a dizer, mas estou pensando que vivemos buscando aqueles pequenos episódios, curtos, que a gente chama de momentos.
E referente à visita do Bush, ao pensamento em relação aos americanos, to pensando cá com os meus teclados... se nos damos o direito à busca da felicidade.

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a visita do Bush

Semana passada o assunto foi a visita do presidente norte-americano e o papo todo sobre o etanol e outros recursos combustíveis. Nada novo na imprensa, nas manifestações. A bomba veio com o dia da mulher em que os engajados manifestariam sua indignação sobre os maus tratos às mulheres e à presença (quase demoníaca, se dizia) do presidente americano.

Fiquei me lembrando de uma frase do Caetano sejamos imperialistas... Ora, nada mais fácil de dizer, mas tão difícil de realizar. Nossa mentalidade colonial ainda nos permite certas imaturidades civis. Contradições históricas das mais malucas que dão temas a teses e dores de cabeça. Acho que fiquei mais incomodada com a postura dos anfitriões...

Há dias venho rascunhando coisas sobre a visita do Bush. Observei a reação dos colegas, dos artistas, da imprensa. Dos estudantes. Dos meus alunos. Em todas as contestações via ali algo superficial. Detentor de uma hipocrisia lindamente desenhada. Convincente de seu engajamento. Mas tão supercialmente maquiada.

Recebi diversos emails de convite a usar preto. Manifestações. Reivindicações. Intervenções urbanas. Gente insatisfeita. Infeliz. Revoltada. Ok. Confesso que pela primeira vez em muitos anos não me deixei levar pela maré da protestantagem. Achei esquisito. Quase me senti conservadora e defendendo a guerra do Iraque. Mas não era isso. Era um estranhamento desse modelo de contestação. Um silêncio interior diante desse silêncio cotidiano. Dessa indiferença que, de tão indiferente, nos deixa acostumados a protestar quando todos protestam. E por que todos protestam? Conveniência da situação? Visibilidade? Engajamento? Ou é porque, de fato, alguma coisa nos tira da nossa imobilidade interior...

Ora, a situação no Dpto de História da USP sempre me deixou com pulgas (e outros bichinhos) pelo corpo todo. Até onde vai mesmo essa sensação de indignação? Me recordo de assembléias em que se pedia (furiosamente) a saída da ALCA, de FHC, do capitalismo e víamos os banheiros sem papel higiênico e entupidos. Sem comentários. Algumas vezes me perguntava ali onde estava o meu espírito de juventude de querer resolver o mundo. Um colega me chamou de pequena-burguês. Ok... fui investigar o termo e não me lembro de sentir nada aterrorizador com isso.

Via aquele pessoal todo reunido no bar da faculdade tomando tudo o que tinha direito (sem preconceitos, por favor), jogando truco, fazendo propostas de mudar o mundo. Pois bem. Até o Galvão Bueno poderia participar da reunião dos "intelectuais de suvaco" como diz meu pai. Não havia nada ali de mais profundo. De verdadeiro ou genuíno. Eu estava num curso de ciências humanas e via a ausência de humanidade ali. As pessoas não se relacionavam. Não vi sentimento nem propostas renovadoras de si mesmos. Tudo era exterior. Continuamos exportando-nos de nós mesmos...

Isso me deixava muito quieta na faculdade. Apesar de fazer o gênero cdf, ou mesmo esquisita como dizia o Max, não estava à parte dessas discussões. Mas eram discussões que chegavam à cabeça. Nada ao interior...

Acredito que a gente repete o que aprende. Brigar com o Bush é mais fácil do que olhar para o nosso jeitinho brasileiro e e brigar com a nossa falta de cidadania. - acabei de pensar que escrevo o óbvio! nada original e talvez eu mesma me repita - Sabemos mais da constituição americana do que da nossa. Sabemos da 5a emenda, mas desconhecemos os direitos do consumidor, as leis trabalhistas. De que adianta a briga para tirar os americanos do Iraque, assistir os Simpsons, South Park? tem um repique em mim... ando querendo mais.

Tom com saudades de uma coisa que não vivi. Disse o Érico. Há 8 anos atrás. Eu nem sinto saudade. Mas sinto falta. E o Bush foi embora. E sobraram algumas pixações. O trânsito voltou ao normal, o exército aos quartéis. Os estudantes, às salas de aula e suas discussões sobre o futuro. E eu voltei a escrever. Fico esperando como a gente continua esse livro...

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