Nem me atreveria a falar sobre isso de forma inteligente. O que me resta é falar e sentir esse mistério que não sei mais se é criação nossa ou dos deuses, seja lá qual nossa criação sobre isso também...
Há conversas de tempos. e que até nem levam tanto tempo. Doem, e continuam doendo com o tempo. Fico me perguntando se isso é assim mesmo. Ou se eu levo tempo demais pra processar esse monte de sentir em mim. Ou se é apenas o meu apego ao tempo que as faz durar tanto aqui dentro. Há outras conversas que levam mais tempo. Um tempo semi braudeliano que ultrapassa a minha sensação de pseudo-controle do tempo. Há outros tempo para conversar mais. Menos. Há tempos pra silenciar. Esperar. Deixar aquilo fazer ou perder o sentido. Para sempre. Sempre?
Há pessoas que não deixam o tempo passar. Outras o trapaceiam. Há aquelas que fazem do tempo seu meu melhor amigo, inimigo, amante, marido, mulher, filho. Familiam todo ele. e ainda assim ele passa por você, poroso ou não. Há quem o jogue fora. Embora eu sinta que ele é esperto demais pra isso. Vem cobrar o tempo que foi deixado.
Há aquelas pessoas que envelhecem de dentro pra fora. E outras nascem já velhas. Outras se rejuvenescem e de todos os modos. Deixando espaço para essas lendas infantis e (certamente) quase adultas da fonte da juventude...
Há uma dimensão em mim de tempo profundo, escuro. Quase como o irmão mais velho, o Destino. Cego, mas paciente. Há outro tempo mais jovem, serelepeando e golpeando a minha ansiedade. Delírio e Desejo. Há um primo, que prefiro que fique longe. O desespero. Pelo tempo. E a morte. Que tempo?
Ontem recebi a visita de alguns ex-alunos e me dei conta de um apego meu a um tempo. Que nem sei se é tão apegado assim. Mas nunca é quieto. Me lembro de ver num filme (romântico, evidentemente) a cena em que o homem, muitos anos depois, e separado da amada, se perguntava porque a pessoa amada parece nunca envelhecer? Fiquei com isso essa noite. Virei e desvirei. Pra talvez me dar conta que o tempo não envelhece. Mas pode caminhar de mão dada...
quarta-feira, janeiro 16, 2008
o tempo
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Srta T
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segunda-feira, janeiro 14, 2008
que esse ano seja...
This could be heaven
This could be heaven
This could be heaven for everyone
In these days of cool reflection
You come to me and everything seems alright
In these days of cold affections
You sit by me - and everything's fine
This could be heaven for everyone
This world could be fed, this world could be fun
This could be heaven for everyone
This world could be free, this world could be one
In this world of cool deception
Just your smile can smooth my ride
These troubled days of cruel rejection, hmm
You come to me, soothe my troubled mind
Yeah, this could be heaven for everyone
This world could be fed, this world could be fun
This should be love for everyone, yeah
This world should be free, this world could be one
We should bring love to our daughters and sons
Love, love, love, this could be heaven for everyone
You know that
This could be heaven for everyone
This could be heaven for everyone
Listen - what people do to other souls
They take their lives - destroy their goals
Their basic pride and dignity
Is stripped and torn and shown no pity
When this should be heaven for everyone
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Srta T
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sexta-feira, janeiro 11, 2008
ritos repetidos mitos
Havia um mistério naqueles mergulhos de dezembro... Desses que fazem a gente se perguntar onde começa o mar e onde termina o céu...
E essa menina que mergulhava demais de dentro e mais pra dentro botou os dedinhos na beira da praia. Fincava os dedões rechonhudos na areia fazendo pequenas bolinhas - almôndegas esmagadas de areia. O céu estava naquele azulado feliz do verão. Algumas nuvens se espreguiçavam em cima do mar, pousando para os mais distraídos na paisagem.
Não havia barulho ali. Nem mesmo as pessoas ao redor deixavam o silêncio acordar. Havia uma quietude que ela buscava e que só o mar podia dar. Oferecer, na verdade. Essas quietudes nunca são dadas. Nada é dado. E foi justamente nesse cenário que os mitos, repetidos se materializaram. Um jeito só dela de deixar as coisas passarem. Normalmente nos finais de ano ela ficava bastante tristonha. Esse apego que se tem à vida - quase adolescente - de não querer que a vida passe. De tão boa? De medo do que está na esquina? hm...
Eram pequenos barquinhos de pedidos perdidos no tempo, nas ondas. Eles se prometiam coisas. O azul, o laranja e o violeta como testemunhas desses sonhos de amanhã. Era difícil de ver o alcance dessas promessas. Nem eles mesmos se deram conta. Um horizonte de sol preguiçoso, pronto a se deitar. E deixar os namorados debaixo d'água, num beijo mergulho de despedida. Ela tinha tanto medo de deixar aquele barquinho atravessar o oceano. Mal podia ver as profundezas de si mesma. Do outro. E tudo o que lhe restava era o desapego inconsequente. Deixar(-se) ir. E se foi... num subir, mergulhar pra lugar nenhum...
Havia histórias naquela embarcação... Só dela. E tudo o que se podia fazer era beijar os lábios molhados do oceano naquela despedida eterna de si mesma. São ritos passados, necessários. desajeitos... E por mais que se queira acompanhar as trajetórias incertas das ondas, tudo o que ela tinha ali era a esperança de que os pedidos - dela e do seu amor - chegassem num porto sei lá de onde e fosse lido e atendido sei lá por quem... Deixara-se... Perdera-se... Tomara...
E de novo, o ano, novo, começava com essas esperanças de menina reacendendo dentro dela. Motivando um respiro longo pra outro mergulho que ela sairia nem sei bem onde. Tantos mistérios nesse mar... e tantos desejos a deixar... Via os sorrisos dos dois ali, naqueles beijinhos e abraços e sussurros semi-escondidos pelo sol, nos seus raios que se deitavam nas almofadas do mar... se espreguiçando para só acordar no ano seguinte. E parecia tão longe...
Ontem eu a vi num fim de tarde chuvoso na praça pôr-do-sol. Algumas coisas aniversariavam dentro dela. E a sua celebração era silenciada por aquele fim de dia nublado. Só dela. Nos olhamos meio tímidas pela estranheza do encontro e nos reconhecemos. Lembranças de um 31 de dezembro na beira da praia. Nos lembramos do amor. Das promessas de menina e dos sonhos de eterno apaixonar-se. Não o vimos ontem na praça... Ocupado com o trabalho certamente. Mas me lembrei bem do remetente do barquinho... Ali, na esquina do teu coração. Cheio de saudade. Quis voltar pra casa. E debaixo daquela chuva nos despedimos, até o próximo 31 de dezembro. Ou num dos portos de si mesma...
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Srta T
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quarta-feira, novembro 21, 2007
conversando com meus botões ... e as botas
É engraçado como a nossa memória é seletiva... de certo modo escolhendouma trilha sonora que a gente coloca pra sublinhar algumas coisas além do que a gente entende... Pois como eu digo o mar sempre me revela coisas pra além do que eu penso entender. Ou mesmo alcanço...
Depois de uma conversa séria com os pés descalços... num rito meu de caminhar pela beira da praia e pedir aos deuses dali e daqui que me mandem um sinal... de qualquer coisa que espero poder - decifrar...
Um sofá só nosso... e um silêncio cheio de mistérios de coração sentido e (des)apertando o peito. Aquele horizonte e um suspiro do passado... "Essa é uma das músicas que eu ouvia quando pensava em você e sentia a tua falta demais..."
E fiquei ali, com o horizonte, 4 minutos que foram eternos ontem, há mais de 3 anos... e continuam aqui dentro de mim... Hoje me dei conta que abri as cortinas... deixando o vento suave soprar aquelas feridas ainda tão quentes dentro de mim...
Deixei chegar o sonho, vivo o amor de tantas vidas, sem ter fim. Sendo esse continuando. Cansada de nossa fuga, da minha fugida, das minhas desculpas. Do medo de ter que decidir. De ter que sentir. Cansei de correr de mim. Deixei me pegar. E peguei você pedindo pra eu abrir a janela... e deixando esse sol me ver, e sentir que o amor é mesmo tão maior. O amor já desvendou de fato o nosso lugar. E gosto de procurá-lo junto de ti... Onde mesmo? Onde a estrela cair...
- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- a gente só queria o amor...
- Deus parece às vezes se esquecer
- ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar
- Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder...
- E se amar, se amar até o fim
- sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar
Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
e agora esta de bem
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar
Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além. Vão dizer
que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
vai cair
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Srta T
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terça-feira, novembro 06, 2007
Pessoas, Pessoa!
Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.
Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.
Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.
Ainda não cheguei perto de me ignorar... Mas há um mistério desse sentir e pensar todo que está no amar. Se deixa de ignorar. De disputar você em você mesmo.
Ontem fiquei surpreendida depois de tantos e tantos pensares, sentires, quereres, desistires, retomares e deixares... olhei ali, naquela linha do tempo cheia de imagens minhas, emprestadas, dele, de outros, de tantos. E deixei corajosamente os meus olhos se fecharem nesse repouso do voltar pra casa e saber de onde vem essa disputa do teu peito com a tua cabeça. Onde você ficou mesmo agora? Onde foi mesmo que te encontrei? E onde e como me tiraste dali? Me sinto aquela Emília cantando Queen e assistindo TV com meu pai... Pousei a Enterprise num planeta em que meus equipamentos não funcionam. Meu leme não responde. E tudo o que antevejo é seu? Nosso?
ninguém responde nos outros mundos? Ou será que eu esqueci de ligar os comunicadores? E você? Em que mundo me deixei? ignoro ainda... e caminho sentindo...
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quinta-feira, outubro 18, 2007
Quase lua cheia...
E eu me vejo mais uma vez mergulhando nessa quase pelnitude de sentires. Fico me perguntando se é sempre assim... intensamente que se deve viver e conviver. Intensamente é demais pra mim. Me deixa assombrada pela sensação de que só eu, somente, só, sinta sozinha. E fique nesse monologar de pedir, sinalizar, esperar, compreender.
Voltando pra casa me lembrei do meu pai falando que amar é doar-se. Creio que seja também doer(-se). Bendita letra que aprofunda os punhais de significação aqui dentro de mim... Não consegui pensar em nada. Só sentir. Tenho saudades de conversar mais com os meus amigos. Eles também andam tão ocupados. E eu aqui, mergulhando nas crateras da lua à medida que elas aparecem... e nublada com a perspectiva que a chuva não cesse, nem o sol apareça nos próximos 22 dias, e talvez nos próximos 2...qualquer coisa.
Cuidei pra preservar isso que há de bonito em mim, alguns dizem. Mas é preciso ser mesmo assim tão sensível Srta T? Afinal, por que se é assim? Não creio que aceitar seja bom... nem garantir que algumas mudanças sejam - em mim - satisfatórias a ponto de esperar mais. Fico buscando o caminho aqui dentro. E me lembro do porto ... onde foi que deixei os meus barquinhos? Tem havido vento demais. E de direções diferentes aqui dentro. Não há mar calmo. E as ondas parecem ser mais cíclicas de dentro pra fora do que o contrário. O mar revolto(-me) em silêncio. Por que mesmo? Será que doar-se tem que doer tanto? Ou é o meu egoísmo me deixando... Nunca gostei de despedidas. Despedir-se de si mesmo é ainda mais difícil... Vontade de aportar. Ver o pôr-do-sol. E sentir a brisa dando esses beijinhos no coração. E nem sentir mais nada...
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terça-feira, outubro 16, 2007
Lembrando do Caio Fernando... EU ODEIO com maiúsculas...
Há uma lista (enorme segundo o Juliano) de coisas que eu ODEIO. Nem sei se são tantas assim, mas de fato as enxaquecas são uma delas. Ontem tiver que parar o carro num posto de gasolina antes que batesse no farol. Não conseguia enxergar mais os carros e cometi o erro de me apressar em chegar em casa. Demorei pra poder dormir, apesar de ficar sonequinha, por conta da dor. No meio daquela tocação de sinos dentro do meu crânio, fiquei pensando - é, isso mesmo, a gente pensa mais com a dor... - no que ela nos mobiliza.
Essa sensação de vulnerabilidade. De não ter - de fato - controle sobre o corpo. Desmaiei chegando em casa. Não é figura de linguagem. Caí mesmo. E me recordei dos escritos do Caio sobre a doença. É muito doido você não controlar você mesmo. E confesso que isso me apavora. Não controlar nada na minha vida de fato me deixa - quase sempre - em pânico. Sempre foi assim. Me fragiliza a idéia que as coisas acontecem independentemente de mim - e me encanta ao mesmo tempo.
Fui embalada por um carinho só meu, só do Nosso. Desses que te fazem acreditar em contos de fada. E perceber as fadas saltitando à sua volta. Fui dormir com a história das fadas, também do Caio. E sem despertar desse sonhar acordada sinto aquela presença misteriosa comigo... dele. E quase me esqueci da dor...
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quinta-feira, outubro 11, 2007
Há algum tempo eu venho refletindo sobre a imagem do post anterior. Ela me tocou tanto que nem pude escrever... Tenho pensado onde estão meus portos. Dentro, fora... em lugar algum...
Certa vez, conversando com o Nelsinho ficamos falando sobre essa sensação de ser - em alguns momentos - espectador de si mesmo... Ele se via à beira de um penhasco, vendo o pôr do sol. As montanhas eram altas, mas a vista alcançava longe... Puro verdo misturado ao lilás e laranja do disco se despedindo. Lembro bem dessa imagem descrita por ele. O meu penhasco tem o mar à frente. E um horizonte mais longíncuo, interminável e inalcançável... O mar se mistura com o céu, que se mistura com aquele monte de cores sutis, delineadas pelas nuvens. E nessa imagem eu não via nenhum porto. Nada. Só sentia o vento, forte, e o cheiro do mar me cortando por dentro.
Numa outra conversa com o Vinícius falávamos da imagem poética do Pearl Harbor. Esse mesmo do filme. O nome é lindo. O restante, construção. Destruição. Não importa. Falávamos sobre como algumas amizades são esses portos da gente. Semana passada, depois de muito tempo, me senti só. E não é essa solidão de estar com alguém. Fico imaginando que, se por acaso o Juliano lesse isso talvez ficasse chateado. Não se trata dele. De estar num relacionamento seja ele qual for. Me senti só. Tendo que realizar, permanecer, fortalecer tantas coisas e pessoas aqui fora. Há um tempo que venho sentindo no corpo esse desmoronar de forças. Engraçado que o Vinícius sempre diz que eu sou muito forte. Onde eu coloquei a minha sensibilidade - travestida em fragilidade?
Olhei a imagem de novo agora há pouco. E uma vontade de mergulhar nessa água. Nadar tem me feito muito bem. É instrospecção dentro e pra dentro... Pra fora de mim, o ar. E as coisas todas que as braçadas deixam pra trás. Penso muito na piscina. É diferente do ballet quando eu prestava atenção no corpo todo e me enfiava pra dentro da música. E o silêncio acontecia dentro de mim... Na água é exatamente o oposto... Mergulho cada vez mais para o meu barulho tumultuante. Fico com a sensação que eu procuro alguma coisa ali debaixo d´água... e quando saio dali, os portos ainda não apareceram.
Há tanta coisa acontecendo aqui dentro... tenho sentido falta dos amigos, desses mais testemunhas de mim. Saudade de carinho de pai e de uma despreocupação com o dia seguinte... Chorei muito nesses dias e nem consigo dizer bem porque. Dor? Não sei... acho que é essa solidão que caminha sozinha aqui dentro.
Durante a semana tenho ficado em casa. Estou sem aulas na escola e curtir esse meu "solo sagrado" tem sido reconfortante. Saí de casa alguns dias para andar pela cidade. De ônibus e a pé. Fui na Santa Efigênia. Na 25 de março e esses lugares barulhentos e cheios de coisas incríveis. Me senti como o Geertz em seu trabalho com a briga de galos. Tanta desolação e potencial criativo. Olhava as pessoas trabalando naquele mercado persa e me perguntava o que elas faziam dentro delas. Eu sempre me pergunto o que faço com as coisas que eu sinto. E nunca chego a uma resposta convicente. Juliano me diz que eu não preciso comunicar os sentimentos. Só sentir. Eu só sinto comunicando. Não sei sentir só. Ou esse sentir-se só é porque não se comunica?
E ontem, pela primeira vez depois de muito tempo acho que consegui sentir no corpo todo a epifania do gerar. Vou ser madrinha do filho do Pico. Pedro. É o meu primeiro afilhado e esse convite me despertou uma luz aqui dentro... Uma vontade de aportar. Esperar os navios chegarem, outros irem... e qual porto que eu procuro mesmo? Esse que me permita ver o pôr do sol... em silêncio...
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Srta T
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sábado, outubro 06, 2007
terça-feira, setembro 25, 2007
Conversar. É engraçado como alguns assuntos voltam. Outros nunca saem. Pelo menos por um tempo. Essa sensação de permanência de um assunto em mim é assustadora. Ele hiberna, acorda faminto, devora, se cansa e volta a cochilar.
Domingo à noite... Quase na hora de tomar banho e a dor voltou arrebentando por dentro. Me fantasmagorizando o sentir. O perceber. A volta do avião parecia antecipar isso aqui dentro. Olhava aquela luzinhas de cima e ficava pensando quantos sentires estavam ali embaixo anônimos. Sinto às vezes que queria contar uma história da Srta T bem fictícia. Dessas de livros e filmes com final feliz. Me dou conta que os escritores ao fazerem isso - e filmarem isso também - nos deixam raspinhas de esperança. A nossa história nunca é do jeito que a gente quer. É do jeito que pode ser. E nesse ir e vir de dentro e de fora eu olho as luzes de casa e me angustio. Quero sair. Deixar. Sumir. E vejo que o que tenho aqui, nas mãos, ao alcance, é o que pode, é o querer ser e ter. Fiquei me lembrando enquanto escutava histórias tristíssimas de personagens vazios, frustrados, solitários e carentes, do Vinícius. Ele me dizia sempre - em resposta a uma frase minha "as pessoas só dão o que podem dar" - que a gente dá o que quer dar de si. E se esse querer dar for maior de fato que você, você se desdobra. E é.
Passei o dia ontem com essa dor no peito. E eu choro sempre quando ela vem. Fico pensando porque a gente conhece determinadas pessoas em momentos quase "ao acaso". E que se fosse assim tão "despropositadamente" por certo estaria longe daqui. Se eu tivesse visto mais de perto as histórias que ouço - teria ido. Nunca ficado. Se tivesse sentido essa dor antes, teria abandonado. Fragilidade talvez. Mas penso que é covardia.
É louco como manipular o sentir do outro pode ser a única coisa que te resta a fazer. Solidão. E foi terrível perceber que personagens podem ser mortos, deixados, recriados, manipulados. E o que somos de fato dá tanto trabalho pra mexer, que prefeirmos deixar isso a cargo dos personagens. Mais cômodo. Dói menos.
E o mágico do viver, do amar, do doar-se pra fora de si, pular o trampolim da nossa (estúpida)auto-estima metida a besta (na verdade a gente atira a bacaninha na piscina com ferros, se afoga) está no desvelar-se. Eu sempre contemplo demais os que falam comigo. É mais do que olhar. Há um universo em movimento naqueles gestos, nas pausas de respirar, nos olhos e no tom de voz. Senti medo. Pena. Nojo. E quis me esquecer dessas histórias que se contam para os outros. Que se vivem com e para os outros. Que se montam e fantasiam para os outros. Será? Os personagens somem mesmo? Ou só voltam pra habitar as fantasias dos outros que (quase) se depararam com eles... Apaguei a luz do palco. E acendi o camarim. Só pra eu entrar. Só pra mim.
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segunda-feira, setembro 24, 2007
o Rio de Janeiro continua lindo...
Fui ao RJ nesse fim de semana depois de uma semana ensandecida... Mar é terapia. Necessária.
Fui ficar com o Juliano depois de uma semana enlouquecida pra nós dois. Fiquei pensando num aspecto do casamento que é "estar junto". A expressão exige mais do que simplesmente estar... não é passivo assim... Ficamos pra cima e pra baixo na bienal sábado e somente ontem dei uma chegadinha nas areias do mar... adoro sentir as ondinhas batendo nos dedos dos pés e fazer pegadas deformadas com as mãos, pés e outras coisinhas de criança que a gente faz.
Mas o que eu queria registrar aqui não é a bienal. Aquilo é uma disneylânida pra babadores de livros! dá desespero quando você se dá conta que por mais que queira, se esforce, não vai ler tudo o que quer no tempo que tem...
Cheguei no RJ por volta das 6 da manhã de sábado. Chovia um pouquinho... uma brisa gosotosa e aquela cidade esquisitamente linda e destruída. A primeira coisa que fiz foi me acomodar no "FRESSSCÃO" e ligar o palm pra ouvir um pouquinho de música. Sempre me lembro - e já devo ter dito - de uma frase de Michel Kamen, compositor de trilha sonoras de filmes... ele diz que a trilha serve para "sublinhar uma emoção". Nunca achei tão acertado esse comentário. É verdade. Fiquei observando a cidade e as emoções sublinhadas pela música, pelo cenário.
O Rio sempre me comove. O excesso de contradições, da paisagem, da pobreza, do ontem e do hoje, do lixo e do luxo pra lembrar do Joãozinho... Enfim. Mas sempre me traz pra dentro de mim. Esses dias o Juliano ria de mim por eu ser tão "idiossincrática". Ora, naturalmente...
Cheguei cedo demais e o Lucas me esperava pra tomar café da manhã. Eu sempre gostei de café da manhã. Mais que qualquer outra refeição dia. Ela ritualiza o meu começar - acordo normalmente meia hora mais cedo do que precisaria pra comer em paz... E faço minhas preces de mim mesma, como vai ser o dia, como quero que seja, o que preciso fazer, o que preciso desencanar. E deixar rolar. É um rito de passagem necessário - como imergir no mundo.
Ele me esperava no apartamento dele. É um ap pequeno, simples, mas com uma energia bem especial - de primo querido mesmo - e ficamos ali falando da vida, do ontem, do hoje, do Caio que nasceu. Enquanto eu comia - e comia muito - prestava atenção nessa maturidade que a paternidade trouze dele. É um homem bonito, amoroso, inteiro em si mesmo. E falava do filho de um jeito que comoveria qualquer um. É mais que orgulho. É um deixar-se viver pelo outro. Não é se projetar no outro. É doar-se.
Ele nem se dá conta de como eu o observo, sinto. Pressinto. Falei do meu normal, do meu dia-a-dia. Das coisas que se transformam, que morrem e nascem dentro de mim. Do trabalho, do casamento. Eu sempre fico meio contemplativa quando olho as pessoas da minha família. Elas moram todas longe de mim. No Rio, Porto Alegre... dá saudades.
Depois me deu um sono profundo em que eu não vi nem o Lucas sair nem o Juliano chegar. É gostoso ser despertada por um bombardeio de beijos e fungadas. Gostoso ter a sensação de que apesar de toda a minha idiossincrática experiência carioca, me sinto parte de alguma coisa ali... talvez do fundo do (a)mar.
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sexta-feira, setembro 21, 2007
casa vazia
São 4 da manhã... acordei com o bips do palm tocando discretinho pra não morrer com a queda do meu tapa. Hoje a casa fica vazia.
O Juliano saiu para o RJ. A Claudia sai daqui há pouco também. A sensação da casa vazia é estranha quando sempre está preenchida pelo Nosso. Será rápido. Amanhã a gente vai se ver. Mas quanta eternidade entre o hoje e o amanhã... Olho as coisas aqui, a bgunça habitual das nossas coisinhas. A rotina de deixar sempre as mesmas coisas fora do lugar. De arrumar parcialmente outras... e os cheiros da gente misturados na casa. Está escuro ainda. São quase 7 da manhã e o dia parece eu, teima em ficar aqui escondidinho na casa.
Fiquei pensando quando voltava do terminal Barra Funda como a vida da gente se entranha no outro. E nesse en(S)tranhamento sai o gosto de plástico das coisas que existem fora de mim. Nas minhas declarações de mulher apaixonada sempre digo que não saberia viver mais sem ele. A gente até aprende, dá um jeito. Mas nem quero iniciar esse curso. ME matriculei no coração dele e não pretendo sair... há tanta eternidade no sentir.
Um amigo meu muito querido, a quem eu gosto sempre de escutar, o Gavin, me disse uma vez falando do seu casamento que "pra sempre" é um jeito de dizer uma coisa que a gente não dá conta de medir. "eu te amo pra sempre" é um jeito humano de dizer que é muito, muito, muito e muito. E nem o primeiro muito a gente mede o quanto é. Isso sempre me passa pela cabeça. Fico pensando nos outros namorados que tive... nos meus amores platônicos do colégio... era tudo tão pra sempre.
E o que difere o Nosso? Não meço. Sinto. E sinto em tudo aqui que me cerca nessa casa que apesar de vazia está preenchida com histórias secretas, tímidas, apaixonadas, desesperadas, enciumadas, furiosas, tristes, enamoradas, românticas, redentoras, transformadoras e todo o outro léxico que a gente se esforça pra dar a isso que ousamos nomear e definir - o sentir.
Ontem, voltando pra casa da USP com os vidros abertos deixei as dores se aliviarem na noite. Era tarde quando cheguei e o coração apertado dentro de mim sabia que hoje cedo eu estaria sozinha. Fiquei antecipando uma série de despedidas de hoje cedo, de outros amanhãs com ele. Sempre penso quando a separação precisará ser mais longa. Não pra sempre. Mas há tanta eternidade nesse "meio-tempo". Ele é mais inteiro na saudade...
Fiquei pensando se é apenas o "acostumar" da gente com o outro. Acostumar é quando não há amor. Não me acostumei ao Juliano. De fato. Eu o estranho dentro de mim até hoje, pelo rebuliço que ele me causa. Tira o meu respirar da inércia. Não me acostumei com a casa. Ainda há cantos aqui dentro que eu desconheço. E o que me segura aqui dentro é essa vontade de descobrir o outro em mim. Encher a casa de dentro de vida. Pentear os pensamentos como diz o Caio Fernando... e desembaraçar o meu medo de sair...
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quinta-feira, setembro 20, 2007
Passei daqui... e continuo andando sem participar do espaçamento dos passos. Acordo e durmo com F. Pessoa. E releio. E escrevo. Ontem assisti a gravação de uma entrevista do Juliano e tomando café daqui e dali olhava para o desfoco todo interior de dentro de mim...
Havia tanto ali pra dizer. E o mais engraçado, pensei eu, é quando a gente assiste a si mesmo. Que vazio que dá olhando de fora. E dentro, tanto por compartilhar. Pensei que a dor que habita o humano de mim não pode mesmo se comunicar. Ela está deslocada no tempo e no espaço. Assistiu cenas de um passado em outro mundo, em que eu não existia. E parou ali. Não conseguiu tomar o caminho de volta. Havia muitas estradas para escolher e ela vai e volta para não sei onde.
Lembrei do Bojador, da necessidade de navegar. Da imprecisão de Netunos e Posêidons aqui dentro... disputando uma descoberta de uma certa Atlântida mitológica de sentir. Longe, distante, imprecisa e ausente do real...
Olhei pras coisas que estavam ali naquele cenário de gravação. Eu sempre olho pra ele com admiração. É bom admirar quem ama. E amo mesmo, e ao mesmo tempo isso sempre parece ser incompleto. Não o amor, nem o amar. Mas como a gente entende? E isso tem controle de algum lugar? Pra dilatar pra onde? E a gente dá conta desse sair de si? É curioso como amar te tira de você. E se você é apegado assim a si mesmo, lamento. Vai doer.
O cara da câmera passava de um lado para outro. Devagar. E me senti daquele jetio olhando o mundo dentro de mim. Recortada. Com lentes imprecisas que tentam focar o que é nebuloso. Nem mesmo a luz permite ver. Será que o filme dentro de mim ainda é preto e branco? Ou as cores são vivas e gritantes demais? Machucam os olhos com esse excesso de poluição visual. Lembrei do Livro do Desassossego: que cor é sentir? da música da Adriana Calcanhoto... cores de Frida Calo... essas tem sido berrantes aqui dentro.
E me calo. Deixo a luz acender. E a câmera desligar. Quero voltar. Assistir outros filmes. E fora de mim.
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Srta T
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quarta-feira, setembro 19, 2007
o que é mesmo fernando?
Ontem fiquei com o sono longe de mim, passeando pelas estradas atemporais do coração e da mente.
Estou com o Pessoa entranhado no corpo... e estranhamente, acabei de encerrar as Grandes Navegações com os meus alunos...
A gente tem que passar além da dor? Ou é além do Bojador? Primeiro, se passa pela dor... e mergulha-se no seu Cabo de Tormentas, com ondas fortes, gigantes, trazendo as tempestades de dentro de você. E espera-se... Meu Bojador é tão longe ainda de mim, fica lá, andando pra onde eu possa não alcançá-lo... escorrega da minha embarcação fora daqui, cheia de nuvens pesadas que acabam por arruinar a minha sensação - pequena - de nitidez de alguma coisa.... Por que é preciso doer? Navegar tem sido tão (im)preciso dentro de mim... sem rumo, com ventos de todos os lados. E os mais fortes são os de dentro. Revolvem as profundezas desse oceano escuro e frio. Sem jeito, esperança, forma.
E onde está a tripulação? Se recusa a viver de dor... e eu esperando passar a chuva, sozinha. Olhando pra dentro desse tempestar de sentir e pensar... Só. e antevejo que essa viagem é solitária pra dentro, e pra fora, arriscoso demais... Onde está você Fernando Pessoa? Passou a dor? Me conte o que há além desse Bojador embaçado dentro da gente...
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Srta T
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quinta-feira, setembro 13, 2007
amor meu grande amor...
Amor, meu grande amor, não chegue na hora marcada
Assim como as canções, como as paixões e as palavras
Me veja nos seus olhos na minha cara lavada
Me sinta sem saber se sou fogo ou se sou água
Amor, meu grande amor, me chegue assim bem de repente
Sem nome ou sobrenome, sem sentir o que não sente
Que tudo o que ofereço é meu calor, meu endereço
A vida do teu filho desde o fim até o começo
Amor, meu grande amor, só dure o tempo que mereça
E quando me quiser que seja de qualquer maneira
Enquanto me tiver que eu seja a última e a primeira
E quando eu te encontrar, meu grande amor, me reconheça
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segunda-feira, setembro 10, 2007
Caminhar assim...

Voltei pra casa ontem à noite depois de um encontro com amigos... e me peguei pensando nesses caminhos misteriosos do viver... Tinha visto essa fotografia e fiquei tocada pela imaginação à lá Alice na suas maravilhas de que de fato a gente poderia caminhar assim... leve. Não me lembro onde amarrei os cadarços e deixei o resto de mim...
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domingo, setembro 09, 2007
menino-sol
Nasceu o Caio...
Hoje cedo presenciei, virtualmente nas telas de casa, o nascimento do Caio. Meu novo primo, recém-chegado a esse planetinha azul. Ele é filho do meu primo Lucas... grande, todo transformação, coração.
Nós somos primos de alma... e a cada vez que eu o vejo há um dilatar da gente em direção ao outro. Os milagres e mistérios da vida confirmam isso a cada experiência nossa juntos.
Eu teria muito pra escrever sobre o Lucas. A maior parte das minhas lembranças adolescentes são recheadas por ele... dos jogos de vôlei em Capão da Canoa, das baladas à noite, dos luais, das conversas intermináveis, das paqueras no calçadão... A primeira vez que fui ao Rio de Janeiro, e me apaixonei à primeira vista por esse cantinho de mundo, ele me apresentou a cidade. Eu tinha 13 anos. Nós saíamos muito juntos nessa época e me lembro de ficarmos uma noite escutando Rush e o Bolero de Ravel, olhando a praia da janela. Falamos de sexo, drogas e rock and roll. Falamos da vida, do que desejávamos para o futuro. Das saudades do Tio Fredy, do vô, dos planos de amor, dos caminhos da vida, dos desvios do presente, do amanhã que talvez nunca chegasse mesmo.
A gente ia caminhar pela beira da praia... olhar o pôr do sol, olhar os cara e as garotas bonitas. Tomar sorvete e cerveja. Falar mal dos chatos. Num dia de caminhada pela beira mar (eram sempre longuíssimas!) resolvemos voltar pelo calçadão e fiz algumas bolhas no pé... ele testemunhou a minha primeira grande insolação, os micos todos no Rio pela cara de "gringa", me viu tomar foras, ser paquerada, quase me afogar, tomar o primeiro porre... mentir pra minha mãe (e ele me ajudava nisso!). Há tanto de companheirismo... tanto de ariadne nas mãos dele que me troxeram até aqui. Foi quem me falou pela primeira vez que fazer terapia era legal... Ele sempre me protegeu - apesar das crises adolescentís dos 16, 17... - de mim, dos outros, de dentro e de fora.
O Lucas sempre foi lindo, por dentro, por fora. Me lembro do orgulho de sair abraçada nele e deixar todos pensando que ele meu namorado. Era um sujeito grandão, nadador... cheio de charme, menino-sol, bronzeado nas areis da cidade maravilhosa e banhado pela Aurora, de dedos rosados e carinhosos... uma figura cheia de beleza...
Mas o motivo desse texto é para agradecer uma coisa que talvez ele não se lembre... já fazem 15 anos... Ele me levou para ver o primeiro nascer do sol no mar... A gente ia voltar para São Paulo naquele dia cedo e eu adorava os verões no sul, sobretudo quando ele estava por aparecer. Era companheiro, cúmplice e fazia tudo o que os bons moços e os maus moços (a parte boa que as meninas românticas gostam!) faziam numa pessoa só. Tenho saudades. Mas me lembro mais ainda das conversas naquela manhã. Dos medos de crescer, da minha pretensão em ser resolvida, inteira, viva. Dos meus sonhos... e quando as estrelas começaram a se despedir de mim, a gente ficou em silêncio por muito tempo... vi o céu ficar lilás como as hortências da estrada para casa... e a gente encostou um no outro. Silêncio. Havia um mundo nascendo ali na frente da gente. E tão poucos sabiam daquela imensidão. De dentro e de fora. Desses mistérios que a gente acha que entende (e escreve e desentende e deita, dorme... deixa)...
Ficamos ali vendo as cores se desdobrarem em nós, dançando de um lado para o outro apontando sei lá pra onde que a gente nunca consegui ver, desenhando um horizonte torto, colorido, manchado, cheio de alis, aquis... e a gente se emocionou ao perceber que a nossa vida seria quase tão diferente daquilo que a gente rabiscava nas conversas de beira-mar... e, ainda assim, estaríamos juntos. Nessa distância. Nesse vir, deixar, porvir. Querer e amar.
Consagração de um amanhecer que dura até hoje dentro de mim quando a gente se reencontra. E fala-fala-fala e riririririri o tempo todo. Quando a gente filosofa, esquece de si, toma cerveja, sai pra caminhar por dentro da gente, sem destino, sem ir, nem voltar. E num desses tropeços pra dentro de nós... olha como a vida é traquina... linda, inteira... presenteia... milagrecer...
Essa manhã e esse menino-do-sol, Lucas, você trouxe de volta, agora fora de ti... mais tangível pra nós. Ser. Presentificado no Caio. Trazido pelos ventos do outro lado, pelas ondas do mar, e pela dança de cores dentro da gente... e que esses horizontes sempre caminhem pra longe, puxando gente pra fora da gente... deixando lá, aqui, em mim, em você, na Terra... através dos ares todos...
Menino-sol... bem-vindo de volta... e que o amanhecer para ti aconteça todo instante. Teu pai sabe guiar a gente nesse caminhar de beira-(a)mar...
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quinta-feira, setembro 06, 2007
Só para não passar em branco....
Depois falo mais dessa sensação gostosa de ver coisas realizadas. Estou orgulhosa, cansada, feliz. Nessas horas, muita coisa volta a (re)fazer sentido na vida da gente. Fiquei me perguntando sobre o papo "felicidade". Tão rápido... faz a gente desejar permanências na vida e que só acontecem com esse despojamento de apegos, vontades e (per)seguir..
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quarta-feira, setembro 05, 2007
Hoje é o lanaçamento do livro do Juliano... Ontem à noite fui encontrar o meu amigo-irmão de alma e demos uma passeada pela livraria. Lá estava o livro no meio de tantos outros...
Fiquei me lembrando de um email que ele mandou semana passada sobre a sensação de ver seu livro publicado ali no meio de tantos outros. Achei graça do caminho da cabeça dele. Mas ontem, mais que isso fiquei pensando ali na livraria, olhando aquele monte de autores, sobre os caminhos de cada um deles. Nesse sentido é mágico poder acompanhar a gestação de um filho nos bastidores. Tanto aprendizado nisso. Crescimento. Dilatação de dentro.
E perdoem as pieguices, mas fiquei com a imagem do filme do "Procurando Nemo". É um pouco essa a sensação - pressuponho - você lançar naquele oceano, informações, conhecimento, opinião. É tanto por ver. Fiquei orgulhosa dele. Por alguns segundos eu me lembrava de uma fala constante no Nosso "eu sou tímido". Timidez é sinal de orgulho. E achei bonito, corajoso, ele se despir desse jeito pro mundo. Humanizar as relações. E vejo esse livro acontecendo dentro da gente. Das descobertas, das experiências. Da humanização de coisas que não são escritas. De um cuidado no observar, perceber.
Fiquei pensando se os outros autores ali tinham vivido isso no coração de algum modo. Que histórias eles tinham para contar? Como tinham sido os bastidores dessa despir-se? Pena as editoras não contarem essas coisas. Parece sempre que o livro vem pronto. Que a vida prontifica tudo pra gente. E ontem, depois, conversando com o Vinícius, falando sobre o amor, os relacionamentos, os desafios, os casamentos, fiquei com o coração emocionado sabendo que tudo isso é pura construção. E que as fundações dela são trabalhosas de levantar. Custam. Suor, desapego, paixão pelo transformar-se... deixar-se ir pela mão do outro. É mais que confiança. É entrega. E como a gnete teima nisso! Cumplicidade...
ELe não dormiu essa noite. Claro. No lugar dele provavelmente eu teria tido um treco antes... mesmo. Mas acho especial poder testemunhar esse nascimento, acompanhado de tantos outros que os leitores mal imaginam. Nada virtual.
Hoje cedo, há pouco, ele saiu de casa serelepe. Tinha uma porção de coisas para fazer. Está preparado para o evento de hoje à noite. Uma agitação que lembra festa de formatura, primeiro encontro, casamento, esses ritos que marcam os caminhos transformando-se... Comecei a arrumar as coisas aqui e deixei a roupa dele em ordem. Bontinha, pendurada. Achei graça disso. Cuidar dele. A ternura surge nesses pequenos momentos da vida. Que tem permanências tão sutis... e aí me senti como aquelas mulheres no mundo antigo... que as historiadoras de gênero não me leiam! - arrumando o guerreiro. E me emocionei. Você ajeita e prepara o outro para algo que está fora das fronteiras do seu... do Nosso, e ao mesmo tempo percebe que essa fronteira é tão dilatada. Elástica.
Percebi o cheiro dele, a nossa história, as nossas coisas. E tudo ali tão etéreo, mas forte. Tentei me colocar no lugar dele. Repensar a trajetória profissional, os caminhos perdidos, encontrados, os desvios. As celebrações, os choros. As idas. As voltas. Surpresas. Há tanto nesse homem e, mesmo eu, assim tão perto, não sou capaz de apreender essas sutilezas invisíveis. A sensação de querer apoiar e não saber como nos deixa vulneráveis nesse amor. Expostas as debilidades desajeitantes da gente. E acho graça de mim querendo bancar a "esposa". Revi os meus escritos de pesquisa. Tudo passou tão rápido... ri da minha dificuldade de comunicar essas sutilezas todas...
Achei bonito esse feminino desengajado em mim. Fiquei ali, olhando a camisa, a calça, um bom tempo. O sol entrando pelo quarto, anunciando esse dia dele. E que delícia poder ser a primeira convidada. Para um debate dentro dele. Sem platéia. E que não tem prazo para acabar.
Juliano autografou o meu coração... pra sempre. E eu permaneço conectada...
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terça-feira, setembro 04, 2007
Algumas descobertas da vida são mais dolorosas pelo descompasso do que pelo descobrir... Às vezes sinto como se vivesse num filme francês cheio de histórias que se enrolam em si, desdobram-se nos sentires, olhares, calares... E falar? Para que?
Tem sido difícil conviver com o silêncio. Em muitos sentidos. Muitas vezes tenho a tentação de sempre me fazer sincera. Direta. De algum modo - ingênuo? - penso que isso pode ser uma demonstração de força de caráter. E o mais estúpido é quando a gente se percebe completamente humanizada e despida dessas etiquetas sem fim... E olhar os talvez. Os "se"... quem sabe? Dói. E mais pela ausência de qualquer solução do que pela verborrágica procura - (ir)racional - de ações. Pragmatismo. Nada...
Ontem saí da terapia com esse vazio. Me lembrava da fala do Juliano, citando uma vez, que os sentimentos não precisam ser comunicados. Só sentidos. Alguém aí sabe como se faz isso? Digamos que para uma pessoa absolutamente pluralizada na experiência do sentir - e por que não completar dizendo que há uma dose de exagero nisso tudo que não sei como resolver (há meios?) - a sensação deve ser comunicada. Faz parte do ritual do viver.
E ontem me dei conta que há de fato coisas que a gente carrega sempre, para sempre talvez, para dentro da gente. E ficam ali. Vivas. Mas monologam com o teu coração. E você nem sempre pode - ou deve - responder. Era tarde e me deu uma crise de choro no carro. Andei devagarzinho pela direita para não correr riscos. Expor desse jeito o sentir me parece arriscoso... Mas que seja. Consegui falar ao telefone bem quase engasgada por mim mesma. Dirigindo o carro e desgovernada aqui dentro.
E o que fazer com o sentir? Deixar? Sair? Sentir? Não tenho idéia de como isso sai - ou fica - na gente. Em paz. Tenho vontade de falar e não consigo. De rir e não posso. De chorar... e não sei mais. Dá saudade.
Acordei à noite milhões de vezes e vi o Juliano ali do lado. Dormindo na sua semi-gripe de pré-lançamento. Gostoso saber dele ali perto. Mas a insegurnaça do peito apertava e me impedia de continuar o sono que nunca chegava. Saí cedo. E espero que o dia me deixe respirar um pouco para fora de mim. Aqui dentro muitas vezes o mundo sufoca. E lá fora... tanto por sentir. Novidade. Diferente...
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Srta T
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