sábado, março 29, 2008

Esperar. esperar... fico aqui cutucando a minha impaciência em esperar. Acho que não aprendi esse vocábulo na escola. Curioso como a vida me trouxe de presente isso aqui...

Estou aqui rascunhando as coisas e acho que pela primeira vez consegui me ver pelos olhos do outro. Vejo ele aqui entupido de papéis e tentando resolver coisas e falando e pedindo e chamando, e solicitando e me tirando do eixo... Uma das minhas habilidades consiste em fazer diversas coisas ao mesmo tempo agora. Ler, ouvir música, falar ao telefone, conversar com as pessoas e ainda rabiscar umas letras soltas. Impacto para quem exige concentração e reclama da dificuldade de.

Fico pensando em como registraria essas coisas sublimes do cotidiano. Ficam mágicas soltas no percurso louco da vida. Fazem tanto sentido aqui dentro. E sempre me pergunto se um dia eu teria a capacidade de fazer as pessoas entenderem essas epifanias do Nosso.

Ele fala sozinho, habitualmente. Na prática não. Eu sempre escuto, fico atenta. E de vez em quando respondo. Mas aí sou alertada do quanto eu desconcentro, interrompo. Chatices à parte fico aqui agora rindo por dentro prestando atenção nessa coisa dele toda contraditória.

Vejo ele falar comigo - da mania de me ensinar, instruir, exigir, explicar. Às vezes parece que eu tenho 5 anos. E quando meu feminismo reclama me lembro dessa mania dele de amar. E de cuidar. Engraçado como as pessoas tem seus códigos particulares pra fazer isso. E se atrevem ainda a dizer ao outro "você precisa se colocar no meu lugar e me entender, me dar crédito"... talvez eu tenha feito o mesmo...

E nessas contradições mais infantis, de implicar, aplicar, silenciar, angustiar, sem esperar, cutucar as mesmas feridinhas aqui e ali, há essas epifanias na esquina. Hoje, ontem. De repente amanhã tem outra. E eu fico muitas vezes me fazendo de difícil pra ver ele se aproximar de novo, mais, mais, mais, mais. E mesmo com outras partes minhas em frangalhos, olho pra isso e me delicio com esse amor todo.

O resto, é só esperar...

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sexta-feira, março 28, 2008

Fiquei saboreando o sol agora na janela. Estou aqui, hoje com o dia brilhando, e mais, talvez de dentro pra fora...

Ontem eu saí e voltei tarde. Antes, me atropelei na escada de casa quase fugida de mim mesma... e dei de cara com ele. acordei hoje cedo com essa sensação estranha de me querer mais e longe e perto...

Engraçado como a gente se humaniza. Ontem conversando com uma amiga me perguntava se eu era a mejera (não domada) que só via o lado ruim das coisas, paranóica, crica, moralista. Falo isso porque, por alguns momentos, confesso, quase acreditei no retrato da Srta T Gray que faziam de mim. Chorei os tubos... Quase aceitar isso me provocou uma catarse de pensamentos sentidos aqui no fundo. Tentei... olhei bem pra mim ontem. Não vi essa mulher.

Mas a gente se humaniza. Voltei pra casa e depois de desaguar mais um pouco comecei a pensar nas coisas que tenho estudado. Imaginei se todos os teóricos da antropologia, os pós-modernos, viveram essas alteridades na pele, numa pesquisa de campo mais afundada e egocentrada. Se as teorias de Mauss e Dumond sobre o indivíduo permitiam esses mergulhos no sentir, no latejar. Fiquei pensando nas teorias de gênero, nas discussões feministas, nos debates políticos, legais, sobre casamento, divórcio, aborto, maternidade. Escutei as mulheres ao meu redor falando. Enfim... adormeci no sofá sem continuar prestando atenção na conversa à lá Nash que levava...

Acordei cedíssimo, com as pontinhas de sol pipocando na cortina do quarto, dançando esse ventinho gostoso da manhã. Fiquei olhando pra ela, sem sono. Olhei pro lado e vi tanta história nessa cama. Nossa. Dele. Minha. Fiquei ali acompanhando ele respirar, dormindinho ainda, me puxando pra perto, murmurando qualquer coisa em qualquer língua, num dialeto que só eu entendo. E essa dor toda no peito parecia balançar aqui dentro. Nem sabia mais onde doía - espalhou.

Estou aqui tentando me deixar no sol. Fico agradecendo silenciosamente pelos amigos. A Lúcia e a Marcia, definitivamente são as minhas irmãs mais velhas. Essas mulheres que me mostram mais de mim. Me revelam essas sutilezas das múltiplas - e parciais - alteridades. Outro abraço, um suco de maracujá pra acalmar esse aperto. E uma soneca ao lado da cortina, que me leva pra lá e pra cá.

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quinta-feira, março 27, 2008

o bolero de ravel

termino a noite escutando essa música e observando solenidades onde não há... me perguntando porque eu gosto tanto de ritualizar a vida. Pior, achando que as pessoas tem os mesmos ritos que eu.

e de resto. resta pouco aqui pra continuar a dizer. Nem trilha sonora do dia, da noite. Nem meus ritos de início e fim. Estou no meio. Mas não sei do que. Nem sei que meio é esse para se viver assim. E se ficar dividida entre o sentir e o pensar ou entre a negação desses dois for outro rito de passagem para além de mim. Para passar além da dor, fico. Não sei mais. Não consigo mais. Não quero ir além desse mais. é demais aqui... fico. bebo. espero. observo. e silencio...

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Fiquei sem tempo pra escrever pra mim... Meus emails tem sido curtos. Vagos. Vazios daquilo que eu mais gosto em mim... deixei na bagagem?

É curioso como o silêncio traz outras coisas aqui pra dentro. Recoloca. Desde que roubaram meu rádio do carro há quase um mês eu perdi aquelas pequenas epifanias do caminho. Da música tocando na hora 11 ou 22 alguma coisa. As árvores ficaram ali, no mesmo lugar. As folhas do outono apareceram ainda timidamente. Tudo é igual ali. Menos o som. E fico me perguntando se eu perdi mais alguma coisa nesse fim de musicalidade.

Tenho conversado mais comigo. Uma dessas conversas que se tem com irmão mais velho. Escuto - o peito também... - e deixo a razão semi-iluminada-enciclopedista-pré-napoleônica ditar as regras das decisões finais. No dia em que saí da escola chateada um sujeito que vende flores no farol que sempre me cumprimenta me ofereceu uma de graça. Era uma rosa amarela. Fiquei pensando como eu ia aceitar ou não essa epifania. Ganhei chocolates aos montes dos meus alunos e, apesar de todo incômodo da Páscoa com as suas formalidades religiosas e blablabla (que minha vó não me leia!) quase hipócritas (Jesus, Moisés e tal estão, certamente, em outra!) fui sensibilizada por um sentimento de renovação de mim.

Dito de outro modo. Vivo minha quaresma sentenciosa e na quietude desses barulhos de mim. Nem sei bem quando ela começou. E nem sei de que modo - e se mesmo ela pode - terminar. Há dias estou chocolatando coisas em mim. Estranhamente já sei qual parte minha foi cumprir rituais de auto-punição e redenção. Nada públicos, acreditem. O mais surpreendente foi o estranhamento da parte que ficou. Ah! sim! Por favor nada de tapinha nas costas com um gesto de quase-coitadinha-da-sensível-imatura... nem me dizer das estranhas-coincidências-dessa-vida-estranha... como por exemplo tocar toda essas músicas na hora em que escrevo sobre isso...

O mais estranho dessas feridas de mim é que quanto mais eu quero me esconder mais eu me exponho. Honestamente, não creio que há qualquer bravura nisso. Ao contrário. Sendo fraca, me enfraqueço. Daí todas as minhas promessas de whisky-blog-chocolate de não ser mais assim. De enterrar naquele sepulcro de pedra essa vergonha de si. De mim. Esse meu cansaço...

E Fernando Pessoa já dizia tudo isso... Nem sei porque insisti em provar que a sua desilusão é apenas literária. Não há nada de literário em sentir desse jeito. Muito menos de temer o tanto que se sente. Mais ainda... não dá para (d)escrever essa tentativa de se pascoalizar... O céu ainda não escureceu. As feridas ainda estão abertas e nenhum sinal de clemência de ninguém ao redor. Sequer os ladrões. devem ter sido roubados de si mesmos... ou de mim...




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Paris ... em 2 dias...

Estou aqui tarde tomando meu trago, para desgosto de alguns. Acordo cedo amanhã mas a lembrança do chopp há duas semanas com o Fabio me ajudarão mais a dormir do que as minhocas tomando whisky...

A dor insiste. Toma conta desse seu pedaço de carne em movimento chamado coração. Minhas promessas de não sentir. Não chorar. Não desistir. Nem deixar. Isso tudo passa turbilhonando a cabeça num golpe duro de dentro pra fora. Voltei dirigindo do cinema ensurdecendo essasm conversas dentro de mim. Há muitos nomes para essa dor: moralismo, paranóia, minhocas e outros nomes menos complicados espalhados nas prateleiras dos nossos desafios.

Olho pra mim mesma naquele espelho turvo. E pela primeira vez vi outra imagem. Em Paris. Uma outra personagem. Dias atrás eu conversava com a Estelinha sobre personagens ... me dei conta de que o meu parece ser mais detestável do que o dela. Fico aqui rodeando o copo. Olhando as coisas em volta da minha almofada. Meu espaço contruído de dentro pra fora quase invadindo territórios proibidos. Há portas de armários nesse quarto que me trazem mais dor. Outras que me tiram daqui e me levam embora de mim. E as gavetas...Meu personagem foi construído nesse quarto. Durante alguns dias de leituras subversivas. Que me custam até hoje...

E ainda há quem diga que há construção aqui... e me perco nesses escombros de mim. deixados de lado por esse sentir que sufoca. E depois me joga. Que quebra um confiar no outro, na vida. Em si. E me sinto só... como se quisesse andar pelas ruas daquela cidade e ver a imagem de mim e dessa personagem neurótica, que não relaxa, que se exige, que se machuca, dançando no dia da música, acompanhada de seu personagem favorito. O amor.

Olho de novo para as portas dos armários. Me lembro de pequena quando, para dormir, fechava todas as portas dos guarda-roupas para o Monstro do Armário não me pegar. Engraçado como algumas fantasias ainda me assombram. E pior. Me pegaram. Desavisada. Ensimesmada. Só que hoje eu prometo não chorar mais.

Fiquei com saudade da Márcia, da Lúcia da escola, apesar da gente se ver todo dia. Senti falta do Vinícius. Max. Do Jedi - e de todas as risadas que ele traz. Do Pico, do meu afilhado... do Rogério. Do chopp com o Fábio que me mostrou essa personagem ali de Paris, do outro lado, bem diferente. Pensei muito nos meus irmãos. Em alguns alunos - e evidentemente no meu pai - que me subtraíam dessas personas de dentro.

De mim? Nem sei do que sentir falta aqui. Nem sei se há do que ter saudade. Me vejo caminhando ali longe. De costas... Fico pensando qual outro filme vai me trazer de volta. E me deixar de lembrança essa suavidade no peito. Enquanto isso eu fico aqui. Esperando a luz acender para eu poder ir...

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terça-feira, março 04, 2008

fronteiras

Há um mistério na fronteira do sonho com o real... quando ele transpõe essa fronteira e atinge você naquilo que tem de mais caro. Mais seu.

Quero silenciar esses sonhos de lá. Que me mostram quem já foi e o que fez. E que ainda me fere na alma. Me trespassa com aquela indiferença que sabe fazer tão bem. E que usa tão bem aquelas que passaram pela sua vida.

Quero deixar isso sair de mim. Esquecer e dormir um sono sem medo. Sem dor. Sem imagens , sem atos que doem. Que matam a gente por dentro. Quero silenciar esse grito e essa revolta aqui dentro. Quero matar isso antes que me corroa e me deixe só.

Há um lodo escuro que enoja, que distancia... que me cega e me afasta. E me faz mergulhar num sentir tão apertado. Vontade de sair por aí... libertando esse ar contaminante que me deixa respirando esse aperto. Essa dor. Esse amargo de não aceitar e não perdoar. Não entender. E me sentir tão mais só. Em mim. No meu pedestal - dizem - que abandona o coração.

Vontade de sair de barco e apagar cadernos e cadernos de mágoa... fazendo barquinhos pro mar. E deixar. Sem levar. E calar.

Ir pra dentro das fronteiras de mim sem deixar que a fúria dessa incerteza de sonhos e medos e pavor me tome. Quero ficar aqui, quietinha sem essa dor na alma. Apagar a memória de ver, de saber, sentir, ouvir... de duvidar.

Me esquecer nessas fronteiras de mim. Sem dono. Sem espaço e limite. Sem dor e lembrança. Na fantasia de poder continuar querendo. E viver isso sem temer o que não se sabe e fugir do que já se soube. E como dizer disso tudo sem revirar-me em dor? Em incompreensão e revolta?

Deixando de sonhar. E talvez nunca mais dormir. Perdendo a inocência colhida nos filmes de Hollywood, com beijo e trilha sonora. E ver que a luz do cinema não se acenda mais. E que esse filme seja longo, sem intervalos. Só a espera... E o silêncio da sala daqui de dentro se esvaziando... sem mais eu mesma pra me deixar doer... Cansaço...

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sexta-feira, fevereiro 22, 2008

2 e 2 são 3

Ontem quase meia noite e eu saía na pressa de chegar em casa ou ligar ao menos antes da virada do dia. Depois de uma janta à lá egípcia com as definições das leituras e caminhos do mestrado me dei conta que outros caminhos precisavam ser revividos na minha vida. Eu adoro celebrações. De todo tipo. Pequenos rituais que nos lembram que estamos além do trivial, do comum. E que nos fazem sentir especiais.


22 de fevereiro. 2005. Eram 6 meses juntos quando esse anelzinho dourado veio parar no meu dedo pra me lembrar que essas alianças só podem existir de verdade no espírito. Nem na mente. Nela não cabe. Me lembro bem do dia. Do dia anterior e do seguinte... Lembro do nervoso e do pré-combinado do Juliano com o povo lá de casa. Lembro bem da minha cara de paisagem quando ouvi o pedido, que era tão de dentro daquele coração. E do meu sim. Tão cheio de certezas também...

Lembro do filme todo, da sequência de imagens, dos sons, das texturas e gestos. O que eu não podia prever naquele dia era o mundo de descobertas de mim e do Nosso que estavam por vir... Definitivamente não. Engraçado como o baile de máscaras terminou em mim aos poucos pra dar lugar a uma valsa lentinha no meu coração. Apaixonada e num salão gigante. Só com a gente dançando. A orquestra afastada, pra deixar a gente se fungar e dar uns beijinhos marotos um no outro... e as cortinas balançando com o vento... Demorado. Eterno. Só da gente.

Outro dia o Juliano me perguntou - daquele jetinho dele - se eu expunha a nossa intimidade aqui. Demorei pra responder. Quase tive medo que sim. Mas mais que isso. Hoje, não sei ser a Thais sem ele na minha vida... Por certo que isso parece piegas... Não me importa.

Hoje o dia 22 de todo mês como todos os minutos 22, e horas, e toda sorte de coisas curiosas e - minimamente - misteriosas com esse número me dá a sensação de completude. Aqueles lembretes que o coração manda pra cabeça numa folha de postit enorme e brilhante.

Se eu escrevo sobre nós? Me pergunto hoje o que há de só meu. Semana passada, saindo de um casamento de amigos eu comentava sobre o papo da "comunhão parcial de bens"... Fiquei pensando sobre como era ritualizar uma união parcial. Não entendia. Lembro que no meio da explicação que ele me dava (aliás, ele adora explicar coisas pra mim... ) parou no trânsito, me olhou e riu. "O amor não pode ser pela metade né?". Isso. E por mais que outros tentem me convencer sobre as garantias da modernidade, sobre as incertezas do amanhã sobre o amor, o outro e tal... a cada dia, em mim, por mais que existam as incertezas do passado, eu não sei viver um amor parcelados, sem juros, correção, inflação, crises no câmbio, risco de sobretaxa e etc.

Eu disse isso a ele um dia antes da gente começar a namorar. Que eu não queria ser metade de mim com ele. Só que nunca imaginei a profundidade dessa - quase profética - sentença. A outra metade nem sempre é legal, compreensiva. Nem sempre perdoa. Minhoca. Discute. Implica. Cutuca. E é tão humana. Tão incerta. Tão em si. Cheia de medos. Fiquei pensando se isso não é comunhão total de bens, de más, de todas as coisas que de fato são minhas...

Uma vez o Geraldo me disse que a gente ganhava o pacote no casamento... é verdade... E que as coisas que saem dali podem ser surpreendentes. Ou muito previséveis. Tudo o que tenho aprendido nesses anos - quase 4 - juntos é que quanto mais eu me quero mais tenho que dar de mim. E tenho ganhado tantos presentes desse amor. Que fazem dor, luz, amar, crescer. E querer. Continuar. Deixar. Esperar. Sem saber. Sem querer. Dar. Receber. Fechar os olhos e ter a certeza de que tudo o de incerto e misterioso e belo ainda estão por vir. Tão certo como 2 e 2 são 3...

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quarta-feira, fevereiro 20, 2008

o castelo além-mar

Eu vi a menina do barquinho na semana passada. Tive a sensação, ao olhar pra ela ainda longe que as coisas estavam mal. Ela chorava na beira da praia. Compulsivamente. O barquinho tida ido embora. Pra longe dela. E as pessoas que ela tinha visto embarcar pareciam ter se afogado naquele choro interminável...

Ela me contou - virada de costas pra mim, cheia de timidez e vergonha do choro - que tinha visto e ouvido coisas muito tristes. Falou de um sonho de atravessar o oceano que tinha sido quase naufragado. Tinham dito coisas feias pra ela. Desse tipo de coisas que as pessoas inseguras dizem pra se defender, sabe? Acontece que com toda aquela sensibilidade ela tinha dado tanta importância pra isso... Me disse que depois de fazer a mala e separar um lenço vermelho bonito pra se despedir na hora da viagem... me contou que esperava muito - e há muito tempo - a hora de ir, de deixar as coisas todas pra trás e seguir um rumo que nem ela sabia direito qual era. Novos ares, novas gentes, paisagens e cheiros. Estava quase sorrindo quando falava desse momento de partida. Mas daí a pequena desabou em si de novo. Contou pra mim que não achavam que ela tinha condições de fazer aquilo. Mais ainda... que ela precisava parar de chorar e ficar se fazendo de coitadinha, afinal a vida era difícil mesmo.

Não tinha a menor idéia do que dizer pra ela. Peguei os seus dedinhos amarrados em si e pedi pra ela desenhar na areia. Ela me contou de um outro dia em que ela fazia um castelo bacana na areia. Nada sofisticado. Um castelinho que cabia muitas pessoas nobres, reis, rainhas, princesas e príncipes encantados. As pessoas eram bem felizes ali no castelo, tinha festa todo o dia e ela gostava de dançar ao som da música que os instrumentos brincavam. Perguntei onde ficava esse castelo. Ela me respondeu que era ali bem pertinho do porto de onde os barcos partiam pro outro lado do Oceano. Mas ela também não tinha estado lá de verdade. Só ouvia a música e ouvia as pessoas que chegavam de lá contando como era legal e bonita aquela festa. Ela sempre quis participar e receber um convite de honra do rei pra poder valsar e brincar como todos aqueles que retornavam.

Foi aí que ela contou que não queriam que ela fosse também pra lá. Ou se queriam, não fizeram muita coisa pra que ela pudesse participar. Sabe como é... as pessoas até querem que vocÊ faça as coisas, querem te ver feliz. Mas parece que essa felicidade é um castelo tão suntuoso que dá mais trabalho ainda de ir visitar. No caso da menina não. Ela repetidamente me dizia que o castelo que ela sonhava - de tanto ouvir falar - era grande, mas as paredes eram feitas de pedrinhas de riso. Isso mesmo. O chão era pintado com carinho e amizade e não existia teto. Nem porta. Cabia todo mundo ali.

Disse que um moço explicou a ela todas as dificuldades de visitar o castelo e fazer parte da festa. Ele disse tantas coisas que ela desanimou. Chorava dizendo que o castelo estava se perdendo em caminhos os quais os mapas e as cartas náuticas antigas não mostravam... Esse rapaz ainda fez toda uma projeção de gastos sobre a viagem dela até lá. Parecia tão difícil. Um dia, quando ela estava fazendo esse castelo na areia e seguindo todas as instruções mentais que o moço tinha dado - quase como fazendo contade cabeça em voz alta - veio uma onda muito forte e dele sobrou uma torre de observação quase desmoronada...

Ela me disse que não queria mais falar disso com ninguém. Que o castelo parecia ficar mais longe e ela mais distante ainda das pessoas legais que frequentavam aquelas festas alegres e coloridas. Perguntei se ela tinha desistido. Ela disse que por enquanto ela só conseguia chorar. Se sentia sozinha porque as pessoas não entendiam como ela ia chegar ao castelo desse jeito. Desse jeito dela. E diziam coisas comuns do tipo "vai dar certo", ou ainda "não se preocupe que se não for agora, vai ser depois". Essas frases vazias de quem não sabe como acolher um coraçãozinho apertado. Foi bom ela ter dito porque eu quase disse a primeira frase...

Engraçado que nessa hora ela me olhou nos olhos. Deu uma risadinha de canto de boca. Apareceram duas covinhas perto dos lábios... Ela era tão bonitinha! Fiquei sem graça com aquela espontaneidade. Eu sempre gostava de conversar com ela justamente por isso. Ela me dizia coisas que eu gostava de aprender e sentir. Levava pra casa no peito por semanas...
Silenciei. Era pôr-do-sol naquele mar azul-prata-esverdeado-que-nem-os-olhos-chorões-dela... Segurei a mãozinha pequena, cheia de areia nos dedos. Passavam umas pessoas apressadas na beira do mar. A gente ouvia os sons dos passarinhos e os roncos de outros barquinhos que deportavam dali. Perguntei se ela estava melhor. "Você sabe de alguém que possa falar com o meu coração?" Travei... E ficamos ali nos olhando mais um pouquinho até o sol baixar de vez e a lua surgir no outro canto do céu.

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outros eclipses

Estive ontem na casa do Jedi, depois de muitos meses sem nos vermos. Ele ainda mora na república Taleban, com os mancebos Du, Igor, Leo. Acho ainda que é o último remanescente da velha convivência da faculdade que eu encontro. Fui lá me refugiar nesses dias de quase sufoco (de)em mim mesma. São tantas imagens, informações de um passado que eu não posso mudar, nem acessar mais. Quem sabe imaginar... mas de fato ainda não sei deixá-lo ir.

Acho que fui em busca do Jedi porque a gente tem uma dinâmica de afastamento muito parecida. É aquele amigo que, mesmo depois de anos sem ver, é como se eu acabasse de sair do boteco, deixando a vida levar. Na semana passada eu tinha ligado pra uma outra pessoa atrás de "colo". Nada. Doeu miúdo aqui dentro. Um sentimento de que eu perdi, ou melhor, estou perdendo há tempos essa coisa bonita e misteriosa da amizade... Nunca achei que eu ia viver coisas no gerúndio. Muito menos a perda. Não dessa forma.

Eu nem sei exatamente o que eu fui buscar ali. Abraço, saudade, cumplicidade, risadas ou mesmo o resgate do meu lado nerd feliz. Não sei. Sei que saí de lá com vontade de escrever. Não sei o que, ou mesmo como isso aqui vai terminar. Mas tinha uma busca da Srta T que ia além dos olhos...

Quando eu estacionei o carro o João já vinha descendo e abrindo a porta... Como de costume a gente deu aquelas risadas gostosas... E eu desmontei chorando ali... Tanta coisa passou naquele choro, imagens, desapegos, decepções, sonhos desmontados, perdas e todas essas coisas que a gente não sabe traduzir mas que espremem a alma da gente...

Foi uma conversa gostosa com os meninos. A gente comeu pizza, tomou coca-cola e bebericou todas as histórias divertidas da nossa turma. Fazem 11 anos que a gente se conhece... eu ia aos poucos respirando aqui dentro e percebendo os caminhos que todo mundo tinha tomado. Quase igual ao poster dos Beatles que eu dei pro Jedi de aniversário... De vez em quando um carinho gostoso no pé e uma piadinha marota sobre o lacinho da minha sandália verde...

Quando eu finalmente resolvi ir embora a gente se sentou na porta da casa. Sabe aquela coisas de adolescente que quer conversar longe dos pais pra conversa não ser ouvida? Isso. Ficamos ali mais de 40 minutos tentando dar conta de toda a avalanche de mistérios que tomavam conta da gente nos últimos meses. Os medos, as descobertas, as revelações da gente, dos outros, dos amores, das decepções e dos desencantamentos do mundo que levavam a gente de volta pra dentro e depois pra fora. Não conseguia chorar ali. Só dizer da dor. Fiquei quieta. Escutei ele contar. A gente riu. Outro carinho no pé e um abraço desajeitado. conselhos e conselhos... cumplicidade dessas que a distância não precisa apagar. E as lembranças da escadaria do Teatro Municipal. Já são quase 5 anos...

Saí de lá mais leve e tomei o rumo de casa com essa sensação de não estar sozinha como muitas vezes eu penso - ou sinto - estar. Liguei pra casa. Nada novo. Uma conversa rápida por causa de um programa interessante na TV. Segui o caminho com as minhas minhocas no banco da frente. (O Jedi disse que elas tinham uma função bonita na minha vida... ainda não descobri qual é...) Entrei no supermercado, olhei aquele monte de prateleiras e procurei alguma coisas anti-tristeza... Nada. O supermercado é mais triste ainda. Cheguei em casa com o Juliano saracuteando beijos e amores e toda sorte de coisas de um sujeito feliz e apaixonado. Escutei ele falar. Do programa, do dia, das coisas todas que se passam ali com ele... E não tive vontade de dizer nada. Só de ficar com esse aperto no peito e deixar as minhocas cavarem mais aqui dentro, esperando encontrar sei lá bem o que...

E João! Olha só... que bom que a gente não se perde um pro outro, hein? Saudades cultivadas no coração...

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quarta-feira, janeiro 16, 2008

o tempo

Nem me atreveria a falar sobre isso de forma inteligente. O que me resta é falar e sentir esse mistério que não sei mais se é criação nossa ou dos deuses, seja lá qual nossa criação sobre isso também...

Há conversas de tempos. e que até nem levam tanto tempo. Doem, e continuam doendo com o tempo. Fico me perguntando se isso é assim mesmo. Ou se eu levo tempo demais pra processar esse monte de sentir em mim. Ou se é apenas o meu apego ao tempo que as faz durar tanto aqui dentro. Há outras conversas que levam mais tempo. Um tempo semi braudeliano que ultrapassa a minha sensação de pseudo-controle do tempo. Há outros tempo para conversar mais. Menos. Há tempos pra silenciar. Esperar. Deixar aquilo fazer ou perder o sentido. Para sempre. Sempre?

Há pessoas que não deixam o tempo passar. Outras o trapaceiam. Há aquelas que fazem do tempo seu meu melhor amigo, inimigo, amante, marido, mulher, filho. Familiam todo ele. e ainda assim ele passa por você, poroso ou não. Há quem o jogue fora. Embora eu sinta que ele é esperto demais pra isso. Vem cobrar o tempo que foi deixado.

Há aquelas pessoas que envelhecem de dentro pra fora. E outras nascem já velhas. Outras se rejuvenescem e de todos os modos. Deixando espaço para essas lendas infantis e (certamente) quase adultas da fonte da juventude...

Há uma dimensão em mim de tempo profundo, escuro. Quase como o irmão mais velho, o Destino. Cego, mas paciente. Há outro tempo mais jovem, serelepeando e golpeando a minha ansiedade. Delírio e Desejo. Há um primo, que prefiro que fique longe. O desespero. Pelo tempo. E a morte. Que tempo?

Ontem recebi a visita de alguns ex-alunos e me dei conta de um apego meu a um tempo. Que nem sei se é tão apegado assim. Mas nunca é quieto. Me lembro de ver num filme (romântico, evidentemente) a cena em que o homem, muitos anos depois, e separado da amada, se perguntava porque a pessoa amada parece nunca envelhecer? Fiquei com isso essa noite. Virei e desvirei. Pra talvez me dar conta que o tempo não envelhece. Mas pode caminhar de mão dada...

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segunda-feira, janeiro 14, 2008

que esse ano seja...


This could be heaven
This could be heaven
This could be heaven for everyone

In these days of cool reflection
You come to me and everything seems alright
In these days of cold affections
You sit by me - and everything's fine

This could be heaven for everyone
This world could be fed, this world could be fun
This could be heaven for everyone
This world could be free, this world could be one

In this world of cool deception
Just your smile can smooth my ride
These troubled days of cruel rejection, hmm
You come to me, soothe my troubled mind

Yeah, this could be heaven for everyone
This world could be fed, this world could be fun
This should be love for everyone, yeah
This world should be free, this world could be one
We should bring love to our daughters and sons
Love, love, love, this could be heaven for everyone

You know that
This could be heaven for everyone
This could be heaven for everyone

Listen - what people do to other souls
They take their lives - destroy their goals
Their basic pride and dignity
Is stripped and torn and shown no pity
When this should be heaven for everyone

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sexta-feira, janeiro 11, 2008

ritos repetidos mitos

Havia um mistério naqueles mergulhos de dezembro... Desses que fazem a gente se perguntar onde começa o mar e onde termina o céu...

E essa menina que mergulhava demais de dentro e mais pra dentro botou os dedinhos na beira da praia. Fincava os dedões rechonhudos na areia fazendo pequenas bolinhas - almôndegas esmagadas de areia. O céu estava naquele azulado feliz do verão. Algumas nuvens se espreguiçavam em cima do mar, pousando para os mais distraídos na paisagem.

Não havia barulho ali. Nem mesmo as pessoas ao redor deixavam o silêncio acordar. Havia uma quietude que ela buscava e que só o mar podia dar. Oferecer, na verdade. Essas quietudes nunca são dadas. Nada é dado. E foi justamente nesse cenário que os mitos, repetidos se materializaram. Um jeito só dela de deixar as coisas passarem. Normalmente nos finais de ano ela ficava bastante tristonha. Esse apego que se tem à vida - quase adolescente - de não querer que a vida passe. De tão boa? De medo do que está na esquina? hm...

Eram pequenos barquinhos de pedidos perdidos no tempo, nas ondas. Eles se prometiam coisas. O azul, o laranja e o violeta como testemunhas desses sonhos de amanhã. Era difícil de ver o alcance dessas promessas. Nem eles mesmos se deram conta. Um horizonte de sol preguiçoso, pronto a se deitar. E deixar os namorados debaixo d'água, num beijo mergulho de despedida. Ela tinha tanto medo de deixar aquele barquinho atravessar o oceano. Mal podia ver as profundezas de si mesma. Do outro. E tudo o que lhe restava era o desapego inconsequente. Deixar(-se) ir. E se foi... num subir, mergulhar pra lugar nenhum...

Havia histórias naquela embarcação... Só dela. E tudo o que se podia fazer era beijar os lábios molhados do oceano naquela despedida eterna de si mesma. São ritos passados, necessários. desajeitos... E por mais que se queira acompanhar as trajetórias incertas das ondas, tudo o que ela tinha ali era a esperança de que os pedidos - dela e do seu amor - chegassem num porto sei lá de onde e fosse lido e atendido sei lá por quem... Deixara-se... Perdera-se... Tomara...

E de novo, o ano, novo, começava com essas esperanças de menina reacendendo dentro dela. Motivando um respiro longo pra outro mergulho que ela sairia nem sei bem onde. Tantos mistérios nesse mar... e tantos desejos a deixar... Via os sorrisos dos dois ali, naqueles beijinhos e abraços e sussurros semi-escondidos pelo sol, nos seus raios que se deitavam nas almofadas do mar... se espreguiçando para só acordar no ano seguinte. E parecia tão longe...

Ontem eu a vi num fim de tarde chuvoso na praça pôr-do-sol. Algumas coisas aniversariavam dentro dela. E a sua celebração era silenciada por aquele fim de dia nublado. Só dela. Nos olhamos meio tímidas pela estranheza do encontro e nos reconhecemos. Lembranças de um 31 de dezembro na beira da praia. Nos lembramos do amor. Das promessas de menina e dos sonhos de eterno apaixonar-se. Não o vimos ontem na praça... Ocupado com o trabalho certamente. Mas me lembrei bem do remetente do barquinho... Ali, na esquina do teu coração. Cheio de saudade. Quis voltar pra casa. E debaixo daquela chuva nos despedimos, até o próximo 31 de dezembro. Ou num dos portos de si mesma...

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quarta-feira, novembro 21, 2007

conversando com meus botões ... e as botas

É engraçado como a nossa memória é seletiva... de certo modo escolhendouma trilha sonora que a gente coloca pra sublinhar algumas coisas além do que a gente entende... Pois como eu digo o mar sempre me revela coisas pra além do que eu penso entender. Ou mesmo alcanço...

Depois de uma conversa séria com os pés descalços... num rito meu de caminhar pela beira da praia e pedir aos deuses dali e daqui que me mandem um sinal... de qualquer coisa que espero poder - decifrar...

Um sofá só nosso... e um silêncio cheio de mistérios de coração sentido e (des)apertando o peito. Aquele horizonte e um suspiro do passado... "Essa é uma das músicas que eu ouvia quando pensava em você e sentia a tua falta demais..."

E fiquei ali, com o horizonte, 4 minutos que foram eternos ontem, há mais de 3 anos... e continuam aqui dentro de mim... Hoje me dei conta que abri as cortinas... deixando o vento suave soprar aquelas feridas ainda tão quentes dentro de mim...

Deixei chegar o sonho, vivo o amor de tantas vidas, sem ter fim. Sendo esse continuando. Cansada de nossa fuga, da minha fugida, das minhas desculpas. Do medo de ter que decidir. De ter que sentir. Cansei de correr de mim. Deixei me pegar. E peguei você pedindo pra eu abrir a janela... e deixando esse sol me ver, e sentir que o amor é mesmo tão maior. O amor já desvendou de fato o nosso lugar. E gosto de procurá-lo junto de ti... Onde mesmo? Onde a estrela cair...


- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- a gente só queria o amor...
- Deus parece às vezes se esquecer
- ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar
- Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder...
- E se amar, se amar até o fim
- sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
e agora esta de bem

Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar

Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além. Vão dizer
que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
vai cair

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terça-feira, novembro 06, 2007

Pessoas, Pessoa!



Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.


Ainda não cheguei perto de me ignorar... Mas há um mistério desse sentir e pensar todo que está no amar. Se deixa de ignorar. De disputar você em você mesmo.

Ontem fiquei surpreendida depois de tantos e tantos pensares, sentires, quereres, desistires, retomares e deixares... olhei ali, naquela linha do tempo cheia de imagens minhas, emprestadas, dele, de outros, de tantos. E deixei corajosamente os meus olhos se fecharem nesse repouso do voltar pra casa e saber de onde vem essa disputa do teu peito com a tua cabeça. Onde você ficou mesmo agora? Onde foi mesmo que te encontrei? E onde e como me tiraste dali? Me sinto aquela Emília cantando Queen e assistindo TV com meu pai... Pousei a Enterprise num planeta em que meus equipamentos não funcionam. Meu leme não responde. E tudo o que antevejo é seu? Nosso?

ninguém responde nos outros mundos? Ou será que eu esqueci de ligar os comunicadores? E você? Em que mundo me deixei? ignoro ainda... e caminho sentindo...

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quinta-feira, outubro 18, 2007

Quase lua cheia...

E eu me vejo mais uma vez mergulhando nessa quase pelnitude de sentires. Fico me perguntando se é sempre assim... intensamente que se deve viver e conviver. Intensamente é demais pra mim. Me deixa assombrada pela sensação de que só eu, somente, só, sinta sozinha. E fique nesse monologar de pedir, sinalizar, esperar, compreender.

Voltando pra casa me lembrei do meu pai falando que amar é doar-se. Creio que seja também doer(-se). Bendita letra que aprofunda os punhais de significação aqui dentro de mim... Não consegui pensar em nada. Só sentir. Tenho saudades de conversar mais com os meus amigos. Eles também andam tão ocupados. E eu aqui, mergulhando nas crateras da lua à medida que elas aparecem... e nublada com a perspectiva que a chuva não cesse, nem o sol apareça nos próximos 22 dias, e talvez nos próximos 2...qualquer coisa.

Cuidei pra preservar isso que há de bonito em mim, alguns dizem. Mas é preciso ser mesmo assim tão sensível Srta T? Afinal, por que se é assim? Não creio que aceitar seja bom... nem garantir que algumas mudanças sejam - em mim - satisfatórias a ponto de esperar mais. Fico buscando o caminho aqui dentro. E me lembro do porto ... onde foi que deixei os meus barquinhos? Tem havido vento demais. E de direções diferentes aqui dentro. Não há mar calmo. E as ondas parecem ser mais cíclicas de dentro pra fora do que o contrário. O mar revolto(-me) em silêncio. Por que mesmo? Será que doar-se tem que doer tanto? Ou é o meu egoísmo me deixando... Nunca gostei de despedidas. Despedir-se de si mesmo é ainda mais difícil... Vontade de aportar. Ver o pôr-do-sol. E sentir a brisa dando esses beijinhos no coração. E nem sentir mais nada...

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terça-feira, outubro 16, 2007

Lembrando do Caio Fernando... EU ODEIO com maiúsculas...

Há uma lista (enorme segundo o Juliano) de coisas que eu ODEIO. Nem sei se são tantas assim, mas de fato as enxaquecas são uma delas. Ontem tiver que parar o carro num posto de gasolina antes que batesse no farol. Não conseguia enxergar mais os carros e cometi o erro de me apressar em chegar em casa. Demorei pra poder dormir, apesar de ficar sonequinha, por conta da dor. No meio daquela tocação de sinos dentro do meu crânio, fiquei pensando - é, isso mesmo, a gente pensa mais com a dor... - no que ela nos mobiliza.

Essa sensação de vulnerabilidade. De não ter - de fato - controle sobre o corpo. Desmaiei chegando em casa. Não é figura de linguagem. Caí mesmo. E me recordei dos escritos do Caio sobre a doença. É muito doido você não controlar você mesmo. E confesso que isso me apavora. Não controlar nada na minha vida de fato me deixa - quase sempre - em pânico. Sempre foi assim. Me fragiliza a idéia que as coisas acontecem independentemente de mim - e me encanta ao mesmo tempo.

Fui embalada por um carinho só meu, só do Nosso. Desses que te fazem acreditar em contos de fada. E perceber as fadas saltitando à sua volta. Fui dormir com a história das fadas, também do Caio. E sem despertar desse sonhar acordada sinto aquela presença misteriosa comigo... dele. E quase me esqueci da dor...

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quinta-feira, outubro 11, 2007

Há algum tempo eu venho refletindo sobre a imagem do post anterior. Ela me tocou tanto que nem pude escrever... Tenho pensado onde estão meus portos. Dentro, fora... em lugar algum...

Certa vez, conversando com o Nelsinho ficamos falando sobre essa sensação de ser - em alguns momentos - espectador de si mesmo... Ele se via à beira de um penhasco, vendo o pôr do sol. As montanhas eram altas, mas a vista alcançava longe... Puro verdo misturado ao lilás e laranja do disco se despedindo. Lembro bem dessa imagem descrita por ele. O meu penhasco tem o mar à frente. E um horizonte mais longíncuo, interminável e inalcançável... O mar se mistura com o céu, que se mistura com aquele monte de cores sutis, delineadas pelas nuvens. E nessa imagem eu não via nenhum porto. Nada. Só sentia o vento, forte, e o cheiro do mar me cortando por dentro.

Numa outra conversa com o Vinícius falávamos da imagem poética do Pearl Harbor. Esse mesmo do filme. O nome é lindo. O restante, construção. Destruição. Não importa. Falávamos sobre como algumas amizades são esses portos da gente. Semana passada, depois de muito tempo, me senti só. E não é essa solidão de estar com alguém. Fico imaginando que, se por acaso o Juliano lesse isso talvez ficasse chateado. Não se trata dele. De estar num relacionamento seja ele qual for. Me senti só. Tendo que realizar, permanecer, fortalecer tantas coisas e pessoas aqui fora. Há um tempo que venho sentindo no corpo esse desmoronar de forças. Engraçado que o Vinícius sempre diz que eu sou muito forte. Onde eu coloquei a minha sensibilidade - travestida em fragilidade?

Olhei a imagem de novo agora há pouco. E uma vontade de mergulhar nessa água. Nadar tem me feito muito bem. É instrospecção dentro e pra dentro... Pra fora de mim, o ar. E as coisas todas que as braçadas deixam pra trás. Penso muito na piscina. É diferente do ballet quando eu prestava atenção no corpo todo e me enfiava pra dentro da música. E o silêncio acontecia dentro de mim... Na água é exatamente o oposto... Mergulho cada vez mais para o meu barulho tumultuante. Fico com a sensação que eu procuro alguma coisa ali debaixo d´água... e quando saio dali, os portos ainda não apareceram.

Há tanta coisa acontecendo aqui dentro... tenho sentido falta dos amigos, desses mais testemunhas de mim. Saudade de carinho de pai e de uma despreocupação com o dia seguinte... Chorei muito nesses dias e nem consigo dizer bem porque. Dor? Não sei... acho que é essa solidão que caminha sozinha aqui dentro.

Durante a semana tenho ficado em casa. Estou sem aulas na escola e curtir esse meu "solo sagrado" tem sido reconfortante. Saí de casa alguns dias para andar pela cidade. De ônibus e a pé. Fui na Santa Efigênia. Na 25 de março e esses lugares barulhentos e cheios de coisas incríveis. Me senti como o Geertz em seu trabalho com a briga de galos. Tanta desolação e potencial criativo. Olhava as pessoas trabalando naquele mercado persa e me perguntava o que elas faziam dentro delas. Eu sempre me pergunto o que faço com as coisas que eu sinto. E nunca chego a uma resposta convicente. Juliano me diz que eu não preciso comunicar os sentimentos. Só sentir. Eu só sinto comunicando. Não sei sentir só. Ou esse sentir-se só é porque não se comunica?


E ontem, pela primeira vez depois de muito tempo acho que consegui sentir no corpo todo a epifania do gerar. Vou ser madrinha do filho do Pico. Pedro. É o meu primeiro afilhado e esse convite me despertou uma luz aqui dentro... Uma vontade de aportar. Esperar os navios chegarem, outros irem... e qual porto que eu procuro mesmo? Esse que me permita ver o pôr do sol... em silêncio...

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sábado, outubro 06, 2007

aportando em mim... ou fora de mim?

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terça-feira, setembro 25, 2007

Conversar. É engraçado como alguns assuntos voltam. Outros nunca saem. Pelo menos por um tempo. Essa sensação de permanência de um assunto em mim é assustadora. Ele hiberna, acorda faminto, devora, se cansa e volta a cochilar.

Domingo à noite... Quase na hora de tomar banho e a dor voltou arrebentando por dentro. Me fantasmagorizando o sentir. O perceber. A volta do avião parecia antecipar isso aqui dentro. Olhava aquela luzinhas de cima e ficava pensando quantos sentires estavam ali embaixo anônimos. Sinto às vezes que queria contar uma história da Srta T bem fictícia. Dessas de livros e filmes com final feliz. Me dou conta que os escritores ao fazerem isso - e filmarem isso também - nos deixam raspinhas de esperança. A nossa história nunca é do jeito que a gente quer. É do jeito que pode ser. E nesse ir e vir de dentro e de fora eu olho as luzes de casa e me angustio. Quero sair. Deixar. Sumir. E vejo que o que tenho aqui, nas mãos, ao alcance, é o que pode, é o querer ser e ter. Fiquei me lembrando enquanto escutava histórias tristíssimas de personagens vazios, frustrados, solitários e carentes, do Vinícius. Ele me dizia sempre - em resposta a uma frase minha "as pessoas só dão o que podem dar" - que a gente dá o que quer dar de si. E se esse querer dar for maior de fato que você, você se desdobra. E é.

Passei o dia ontem com essa dor no peito. E eu choro sempre quando ela vem. Fico pensando porque a gente conhece determinadas pessoas em momentos quase "ao acaso". E que se fosse assim tão "despropositadamente" por certo estaria longe daqui. Se eu tivesse visto mais de perto as histórias que ouço - teria ido. Nunca ficado. Se tivesse sentido essa dor antes, teria abandonado. Fragilidade talvez. Mas penso que é covardia.

É louco como manipular o sentir do outro pode ser a única coisa que te resta a fazer. Solidão. E foi terrível perceber que personagens podem ser mortos, deixados, recriados, manipulados. E o que somos de fato dá tanto trabalho pra mexer, que prefeirmos deixar isso a cargo dos personagens. Mais cômodo. Dói menos.

E o mágico do viver, do amar, do doar-se pra fora de si, pular o trampolim da nossa (estúpida)auto-estima metida a besta (na verdade a gente atira a bacaninha na piscina com ferros, se afoga) está no desvelar-se. Eu sempre contemplo demais os que falam comigo. É mais do que olhar. Há um universo em movimento naqueles gestos, nas pausas de respirar, nos olhos e no tom de voz. Senti medo. Pena. Nojo. E quis me esquecer dessas histórias que se contam para os outros. Que se vivem com e para os outros. Que se montam e fantasiam para os outros. Será? Os personagens somem mesmo? Ou só voltam pra habitar as fantasias dos outros que (quase) se depararam com eles... Apaguei a luz do palco. E acendi o camarim. Só pra eu entrar. Só pra mim.

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segunda-feira, setembro 24, 2007

o Rio de Janeiro continua lindo...

Fui ao RJ nesse fim de semana depois de uma semana ensandecida... Mar é terapia. Necessária.

Fui ficar com o Juliano depois de uma semana enlouquecida pra nós dois. Fiquei pensando num aspecto do casamento que é "estar junto". A expressão exige mais do que simplesmente estar... não é passivo assim... Ficamos pra cima e pra baixo na bienal sábado e somente ontem dei uma chegadinha nas areias do mar... adoro sentir as ondinhas batendo nos dedos dos pés e fazer pegadas deformadas com as mãos, pés e outras coisinhas de criança que a gente faz.

Mas o que eu queria registrar aqui não é a bienal. Aquilo é uma disneylânida pra babadores de livros! dá desespero quando você se dá conta que por mais que queira, se esforce, não vai ler tudo o que quer no tempo que tem...

Cheguei no RJ por volta das 6 da manhã de sábado. Chovia um pouquinho... uma brisa gosotosa e aquela cidade esquisitamente linda e destruída. A primeira coisa que fiz foi me acomodar no "FRESSSCÃO" e ligar o palm pra ouvir um pouquinho de música. Sempre me lembro - e já devo ter dito - de uma frase de Michel Kamen, compositor de trilha sonoras de filmes... ele diz que a trilha serve para "sublinhar uma emoção". Nunca achei tão acertado esse comentário. É verdade. Fiquei observando a cidade e as emoções sublinhadas pela música, pelo cenário.

O Rio sempre me comove. O excesso de contradições, da paisagem, da pobreza, do ontem e do hoje, do lixo e do luxo pra lembrar do Joãozinho... Enfim. Mas sempre me traz pra dentro de mim. Esses dias o Juliano ria de mim por eu ser tão "idiossincrática". Ora, naturalmente...

Cheguei cedo demais e o Lucas me esperava pra tomar café da manhã. Eu sempre gostei de café da manhã. Mais que qualquer outra refeição dia. Ela ritualiza o meu começar - acordo normalmente meia hora mais cedo do que precisaria pra comer em paz... E faço minhas preces de mim mesma, como vai ser o dia, como quero que seja, o que preciso fazer, o que preciso desencanar. E deixar rolar. É um rito de passagem necessário - como imergir no mundo.

Ele me esperava no apartamento dele. É um ap pequeno, simples, mas com uma energia bem especial - de primo querido mesmo - e ficamos ali falando da vida, do ontem, do hoje, do Caio que nasceu. Enquanto eu comia - e comia muito - prestava atenção nessa maturidade que a paternidade trouze dele. É um homem bonito, amoroso, inteiro em si mesmo. E falava do filho de um jeito que comoveria qualquer um. É mais que orgulho. É um deixar-se viver pelo outro. Não é se projetar no outro. É doar-se.

Ele nem se dá conta de como eu o observo, sinto. Pressinto. Falei do meu normal, do meu dia-a-dia. Das coisas que se transformam, que morrem e nascem dentro de mim. Do trabalho, do casamento. Eu sempre fico meio contemplativa quando olho as pessoas da minha família. Elas moram todas longe de mim. No Rio, Porto Alegre... dá saudades.

Depois me deu um sono profundo em que eu não vi nem o Lucas sair nem o Juliano chegar. É gostoso ser despertada por um bombardeio de beijos e fungadas. Gostoso ter a sensação de que apesar de toda a minha idiossincrática experiência carioca, me sinto parte de alguma coisa ali... talvez do fundo do (a)mar.

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