Faz tempo. E tenho escrito dentro de mim. Ninguém, de fato, sabe do que se passa aqui dentro.
Nunca achei que demoraria mais tanto tempo pra escrever, mas o interessante quando se silencia é a chance de escolher o que se quer expressar. Ou deixar pra que se perceba por si.
Sexta-feira, Junho 26, 2009
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Srta T
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Segunda-feira, Maio 04, 2009
a santa tempestade
Passou. Mais um mês de loucuras... trabalho, trabalho. E eu volto sempre pra ele. O Nosso. E fico. E sou. E desmancho...
Passou. E resolvi me largar naqueles braços cheios de nós. Da gente. E fiquei ali o feriado inteiro curtindo o meu amor. Silêncios de um eu que não sabe expressar essa coisa estranha chamada incongruência. Parei nas marquises das minhas (sujas) questões, com minhocas e dores. De um ontem que de fato não me pertence. Não assisti a minha festa de inauguração naquele coração. A festa era pra mim. Mas eu não vi. Parecia tão óbvio. Mas eu não vejo ainda. Pergunto se havia convidados. Não. Se havia gente sabendo, olhando e bisbilhotando. Mas não. Era pra mim. Só pra mim. E eu não consegui ver. Ainda. E não era pra ver nada... não era um rito de passagem pra mim. Mas pra ele. Pra mim, gerúndios. E pra nós eternidades desencaixadas da razão.
Fico dias tentando achar convites, testemunhos concretos de uma coisa tão etérea quanto a alma que sente. Não vejo. Me sinto criança esperando presentes na chaminé. Acordo com eles ao meu lado, mas não sei - e nunca vi - quem os trouxe.
Fui ao show do Marcelo Camelo. Virada Cultural depois de dias assombrada numa loucura de trabalhos. Tão longe de mim. E foi especial... no meio daquela multidão. Me perdi dos amigos. De todos. Nada de mensagens, pessoas conhecidas. E amassada no meio daquela gente desconhecida, me espichando pra ver o show de longe...olhei a cidade tomada de gente. De barulhos, bêbados, amantes loucos e nós. Só nós ali no meio. Parecia que a turba toda silenciava conforme a música ia passando, por dentro de mim. O corpo todo musicava... e eu ficava ali. Enroscada naqueles braços que me apertavam, me puxavam pra perto e ouvia aqueles sussurros de "eu te amo". Bastava.
E achei graça desse meu estado de menina. Tanta gente e só a gente. Só. E a minha solidão se deixou. E ficou só. Apertei ele forte. Pra ter certeza que era aquilo mesmo. E descobrindo devagar esse sentir etéreo, silencioso. E acho graça de mim querendo explicar e traduzir. Pena. O amor tem um mistério em não comunicar. Tem que se sentir, se ter. E deixar ali... num cultivo cheio de silêncios e sacralidades. Intransponíveis. Mudas.
Suturei a minha cicatriz. Ela insiste em abrir e essas doçuras só nossas voltam a fechar. Nunca entendi. E não vou. É tão distante de mim aquele caminho. Aquele outro que não (re)conheço. Nem sei de onde ele vem, quem passou ali, quem ficou, o que ele deixou, ou esqueceu. Não sei que rezas ele fez... Não o vejo todos os dias. Nem sei a sua voz. A sua maneira de olhar, tocar. Não sei. Nunca o conheci eu creio. E sei. As outras. Ah, elas tiveram eu creio, o todas o mesmo... Cheio dos medos, daquilo que há de incerto, inseguro, insuportável e insolúvel. Mas isso não é pra mim. Nunca foi meu. Nada disso. E é estranho como pessoas tão opostas em si, distantes de si, podem ter convivido no mesmo corpo. E eu nunca vi esse outro corpo. Talvez nem ali, naquela festa da Tereza quando eu o vi pela primeira vez. Já era outro. Pra mim. Como eu era outra. Pra ele. Dele. E num encontro nada casual dessa coisa enredada da vida... a gente já foi outro pro outro. E como ele me disse um dia, acho que tudo que a gente deveria ter visto sobre nós, naquele dia, não vimos. Soubemos.
E meu privilégio fica aqui em mim. Tão meu. Egoisticamente. Nos silêncios e risadas do Nosso. Nessa chuva. Num amor que não morre. Transmuta. Cresce. E explode quietinho aqui dentro de mim. E eu o vejo, todos os dias, reconheço e amo, e cresço. E sofro me deixando molhar nessa tempestade sem fim, que me faz abandonar o mais sujo e feio de mim. Eu o vejo ali, enxarcado numa entrega que me admira e assombra. E eu vou, fecho os olhos naquela multidão e me entrego nesses abraços e sussurros apertados, cheios de música que a gente entende, e canta. Sem ninguém entender. Meu coração vai se entregar a tempestade... e a minha resistência é tola. Infantil. Vejo-o tendo deixado tanto do que foi pra ser agora. E eu ainda amarro os fantasmas por mim. A chuva passou por mim. E ele cuidou de secar... com um carinho desapegado.
E eu ainda não aprendo. Não sei. Me sinto ignorante nesse molhar de amar. Não me enxarquei por medo de me afogar. E só sinto. Essas super novas me apresentando ao mundo. Me mostrando a festa que vive em nós. Que se inaugura todos os dias. Nos momentos mais quietos do mundo. Não há câmeras, nem janelas no salão. Ninguém viu. Nem eu. Mas entrei ali com os olhos fechados. Segurando a mão dele. Pra sentir. Viver. Dançar. E ficar. Sem entender. Sem razão que possa desencantar a festa. Nunca dá meia noite. Nunca se quebram os feitiços. Só não vejo. E daí - talvez - essa sensação... de um torpor. De uma coisa de se tornar moça. E deixar meninices de canto. De deixar uma imensidão do invisível tomar conta de ti. Enxarcada, aprendendo a rezar.
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Srta T
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Terça-feira, Abril 21, 2009
De novo a questão do tempo... tenho me sentido tão apressada, com mil atividades ao mesmo tempo, agora, pra ontem. Respiro sufocada. E ainda rio de mim querendo controlar essas coisas.
Passei a maior parte do feriado trabalhando. Em casa. E ficar em casa tem algumas compensações únicas. Meu cantinho, seguro, amoroso. Com o nosso cheiro, gosto. O Nosso aqui. E fiquei olhando as coisas de novo pensando em como a correria me atira mais ainda pra dentro de mim. De casa. Da gente.
Senti saudade de ficar lagarteando. E não tenho feito mais isso. Descobri esses dias a magia de ficar - em casa - jogando video game. Isso mesmo. Me arrumaram um jogo do Star Wars pelo computador e deixei meu lado de agente secreto/membro da rebelião frustrado se expandir. "Não tenho coragem de jogar com o Império", eu dizia ao Thomas. E me diverti com a possibilidade de curtir esses universos paralelos - ainda dentro do meu...
Foi engraçado não ter vontade de sair. Fiquei pensando se é o cansaço, o excesso, o barulho todo do lado de fora do mundo (não que eu tenha silêncio por dentro...), mas ainda que eu chegue a alguma conclusão, não importa.
Tenho aproveitado umas coisas sublimes, quietinhas. Curtindo objetos, publicado fotos, pensado no pouco que eu quero agora... e no muito que eu quero lá na frente. Quase um momento de incubar. Não idéias, mas forças. Outro dia me perguntaram se eu estava depressiva. Moderninha essa conversa: angústias, terapia, sugestão do analista, crises profissionais, conjugais. Sempre me perguntam se eu passo por isso... acho graça. Acho que a minha vida é uma constante crise. No sentido etimológico da palavra. Há muitas separações, aprendizados. Divisores de água que partem a vida aqui dentro de mim. E é bom. Não me sinto mal. Deprê, como a gente diz nas conversas de bares.
Sorte minha o Juliano... a gente se cresce tanto. Isso mesmo, "se cresce". Eu fico pensando na intensidade e na profundidade do Nosso. Mesmo nas "crises" conjugais. É tão mais forte do que eu entendo. Um laço que me puxa pra fora de mim, mergulhado em mim. Uma sutileza de companheirismo, cumplicidade que eu perderia tempo explicando, entendendo. E acho graça das nossas briguinhas por bobagem. Eu sempre arrumo um jeito de dar um "pityzinho básico". E vejo a história de vida dele... o que ele foi antes... e é agora comigo... queria mesmo que a vida tivesses provocado essa crise, essa mudança profunda pelo amor, pelo dar-se a outra pessoa. Invejo ele. Por ter tão claro quem ele foi e quem ele é. Eu ainda não consigo. Sou sendo... cheia de gerúndios aqui dentro. As coisas acontecem lentamente. Demais. tão devagar que eu mal sinto... e só percebo as coisas correndo por fora, a rotina, os sonhos, a voracidade de viver.
Acho que esse jogar no computador tem um pouco disso. Administrar... criar estratégias... um treino adolescente para dar conta do que está ali na frente, na próxima esquina. Tão pertinho... e perceber a priori, quem está por vir...
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Srta T
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Domingo, Abril 19, 2009
Esses dias me dei conta que eu não escrevia há muito tempo. O que explicava um certo faniquito na cabeça e uma desorganização do jeito de ver e sentir o mundo. Engraçado como eu sempre acho que ninguém lê essas coisas e me surpreende o fato de alguém ver sentido, ou mesmo ter paciência de se debruçar sobre essas coisas tão íntimas.
Há algum tempo eu voltei para as aulas de grego e reencontrei um grande amigo da faculdade. Estamos na mesma turma. Ele, terminando o mestrado agora. E achei graça dele dizer que tinha um blog. "Descompromissado" ele dizia. No meio da carona, choramingando pelas desgraças da academia e do seu mundo feudal que talvez, jamais, veja a era das revoluções... esbarramos nesse universo blogueiro descompromissado.
Esse sentir-se só faz a gente escrever eu creio. E é uma solidão pra lá de profunda no mundo. Não é estar com alguém, amando, sendo amado, saindo, tendo amigos e família. Conversando com o Ogawa eu fiquei dias imaginando por que a gente se individualiza tanto... a ponto de ficar tão só, lá no fundo. Por mais que a gente compartilhe, fale, entenda, discuta, ainda falta. E ele riu dizendo que podia ser a insaciedade capitalista - papo de historiador depois de aula pesada, às 11:15 pm.
Mudei de emprego, estou estudando que nem maluca de novo, mais coisas pra revisar, corrigir, entregar... Não parei um instante no último mês. Tenho muitos textos começados, como sonhos que ainda ficaram no sonhar. Vi pessoas novas. Fiquei de molho em casa uma semana. E nada, em nada, essa sensação se modificaria... Não é meu, mas já está em mim.
Fui no aniversário de 90 anos da minha vó no sul, revi a família, matei saudades, criei outras no lugar, enlouqueci tirando fotos de todo mundo e de todo tempo que eu queria levar comigo.
Festa da família do Juliano na Páscoa, mais gente, mais falação, lembranças e cascas de ferida deslocadas pelo corpo. Cachoeira pra lavar a alma. E deixar a cabeça repousar na terra vermelha. Tirando os ruídos desse mundo que eu não quero pertencer.
E chego aqui com a mesma rotina. A mesma vontade de sentar, não pensar e deixar o sentir escrever por mim. Quase como se ele não me pertencesse, mas está em mim. O tempo todo. Mais projetos, planos, metas e as velhas obrigações que me anestesiam de mim mesma. Eu até gosto. Preciso de uma rotina pra lembrar que eu preciso comer, dormir, falar com as pessoas e interagir nesse universo estranho - eu mesma.
Lembro das conversas com Ogawa sobre esse semi-anonimato da internet. De como a gente acha, e às vezes torce, pra nunca ser lido, encontrado. Desvelado. Mas aí, retomando a velha prosa com o Pedro Markun, por que é mesmo que eu escrevo? Se é pra mim... por quê? Acordei com a sensação de que procuro outros de mim pelo mundo. Afinal, quem é a gente mesmo se não se tem a experiência de partilhar? de receber... e de deixar...
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Srta T
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Domingo, Março 15, 2009
Tenho fotografado coisas da minha vida que não passam pelas lentes dessa câmera. Tenho buscado cores e tons, recortes, luzes, sombras pra além do que a envidraçadas e muitas vezes embaçadas vêem.
Passei as últimas semanas selecionando fotos de mim, das pessoas, das coisas todas que aconteceram. É curioso olhar para o próprio passado e para a própria vida - nisso que a gente chama de presente... e me peguei gerundizando (isso existe?) tantas coisas. Permanecendo com coisas ali e aqui. Pra dentro e cada vez mais dentro. Trabalho de geólogos profissionais desencrustrar. Vi emails. Mais fotos. Liguei e falei com velhos amigos. Muito velhos.
Estamos todos ficando velhos. Ontem fui ao aniversário do Marcel. Meu amigo de colégio. Ele fez 30. Todos nós da turma temos 30 esse ano. Temos, tendo. Achei graça disso. Lembrei das noites jogando RPG, falando bobagens. Vendo e revendo filmes e comendo pizzas. Lembrei do ano do vestibular. Doido, não. Esse ano faz 8 que me formei. e tudo parece ontem. tão recente no meu album de fotografias revivido e cheio de legendas.
Essa semana fui tomada por uma sensação do "e se...?" Tantas coisas se... E outras mais ainda não... Fiquei pensando nas minhas escolhas. Lembrei de outras fotografias. De outros albuns arquivados. Se... mas não. E achei graça porque na faculdade de História, recordo bem dos professores que diziam que não havia "se" em História. E me achei a mais fajuta das historiadoras, pensando e minhocando nisso. O tempo todo. Achei graça de ficar lidando com o tempo nesse esquema do eterno. Do permancer. E me dei conta que havia um apego maior do que eu podia suportar. Quero uma memória tão intensa e grande e viva, que apodreço aqui dentro no meio das lembranças. Não consigo respirar nessa caixa mofada de fotos, filmes, e papéis. E
encaixotei a maioria. Mas não sei ainda como mandar isso pra fora. Fiquei pensando se há reciclagem de memórias. Que nem a gente faz com lixo. Papel. Será que eu teria condições de dar nova materialidade pra elas? Será que elas teriam mesmo a chance de serem reaproveitadas. Ri. Isso é um apego disfarçado pra não mandar mais coisa embora.
Liguei a trilha do filme English Patient... há mais de 10 anos eu escuto essa trilha. E me lembro de quando vi o filme e do quanto chorei numa tarde julho pensando que as coisas que a gente quer, deseja, quase nunca são de fato apreensíveis. E que, muitas vezes, lembrar demais, dói demais. Quis ter uma memória mais seletiva. Algo do tipo "só lembrar de coisas boas", como se diz por aí. Ou ainda guardar o que foi bom. E me peguei de novo nessa sala mofada tentando recategorizar as minhas fotografias desse viver desengonçado. Não deu. Tentei colocar etiquetas, dar um basta nessa bobajada de passados e gerúndios. Mudei as gramáticas. Joguei fora meus antigos dicionários. Eu preciso de outro vocabulário pra categorizar isso tudo. E dei por mim que esse vocabulário é modificado que nem pele de cobra.
Não consegui. Parei de novo pra me olhar no espelho e vi meu primeiro pé-de-galinha, essas preguinhas que a gente tem no canto dos olhos. A minha é ainda muito discreta. Só os paranóicos percebem mesmo. Mas eu sempre tive mania de me examinar na frente do espelho e procurar marquinhas novas, sardinhas, espinhas e essas coisas que os dermatologistas juram que vão tirar da sua cara.
Achei coisas novas. Mas achei minhas lentes mais velhas. Usadas. Bem usadas. No sentido que eu podia ver coisas agora mais sutis. Fotografo melhor, não pela técnica. Mas pelo exercício (esforço!!!) de ver melhor. Mais fundo. De deixar passar uma luz e uma sombra que só são atingidas nesse viver mais tempo. Desengonçadamente. Olhei de novo as marquinhas no rosto. Eu tirei a maior parte das minhas sardinhas. (viva os dermatologistas!) mas achei marcas que os médicos não saberiam - jamais - tirar de mim. Essas cicatrizes que a gente carreega - sem apego mesmo! - aqui dentro, mas que de tão fundas saltam aos olhos.
Me senti mais leve. Estranhamente mais leve apesar de todas essas marcas. Olhei de novo os meus albuns. Há tantos que passaram nessas páginas. Foram, voltaram. Se foram de vez. Para sempre. E por mais que eu os traga de volta, os chame, os queira por perto pra relembrar aquele papo-todo-de-antigamente: filmes, seriados, músicas, piadas e lugares... não me pertencem mais. Há muito tempo. Fiquei com vontade de reencontrar um monte de gente. Não hoje. Mas lá.
Lá é um lugar bonito que a gente nunca foi, mas morre de vontade de ir. Compra passagem, mas sempre perde o vôo. É, é um lugar que só se pode ir voando. Nisso que você entende como imaginação-idealização. E outras coisas que não cabem aqui nesse real esquisito. O nosso lá é sempre aqui dentro, o melhor lugar. E me dei conta que não tenho fotos de lá. Nem sequer um mapa incompleto. Que bom... seria triste não poder (re)construir esse lugar, aqui mesmo.
Trei a máquina da bolsa e fiquei de novo brincando de fotografar os gatos. Eles são posudos e charmosos. Eu gosto de passar esse tempo com eles e a máquina. Repassar outros albuns que estão aqui. Fora mesmo de mim. Pra desentupir essas antigasevelhasemofadas fotografias de viver.
Abro as lentes. Limpo com aquele paninho especial... e deixo a luz entrar mais. colocando as sombras dentro das gavetas. Para dormirem um pouco mais. Até a próxima sessão.
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Srta T
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Domingo, Fevereiro 15, 2009
Retrato
Há algumas semanas eu voltei a perguntar quem eu sou mesmo. Desilusões de toda a sorte compõem em você retratos diferentes.
Dias e dias pensei em como as coisas tem aparecido nos últimos tempos. Conversas daqui e dali me dão dimensões desconhecidas para isso que eu tenho - ignorante - chamado de "eu". Isso não é filosófico, mas comecei a me dar conta que os meus espelhos andam embaçados demais. Referências confusas de uma pesquisa de mim mesma sem bibliografia ou fontes confiáveis.
Montei trilhas sonoras em pedaços e fotografias que mais parecem retratos dadaístas ou coisas de Dali. Mas apesar de alguns sucessos aparentes, do lado de fora, do que se quer ver, o que se passa aqui é um retalho incompleto de um eu em trânsito, no meio de um engarrafamento num dia de calor. Caos aéreo. Voltei a dirigir nos últimos dias e a sassaricar pelas rádios e cds no meio do trânsito. Escrevi notinhas bagunçadas. Passeei por lugares aqui e ali cheios de esquinas misteriosas. De becos que saem para locais que ainda não vi.
E tudo o que falo, e digo e quero parecem sempre ali. Do outro lado. E o sinal não fecha para eu atravessar a rua. Me atirei no meio de alguns carros. Voltei. Tentei de novo. Mas as coisas passam. Depressa e confusas na minha frente. Olho as nuvens cheias de água. Vai chover e ainda não saí do lugar. Vi amigos passando do outro lado da rua. Gritei. Chamei. Mas o som das buzinas era maior do que a minha voz. Ninguém ouviu. Ninguém parou. Afinal, todos tem sempre muito o que fazer. Voltei a olhar o asfalto na esperança de ter algum lugar para sair e cruzar a rua. Nada. Mais gente, mais barulho e o dia quente me confundem as imagens de mim naqueles vidros embaçados e engordurados dos prédios chics e importantes.
Não vejo. Não sinto. Tenho buscado alternativas. O celular não funciona. Não há mensagens pra mim. Tudo e todos muito ocupados. E a minha solidão angustiada só fica relatada nessas salas confortáveis de terapia. Tem ar condicionado nelas. E eu saio de lá tão só quanto entrei. Sem conseguir atravessar as ruas e me deixar chegar em casa. Não sei mais o caminho de casa. Ando sempre no mesmo quarteirão. Os floristas me conhecem. A moça da padaria onde eu tomo café e o guarda de trânsito. Até os motoristas que sempre, todos os dias, fazem o mesmo caminho já me cumprimentam no trajeto de ir e vir. E eu fico.
Parada. No meio dessa confusão urbana dentro de mim. Sem caminhos alternativos. Não há transporte público. O trânsito dentro do meu condomínio fechado está pior do que as ruas em horário de pico. E eu fico.
Voltei a procurar pessoas. Olhei as vitrines das minhas lojas favoritas. Todas em liquidação. Ninguém vinha me perguntar se eu precisava de alguma coisa, como fazem as vendedoras habitualmente. Eu tenho crédito, dinheiro, cheque e cartão. Qualquer coisa. Ninguém aceitou. Voltei para a faixa de pedestres sem sacolas. Não há taxi.
Telefono mais vezes mas ninguém atende. Não tem ninguém em casa. Ninguém pode vir me buscar e estou sem caronas. E fico. O tempo todo olhando e esperando poder atravessar. Cansa esperar. Ouço as trovoadas e sinto os primeiros pingos dessa tempestade sem fim. Vejo o meu retrato embaçado e molhado nos vidros. As janelas e portas envidraçadas limpas. E eu ali, suja, sem poder sair. As marquises estão lotadas. Não vejo lugar pra mim. E não posso voltar pra casa. Estou sem chaves e as portas trancadas. Não há mesmo como entrar? O celular não funciona. Não há telefone público. E fico mais uma vez. Acompanhada dessa solidão que me enche de perguntas. E a chuva não lava nem leva nada. Queima. Arde. Esqueci o guarda-chuva. Não há mesmo como se proteger disso. Já saí de lá mesmo. E por mais que eu chame, peça, diga, mostre...
Há barulho demais. E todos estão ocupados. Sem tempo. Sem nada. Sem sinal, sem carro, sem dinheiro, sem. E fico. Observando esse retrato cheio de costuras e marcas de mim. Vejo os cabelos desgrenhados, a maquiagem borrada, a roupa grudada no corpo e os meus livros enxarcados na bolsa. E ando mais uma vez no quarteirão pra ouvir o mesmo bom dia do florista, com os elogios habituais. O guarda, os motoristas, a moça da padaria. E entro. Toda desajeitada. Me olho no espelho de fronte ao balcão. Ajeito a cara e não vejo nada. Espero a chuva passar. Pergunto à solidão se ela me acompanha em mais um café. Pra gente colocar o papo em dia... e fico.
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Srta T
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Domingo, Fevereiro 01, 2009
E passa o tempo. E me lembro de uma coisinha que meu pai contava quando eu era pequena, não me lembro se era uma música ou um versinho. Ninguém sabe quanto tempo o tempo tem.
E acho que pela primeira vez eu me sinto amarrada nessas teias do tempo. De uma espera que cansa. E desgasta a alma. Me deixa sem vontade de continuar a sonhar. Por que? Ora, porque cansa. E acho que pela primeira vez mesmo eu senti o peso do poema de F. Pessoa. O cansaço. Esse profundo cansaço. Da alma. De tentar. De caminhar. De querer. De esperar. De torcer. De seguir. De fazer.
E não me senti uma criança por dentro. Mas uma velha. Com os dedos tortos de contar. E os lábios gastos de morder. E ansiar.
Outro dia ouvi uma pessoa me falando sobre envelhecer. E mais do que a crise dos 30, me senti sendo arrastada por isso que a gente chama - cheio de ignorância - de vida. Deixei de rir sobre as "crises da idade" pra me pegar pensando que os caminhos traçados, muitos deles, não tem volta. E por não se voltar a gente pode, muitas vezes se encher de auto-piedade e lamentos. Mas por mais que se lamente, se tenha pena, se queira. Está feito. A herança que a gente pinga gota a gota nesses dias quentes de viver ficam. E as pessoas por quem passamos, mais ali ou aqui, dentro ou fora da gente, tem essa marca. A gente não pode esquecer do que se fez. Isso fica. No tempo. E mesmo que ele envelheça essas lembranças. Oxide esse sentir. Fica. Mais perto ou mais longe. Mas sempre em algum lugar. De mim, de você, de quem for.
Fiquei a noite em claro mais uma vez. Sentindo que esse tempo não cabe em mim. Não quero ele aqui dentro me costurando teias de prisões, de mentes, de sentimentos, meus e dos outros. Me senti de novo com vontade de fugir de mim. Seja lá o que isso for.
Correr sem tempo. Não contra ele. É uma batalha perdida. Pra não dizer desleal. A gente não tem direito de escolha nesse duelo. E fiquei rodando de um lado pro outro acompanhando o ventilador. Ele tem um "timer". Achei graça que até isso tenha tempo. Controlado. Olhei em volta pela casa - devo ter levantado umas 4 vezes... tantos relógios. Olhei os gatos. Que sentem o tempo de outra forma. O Fred, com dois anos, já tem a minha idade humana. Que coisa! E vi que o mundo passa pela sua porta, quase sempre fechada, com trancas. Com medo de alguém entrar. Desavisadamente.
Chorei mais. Fiquei com o peito asfixiado. Tanto tempo nesse pensar. E não me vi passar por nada. Nem a noite passou aqui dentro. Ficou.
Trabalhei mais um pouco hoje. Fui ver os meus pais. Engraçado como isso também passa. Os pais. Vi que eles estão indo de mim. Para um desses lugares que eu também não sei o nome. Mas que vou chegar lá, no meu tempo. E o tempo é meu, nosso, do outro, de ninguém. Do mundo, do nada. Dos povos. Do esquecer. Do perdoar. Deixar. Ir e voltar. Tudo construido nessa lata craniana que me confundem o entender. E paralizo. Sem tempo. Mas com pressa de mim.
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Srta T
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